Ajustando as Emoções em Tempos Extremos

Está difícil, não está? Lidar com as emoções? Você vai de briga feroz na internet por conta de notícias (sejam fakes ou sejam reais) para a alegria do Ifood que chegou. De choro por ver notícias tristes ao riso de vídeos divertidos na internet. Da frustração consigo mesmo e com todo mundo, ao choro emocionado de ver uma pequena atitude altruísta em um vídeo compartilhado por whatsapp de algo belo que aconteceu num recanto escondido da Ásia. Alegria exultante por ver hospitais de campanha sendo fechados por terem se tornado desnecessários na Espanha, tristeza desmedida por ver profissionais de saúde que não podem abraçar seus filhos chegando em casa. Nestes tempos extremos, não está fácil ajustar as emoções.

Romanos 12.15 nos ensina a chorarmos com os que choram e a nos alegramos com os que se alegram. É curioso, não? Que precisemos ser instruídos acerca disso? O normal seria que todo mundo já soubesse disso; que já fossemos bem versados desde a infância na arte de chorar com quem chora e se alegrar com quem se alegra.

O pecado corrompeu todas as facetas do ser humano. Sua vontade, seu intelecto, sua imaginação, seu corpo e suas emoções. O fato é que nos alegramos com eventos que deveriam nos entristecer, e nos entristecemos com coisas que deviam nos alegrar. Nos enfurecemos com o que deveria nos alegrar, nos alegramos com fatos que deveriam nos enfurecer. E assim por diante.

Nossas emoções precisam ser ajustadas. O cristão é alguém que, salvo por Cristo, havendo nascido de novo, está no processo de ser moldado a ele. A santificação passa pelo moldar de nossas emoções à semelhança de Cristo. Ele é o homem perfeito e sem pecado, que sempre teve emoções perfeitamente ajustadas à situações pelas quais passou. Soube chorar na morte de seu amigo, se enfurecer com o legalismo dos fariseus, se compadecer com quem sofria, se alegrar com banquetes e garantir que uma festa de casamento não iria parar por falta de vinho.

Tempos de pandemia servem como grande oportunidade de aprendermos isso melhor. Está tudo muito extremo, não está? Os medos, as brigas, as opiniões, as palavras estão ferozes, os comportamentos estão intensos. Temos visto amizades de longa data ruírem por causa de protocolos de medicamentos, medidas judiciais e decretos de prefeitos. Temos observado cristãos divergirem amargamente por vírgulas. Temos visto ataques, indiretas e brigas apaixonadas por assuntos do momento que logo somem no histórico de navegação das redes sociais. É tempo de ajustarmos o coração e treinarmos o chorar com os que choram, bem como o alegrar com quem se alegra.

Há muito o que chorar. Já morreu muita gente de COVID-19. Haja subnotificação, haja exagero, haja uso político das mortes, sejam poucas as mortes em comparação a outras causas… o fato é que morreu muita gente. Tem muitos seres humanos no planeta Terra que lamentam e choram a morte de gente amada. Há muitos que choram e foram impedidos de ir aos enterros e dizer as palavras finais aos seus. É hora de chorar sim, com a tristeza da morte. Ela entrou no mundo como consequência do pecado. O planeta se tornou um cemitério por causa disso. Se não fossem Adão e Eva consumindo aquele fruto, a terra não iria experimentar o gosto de carne humana.

Há muito o que chorar por ver quanto sofrimento tudo isso está causando. Pessoas isoladas, tristes, paranoicas. Pessoas perdendo seus empregos, suas carreiras, vendo seus sonhos destruídos. Cursos abandonados, férias pagas com muito custo evaporando, cerimônias de casamento cuidadosamente sonhadas sendo adiadas indefinidamente. Festas infantis pelas quais crianças aguardam em vão, formaturas que acabaram sendo online, visitas a parentes idosos que foram canceladas e que talvez não venham a se concretizar jamais. Tem gente chorando por não poder visitar os familiares não poder ir ver a mãe, a avó, o neto. Alguns dizem: “O que é isso diante de gente morrendo?” É dor! E não é cristão menosprezar dores menores pelo fato de as maiores existirem.

