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Nós não tivemos um momento #revelaosexodobebe nas mídias sociais.

Mas eu e minha esposa planejamos uma comemoração particular para marcar o dia em que descobrimos o sexo do nosso bebê.

Nós tínhamos escolhido duas opções de restaurante onde iríamos jantar, dependendo do que o ultra-som revelaria. Se nosso bebê fosse um menino, nós iriamos comemorar em um local próximo onde servem cervejas e linguiças artesanais. Se fosse uma menina, planejávamos jantar em nosso restaurante vegano favorito no centro de Los Angeles.

Não comemos verduras e legumes naquela noite.

Alguns meses antes, estávamos em um restaurante em Vancouver curtindo um incrível sanduíche de porchetta. As portas dos banheiros deste restaurante me pareciam estranhamente antiquadas. Ao invés de triângulos brancos simples ou anotações de “todos os gêneros”, esses dois banheiros tinham duas plaquinhas diferentes. Um dizia “carne” e o outra dizia “pão”.

Comida tem gênero? Isso parece ridículo, porém, qual o significado de que eu e minha esposa imediatamente sabíamos que linguiças e batatas fritas para o jantar eram mais apropriadas para celebrar nosso bebê do que beterraba cristalizada e couve? Qual o significado de dizer que todos naquele restaurante de Vancouver sabiam qual banheiro usar, simplesmente pelos sinais de “carne” ou “pão” na porta? Por que arroz com feijão — ou pão de queijo e guaraná — combinam tão bem?

É porque eles não são iguais. São diferentes — maravilhosamente diferentes — de maneiras que aprimoram e que extraem o que há de melhor no outro. Eles são engrandecidos, e não diminuídos pelas suas diferenças complementares. Fazem parte de um cosmos de binários organizados — homem e mulher, luz e trevas, terra e mar, salgado e doce — trazendo estrutura, consistência e beleza irresistível à vida.

Não São Clones. São Complementos.

Quando Deus disse: “Não é bom que o homem esteja só” (Gn 2.18), Ele não criou um simples clone de Adão. Ele criou um complemento. A solução de Deus para o problema de “não é bom” de Adão, não foi fazer dois da mesma carne, como se a companhia fosse tudo o que Adão precisava. Foi uma união de um só corpo, com duas metades distintas juntas formando um todo.

Por mais que a cultura ocidental contemporânea tente sugerir o contrário, as diferenças entre o masculino e o feminino existem e sāo importantes. E não é apenas uma diferença aleatória, mas diferenças complementares — diferenças que indicam que os dois foram feitos um para o outro. Mulher e homem são como uma fechadura e chave. Uma fechadura e uma chave não fazem sentido, a menos que estejam juntos. Mas quando juntos, suas diferenças abrem algo, revelando algo mais completo e mais profundo sobre a experiência humana.

Mulher e homem são como uma fechadura e chave. Uma fechadura e uma chave não fazem sentido, a menos que estejam juntos. Mas quando juntos, suas diferenças abrem algo, revelando algo mais completo e mais profundo sobre a experiência humana.

O homem e a mulher em Gênesis 1–2 apontam para um projeto criacional dos seres humanos que não é simplesmente relacional em um sentido geral, mas relacional em um sentido complementar. Tal como argumenta Todd Wilson em “Mere Sexuality” [Mera Sexualidade], os sexos masculino e feminino não se encaixam simplesmente lado a lado, como o queijo e a goiabada; eles se encaixam em um padrão interligado tal como peças de um quebra-cabeça. Foram criados um para o outro, para completar um ao outro de um modo mais profundo possível. Esta é uma dinâmica relacional que inclui o casamento, mas se estende além dele, argumenta Wilson:

Necessitamos de relações com o sexo oposto não apenas para complementar e fortalecer o outro sexo, mas para aprendermos mais sobre nosso próprio sexo. . . Karl Barth explicou brilhantemente: ‘É sempre em relação ao seu oposto que o homem e a mulher são o que são em si mesmos.’

