A COALIZÃO PELO EVANGELHO é uma organização cristã que surgiu como fruto da comunhão de pastores evangélicos de tradição reformada, profundamente comprometidos com a renovação da fé no Evangelho e com a reforma das práticas ministeriais no contexto brasileiro, a fim de que sejam plenamente conformadas às Escritura Sagradas. Nos preocupamos profundamente com movimentos dentro do evangelicalismo tradicional que parecem diminuir a vida da igreja e nos desviar de nossas práticas e crenças históricas. Se por um lado nos incomodamos com a idolatria do consumismo individualista e com a politização da fé, também estamos aflitos com a aceitação incontestada do relativismo moral e teológico. Esses movimentos têm levado diretamente ao abandono da verdade bíblica e do modo de vida transformado que é ordenado por nossa fé histórica; e nós não apenas ouvimos sobre essas influências, mas de fato observamos os seus efeitos. Estamos comprometidos em fortalecer igrejas com uma nova esperança e com a alegria contagiante que é baseada nas promessas recebidas pela graça somente através da fé somente em Cristo somente.
Cremos que em várias igrejas evangélicas existe um consenso profundo e amplo quanto às verdades do Evangelho, ainda assim, frequentemente vemos a celebração da nossa união em Cristo sendo substituída pelas antigas atrações de poder e influência, ou por fugas monásticas em ritos, liturgias e sacramentos. Aquilo que procura substituir o Evangelho nunca promoverá uma fé com um coração missionário, ancorada na verdade duradoura e que se desenvolve em um discipulado que não se envergonha e que anseia por suportar as provas do chamado do reino e do sacrifício. Queremos avançar pela estrada do Rei, sempre focados em proporcionar a defesa do Evangelho, o seu encorajamento e ensino, de forma que as gerações atual e futura de líderes eclesiásticos sejam melhor equipadas para impulsionar seus ministérios com princípios e práticas que glorificam o Salvador e beneficiam àqueles pelos quais ele derramou o seu sangue.
Queremos gerar um esforço conjunto entre todos os povos – um esforço que é zeloso em honrar a Cristo e multiplicar os seus discípulos, unidos em uma verdadeira coalizão por Jesus. O único futuro duradouro para igreja é uma missão unida e biblicamente fundamentada como essa. É essa realidade que nos compele a nos levantarmos ao lado de outros que foram movidos pela convicção de que a misericórdia de Deus em Cristo Jesus é a nossa única esperança de salvação eterna. Desejamos defender esse Evangelho com claridade, compaixão, coragem e contentamento, alegremente juntando nossos corações com os de outros crentes, cruzando divisões de classes, denominacionais e éticas.
Nosso desejo é servir à igreja que amamos convidando todos os nossos irmãos e irmãs a se unirem a nós no esforço para renovar a igreja contemporânea no Evangelho eterno de Cristo, para que falemos e vivamos para ele de verdade de maneira que comunique claramente com nosso tempo. Como pastores, temos a intenção de fazer isso em nossas igrejas através dos meios de graça ordinários: a oração, o ministério da Palavra, o batismo, a Ceia do Senhor e a comunhão dos santos. Ansiamos trabalhar com todos que, além de abraçar a confissão e visão estabelecidas aqui, buscam o senhorio de Cristo sobre toda a vida, com uma esperança inabalável no poder do Espírito Santo de transformar indivíduos, comunidades e culturas.
Você poderá encontrar links para a nossa Declaração de Fé e nossa Visão Teológica para o Ministério — uma visão enraizada nas Escrituras e centrada no Evangelho.

