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Quando a nova Bíblia do Leitor ESV chegou às minhas māos, abri primeiro em Ezequiel. Não tenho certeza do porquê, exceto que há muito tempo havia negligenciado este livro, e me pareceu como um bom livro para ler diretamente, sem obstrução de títulos e números de capítulos e versículos.

Quando cheguei ao fim de Ezequiel, comecei de novo. E depois eu o li uma terceira vez.

A cada vez eu ficava mais impressionado com a crueza do livro. Os livros proféticos (bem como os próprios profetas) são desnivelados. Ezequiel é abrasivo. As imagens de Deus são contundentes, mesmo quando às vezes são incríveis demais para a imaginação humana captar. Algumas cenas parecem algo vindo de um filme de ficção científica. Outras cenas são teatro de rua sem verniz. O livro sempre surpreende com o simbolismo e os lamentos de coração quebrantado, deixando o leitor prostrado sob o peso da transcendência santa de Deus, quase ao ponto de nos espatifar. E então, num relance, o amor firme de Deus aproxima-se e promete habitar com seu povo, até mesmo habitar dentro do seu povo.

Terminei de ler Ezequiel pela terceira vez e com a minha mente ainda girando, olhei minha pilha de novos livros, recém-chegados das impressoras de editores cristãos,. Passei os olhos por alguns deles, mas em nenhum lugar encontrei um vislumbre do Deus de Ezequiel que eu havia contemplado momentos antes.

Exceto por um. Tem um título que é diferente. Yawning at Tigers: You Can’t Tame God, So Stop Trying [Bocejar Frente a Tigres: Não Se Pode Domesticar a Deus, Portanto Pare de Tentar] é um livro escrito por Drew Dyck, editor do Leadership Journal. É um livro que resgata o maravilhoso Deus de Ezequiel.

É Bom – Mas Não Domesticad

Tal como o título de Dyck indica, o Deus vivo do universo é indomável. Ele é bom, mas não é sem perigo. Se tentarmos subjugá-lo, poderemos perder um braço, ou algo ainda pior.

O Deus vivo do Antigo Testamento ruge como um leão (Isaías 31.4; Jeremias 25.30; Oséias 11.10; Joel 3.16; Amós 1.2).

O Deus vivo do Novo Testamento é o Leão de Judá (Apocalipse 5.5).

Como escreveu Michael Horton: “Hoje em dia, ninguém parece pensar que Deus é perigoso. E isto em si, é uma omissão perigosa”.

É perigoso porque antes de bocejarmos para Deus, devemos primeiro substituir o majestoso, santo e fantástico Tigre das Escrituras por um gatinho domesticado, conformado aos padrões do mundo, medido pelos critérios do que é politicamente correto. Quem deseja um Deus que ruge, que ameaça, que julga? Ao invés disto, por que não estilizar um deus ao nosso gosto; um deus amigável que podemos acariciar, colocar numa coleira e exportar para ter apelo popular?

Bocejar.

Talvez tenha sido o conteúdo de Ezequiel que me preparou para isto, mas Bocejar Perante Tigres é exatamente o que a indústria editorial cristã necessita, um livro humilde, mas profético, apontando a loucura dos cristãos que se entediaram com o deus que inventaram, um deus que não exibe ira, que perdeu sua santidade majestosa, que nunca conclamaria à guerra, e que foi aplainado. Um deus que nunca encontraríamos nas páginas de Ezequiel, um deus perfeitamente domado e sem riscos.

Valores em Jogo

Dyck tem um melhor entendimento. Nossa adoração, nossas vidas, nossa santidade e nossa alegria exigem que adoremos a um Deus com quem nunca nos atrevamos a brincar. Para sabermos que somos verdadeiramente amados, Isaías 6 necessitou nos levar ao chão de joelhos, diante da majestade de Deus.

Dyck escreveu: “Aqui está a bela ironia: tornar a Deus estranho, na realidade nos permite conhecê-lo melhor. Após havermos nos maravilhados com sua magnitude e mistério, somos capazes de alcançar a profunda intimidade que advem de uma verdadeira apreciação por quem Deus é” (39)

Deus não é como nós, e presumir que deveria ser como nós, revela nossa terrível ignorância (Salmo 50.21). Numa entrevista recente, Dyck explicou que “somos tentados a projetar nossa humanidade em Deus”. “Presumimos que a ira de Deus é semelhante a nós fazendo birra infantil. Na realidade, como explica a Bíblia, a ira de Deus é uma ira perfeita e santa, diferente de nossa ira pecaminosa tal como a noite é do dia. Então, quando Deus mata alguém na Bíblia, não podemos aceitar isto porque imaginamos o quão errado seria para nós matarmos alguém. Mas deixamos de levar em conta o fato de que Deus tem todo o direito de tomar uma vida, porque ele a deu em primeiro lugar. Como cultura, trabalhamos bastante para estabelecer a paridade, e a igualdade entre as pessoas, e isto é muito bom. No entanto, então projetamos isto em direção aos céus e dizemos: Deus, você tem que jogar pelas mesmas regras que nós.”

Ele não faz isto. Deus é Deus: toma decisões por sua própria iniciativa e sem explicá-las todas a nós (Romanos 9.20). Quando confinamos a Deus dentro de parâmetros, não limitamos a Deus, mas solapamos nossa própria vida espiritual e missão de cinco maneiras.