Vemos a beleza da complementaridade masculino-feminina não apenas no casamento, mas também na forma como ambos os sexos interagem em outros relacionamentos, seja na igreja, no local de trabalho, na comunidade ou entre familiares. Como sugeriu Barth, há um sentido em que a plenitude de ser “masculino” é realizada apenas em relação ao “feminino” e vice-versa. O casamento é uma maneira poderosa de manifestar essa plenitude, mas não é a única maneira.

Macho e fêmea não sāo noções flexíveis, nāo sāo conceitos facilmente intercambiáveis ​​que moldamos a partir de baixo. Ao contrário, eles representam uma unidade complementar que vem de cima: uma unidade que vai além da polaridade corpórea ou até de gênero. É uma unidade complementar que reflete a estrutura do mundo mais amplo e reflete o Deus que criou este mundo.

Macho e fêmea não são, afinal de contas, as únicas polaridades complementares na sequência da criação de Deus em Gn 1-2. Há também luz e trevas, tarde e manhã (1.3-5), águas acima e abaixo (1.6-8), terra e mares (1.9-10). Como apontou N.T. Wright, estas polaridades aparecem consistentemente nas Escrituras, de Gênesis ao Apocalipse:

Os binários em Gênesis são muito importantes. . . Trata-se completamente da obra de Deus ao criar pares complementares que são feitos para funcionarem juntos. A última cena na Bíblia revela o novo céu e a nova terra, e o símbolo disso é o casamento de Cristo e Sua igreja. Não são apenas um ou dois versos aqui e ali que falam disto ou daquilo. É a narrativa completa que se apoia nesta complementaridade, de modo que o casamento entre um homem e uma mulher seja um letreiro ou um sinal sobre a bondade da criação original e da intenção de Deus para a chegada eventual dos novos céus e da nova terra.

Uma Polaridade Fundamental

Este contexto de orientação complementar da criação, da qual a diferença sexual é apenas um exemplo profundo, aparece memoravelmente numa passagem da “Perelandra” de C.S. Lewis:

Todos já devem se ter perguntado por que que em quase todas as línguas certos objetos inanimados são masculinos e outros femininos. O que torna um monte masculino ou a certas árvores femininas? . . . Nossos ancestrais não tornaram os montes masculinos por projetarem neles características masculinas. O processo real é o oposto. O gênero é uma realidade e uma realidade mais fundamental que o sexo. Na realidade, o sexo é apenas uma orgânica adaptação à vida orgânica, de uma polaridade fundamental que divide todos os seres criados. O sexo feminino é simplesmente uma das coisas que têm gênero feminino; e há muitas outras, e encontramos o Masculino e o Feminino em âmbitos de realidade onde macho e fêmea simplesmente nāo fazem sentido.

Nesta passagem provocativa, Lewis força nossa cultura confusa em relaçāo ao gênero a considerar a realidade de que masculino e feminino são categorias de nível superior com implicações para toda a criação. Tal como a afirmação de Wright de uma “narrativa completa” da complementaridade bíblica, Lewis situa os sexos masculino e feminino dentro de uma “polaridade fundamental” que divide todas as coisas criadas.

Peter Kreeft indica algo similar na série de vídeos “Humanum” produzida pelo Vaticano, com referência a unidade complementar da terra e do mar como outra “polaridade fundamental” da natureza, que pode nos ajudar a entender o masculino e feminino:

[Terra e mar] são profundamente satisfatórios juntos, e não podemos analisar o porque achamos essa satisfação, paz, e esse senso do correto. . . . O litoral é o lugar mais popular da terra. Propriedades à beira-mar são sempre as mais caras em qualquer lugar do mundo. Por que é onde o mar e a terra se encontram. É aí que homem e mulher se encontram. A terra sem o mar é entediante, deserta. O mar sem a terra também é entediante. Quando vamos ancorar do navio? Mas o lugar onde eles se encontram é onde tudo acontece. E é alí que queremos estar.

Wright, Lewis e Kreeft compreendem que masculino e feminino são mais do que conceitos sociais. Sāo também mais (mas não menos) do que categorias biológicas distintas. Macho e fêmea são nossos símbolos mais fortes, embutidos na criação, da natureza edificadora mútua da diferenciação.

E não são apenas pensadores cristãos que reconhecem este ponto.

Macho e fêmea são nossos símbolos mais fortes, embutidos na criação, da natureza edificadora mútua da diferenciação.