Tem gente chorando de medo do vírus, apavorado com a possibilidade de contágio. Ou nervosíssimos com o que vai surgir depois, seja economicamente ou politicamente. Talvez você ache que as dores são exageradas, que os medos não são realistas. De fato, talvez muitos medos das pessoas não sejam realistas; mas são reais. Quando um filho aparece no seu quarto de madrugada apavorado por medo de uma sombra, um barulho, um dinossauro, um monstro, sua atitude não é, ou não deveria ser mandar, o moleque de volta ao quarto pelo medo não ser realista. Não é realista, mas é real. Você abraça e diz: “papai tá aqui. Vamos lá ver se tem dinossauro mesmo. Se tiver eu luto com ele.” Tenho visto crentes zombando do medo dos outros; seja do medo do vírus, seja do medo do colapso econômico, seja do medo do controle ditatorial dos governos. Muitos olham os medos e zombam. O medo é real, mesmo que a causa dele não seja tanto. Não ajuda simplesmente zombarmos. O que ajuda é a empatia de tentar entender por que dói tanto, e como Cristo nos colocarmos na posição de trazer verdade em amor.

Há muito o que chorar. Vejo uma tristeza e melancolia generalizadas, junto com ira, descendo como névoa sobre as pessoas. Tristeza pelo que perdemos e ainda perderemos. Ira contra quem julgamos ser responsáveis pela crise ou pelo agravamento dela. Tristeza pela saudade do culto público, do calor da comunhão dos irmãos (até presbiteriano gosta de calor do povo Deus, viu?). Tristeza. Choremos. Não adianta fingir que não é nada. É algo sem precedentes em nossa geração. É hora de lamentar. Deus está nos treinando e ensinando a chorar com quem chora. É para aprender o luto junto a quem teve familiares morrendo de COVID, assim como chorar com quem teve a empresa arruinada pelo isolamento. Reclamamos que tudo é politizado, e fazemos a mesma coisa. Por favor, não me entenda errado. Devemos examinar os fatos, as ideias. Devemos nos levantar contra o erro e contra o mal. Devemos lutar pela verdade e a propagação dela. Devemos pensar sim em consequências políticas, pensar em nossa liberdade religiosa, pensar nas consequências de nossas decisões individuais e coletivas a curto, médio e longo prazo. Devemos fazer todas essas coisas, ao mesmo tempo em que choramos com os que choram e nos alegramos com os que se alegram.

Aliás, falando em alegria. Parece que há, por vezes, quase que um patrulhamento da alegria alheia. Devemos sim nos alegrar com as boas novas que surgem. Sejam nos avanços científicos de tratamentos, equipamentos e vacinas, seja nos números que estão caindo em tantos países, seja nas regiões do globo que já estão avançando em direção a um retorno a algo parecido com a normalidade. Nos alegremos com as cidades do Brasil onde há pouquíssimos casos e tudo vai sob controle. Por vezes há quase que uma raiva invejosa de que os outros não estejam assim tão mal. Nos alegremos com os países da Europa que depois de um tempo escuro estão vendo o raiar da manhã. Nos alegremos com as notícias maravilhosas de idosos que estão vencendo a doença, ao mesmo tempo em que lamentamos pelos que não. Nos alegremos com os tratamentos que vencem a doença, ainda que saibamos que junto com o bem vem os males da corrupção, da demagogia política e tanto mais. Complexo? Sim! Viver no mundo caído é complexo. É mais do que somos capazes em nós mesmos. É precisamente por meio de Cristo sendo formado em nós que aprenderemos a cada dia a navegar nessas águas turbulentas. Sorrindo com sinais de bonança e pequenos respiros em plena tempestade. Sabendo que o mestre pode até estar cochilando, mas ele segue sendo o Deus que controla átomos, ventos, fronteiras de países. Ele preside em soberania sobre orçamentos, lágrimas, camadas lipoproteicas de vírus e nossos corações turbulentos. Que saiamos dessa crise maiores em similaridade com Jesus. Mais humanos de verdade, que é aquilo que fomos criados para ser, mas o pecado impediu. É em Jesus que seremos refeitos. Sossegai.

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