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Eu cresci frequentando igrejas batistas no Centro-Oeste dos Estados Unidos, do tipo em que quartetos masculinos cantam músicas gospel “especiais”, mas ninguém se atreve a levantar as mãos durante uma música de adoração. Durante boa parte dos meus 20 anos, frequentei uma igreja presbiteriana onde coisas como Quinta-feira Santa e as velas do Advento eram realmente relevantes. Hoje em dia considero-me reformado e leio livros sobre Thomas Cranmer por diversão. O culto ideal para mim envolveria o Livro de Oração Comum, um órgão, a Santa Ceia e um sermão de uma epístola paulina que aludisse a todos, desde Agostinho e Spurgeon até Marilynne Robinson e N. T. Wright. Na minha igreja dos sonhos, a “paz” seria partilhada todos os domingos, as cinzas seriam estabelecidas a cada Quarta-feira de Cinzas e G. K. Chesterton seria discutido no grupo de jovens.

O retrato que acabei de descrever da minha “igreja dos sonhos” não parece nada com a igreja em que agora sou membro. A igreja local que frequento agora é não-denominacional, reúne-se em um armazém restaurado e não tem inclinação litúrgica. A música é alta e contemporânea. É mais ou menos reformada mas focada no Espírito Santo, com “palavras espontâneas” vindas da congregação e oração silenciosa em línguas, sendo isso bastante comum. Para ser honesto, os cultos de adoração frequentemente me deixam um pouco incomodado.

E eu estou muito feliz com isso. Eu amo a minha igreja.

Confortos de Consumidor

Falar sobre a “igreja dos sonhos” de alguém (tenho pensado nisso cada vez mais) é um exercício não só de futilidade, mas uma negação clara do evangelho. A igreja não existe para atender a cada necessidade nossa e satisfazer nossas várias listas de gostos e preferências pessoais que nos mantém na zona de conforto. Pelo contrário, ela existe para desestabilizar tudo isso. A igreja deve nos tirar do comodismo da cultura de adoração ao conforto. Ela deve nos despertar para a realidade de que o conforto é um dos maiores obstáculos para o crescimento.

Em três anos participando de minha igreja atual, as coisas tem sido difíceis e bastante incômodas, mas talvez sejam os três anos mais espiritualmente enriquecedores da minha vida, também. A sabedoria por trás do conhecido adágio sobre “sair da sua zona de conforto” tem muito valor. Nada te amadurece mais do que permanecer fiel em meio ao desconforto.

Por muito tempo, o mantra na cultura cristã tem sido o de ser atraente aos não-cristãos e o “faça como quiser”. A ideia é proporcionar conforto ao consumidor. Encontre uma igreja que atenda às suas necessidades! Encontre uma igreja que em que você se sinta à vontade! Encontre uma igreja onde a música do louvor te mova, a pregação do pastor te estimule e a comunidade homogênea te acolha! Se ficar difícil ou desconfortável, corte os laços imediatamente; uma dúzia de outras opções te aguardam!

Dever Difícil

Mas esse modelo não funciona. Ele é não apenas uma troca fria (o que você fez por mim ultimamente?), desprovida de compromisso pactual (a frequência à uma igreja dessas é basicamente um casamento de Hollywood sem acordo pré-nupcial), mas também vai contra o evangelho. Uma verdadeira comunidade evangélica não tem a ver com conveniência, conforto e cafezinhos no saguão. Trata-se de encorajar um ao outro em santidade e empenho em favor do reino, unindo-se ao trabalho contínuo do Espírito Santo nesse mundo. Aqueles interessados ​​em mero conforto e felicidade não precisam candidatar-se. Ser igreja é difícil.

Em Love in Hard Places (Amor em Lugares Difíceis, sem edição em português), Don Carson sugere que a igreja ideal não é composta de “amigos” naturais, mas sim de “inimigos naturais”:

O que nos mantém juntos não é educação em comum, raça em comum, salários próximos, concordância política, mesma nacionalidade, sotaques em comum, empregos similares ou qualquer coisa do tipo. Cristãos se juntam, não porque formam uma combinação natural, mas porque foram salvos por Jesus Cristo e devem a Ele fidelidade comum. À luz desta fidelidade comum, à luz do fato de que todos eles foram amados pelo próprio Jesus, eles se comprometem a fazer o que Ele diz, e Ele ordena que amem-se uns aos outros. Assim, eles são um bando de inimigos naturais, que amam uns aos outros, por causa de Jesus.

Assumir o desafio de se comprometer à uma igreja é consideravelmente difícil, mas claramente bíblico. Você não precisa ler muito do Novo Testamento para ver quão bagunçadas as coisas ficam quando inimigos naturais se comprometem a ser uma família unida (Gl 3.28). É inevitavelmente incômodo, mas obviamente importante.

Jovens Querem Profundidade

Hoje, os jovens se identificam com essa perspectiva. Eles estão cansados ​​de alimento espiritual reconfortante. Eles querem fazer parte de algo que não tem medo de desafios, algo com uma dinâmica avançada que não desacelera para que a tão-importante e inconstante geração Y possa decidir se quer ou não participar. Eles querem uma comunidade impulsionada pelo evangelho e confiante em Cristo, que pouco se importa com público-alvo e artigos da CNN sobre o que pessoas de 20 e poucos anos hoje têm a dizer sobre sua “igreja dos sonhos”.

Os estudantes universitários que conheço não estão interessados ​​em uma igreja com um ótimo ministério universitário. Eles querem uma igreja que esteja viva, dando frutos e fazendo discípulos. Os jovens profissionais do nosso pequeno grupo não se reúnem semana após semana porque sair com um monte de pessoas com personalidades incongruentes, após um longo dia de trabalho, torna a vida mais fácil. Não. Eles vêm porque há possibilidade de viver além do conforto de suas próprias vidas. Há crescimento quando cristãos ajudam uns aos outros a olhar para fora de si mesmos, em direção a Jesus.

O Que Significa Ser Igreja

Olhar para fora de si mesmo. Servir alguém além de si mesmo. Colocar de lado o conforto pessoal e aproximar-se com frequência da cruz. Isto é o que significa ser igreja.

Significa todos juntos em adoração, sem segregar por idade ou interesse (por exemplo, “contemporâneo” ou “tradicional”). Significa pregar todo o conselho de Deus, até mesmo as partes menos populares. Significa combater a homogeneidade, cultivando a diversidade tanto quanto possível, mesmo que isso incomode as pessoas. Significa priorizar o valor de ser membro da igreja e de ofertar, mesmo que isso afugente as pessoas. Significa estar bem com a música, mesmo que não seja seu estilo favorito. Significa manter-se firme quando a igreja atravessa tempos difíceis. Significa construir uma comunidade integrada, mas não isolada, que envolva os vizinhos e envie membros quando a missão os chamar para longe. Significa suportar um ao outro em amor em questões de contenda, sem evitar a disciplina da igreja. Significa pregar a verdade e o amor com intenção, mesmo quando a cultura disser que é fanatismo. Significa focar em cura a longo prazo ao invés de medicar os sintomas.

Nada disso é fácil ou agradável. Mas pela graça de Deus e com a ajuda do Seu Espírito, a igreja incômoda pode se tornar algo que estimamos.

Traduzido por Rafael Salazar

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