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Eu odeio uma série de coisas. Algumas delas são um tanto quanto tolas: novelas, maionese de ovo, gatos. Algumas delas são muito sérias: escravidão sexual, adultério, câncer, tráfico de seres humanos, aborto, racismo. Num punhado de casos, eu ainda odeio palavras: “úmido”, “cobiça” e “panfleto” estão entre as mais odiosas. (no inglês, “moist”, “ogle” e “pamphlet”) Mas eu não odeio a palavra “inerrância”. Na verdade, ela não me incomoda nem um pouco.

Talvez seja porque eu sou inglês. A minha experiência limitada em diálogo transatlântico sugere que a palavra “inerrância” é um divisor na América, no topo da lista assim como “Texas” e “Pelosi” na lista de palavras mais prováveis ​​para incitar expressões de êxtase luminescente em alguns e gagueira furiosa e inarticulada em outros. Parece ser um marcador tribal, uma senha que divide claramente as equipes em bons e maus, a simples menção que pode levar ambos os lados a correr para as barricadas, sejam eles conservadores fiéis em conflito com liberais confusos, ou centristas reflexivos concorrendo com fundamentalistas irracionais. No Reino Unido, no entanto, este não é um conceito tão controverso.

Questão Raramente Feita

Em dez anos de ensino, de escrita e de pesquisa teológica, nunca ninguém me perguntou se eu acredito na inerrância. Como havia de ser, eu acredito. Se alguém me perguntasse se, na minha opinião, as Escrituras contêm erros ou não, eu iria responder de forma negativa. Em parte, isso é resultado de uma convicção teológica sobre os componentes divino e humano das Escrituras: que, quando as palavras de Deus são expressas por seres humanos, nem os seus aspectos humanos (personalidade autoral, o tom, a linguagem, o modo de expressão), nem seus aspectos divinos (veracidade, autoridade , a clareza, a fiabilidade) são comprometidos. Em parte é porque eu acharia estranho dizer às pessoas que toda a Bíblia representa a palavra de Deus, e que a palavra de Deus é completamente verdadeira, mas que partes da Bíblia não são completamente verdadeiras. (Eu não quero dizer que ninguém pode acreditar nessas três coisas, mas que estaria além das minhas faculdades intelectuais fazê-lo.) Principalmente, entretanto, por causa de Jesus. Simplificando: com base no que eu li nos Evangelhos, não posso imaginar (se deixarmos este pensamento implausível correr por um momento) Jesus ser perguntado se as Escrituras continham erros ou não, e dizer sim.

Dito isto, em primeiro lugar, eu não posso imaginar ele sendo indagado sobre esta pergunta. Pelo que podemos dizer, a questão da infalibilidade não era um debate ao vivo na Palestina do primeiro século; ninguém se preocupou em distinguir entre a inerrância e a infalibilidade, advertências sobre os manuscritos originais foram raras, e você não pode afirmar a infalibilidade como pertencente a Sociedade Teológica Galileia. Na verdade, a maioria das declarações famosas de Jesus sobre a veracidade e a permanência das escrituras judaicas “de modo nenhum passará da lei um só i ou um só til, até que tudo seja cumprido”, “a Escritura não pode ser anulada”, “está escrito”, “convinha que se cumprisse a escritura”,“Davi, movido pelo Espírito Santo”, e assim por diante, dando a impressão de terem sido basicamente incontroversas com as suas audiências originais. Se houvesse partes da Bíblia Hebraica que Jesus, ou qualquer outra pessoa que encontramos nos Evangelhos, considerasse equivocadas (que, pelo que sabemos do judaísmo do primeiro século, seria uma visão muito incomum), eles não deixaram nenhuma indicação nos registros que temos. A ideia de existirem erros na Torá, por exemplo, não teria ocorrido a ele, ou a qualquer um de seus primeiros seguidores.