  1. O Deus Trino Cremos em um só Deus, eternamente existindo em três pessoas igualmente divinas: Pai, Filho e Espírito Santo, que conhecem, amam e glorificam um ao outro. Este único Deus verdadeiro e vivo é infinitamente perfeito tanto em seu amor quanto em sua santidade. Ele é o criador de todas as coisas, visíveis e invisíveis, e é, portanto, digno de receber toda a glória e adoração. Imortal e eterno, ele conhece perfeita e exaustivamente o fim desde o princípio, sustenta e governa soberanamente sobre todas as coisas e, em sua providência, acarreta seus bons propósitos eternos de redimir para si um povo e restaurar a sua criação caída, para o louvor de sua gloriosa graça.
  2. Revelação Deus graciosamente revelou a sua existência e poder na ordem criada, e tem se revelado de maneira suprema aos seres humanos caídos na pessoa de seu Filho, o verbo encarnado. Além do mais, este Deus é um Deus que fala, que por seu Espírito graciosamente se revelou em palavras humanas: cremos que Deus inspirou as palavras preservadas nas Escrituras, os sessenta e seis livros do Antigo e do Novo Testamento, os quais documentam e são também meio de sua obra salvadora no mundo. Estes escritos somente constituem a Palavra de Deus verbalmente inspirada, a qual, nos escritos originais, possui autoridade suprema e está isenta de erro e é também completa na revelação de sua vontade para a salvação, suficiente para tudo o que Deus requer que creiamos e façamos e final em sua autoridade sobre todo o domínio do conhecimento que exprime. Confessamos que tanto nossa finitude quanto nossa pecaminosidade impedem a possibilidade de conhecer exaustivamente a verdade de Deus, mas afirmamos que, iluminados pelo Espírito de Deus, podemos conhecer verdadeiramente a verdade revelada de Deus. A Bíblia deve ser crida, como a instrução de Deus, em tudo o que ela ensina; obedecida, como mandamentos de Deus, em tudo o que requer; e confiada, como penhor de Deus, em tudo o que promete. À medida que o povo de Deus ouve, crê e obedece à Palavra, ele é equipado como discípulos de Cristo e testemunhas ao evangelho.
  3. Criação da humanidade Cremos que Deus criou os seres humanos, macho e fêmea, à sua própria imagem. Adão e Eva pertenciam à ordem criada que o próprio Deus declarou ser muito boa, servindo como agentes de Deus cuidando, gerenciando e governando sobre a criação, vivendo em santa e dedicada comunhão com seu Criador. Homens e mulheres, igualmente criados à imagem de Deus, gozam igual acesso a Deus pela fé em Cristo Jesus e são chamados, ambos, a se moverem além da autoindulgência passiva para um envolvimento significante privado e público na família, igreja e vida cívica. Adão e Eva foram feitos para complementar um ao outro em uma união de uma só carne, que estabelece o único padrão normativo de relações sexuais para homens e mulheres, de forma que o casamento sirva como um tipo da união entre Cristo e sua igreja. Nos sábios propósitos de Deus, homens e mulheres não são simplesmente intercambiáveis, mas sim, eles se complementam de formas mutuamente enriquecedoras. Deus ordena que eles assumam papéis distintos que refletem o relacionamento de amor entre Cristo e a igreja, o marido exercendo papel de cabeça, de maneira a demonstrar o amor carinhoso e sacrificial de Cristo e a esposa se submetendo ao seu esposo, de maneira a mostrar o amor da igreja por seu Senhor. No ministério da igreja, ambos, homens e mulheres, são encorajados a servir a Cristo e a desenvolver todo seu pleno potencial nos múltiplos ministérios do povo de Deus. O papel distinto de liderança dentro da igreja, que é dado a homens qualificados, é fundamentado na criação, queda e redenção, não devendo ser desviado por apelos a desenvolvimentos culturais.
  4. A Queda Cremos que Adão, feito à imagem de Deus, distorceu essa imagem e perdeu a sua bendição original — para si e toda sua descendência — ao cair em pecado pela tentação de Satanás. Como resultado, todos os seres humanos estão alienados de Deus, corrompidos em todo aspecto de seu ser (isto é, fisicamente, mentalmente, volitivamente, emocionalmente, espiritualmente) e condenados, final e irrevogavelmente, à morte — a não ser pela intervenção graciosa do próprio Deus. A necessidade suprema de todo ser humano é ser reconciliado ao Deus sob cuja justa e santa ira nos encontramos; a única esperança de todo ser humano está no amor imerecido deste mesmo Deus, o qual unicamente pode nos resgatar e restaurar para si.
  5. O Plano de Deus Cremos que desde toda a eternidade Deus determinou, em sua graça, salvar uma grande multidão de pecadores culpados, vindos de toda tribo, língua e nações, e com este fim os conheceu e escolheu. Cremos que Deus justifica e santifica aqueles que, por sua graça, têm fé em Jesus, e que um dia ele os glorificará — tudo para o louvor de sua gloriosa graça. Em amor, Deus ordena e suplica que todas as pessoas se arrependam e creiam, tendo posto esse amor salvífico sobre aqueles que escolheu e tendo ordenado a Cristo como redentor deles.
  6. O Evangelho Cremos ser o evangelho as boas novas de Jesus Cristo — a própria sabedoria de Deus. Completa loucura para o mundo, ainda que seja o poder de Deus para aqueles que estão sendo salvos, essas boas novas são cristológicas, centradas na cruz e na ressurreição: o evangelho não é proclamado se Cristo não for proclamado, e o Cristo autêntico não terá sido proclamado se sua morte e ressurreição não forem centrais (a mensagem é: “Cristo morreu pelos nossos pecados… e ressuscitou”). Essa boa nova é bíblica (sua morte e ressurreição são de acordo com as Escrituras), teológica e salvífica (Cristo morreu pelos nossos pecados para nos reconciliar com Deus), histórica (se os eventos salvadores não tivessem acontecido, nossa fé seria vã, ainda estaríamos em nossos pecados e seríamos, de todos os homens, os mais dignos de compaixão), apostólica (a mensagem foi confiada aos apóstolos e transmitida por eles que eram testemunhas desses eventos salvíficos) e intensamente pessoal (quando ela é recebida, crida e firmemente retida, pessoas são individualmente salvas).
