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Na terça-feira, 18 de outubro de 1966, aconteceu algo que abalou o mundo evangélico britânico, sobre a natureza da igreja e a base para a unidade e a pureza no evangelho, com repercussões sentidas ainda hoje.

Para nos ajudar a entender o que aconteceu, falei com o Rev. Dr. Andrew Atherstone, Latimer Research Fellow no Wycliffe Hall, Universidade de Oxford. Suas pesquisas, escritos e ensino se concentram na história da relação entre o anglicanismo e o mundo evangélico. Ele é o co-editor, junto com David Ceri Jones, do livro Engaging with Martyn Lloyd-Jones: The Life and Legacy of ‘The Doctor’ (Inter-Varsity Press, 2011) [Interagindo com Martin Lloyd-Jones: A Vida e Legado do “Doutor’] e é autor de um capítulo importante no livro ” Lloyd-Jones e a Crise da Secessão Anglicana”.


Conte-nos um pouco sobre Martyn Lloyd-Jones e John Stott naquela fase de seus ministérios.

Martyn Lloyd-Jones e John Stott foram os dois ministros evangélicos mais preeminentes em Londres na década de 1960.

Ambos atraíam grandes congregações através de sua pregação expositiva em púlpitos de prestígio; Lloyd-Jones na Capela de Westminster, perto do Palácio de Buckingham e Stott na All Souls Church, perto de Oxford Street.

Ambos tiveram ministérios frutíferos mais amplamente como líderes e organizadores evangélicos, por exemplo, entre estudantes universitários através da Inter-Varsity Fellowship.

Em outubro de 1966, Lloyd-Jones tinha 66 anos e se aproximava da aposentadoria; Stott era mais jovem, com 45 anos de idade, mas já era um orador reconhecido pelos evangélicos Anglicanos.

Houve uma série de avanços no mundo evangélico britânico durante a década de 1960 em relação a discussões e preocupações ecumênicas. Você pode nos dar uma ideia do contexto naquele momento?

A década de 1960 foi o ápice do otimismo ecumênico, que vinha se acumulando desde o final da Segunda Guerra Mundial. As denominações antigas investiram energia considerável na busca da unidade visível. Por exemplo, o Conselho Britânico das Igrejas decidiu, em 1964, almejar uma igreja territorial unida na Grã-Bretanha até o domingo de Páscoa de 1980. Olhando para trás, após 50 anos, um plano tão ingênuo parece quase cômico, mas para muitos da década de 1960 parecia realista.

Certamente, os ventos de mudança estavam soprando. A Igreja Anglicana estava à beira de se reunificar com os Metodistas, separada desde o Avivamento Evangélico, e também fazia aproximações amigáveis ​​à Igreja de Roma, separada desde a Reforma. Ao mesmo tempo, os Presbiterianos e a Igreja Congregacional estavam construindo a Igreja Unida Reformada.

Mas estes múltiplos projetos de unificaçāo tinham pouca consideração pela doutrina evangélica.

Vejamos o que aconteceu na Assembléia Nacional de Evangélicos em outubro de 1966. O que era este grupo e por que Lloyd-Jones foi convidado a falar a eles? Eles não sabiam previamente o que ele poderia dizer?

A Assembléia Nacional de Evangélicos (NAE em inglês) foi originalmente planejada como um evento anual, organizado pela Aliança Evangélica, reunindo cerca de 1.000 representantes de igrejas e sociedades evangélicas em toda a Grã-Bretanha, de toda a gama de denominações protestantes.

A primeira NAE foi em setembro de 1965 e abordou questões como evangelismo, educação religiosa e unidade cristã. Era como um sínodo evangélico, com debates e votação de resoluções formais. Como o ecumenismo era um tema tão iminente, a NAE de 1965 criou uma comissão evangélica especial sobre a unidade da igreja (co-presidida por um anglicano e por um batista), que devia prestar relatório no ano seguinte, na reuniāo da NAE de 1966.

Coincidindo com o lançamento do relatório, Lloyd-Jones foi convidado a dar uma palestra esboçando sua visão de unidade evangélica, em uma reunião pública no Westminster Central Hall, presidida por Stott.

