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Nota do Editor: 

Este texto foi extraído de A Cruz e o Ministério Cristão: Lições sobre Liderança Baseadas em 1 Coríntios, de D.A. Carson (Editora Fiel, 2017)

Em 1 Coríntios, Paulo afirma repetidamente que devemos adotar como nossa meta a salvação de homens e mulheres. “Fiz-me escravo de todos”, escreve ele, “a fim de ganhar o maior número possível” (9.19). “Procedi, para com os judeus, como judeu, a fim de ganhar os judeus” (9.20). “Fiz-me fraco para com os fracos, com o fim de ganhar os fracos” (9.22). E isto: “Fiz-me tudo para com todos os homens, com o fim de, por todos os modos, salvar alguns” (9.22).

No final deste segmento, o mesmo pensamento ainda está em sua mente:

“Portanto, quer comais, quer bebais ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a glória de Deus. Não vos torneis causa de tropeço nem para judeus, nem para gentios, nem tampouco para a igreja de Deus, ​assim como também eu procuro, em tudo, ser agradável a todos, não buscando o meu próprio interesse, mas o de muitos, para que sejam salvos. Sede meus imitadores, como também eu sou de Cristo”. (10.31-11.1)

Irá Atrapalhar ou Promover o Evangelho?

Paulo não está interessado em deixar seus direitos de lado como um fim em si mesmo. “Fiz-me escravo de todos”, ele aponta, “para ganhar o maior número possível” (9.19). Se ninguém tiver seu bem-estar espiritual ameaçado pelo fato de Paulo comer carne, então ele pedirá um bife. Em alguns casos, pleitear seus direitos pode ser exatamente o que é necessário.

No entanto, devemos estar sempre prontos para deixar de pleitear nossos direitos. Saber precisamente qual tipo de ação será mais sábia em uma crise específica, pode ser determinado, em grande parte, por esta questão sobre o objetivo e o efeito das opções: Como este tipo de ação contribuirá ou atrapalhará a obra do evangelho?

Também é importante reconhecer que se tornar um cristão global — alguém cujo compromisso com Jesus e seu reino é conscientemente colocado acima de lealdades nacionais, culturais, linguísticas e raciais – não pode ser um fim em si mesmo. O objetivo não é tornar-se tão internacional e culturalmente flexível que a pessoa não se encaixe em nenhum lugar; o objetivo, ao contrário, é tornar-se tão compreensivo e flexível que, em pouco tempo a pessoa possa se encaixar e promover o evangelho em qualquer lugar.

Choque Cultural Reverso

Descobri que o choque cultural reverso é o pior choque cultural. Muitos que vão para o exterior por alguns anos se preparam para lidar com a nova cultura mas quase nunca se preparam para lidar com o impacto chocante da reentrada na cultura da qual saíram originalmente. No seminário onde leciono, constantemente alertamos os estudantes internacionais quanto aos tipos de choque cultural reverso que devem esperar enfrentar quando voltarem para casa.

Esse tipo de desorientação também explica, em parte, a frequência e intensidade das críticas às instituições e igrejas ocidentais proferidas por muitos líderes do Terceiro Mundo. Sabemos que há muito o que criticar no Ocidente. No entanto, na minha experiência, muito poucos líderes do Terceiro Mundo gastam muito tempo criticando o Ocidente e enfatizando a necessidade de uma teologia adequadamente contextualizada, até que passem alguns anos estudando no Ocidente. Muitos deles não mais se encaixam bem em suas culturas de origem. Entrementes, onde aprenderam suas críticas ao Ocidente? No Ocidente, claro! Criticar o Ocidente é uma coisa extremamente ocidental de se fazer. De fato, criticar onde quer que estejamos é uma coisa extremamente ocidental. Muito poucos destes líderes, por qualquer motivo, realmente se envolvem em muita teologia contextualizada. Em vez disso, desenvolvem sua reputação criticando o Ocidente.

Claro, encontrei algumas exceções maravilhosas para todas estas generalidades. Mas estas generalidades são reconhecidas por muitos que passaram por círculos cristãos em diferentes partes do mundo.

Toda esta crítica mudaria consideravelmente de cara se o objetivo fosse sempre “ganhar o maior número possível”. Muito do constrangimento de não se encaixar em qualquer lugar desapareceria se simplesmente optássemos por agir de modo a atingir este objetivo.

Quanto mais se abre uma lacuna entre a cultura da igreja e a cultura da sociedade ao redor, mais importante é saber como criar pontes entre elas. Mas a preocupação nunca deve ser provar como somos cosmopolitas, sofisticados e flexíveis. O objetivo deve ser “ganhar o maior número possível”.

Evite o Cristianismo do Claustro

Certamente é fácil lembrar de casos em que esse não era o objetivo. Um amigo meu, pastor de uma igreja na Inglaterra, foi convidado a ir para a Escócia e fazer uma palestra a uma missão patrocinada por um grupo cristão de uma universidade escocesa. Surpreendentemente, embora a expectativa fosse que cerca de 75 pessoas comparecessem, na primeira noite vieram 150 — metade deles muçulmanos que decidiram vir em grupo para descobrir por si mesmos o que os cristãos pensavam.

Os cristãos na universidade criam que havia necessidade de “aquecer” a multidão, portanto organizaram um grupo de cantores que tocava baladas escocesas. Então este grupo musical, de olhos brilhantes e bastante animados, anunciou que gostaria de cantar algumas músicas cristãs. Começaram com “Despertai! Despertai! Ó Sião / Venha vestir-se com força ” — e os 75 muçulmanos foram embora.

Não devemos ser demasiadamente severos com estes jovens cristãos escoceses. Simplesmente não estavam pensando. Mas isso é uma tragédia em si. Eles não se perguntaram cautelosamente: “O que devemos fazer para ganhar o maior número possível?”

Barreiras necessitam ser superadas. Grupos diferentes têm diferentes linguagens, aromas, tolerâncias, históricos, memórias em comum.

Devemos adotar como meta a salvação de homens e mulheres. Somente esta visão nos permitirá evitar o cristianismo de enclausuramento. Necessitamos meditar nos Salmos 96 e 98; Isaías 49.1–13; Jeremias 12.12–33; Miqueias 4; Colossenses 1.15–29; e Apocalipse 4–5. Devemos nos tornar globais em nossa consciência e compaixão. A sensibilidade e a flexibilidade culturais devem se tornar ferramentas que nos permitam enfrentar os desafios do evangelismo intercultural com sabedoria e coragem, ao invés de se tornarem objetivos em si mesmos que criam uma elite míope de pessoas amáveis ​​e flexíveis.

 

Traduzido por Victor Santana

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