  7. A Redenção de Cristo Cremos que, movido pelo amor e em obediência ao Pai, o Filho eterno tornou-se humano: o Verbo se encarnou, plenamente Deus e plenamente ser humano, uma Pessoa em duas naturezas. O homem Jesus, o Messias prometido de Israel, foi concebido pela milagrosa atuação do Espírito Santo e nasceu da virgem Maria. Ele obedeceu perfeitamente ao seu Pai celestial, viveu uma vida sem pecado, realizou sinais e milagres, foi crucificado sob Pôncio Pilatos, ressuscitou corporalmente da morte ao terceiro dia e ascendeu ao céu. Como Rei mediador, ele está assentado à destra de Deus Pai, exercendo no céu e na terra toda a soberania de Deus, e é nosso Sumo Sacerdote e justo Advogado. Cremos que por sua encarnação, vida, morte, ressurreição e ascensão, Jesus Cristo agiu como nosso representante e substituto. Ele o fez para que nele fôssemos feitos justiça de Deus: na cruz ele cancelou o pecado, propiciou a Deu, e, carregando toda a penalidade de nossos pecados, reconciliou com Deus todos os que creem. Por sua ressurreição, Cristo Jesus foi vindicado por seu Pai, quebrou o poder da morte e venceu Satanás, que anteriormente tinha poder sobre ela, e trouxe vida eterna a todo seu povo; por sua ascensão, ele foi para sempre exaltado como Senhor e nos preparou um lugar para estarmos junto dele. Cremos que a salvação está em nenhum outro, porque não há nenhum outro nome dado debaixo do céu pelo qual sejamos salvos. Porque Deus escolheu as coisas humildes deste mundo, as desprezadas, as coisas que não são, para anular as coisas que são, nenhum ser humano poderá se vangloriar diante dele — Cristo Jesus tornou-se para nós sabedoria de Deus, ou seja, nossa justiça, retidão, santidade e redenção.
  8. A Justificação de Pecadores Cremos que Cristo, por sua obediência e morte, pagou plenamente a dívida de todos aqueles que são por ele justificados. Pelo seu sacrifício, ele carregou em nosso lugar o castigo que era devido por nossos pecados, satisfazendo própria, real e plenamente a justiça de Deus por nós. Por sua perfeita obediência, ele satisfez as justas exigências de Deus em nosso favor, uma vez que pela fé somente essa perfeita obediência é creditada a todos os que confiam somente em Cristo para sua aceitação diante de Deus. Como, livremente e não por alguma coisa que houvesse em nós, Cristo foi dado em nosso favor pelo Pai e sua obediência e castigo foram aceitos no lugar da nossa obediência e castigo, esta justificação é somente pela livre graça, a fim de que tanto a exata justiça quanto a rica graça de Deus sejam glorificadas na justificação dos pecadores. Cremos que um zelo por obediência pessoal e pública flui dessa livre justificação.
  9. O Poder do Espírito Santo Cremos que esta salvação, atestada em toda a Escritura e assegurada por Jesus Cristo, é aplicada ao seu povo pelo Espírito Santo. Enviado pelo Pai e pelo Filho, o Espírito Santo glorifica o Senhor Jesus Cristo, e, como outro paracleto, está presente em e com aqueles que creem. Ele convence o mundo do pecado, da justiça e do juízo e, por sua obra poderosa e misteriosa, regenera pecadores espiritualmente mortos, despertando-os para o arrependimento e a fé e nele são batizados em união com o Senhor Jesus, de modo tal que são justificados diante de Deus pela graça somente, pela fé somente, em Jesus Cristo somente. Pela agência do Espírito, os crentes são renovados, santificados e adotados na família de Deus, participam da natureza divina e recebem os seus dons que são soberanamente distribuídos. O próprio Espírito Santo é o penhor da herança prometida e, nesta presente era, habita, dirige, guia, instrui, equipa, renova e capacita os crentes para viverem e servirem como Cristo.
  10. O Reino de Deus Cremos que aqueles que foram salvos pela graça de Deus mediante a união com Cristo, pela fé e pela regeneração do Espírito Santo, entram no reino de Deus e desfrutam das bênçãos da nova aliança: o perdão dos pecados, a transformação interior que desperta um desejo por glorificar, confiar e obedecer a Deus, e o prospecto da glória que ainda será revelada. As boas obras constituem evidência indispensável da graça salvadora. Vivendo como sal em um mundo que se deteriora e luz em um mundo escuro, os crentes jamais deverão se afastar em reclusão do mundo nem se tornar indistinguíveis dele; pelo contrário, devemos fazer o bem à cidade, para que a glória e honra das nações sejam oferecidas ao Deus vivo. Em reconhecimento a quem pertence esta ordem criada e porque somos cidadãos do reino de Deus, devemos amar nosso próximo como amamos a nós mesmos, fazendo o bem a todos, especialmente aos que pertencem à família de Deus. O reino de Deus, já presente, mas ainda não plenamente realizado, é o exercício da soberania de Deus no mundo em direção à eventual redenção de toda a criação. O reino de Deus é um poder invasivo que despoja o tenebroso reino de Satanás e regenera e renova, mediante arrependimento e fé, a vida dos indivíduos resgatados daquele reino. Portanto, ele inevitavelmente estabelece uma nova comunidade de seres humanos que estão juntos debaixo de Deus.
  11. O novo povo de Deus Cremos que o povo da nova aliança de Deus já veio à Jerusalém celestial; já está assentado com Cristo nos lugares celestiais. Essa igreja universal se manifesta em igrejas locais das quais Cristo é a única cabeça; assim, cada “igreja local” é, de fato, a igreja, a casa de Deus, assembleia do Deus vivo e coluna e fundamento da verdade. A igreja é o corpo de Cristo, a menina dos seus olhos, está gravada em suas mãos e ele se comprometeu a ela para sempre. A igreja é distinguida por sua mensagem do evangelho, suas sagradas ordenanças, sua disciplina, sua grande missão e, acima de tudo, por seu amor a Deus e pelo amor de seus membros uns pelos outros e pelo mundo. De modo crucial, esse evangelho que amamos possui dimensões pessoais e também corporativas, sendo que nenhuma delas deve ser ignorada. Cristo Jesus é nossa paz: ele não somente trouxe paz com Deus, como também paz entre povos antes alienados. Seu propósito era criar em si uma nova humanidade, fazendo a paz, e reconciliar ambos em um só corpo com Deus, por intermédio da cruz, destruindo por ela a inimizade. A igreja serve de sinal do futuro novo mundo de Deus, quando seus membros vivem em serviço uns pelos outros e pelo próximo, em vez de viverem focados em si mesmo. A igreja é a habitação corporativa do Espírito de Deus e a testemunha contínua de Deus no mundo.
  12. Batismo e Ceia do Senhor Cremos que o batismo e a Ceia do Senhor são ordenados pelo próprio Senhor Jesus. O primeiro está ligado à entrada na comunidade da nova aliança e o segundo, à renovação contínua da aliança. Juntos são simultaneamente o penhor de Deus a nós, meios de graça divinamente ordenados, nosso voto público de submissão ao Cristo uma vez crucificado e agora ressurreto e a antecipação de sua volta e da consumação de todas as coisas.
  13. A Restauração de todas as coisas Cremos na volta pessoal, gloriosa e corporal de nosso Senhor Jesus Cristo com seus santos anjos, quando ele exercerá seu papel final de Juiz e seu reino será consumado. Cremos na ressurreição do corpo de ambos, justos e injustos — os injustos para o juízo e castigo eterno e consciente no inferno, como ensinou o próprio Senhor, e os justos para a bendição eterna na presença daquele que está assentado no trono e do Cordeiro, em novo céu e nova terra, habitação de justiça. Naquele dia, a igreja será apresentada sem mácula diante de Deus pela obediência, sofrimento e triunfo de Cristo, todo pecado será purgado e seus efeitos nefastos banidos para sempre. Deus será tudo em todos e seu povo será envolvido por sua imediata e inefável santidade, e tudo será para o louvor de sua gloriosa graça.

