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Nota do editor: Este artigo faz parte da série “Bully Pulpit” [Bullying no Púlpito] sobre abuso espiritual na igreja. 

Abuso espiritual pode ser definido da seguinte maneira:

O abuso espiritual é quando um líder espiritual—seja um pastor, presbítero ou líder de uma organização cristã—exerce sua posição de autoridade espiritual de tal forma que manipula, oprime, faz bullying e intimida aqueles que estão sob sua autoridade, como meio para realizar aquilo que crê sejam objetivos bíblicos e/ou espirituais.

No entanto, simplesmente ter uma definição não é a resposta final. Afinal de contas, há um certo grau de subjetividade na aplicação da definição. Alguns podem pensar que certo comportamento é abusivo e outros não; e, como observamos no post anterior, nossa cultura frequentemente tende a rotular qualquer declaração cristã ofensiva como “abuso”.

Por muitos motivos, identificar corretamente o abuso espiritual é semelhante a identificar corretamente o abuso infantil. Um pai disciplinar ou corrigir seus filhos, não o torna abusivo, porém, há alguns pais que claramente cruzam a linha. Discernir o que é que é a parte complicada.

Embora não haja um sistema hermético e infalível para identificar abusos genuínos, creio que há alguns sinais-chave de um pastor abusivo aos quais necessitamos ficar alertas. Ao longo dos próximos posts vou expor vários desses sinais-chave.

Vamos começar com o primeiro sinal, e há uma razão para ser o primeiro. Uma característica clássica e determinante de um pastor abusivo é um longo histórico de relacionamentos rompidos.

Chuck DeGroat, em seu livro When Narcissism Comes to Church [Quando o Narcisismo Chega à Igreja], argumenta que tais pastores muitas vezes deixam um “campo de destroços relacionais” (3) ou um “rastro de cadáveres” (143) em seu caminho. Ele observa: “Muitas vezes, antes que o pastor narcisista seja exposto publicamente, há anos de pequenos encontros dolorosos que forram encobertos.” (91)

Em outras palavras, pastores espiritualmente abusivos têm um histórico de machucar aqueles com quem trabalham e, eventualmente, geralmente após muitos anos, isto vem à tona. Este é um padrão pecaminoso que não pode ser identificado à primeira vista; apenas se torna visível ao longo do tempo.

Como está em 1Tm 5.24 diz: “Os pecados de alguns homens são notórios e levam a juízo, ao passo que os de outros só mais tarde se manifestam.”

Mas, claro, este é exatamente o problema com esta primeira característica de um pastor abusivo. Nem todo mundo vê esse padrão de longo prazo de relacionamentos rompidos. Simplesmente não conectam os pontos. Vamos explorar algumas das principais razões do porquê disto.

Pessoas que Sofrem Abusos São Forçadas a Sair

Em primeiro lugar, muitas das vítimas de um pastor abusivo são silenciadas e forçadas a sair. Em caso após caso de abuso espiritual, fica nítido que as vítimas de abuso ficaram genuinamente assustadas. Novamente, DeGroat observa: “não é um leve receio desses pastores, mas terror…estes pastores narcisistas exercem poder de uma forma que intimida e silencia” (92).

Em outras palavras, as pessoas não veem o padrão geral porque as vítimas de abuso geralmente não falam por medo de represália. Eles simplesmente saem, e o pastor abusivo permanece.

Quando o pastor abusivo permanece, ele mantem o controle da narrativa. Como veremos em um post posterior, as pessoas que sofrem abuso e saem são muitas vezes responsabilizadas por todo o problema. O problema era elas e não o pastor abusivo.

O Abuso É Minimizado como “Conflito”

Em segundo lugar, mesmo quando uma vítima de abuso levanta a questão, o problema é muitas vezes minimizado como sendo um caso isolado—algo inevitável em qualquer ministério. Tais sentimentos são geralmente seguidos com uma referência à história de Paulo e Barnabé que também tiveram um “conflito”, ou talvez isso seja o que acontece quando há uma “liderança forte”.