Os organizadores certamente deveriam saber o que esperar, já que Lloyd-Jones havia dado sua opinião pessoalmente à comissão de unidade evangélica, mas ainda assim, foram surpreendidos pelo efeito eletrizante de sua palestra!

Então, o que Lloyd-Jones disse exatamente e por que foi tão controverso?

O cerne do discurso de Lloyd-Jones foi um apelo à unidade visível dos evangélicos que correspondesse à sua unidade espiritual. Ele se lamentou de que estivessem divididos entre si e “espalhados pelas várias denominações principais … fracos e ineficazes”. Mas ele cria que a turbulência ecumênica da década de 1960 apresentava “uma oportunidade extraordinária” para repensar a eclesiologia evangélica, mais conforme as linhas do Novo Testamento.

Em particular, ele argumentou que os evangélicos eram culpados do “pecado de cisma” por permanecerem visivelmente separados uns dos outros, enquanto estavam visivelmente unidos em suas denominações a pessoas que negavam os fundamentos do evangelho. “Eu sou um crente na ecumenismo”, declarou provocativamente, “no ecumenismo evangélico!””Os evangélicos não deveriam se satisfazer com uma unidade apenas através de redes e sociedades não-denominacionais,” insistiu Lloyd-Jones, mas deveriam se unir em “uma comunidade ou uma associação de igrejas evangélicas “.

Isso foi controverso por várias razões, sobretudo porque contradizia o próprio relatório da NAE sobre a unidade evangélica no evento de lançamento! A implicação óbvia era que os evangélicos se separassem imediatamente das denominações doutrinariamente mistas.

Havia também confusão sobre o que exatamente Lloyd-Jones quis dizer com”uma comunidade, ou uma associação, de igrejas evangélicas”, e que formato isto teria na prática; ele provavelmente idealizava uma rede de congregações evangélicas independentes locais. Uma transcrição da gravação de áudio de seu discurso foi finalmente publicada após sua morte, em Knowing the Times [Conhecendo os Tempos] (Banner of Truth, 1989), e vale a pena estuda-la com cuidado.

Foi algo fora das normas que Stott tenha respondido publicamente? O que ele disse após a palestra de Lloyd-Jones?

Há uma convenção não oficial, de que o presidente de uma conferência pública está lá, simplesmente, para ajudar o evento a seguir sem problemas e oferecer agradecimentos cordiais ao palestrante ao final. Se o discurso de Lloyd-Jones foi surpreendente, a intervenção de Stott foi mais ainda.

Quando ele se levantou para anunciar o hino de encerramento, ele criticou Lloyd-Jones publicamente, argumentando que a “história” estava contra ele, porque os evangélicos em gerações anteriores tentaram estabelecer denominações evangélicas e haviam fracassado, e que as “Escrituras” estavam contra ele, porque o “remanescente” fiel do Antigo e no Novo Testamento estava no interior da igreja visível, e não fora.

Stott depois se desculpou com Lloyd-Jones por abusar de seu cargo de presidente, mas o estrago estava feito, e ocorreu um racha público dentro do movimento evangélico.

Você pode nos dar uma idéia do argumento de Stott e outros, por que os cristãos não devem se separar da incredulidade e falsos mestres?

Stott nunca colocaria esta pergunta do jeito que você fez! Tal posição seria impossível de defender! Stott e seus colegas evangélicos anglicanos, como J.I. Packer, protestaram vigorosamente contra a heresia na Igreja Anglicana, especialmente contra erros liberais e católicos que ganharam força na década de 1960. Estavam determinados a proteger suas congregações dos falsos mestres e de bispos incrédulos, e manter a distância. No entanto, eles não criam que estivessem corrompidos, simplesmente, por pertencer a uma denominação doutrinariamente mista.

Seus argumentos assumiram três formas:

(1) Historicamente, eles argumentaram que a base constitucional da Igreja Anglicana era Protestante e Reformada à luz dos formulários da Reforma, tais como os Trinta e Nove Artigos da Religião e o Livro da Oração Comum. Assim, os evangélicos mantinham os “títulos de posse” legais da Igreja da Inglaterra, e seriam os liberais e os católicos que deveriam sair, não eles.