I – COMO RESPONDER À CRISE CULTURAL DA VERDADE?

(a questão epistemológica)

Por diversos séculos, desde o alvorecer do Iluminismo, era crido que a verdade — expressa em palavras que correspondem substancialmente à realidade — na verdade existe e pode ser conhecida. Sem ajuda, pensava-se, a razão humana é capaz de conhecer a verdade de maneira objetiva. Mais recentemente, a pós-modernidade tem criticado este conjunto de pressupostos, contendendo que não somos de fato objetivos em nossa busca do conhecimento, mas interpretamos a informação por meio de nossas experiências pessoais interesses próprios, emoções, preconceitos culturais, limitações da linguagem, e comunidades relacionais. A reivindicação de objetividade é arrogante, diz a pós-modernidade, e inevitavelmente leva a conflitos entre as comunidades de opiniões diferentes quanto aonde se encontra a verdade. Tal arrogância, dizem, explica em parte, muitas das injustiças e guerras da era moderna. No entanto, a resposta da pós-modernidade é, de outra forma, perigosa: as suas vozes mais estridentes insistem que as afirmativas de verdade objetiva devem ser substituídas por um pluralismo subjetivo, mais humildemente “tolerante” e inclusivamente diverso — pluralismo este muitas vezes atolado no pântano que não permite chão firme para a “fé uma vez confiada aos santos”. Tal posição não tem lugar para uma verdade que corresponda à realidade, mas é apenas uma exibição de verdades subjetivamente formadas. Como, então, responder a esta crise cultural da verdade?

 

  1. Afirmamos que a verdade é correspondente à realidade. Cremos que o Espírito Santo, que inspirou as palavras dos apóstolos e profetas também habita em nós, de maneira que os que foram feitos à semelhança da imagem de Deus podem receber e entender as palavras da Escritura reveladas por Deus, e compreender que as verdades da Escritura correspondem à realidade. As declarações da Escritura são verdadeiras, precisamente porque são declaradas por Deus, e elas correspondem à realidade ainda que nosso conhecimento dessas verdades (e até mesmo nossa capacidade de verificá-las para os outros) é sempre e necessariamente incompleto. A crença do Iluminismo de que houvesse um conhecimento totalmente objetivo fez um ídolo da razão humana não auxiliada. Porém, negar a possibilidade do conhecimento puramente objetivo não significa a perda da verdade que corresponde à realidade objetiva, ainda que nunca consigamos conhecer essa verdade sem um elemento de subjetividade. Ver DC–(2).
  2. Afirmamos que a verdade é transmitida pela Escritura. Cremos que a Escritura é penetrantemente proposicional e que todas as declarações da Escritura são completamente verdadeiras e autoritativas. Mas a verdade da Escritura não poderá ser exaurida em uma série de proposições. Ela existe nos diversos gêneros e narrativa, metáfora e poesia, que não são destiláveis exaustivamente em proposições doutrinárias, contudo elas transmitem a vontade e a mente de Deus a nós de modo a nos transformar a sua semelhança.
  3. Afirmamos que a verdade é a correspondência da vida a Deus. Verdade não é apenas uma correspondência teórica como também um relacionamento pactual. A revelação bíblica não deve ser apenas conhecida, como também vivida (Deuteronômio 29.29). O propósito da Bíblia é produzir em nós a sabedoria — uma vida inteiramente submissa à realidade de Deus. Portanto, a verdade é correspondência entre toda nossa vida e o coração, as palavras e os atos de Deus, pela mediação da Palavra e do Espírito. Eliminar a natureza proposicional da verdade bíblica enfraquece seriamente nossa capacidade de portar, defender, e explicar o evangelho. Porém, falar da verdade como sendo apenas proposições enfraquece a apreciação do Filho encarnado como o Caminho, a Verdade, e a Vida, e o poder comunicativo da história narrada, bem como a importância da verdade vivida de maneira verdadeira, em correspondência a Deus.
  4. Como esta visão da verdade nos molda:

Adotamos uma “disciplinada” teoria de correspondência da verdade que é menos triunfalista que em alguns dos círculos evangélicos mais antigos. Mas também rejeitamos uma visão da verdade que a enxergue como nada mais que uma linguagem internamente coerente de uma fé-comunidade específica. Assim, mantemos, com aquilo que esperamos seja humildade apropriada, o princípio de sola Scriptura.

Embora a verdade seja proposicional, não é algo apenas para ser crida, como também recebida em adoração e praticada em sabedoria. Tal equilíbrio forma nosso entendimento do discipulado e da pregação. Queremos encorajar uma paixão pela sã doutrina, mas sabemos que o crescimento cristão não é simples transferência de informação cognitiva. Crescimento cristão ocorre somente quando toda a vida é moldada pela prática cristã em comunidade — incluindo oração, Batismo, a Ceia do Senhor, comunhão entre irmãos e o ministério público da Palavra.

Nosso conhecimento teórico da verdade de Deus é apenas parcial mesmo quando acertado, mas podemos ter certeza de que aquilo que a Palavra diz é verdade (Lucas 1.4). É mediante o poder do Espírito Santo que recebemos as palavras do evangelho em plena segurança e convicção (1Tessalonicenses 1.5).

 

II – COMO DEVEMOS LER A BÍBLIA?
(a questão hermenêutica)

 

  1. Lendo “ao longo” de toda a Bíblia. Ler ao longo de toda a Bíblia é discernir o único enredo básico da Bíblia como a história da redenção de Deus (por exemplo, Lucas 24.44) como também os temas da Bíblia (ou seja, aliança, reino, templo) que perpassam todos os estágios da história e toda parte do cânone, tendo Jesus Cristo como clímax. Nesta perspectiva, o evangelho aparece como criação, queda, redenção, restauração. Ele ressalta o propósito da salvação, ou seja, uma criação renovada. Conforme confessamos em DC–(1), [Deus] providencialmente realiza seu eterno bom propósito de redimir um povo para si e restaurar sua criação caída, para o louvor de sua gloriosa graça.
  2. Lendo “através” de toda a Bíblia. Ler através de toda a Bíblia é coligir suas declarações, convocações, promessas e reinvindicações de verdade em categorias de pensamento (ou seja, teologia, cristologia, escatologia) e chegar a um entendimento coerente do que ela ensina resumidamente (por exemplo, Lucas 24.46-37). Desta perspectiva, o evangelho aparece como Deus, pecado, Cristo, fé. Ressalta o meio da salvação, ou seja, a obra substitutiva de Cristo é nossa responsabilidade de recebê-la pela fé. Como confessarmos, na DC– (7), Jesus Cristo agiu como nosso representante e substituto, para que nele nos tornássemos justiça de Deus.
  3. Como esta leitura da Bíblia nos molda:

Muitos, hoje em dia, (mas nem todos) que se especializam nos primeiros desses modos de leitura da Bíblia — ou seja, ler ao longo de toda a Bíblia — concentram-se nos aspectos mais corporativos do pecado e da salvação. A cruz é vista principalmente como exemplo de serviço sacrificial e vitória sobre os poderes do mundo em vez de substituição e propiciação por nossos pecados. Ironicamente, tal abordagem pode ser muito legalista. Em vez de chamar as pessoas à conversão individual por meio de uma mensagem de graça, as pessoas são chamadas para se unir à comunidade cristã e ao programa do reino daquilo que Deus está fazendo para libertar o mundo. A ênfase está no cristianismo como estilo de vida, perdendo de vista o status de que fomos comprados com sangue em Cristo, recebidos por meio de nossa fé pessoal. Nesse desequilíbrio, existe pouca ênfase em vigoroso evangelismo e apologética, na pregação expositiva, e nas marcas e importância da conversão/novo nascimento.

Por outro lado, o evangelicalismo mais antigo (se bem que não todo ele) tendia a ler através da Bíblia. O resultado era que essa leitura era mais individualista, centrada quase completamente na conversão pessoal e uma passagem segura para o céu. Também, sua pregação, ainda que expositiva, às vezes era moralista e não enfatizava como todos os temas bíblicos têm seu clímax em Cristo e sua obra. Nesse desequilíbrio, há pouca ou nenhuma ênfase na importância das obras de justiça e misericórdia em favor dos pobres e oprimidos, e sobre a produção cultural que glorifique a Deus nas artes, empresas, etc.

Não cremos que na melhor prática essas duas formas de se ler a Bíblia sejam contraditórias, ainda que hoje em dia, muitos lancem uma contra a outra. Pelo contrário, cremos que as duas, em seu melhor, sejam integrais para a apreensão do significado do evangelho bíblico. O evangelho é a declaração de que mediante a morte e ressurreição de Jesus Cristo, Deus reconcilia os indivíduos por sua graça e renova o mundo inteiro por meio de e para a sua glória.