Vemos precisamente este tipo de resposta no caso de Steve Timmis, o ex-CEO da Acts 29, que acabou sendo demitido por abuso espiritual. Seus defensores disseram que os conflitos eram devidos a “um choque entre estilos de liderança”, ou que “atritos acontecem” quando temos lideranças fortes.

A razão pela qual este tipo de minimização é tão eficaz é que é parcialmente verdade. Todo ministério tem algum conflito. Vivemos em um mundo caído onde tais coisas são (infelizmente) parte de qualquer igreja.

No entanto, no caso de pastores abusivos há uma diferença. O “campo de destroços relacionais” de um pastor abusivo não é apenas diferente em relação ao volume de conflitos, mas à profundidade desses conflitos. As vidas à sua volta são genuinamente destruídas—muitos deixam o ministério e outros abandonam completamente a fé cristã.

Além disso, pastores abusivos muitas vezes têm conflitos não resolvidos. Tipicamente não se reconciliaram com pessoas com quem costumavam trabalhar.

Quando se chega a isto, os líderes da igreja só precisam fazer as contas. Existe um denominador comum em todos estes diferentes conflitos, ou seja, o pastor. É mais provável que todos os outros sejam o problema, ou que talvez ele seja o problema?

O Abuso É Gerenciado em Comitês

Em terceiro lugar, mesmo que o padrão de relacionamentos rompidos seja reconhecido, muitas vezes isto não é de conhecimento do corpo de liderança maior e certamente não revelado à própria igreja. Em outras palavras, geralmente fica restrito a determinados comitês ou subgrupos.

Um certo nível de confidencialidade é compreensível e sensato. Nem toda queixa necessita ser exposta perante toda a igreja. Dito isto, devemos ter cuidado para que nós, como igrejas, não “administremos” o padrão de relacionamentos rompidos, restringindo-o a comitês onde jamais verá a luz do dia.

De fato, às vezes nem mesmo os presbíteros da igreja conhecem o padrão de longo prazo de relacionamentos rompidos (ou pelo menos não sabem quão profundo e amplo realmente é).

Abusadores Não Abusam de Todos

Quarto e último, o padrão de destroços relacionais muitas vezes não é reconhecido porque pastores espiritualmente abusivos não abusam de todos. Eles são seletivos com quem agem desta maneira. De fato, há outras pessoas às quais o pastor abusivo trata notavelmente bem.

Em outras palavras, pastores abusivos quase sempre têm dois lados. Um lado é dominador, exigente e ameaçador. O outro lado é charmoso, gracioso e até mesmo lisonjeiro.

As trágicas implicações desta realidade é que pastores abusivos quase sempre têm vorazes defensores, que insistem que o pastor é a melhor pessoa do mundo. Para eles, provavelmente o pastor tenha sido ótimo. Tais defensores inevitavelmente usam a mesma lógica: “Ele jamais me tratou dessa maneira”.

Em outras palavras, julgam inteiramente a partir da sua experiência pessoal.

Entretanto, não é preciso muita reflexão para perceber o quão problemático tal raciocínio realmente é. Agressores não intimidam a todos. De fato, os agressores raramente intimidam horizontalmente ou alguém acima deles. Quase sempre intimidam de cima para baixo. Intimidam aqueles que estão sob eles.

Em suma, esta primeira marca de um pastor abusivo é objetiva e subjetiva. Objetiva no sentido de que há um histórico claro, definível, de relacionamentos rompidos. Subjetiva no sentido de que nem todos estão em condições de ver este histórico.

Isso nos leva a uma aplicação clara: organizações cristãs, sejam elas igrejas ou não, necessitam de maior transparência e abertura em relação a tais questões. Muitos grupos promovem uma cultura de sigilo e autoproteção—e isso cria um ambiente onde o abuso pode acontecer por anos, sem ser detectado.

Devemo-nos lembrar de Lucas 8.17: “Nada há oculto, que não haja de manifestar-se, nem escondido, que não venha a ser conhecido e revelado.”

Traduzido por Vittor Rocha.

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