(2) Biblicamente, eles argumentaram que muitas igrejas do Novo Testamento eram confusas doutrinariamente ou moralmente comprometidas, como a igreja em Corinto que estava confusa sobre a ressurreição, ou a igreja em Sardes onde se enumeravam apenas “algumas” pessoas piedosas (Apocalipse 3.4). Os crentes nestas igrejas, porém, são instruídos a se firmar no evangelho e a combater os falsos mestres, e não a deixar a igreja e a criar uma nova.

(3) Em termos pragmáticos, Stott e seus amigos argumentavam que a Igreja Anglicana proporcionava muitas oportunidades de evangelismo para os evangélicos, e que seria um abandono do dever entregar seus púlpitos a um clero incrédulo. O que seria de suas congregações?

Os evangélicos anglicanos na década de 1960 mantiveram o lema “Cooperação sem Compromisso”. O problema era que, na prática, rapidamente se tornou “Cooperação com Compromisso”.

Em abril de 1967, seis meses após o conflito entre Lloyd-Jones e Stott na NAE, Stott presidiu o primeiro Congresso Nacional Evangélico Anglicano (NEAC em inglês) em Keele, Staffordshire. Nele, anglicanos concordaram em investir suas energias nas estruturas e nos sínodos da Igreja Anglicana. Como resultado, especialmente na geração mais nova, eles logo começaram a enfatizar seu anglicanismo mais do que sua visāo evangélica.

A historiografia padrão sugere que poucos anglicanos seguiram o conselho de Lloyd-Jones. Mas sua pesquisa sugere o contrário, certo?

A historiografia padrão foi escrita, em sua maioria, pelos defensores da pauta do Congresso de Keele. Ela tenta enfatizar deliberadamente que os anglicanos não deram ouvidos ao pedido de Lloyd-Jones, e que apenas alguns ministros dissidentes separaram-se da Igreja Anglicana.

Minha pesquisa mostrou que, de fato, muitos anglicanos ficaram alarmados com a trajetória teológica do Congresso de Keele e, simpatizaram naturalmente, com o chamado profético de Lloyd-Jones por uma eclesiologia evangélica mais robusta. Pelo menos 20 ministros anglicanos se separaram para obter formas variadas de independência evangélica entre 1964 e 1974. Apenas algumas gotas, não uma inundação, mas estes incluíram líderes conhecidos como Herbert Carson e Bertie Rainsbury.

Um número significativo que permaneceu na Igreja Anglicana continuou a ensinar que a visāo evangélica, por ser simplesmente o cristianismo do Novo Testamento, deve sempre superar a lealdade denominacional de qualquer natureza.

Como os eventos de outubro de 1966 afetaram as relações dentro do mundo evangélico britânico?

O mundo evangélico britânico levou um bom tempo para se recuperar dos debates do final da década de 1960. A NAE em outubro de 1966 foi um momento decisivo, uma separação simbólica dos caminhos. Piorou com eventos subsequentes com a publicação, em 1970, de Growing into Union [Crescendo em Uniāo], um folheto ecumênico com autoria de dois anglicanos (J.I. Packer e Colin Buchanan) e dois católicos ingleses. Isso levou diretamente a um cisma doloroso entre Lloyd-Jones e Packer, e ao cancelamento da Conferência de Estudos Puritanos, que ambos estavam organizando. Os relacionamentos se romperam entre evangélicos em diferentes lados da divisão, com crescente suspeita e mal-entendido entre o círculo de Stott e o círculo de Lloyd-Jones.

Felizmente, a passagem lenta do tempo trouxe uma certa cura para essas feridas, embora tenha levado meio século para que as amizades fossem reconstruídas. As “Parcerias regionais do Evangelho” que surgiram recentemente em toda a Grã-Bretanha são um sinal encorajador de que os evangélicos (dentro ou fora das denominações doutrinariamente mistas) voltam a unir forças no discipulado e no evangelismo, onde o evangelho é central, mesmo que ainda discordem sobre eclesiologia.

Traduzido por Vittor Rocha

 

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