 

III. COMO NOS RELACIONARMOS À CULTURA AO NOSSO REDOR?
(A questão de contextualização)

 

  1. Sendo uma contracultura. Queremos ser uma igreja que não apenas dê suporte a cristãos como indivíduos em sua caminhada pessoal com Deus, mas também uma igreja que os molda na sociedade humana alternativa que Deus cria por meio de sua Palavra e seu Espírito. (Ver abaixo, ponto V.3.)
  2. Para o bem comum. Não basta a igreja contrapor os valores da cultura dominante. Temos de ser uma contracultura para o bem comum. Queremos ser radicalmente diferentes da cultura ao nosso redor e ainda assim, a partir dessa identidade distinta, devemos servir sacrificialmente ao próximo e até mesmo aos inimigos, trabalhando para o florescimento dos povos, tanto aqui e agora quanto na eternidade. Portanto, nós não vemos nossos cultos corporativos como o principal ponto de conexão com os que estão do lado de fora. Pelo contrário, esperamos vir ao encontro de nossos vizinhos enquanto trabalhamos em prol da paz, segurança e bem-estar do próximo, amando-o em palavras e obras. Se assim fizermos, estaremos sendo “sal” e “luz” no mundo (sustentando e melhorando as condições de vida, mostrando ao mundo a glória de Deus por meio de nosso estilo de vida; Mateus 5.13-16). Assim como os exilados judeus eram chamados a amar e trabalhar pelo shalom da Babilônia (Jeremias 29.7), também os cristãos são povo de Deus “no exílio” (1Pedro 1.1; Tiago 1.1). Os cidadãos da cidade de Deus devem ser os melhores cidadãos possíveis da sua cidade terrena (Jeremias 29.4-7). Não somos exageradamente otimistas nem pessimistas quanto à nossa influência cultural, pois conhecemos que, ao andar nos passos daquele que entregou sua vida por seus oponentes, receberemos perseguição até mesmo enquanto estivermos exercendo impacto social (1Pedro 2.12).
  3. Como este relacionamento com a cultura nos forma:

Cremos que toda expressão do cristianismo seja necessária e corretamente contextualizada, até certo grau, em relação a uma cultura humana especifica; não existe uma expressão a-histórica universal do cristianismo. Mas jamais queremos ser de tal forma afetados por nossa cultura que comprometamos as verdades do evangelho. Como então manter o equilíbrio?

A resposta e que não se pode “contextualizar” o evangelho de forma abstrata, como um experimento do pensamento. Se uma igreja procura ser contracultura para o bem temporal e eterno das pessoas, ela se guardara tanto contra o legalismo que pode acompanhar a retração cultural indevida quanto o comprometimento que vem com o excesso de adaptação. Se buscamos serviço em vez de poder, poderemos exercer um impacto cultural significativo. Mas se procuramos poder e controle social direto, ironicamente, estaremos sendo assimilados nas próprias idolatrias de riqueza, status, e poder que propusemos mudar.

O próprio evangelho tem a chave para uma contextualização apropriada. Se exagerarmos na contextualização, isso sugere que estamos buscando demais a aprovação da cultura receptora. Isso demonstra uma falta de confiança no evangelho. Se sub-contextualizamos, isso sugere que estamos buscando demais a pompa de nossa própria sub-cultura. Isso demonstra falta de humildade evangélica e uma falta de amor ao próximo.

 

IV – NO QUE O EVANGELHO É SINGULAR? 

 

Este evangelho enche os cristãos de humildade e esperança, mansidão e coragem, de forma singular. O evangelho bíblico difere marcadamente das religiões tradicionais bem como do secularismo. As religiões operam sob o princípio: “Obedeço, portanto, sou aceito”, mas o princípio do evangelho é: “Sou aceito através de Cristo, portanto, eu obedeço”. Assim, o evangelho difere tanto da irreligião quanto da religião. Pode-se procurar ser seu próprio “senhor e salvador” quebrando a lei de Deus, mas também é possível fazê-lo ao guardar a lei a fim de ganhar a salvação.

A falta de religião e o secularismo tendem a inflar a autoestima acrítica que estimula somente a si mesmo; a religião e o moralismo esmagam as pessoas sob culpa de padrões éticos impossíveis de se manter. O evangelho, porém, nos humilha e afirma simultaneamente, pois em Cristo, cada um de nós é, ao mesmo tempo, justo enquanto ainda pecador. Ao mesmo tempo, somos mais defeituosos e pecadores que ousávamos crer, no entanto, somos mais amados e aceitos do que ousávamos esperar.

O secularismo tende a tornar as pessoas egoístas e individualistas. A religião e moralidade em geral tendem a fazer as pessoas com atitudes tribais e de autojustiça para com outros e grupos de autojustiça (já que sua salvação foi ganha, pensam eles, por seu merecimento próprio). Mas o evangelho da graça, centrado em um homem que morreu por nós enquanto éramos ainda inimigos, remove a autojustiça e o egoísmo, transformando os seus membros em servos uns dos outros, tanto para o desenvolvimento temporal de todas as pessoas, especialmente os pobres, quanto para sua salvação. Motiva-nos a servir ao próximo sem levar em conta seus méritos, assim como Cristo nos serviu (Marcos 10.45).