Em seu livro “12 Rules for Life” [12 Regras Para a Vida], o psicólogo Jordan Peterson escreve sobre a “subdivisão conceitual fundamentalmente bipartidária” e “oposição estruturada e criativa” que pode ser vista ao longo da existência, da qual o masculino e o feminino são apenas um exemplo (embora seja o exemplo mais potente). Ele sugere que, mesmo sem religião, podemos ver a “realidade fundamental, além-do-uso-metafórico, desta divisão simbólica feminina-masculina”.

Quando negamos as diferenças entre homens e mulheres, sugerindo que são categorias intercambiáveis ​​e sem sentido, sem referência à biologia, enfraquecemos ambos os sexos, argumenta a acadêmica feminista liberal Camille Paglia.

Em seu novo livro de ensaios, “Free Women, Free Men” [Mulheres Livres, Homens Livres], Paglia — que em vários lugares se descreve como lésbica ou transgênero —admite que, embora ela creia que o gênero é “maleável e dinamicamente moldado pela cultura”, há um inegável binário homem-mulher para o qual os seres humanos sempre retornam:

A frequência com que os papéis de gênero retornam a uma norma polarizada, bem como as semelhanças de papéis dos gêneros em sociedades separadas por distâncias de tempo e espaço, sugere que há algo fundamentalmente constante no gênero que é baseado em fatos concretos. . . . A maioria dos terráqueos considera que papeis de gênero claros sāo úteis como guias na formação de identidade, que frequentemente envolvem conflitos interiores.

Resgatando a Beleza

O que se perde quando o gênero se torna meramente uma conceito social maleável sem direção, ou simplesmente um entre tantos apetrechos do individualismo expressivo? O que se perde quando a idéia de “complementaridade” é abandonada ou diminuída simplesmente porque, como qualquer coisa boa, pode ser abusada ou aplicada de maneiras problemáticas?

Entre muitas outras coisas, perde-se a beleza.

Negar ou obscurecer os traços distintivos e complementares de homens e mulheres é rejeitar o gênio criativo do criador da humanidade. Essa negação também diminui nossa apreciação estética, como seres conectados a um mundo de polaridades, contrastes impressionantes e complementares.

Imagine se a terra fosse somente oceano, sem terra visível. Imagine se todas as pinturas no Museu do Louvre fossem monocromáticas. Imagine se pudéssemos apenas saborear coisas salgadas ou apenas ouvir acordes maiores.

O contraste é fundamental para aquilo que achamos bonito. É central para as pinturas mais fascinantes, para as experiências culinárias mais memoráveis, e para as sinfonias mais emocionantes.

O contraste é fundamental para aquilo que achamos bonito. É central para as pinturas mais fascinantes, para as experiências culinárias mais memoráveis, e para as sinfonias mais emocionantes.

Porque os seres humanos são universalmente atraídos para o nascer e o pôr-do-sol como os momentos mais pitorescos e estranhamente transcendentes do dia? Porque são os momentos mais intensos de contraste entre luz (dia) e trevas (noite).

Nós gravitamos às praias por causa do contraste da água e areia. Ficamos boquiabertos perante um desfiladeiro profundo ou uma montanha extremamente alta porque eles contrastam dramaticamente com a planície ao redor deles. Apreciamos as combinações de arroz com feijão, pão de queijo e guaraná, picante e doce, porque nosso paladar foi feito para contrastes.

O contraste é atraente e belo para nós, em parte, porque dá vida. Os ecossistemas florescem onde a água e a rocha se cruzam. Novas vidas nascem quando macho e fêmea tem relações. De uma união de “um só corpo composto de duas metades”, nasce um novo corpo.

Vivencio esta verdade tangivelmente cada vez que coloco minha mão na barriga de Kira e sinto meu filho se mexendo no útero. Ele é um menino, mas, quando nascer, certamente terá a imagem tanto de seu pai quanto de sua mãe — um produto de nosso amor e um testemunho do incrível mistério e beleza generativa do projeto complementar de Deus.


NT – Na traduçāo, exemplos culinários foram adaptados à realidade brasileira.

Traduzido por Tiago Hirayama

 

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