Não só isso, mas muitas das passagens bíblicas que as pessoas hoje consideram as mais preocupantes, e as mais propensas a estarem “equivocadas”, são afirmadas também a torto e a direito por Jesus e pelos apóstolos, com total despreocupação por quaisquer subsequentes histórico-crítico alvoroços que possam emergir. A criação, a origem da morte nos humanos, o assassinato de Abel por Caim, uma inundação cataclísmica de julgamento, o juízo de Sodoma e Gomorra, a origem mosaica da Torá, o maná do céu, a expulsão dos cananeus, o autoria Isaiânica das canções do servo, e assim por diante, é quase como se Jesus e seus seguidores saíssem de seu caminho para afirmar e validar todos as mais difíceis e recalcitrantes curvas apologéticas do Tanakh, apenas para tornar a vida difícil para os intérpretes ocidentais pós-Iluminismo. É possível, é claro, que Jesus e os apóstolos também estivessem enganados, e que a sua afirmação de todos esses textos desafiadores do Antigo Testamento reflitam nada mais do que os seus horizontes limitados de compreensão. (A maioria dos cristão não está preparada para chegar nisso, é claro, e eu também não; aqueles que o fazem, mesmo que mal orientados a meu ver, são pelo menos consistentes.) Mas é difícil argumentar a favor de uma Bíblia errante com base nas palavras e ações de um Jesus inerrante.

Interpretação Adequada

Então, quando perguntado a questão, “A Bíblia contém erros?” Eu sempre respondo: “Quando interpretada corretamente, não.” Essa primeira cláusula é importante; afinal, uma enorme quantidade de pessoas na história tem pensado que a Bíblia diz que a terra é o centro do universo, plana, e construída sobre pilares. Há também uma infinidade de textos cujo significado literal não pode ser o seu original — indo do obviamente poético (“seus seios são semelhantes a cachos de uvas”) para o obviamente simbólico (“então eu vi uma besta que sai do mar”) e o alcance significado o, obviamente, hiperbólica (“corte o seu olho e jogue-o fora”), bem como um grupo de outros textos cujo significado literal pode ou não ser o seu significado original (como qualquer um que tenha lido Paul Copan em Josué, Tom Wright no Sermão do Monte, ou Greg Beale sobre o Apocalipse vai saber). Consequentemente, é necessário cuidado, especialmente em um contexto de igreja onde declarar que “a Bíblia não contém erros” pode ser tomado como código para “a tribulação durará três anos e meio, cada amalequita foi morto por Saul, a lua vai literalmente se transformar em sangue, um dia, os dons de revelação cessarão totalmente, e a evolução é inteiramente bobagem.” Quando a Bíblia é interpretada corretamente, é completamente verdade em tudo o que afirma. Quando ela é interpretada de forma incorreta, não há limites para o absurdo que podemos supor que ela ensina.

Isso, eu suponho, pode ser a razão pela qual algumas pessoas odeiam a palavra “inerrância” — ela está condenada por associação. Como um termo, ele parece carregar toda sorte de bagagem não associada com a alegação de que a Bíblia é completamente verdadeira (o que, aceitemos, é uma palavra muito mais simples e muito menos complicada para isso): divisão intradenominacional, uma cultura “senha” da qual algumas pessoas estão “por dentro” e algumas pessoas estão “por fora”, um acordo de tudo-ou-nada onde ou tudo na Bíblia é verdadeiro ou nada é, e a elevação da Bíblia acima de Jesus como o lugar de nossa fé e devoção. Em minha mente, as associações são diferentes: convicção evangélica, estudo diligente, confiança nas Escrituras como a Palavra de Deus, liderança corajosa e missão sacrificial. Mas eu percebo que em alguns círculos, as palavras são contaminadas (como eu descobri quando vim pela primeira vez para os Estados Unidos e deixei ser conhecido que eu era um carismático). Em tais casos, podem ser as ressonâncias da palavra ao invés do seu significado real que causam problemas as pessoas.

Mas eu não acho que a resposta é odiar a palavra. Se tivéssemos que abandonar toda a palavra que tenha sido contaminada pelo mau uso, teríamos que remover dezenas de descritores de nosso léxico, começando com “cristão” — apenas para descobrir que as substituições que trouxemos também foram manchadas ao longo do tempo por inépcia, mentalidade de grupo, insensibilidade e arrogância. No momento, então, continuarei esperando pelo dia em que alguém, eventualmente, me perguntará se eu acredito na inerrância, momento em que responderei que sim. E se eles não concordarem, tomarei o cuidado de ser mais agradável ainda para com eles.


Publicado originalmente no The Gospel Coalition 
Traduzido por Patricia Outeiro Ribeiro

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