O secularismo e a religião conformam as pessoas a normas comportamentais pelo medo (das consequências) e orgulho (desejo de engrandecimento de si mesmo). O evangelho move as pessoas a santidade e serviço devido a feliz gratidão por sua graça, e de amor pela glória de Deus por quem ele é em si mesmo. 

 

V – O QUE É UM MINISTÉRIO CENTRADO NO EVANGELHO?

É caracterizado por:

 

  1. Culto corporativo poderoso

O evangelho transforma nosso relacionamento com Deus da hostilidade ou complacência como de escravo para uma relação de alegria e intimidade. O cerne dinâmico do ministério centrado no evangelho é, portanto, adoração e fervente oração. No culto corporativo, o povo de Deus recebe a visão especial e transformadora de vida do valor e da beleza de Deus, e retribui a Deus expressões certas de seu valor. No coração do culto de adoração corporativo está o ministério da Palavra. A pregação deverá ser expositiva (explicando o texto da Escritura) e centrada em Cristo (expondo todos os temas bíblicos como tendo seu clímax em Cristo e sua obra de salvação). Porém, seu alvo final não é simplesmente o ensino, como também conduzir os ouvintes à adoração, individual e corporativa, que fortalece seu ser interior a fim de fazer a vontade de Deus.

  1. Efetividade evangelística

Porque o evangelho (diferente do moralismo religioso) produz pessoas que não desdenham daqueles que discordam delas, uma igreja verdadeiramente centrada no evangelho deverá estar cheia de membros que atraem as esperanças e aspirações das pessoas com Cristo e sua obra salvadora. Temos uma visão por uma igreja que vê conversões de ricos e pobres, pessoas da alta cultura e menos cultas, homens e mulheres, velhos e jovens, casados e solteiros, de todas as raças. Esperamos atrair gente altamente secularizada e pós-moderna, como também pessoas religiosas e tradicionais. Devido a atratividade da sua comunidade e a humildade de seu povo, uma igreja centrada no evangelho deverá encontrar em seu meio pessoas que estejam examinando e procurando entender o cristianismo. Deverá dar boas-vindas com centenas de maneiras. Fará pouco para torná-las “confortáveis”, mas muito para tornar a mensagem entendível. Além de tudo isso, igrejas centradas no evangelho terão tendência à plantação de igrejas como um dos mais efetivos meios de evangelismo que existem.

  1. Comunidade contracultural

Porque o evangelho remove tanto o medo quanto o orgulho, as pessoas deverão se dar bem dentro da igreja, mesmo as que jamais tenham se relacionado bem fora dela. Como ela aponta-nos um homem que morreu por seus inimigos, o evangelho cria relacionamentos de serviço em vez daqueles de egoísmo. Porque o evangelho nos conclama à santidade, o povo de Deus vive em amáveis laços de mútua responsabilidade e disciplina. Assim, o evangelho cria uma comunidade humana radicalmente diferente de qualquer sociedade ao seu redor. Com respeito ao sexo, a igreja deve evitar tanto a idolatria do sexo da sociedade secular quanto o temor do sexo da sociedade tradicional. E uma comunidade que ama, cuida de modo prático dos seus membros, a ponto de fazer sentido a castidade bíblica. Ensina seus membros a conformar seu ser corporal ao formato do evangelho — abstinência fora do casamento heterossexual e fidelidade e alegria dentro dele. Quanto à família, a igreja devera afirmar a benesse do casamento entre um homem e uma mulher, chamando-os a servir a Deus ao refletirem sua aliança de amor em lealdade para toda a vida, e por ensinar seus caminhos aos seus filhos. Mas ela também afirma o bem de servir a Cristo como solteiro, quer por algum tempo, quer por toda a vida. Uma igreja deverá cercar todas as pessoas que sofrem pela condição caída de nossa sexualidade humana com uma comunidade e família cheia de compaixão. Quanto ao dinheiro, os membros da igreja deverão se envolver em compartilhamento econômico radical uns com os outros — para que não haja “necessitados entre eles” (Atos 4.34). Esse compartilhamento também promove um compromisso radicalmente generoso do tempo, dinheiro, relacionamentos e espaço de vivência para com a justiça social e as necessidades do pobre, dos oprimidos, do imigrante, e dos econômica e fisicamente fracos. Quanto ao poder, a igreja é visivelmente leal ao compartilhamento do poder e construção dos relacionamentos entre as raças, classes e gerações que estão alienadas, de fora do Corpo de Cristo. A evidência prática disso está em que nossas igrejas locais cada vez mais dão boas-vindas a pessoas de todas as raças e culturas. Cada igreja deve procurar refletir a diversidade de sua comunidade geográfica local, tanto na congregação como um todo quanto em sua liderança.

  1. A integração de fé e obras

As boas novas da Bíblia não são apenas de perdão individual como também da renovação de toda a criação. Deus colocou a humanidade no jardim para cultivar o mundo material para sua própria glória e para o vicejar da natureza e da comunidade humana. O Espírito de Deus não somente converte os indivíduos (cf. João 16.8) como também renova e cultiva a face da terra (ver, por exemplo, Gn 1.2; Sl 104.30). Portanto, os cristãos glorificam a Deus não apenas pelo ministério da Palavra, como também pelas suas vocações de agricultura, artes, empreendimentos, governo, estudo acadêmico — tudo para a glória de Deus e o fomento do bem público. Cristãos em demasia aprenderam a separar sua fé/crença do modo como trabalham em sua vocação. O evangelho é visto como meio de encontrar paz individual e não como fundamento de uma cosmovisão — uma interpretação compreensiva da realidade que afeta tudo que fazemos. Porém, nós temos uma visão de igreja que equipa seu povo a pensar sobre as implicações do evangelho quanto a nossa ação como carpinteiros, bombeiros, no processamento de dados, enfermagem, nas artes, como empresários, no governo, jornalismo, entretenimento e na academia. Uma igreja assim não apenas apoiará o envolvimento dos cristãos com a cultura, como também os ajudará a trabalhar com distinção, excelência e responsabilidade em suas atividades e profissões. O desenvolvimento de ambientes humanitários ao mesmo tempo de criatividade e excelência empresarial, a partir de nosso entendimento do evangelho, faz parte da obra de trazer uma medida de cura à criação de Deus no poder do Espírito. Trazer alegria cristã, esperança e verdade à realidade das artes também faz parte desse trabalho. Fazemos tudo isso porque o evangelho de Deus nos conduz a isso, ainda que reconheçamos que a restauração final de todas as coisas aguarda a volta pessoal e corporal de nosso Senhor Jesus Cristo [DC– (7)].

  1. Atos de justiça e misericórdia

Deus criou alma e corpo, e a ressurreição de Jesus mostra que ele redimirá tanto o espiritual quanto o material. Assim, Deus trata não apenas da salvação de almas como também do alívio da pobreza, fome e injustiça. O evangelho abre nossos olhos ao fato de que todos os nossos bens (até mesmo riqueza pela qual trabalhamos duramente) é, afinal, um dom de Deus que não merecemos. Portanto, a pessoa que não distribui seus bens com generosidade aos outros não somente é faltosa em compaixão como também é injusta. O cristão ganhou a salvação pela perda, atinge o poder mediante fraqueza e serviço, e vem a ser rico mediante distribuir tudo. Os que recebem sua salvação não são os fortes, cheios de realizações, mas aqueles que admitem ser fracos e perdidos. Não podemos olhar o pobre e oprimido e chamá-los insensivelmente a sair de suas próprias dificuldades. Não foi assim que Jesus nos tratou. O evangelho substitui a superioridade para com o pobre com misericórdia e compaixão. Igrejas cristãs têm de trabalhar em prol da justiça e paz em sua vizinhança, mediante serviço, enquanto conclamam as pessoas à conversão e ao novo nascimento. Temos de trabalhar pelo bem comum e eterno, mostrando ao próximo que o amamos de maneira sacrificial, quer ele creia como nós quer não creia. A indiferença para com os pobres e destituídos significa que não houve verdadeiro entendimento de nossa salvação unicamente pela graça.

 

CONCLUSÃO

 

O ministério que delineamos é relativamente raro. Existem muitas igrejas que se dirigem aos “interessados” que ajudam muitas pessoas a encontrar Cristo. Há muitas igrejas buscando envolver a cultura mediante o ativismo político. Existe um movimento carismático que cresce rapidamente, com ênfase no culto de adoração glorioso, apaixonado, corporativo. Há muitas congregações com forte preocupação por rigor e pureza doutrinária e que se esforçam muito para manter uma separação do mundo. Há muitas igrejas com compromisso radical para com os pobres e marginalizados.

Porém, não vemos suficientes igrejas individuais que incorporem o equilíbrio evangélico pleno, integral, que aqui delineamos. Enquanto, pela graça de Deus, há um número encorajador de sinais brilhantes na igreja, ainda não percebemos nenhum movimento amplo deste ministério centrado no evangelho. Nós acreditamos que tal equilíbrio produzirá igrejas com pregação cativante e teologicamente substancial, evangelização dinâmica e apologética, além do crescimento e plantação de igrejas. Elas enfatizarão arrependimento, renovação pessoal e santidade de vida. Ao mesmo tempo, e nas mesmas congregações, haverá um engajamento com as estruturas sociais das pessoas comuns e envolvimento cultural com as artes, empreendimentos, estudos e ensino acadêmicos, e governo. Haverá chamados para um cristianismo radical em que todos os membros da comunidade compartilhem suas riquezas e recursos com os pobres e marginalizados. Tais prioridades também serão combinadas e fortalecerão mutuamente umas às outras em cada igreja local.

O que poderia conduzir a um movimento crescente de igrejas centradas no evangelho? A resposta última é que Deus, para sua própria glória, tem de enviar um reavivamento como resposta à oração fervorosa, extraordinária, prevalecedora de seu povo. Mas cremos que existem passos penúltimos a tomar. Há uma grande esperança se pudermos nos unir quanto à natureza da verdade, como ler melhor a Bíblia, sobre nosso relacionamento com a cultura, sobre o conteúdo do evangelho e a natureza do ministério centrado no evangelho. Cremos que tal compromisso nos impelirá novamente à Escritura, ao Cristo da Escritura, ao evangelho de Cristo, e nós começaremos a crescer em nossa habilidade, pela graça de Deus, como igrejas, a “proceder corretamente segundo a verdade do evangelho” (Gálatas 2.14). Estamos envergonhados por nossos pecados e falhas, gratos além da medida pelo perdão, e ansiosos por ver novamente a glória de Deus e incorporar a conformidade com o seu Filho.


Outras Línguas