1. Tédio com Deus Nos Custará Nossa Adoração

A realidade, a tragédia, é que todos nós bocejamos para Deus em algum momento. Dyck escreveu que “Nossas vidas espirituais simplesmente se tornam uma espécie de rotina, apática e seguimos em frente fazendo de conta”. “Não paramos nunca para pensar: ‘O Deus que adoramos é o Deus de Isaías 6, sublime e exaltado, o Deus perante o qual as pessoas se prostravam como mortas.’ Necessitamos nos lembrar da majestade dramática de Deus, para que não fiquemos apáticos diante deste Deus enorme e santo.

“Quando escolhemos o amor de Deus sem levar em conta sua santidade, a ironia cruel é que acabamos perdendo a ambos. Se não se trata do Deus enorme e majestoso “que habita em luz inacessível”, então seu amor perde o significado (1 Timóteo 6.16). Necessitamos afirmar sua santidade para realmente apreciar a magnitude do seu amor.” Estas verdades entrelaçadas, ou seja, a santidade de Deus e Seu amor, encontram a sua união mais profunda na cruz de nosso Salvador.

Ao final, se perdermos a magnificência da santidade de Deus, perderemos nossa adoração.

2. Tédio com Deus Nos Custará Nossa Pureza

Após bocejarmos perante o tigre triplamente santo, é provável que adotemos uma ética sexual maleável. Uma apatia que dá de ombros frente à fornicação ou as práticas homossexuais, é uma desprezar da glória de Deus. Sem a santidade transcendente de Deus, a santidade pessoal rapidamente fica difusa.

“Se não vemos a Deus como santo, se o vemos apenas como amoroso e acolhedor, nos envolveremos em todo o tipo de comportamentos que consideramos que nāo trarāo consequências, visto que Deus na realidade, nāo vê o pecado como sendo tāo sério. Ele está mais a fim de nos acolher e tolerar nosso comportamento.”

A santa transcendência de Deus não só nos protege de preguiça em nossa ética; também nos capacita para mudanças pessoais. “Creio que muitas pessoas por aí já tentaram muitas coisas diferentes para mudarem a si mesmas. Leram todos os livros de auto-ajuda que encontraram, buscando o segredo. Fizeram uma oração estereotipada. Em última análise, é claro, não funciona. O que gostaria de dizer a estas pessoas é: E se o que está faltando em sua vida são as coisas profundas de Deus? E se apenas uma visão arrebatadora da santidade e do amor de Deus possa ultimamente fazer a diferença em sua vida?”

3. Tédio com Deus Nos Custará Nossa Missão

A transcendência de Deus alimenta nossa missão. Isto também vem de Isaías 6. “Embora inicialmente Isaías tenha se sentido esmagado e aterrorizado e incapaz de até mesmo falar, ele termina por dizer: ‘Eis-me aqui! Envia-me a mim”(Isaías 6.8). Ele adquiriu uma nova disposição para realizar a missão de Deus porque testemunhou um Deus enorme e santo. Creio que o mesmo se passa conosco. Quando vemos Deus por quem realmente é, cumprir sua missão no mundo já não é um dever temido. Torna-se um deleite. Ficamos empolgados para fazer sua missão.

“Por mais impopular ou desconfortável que possa ser falar de um Deus perigoso, é crucial que o façamos”, ele reitera no livro. “Não só porque necessitamos ter uma visão correta de Deus. E não meramente porque desejamos receber as incríveis recompensas prometidas aos que temem ao Senhor. Ver a Deus como sendo perigoso é essencial para como vivemos. Como filhos de nosso Pai nos céus, nós, também, somos chamados a ser perigosos. Não estou falando sobre sermos violentos ou destrutivos. Mas, tal como Deus, devemos ser perigosos para o mal e para a injustiça, uma ameaça santa para qualquer coisa que faça rapinagem sobre os inocentes, que esmague os impotentes ou que escravize as pessoas ao pecado” (60).

Se o nosso Deus não é perigoso, como poderemos nós sermos perigosos para o pecado e para o mal? Nossa missão ficaria em risco.

4. Tédio com Deus Nos Custará Nosso Lugar na Obra Global de Deus

Após nosso tédio com Deus ter nos custado nossa adoração e nossa energia missionária, então nos custará nosso lugar na obra global de Deus. Sabendo que Dyck estuda tendências na igreja, está ele otimista ou pessimista sobre se a igreja nos Estados Unidos pode recuperar a transcendência de Deus?

“Eu diria que não sou otimista, mas esperançoso.”

Ele explica por que analisando três tendências simultâneas.

Primeiro, as más novas. Nos Estados Unidos, 34% das pessoas com menos de 30 anos se dizem “sem religião”, o que triplicou em apenas algumas décadas.

“Se houver um lado bom, acho que veremos emergir um núcleo menor e mais comprometido de cristãos. Estamos vendo a morte do nominalismo, (do cristianismo-em-nome-apenas) na América do Norte. Ser cristão não é mais o que o torna um bom americano. Não há pressão social para ir à igreja. É perfeitamente aceitável, em vez disso, cortar a grama e beber martinis. Portanto, creio que veremos um núcleo menor e mais puro.”

Ele termina com a tendência mais encorajadora. “Na igreja global, vemos uma fluorescência de fé que não havíamos visto desde o livro de Atos. Na China, há previsões que dentro de 20 anos, um terço da populaçāo pode ser cristã. Na África, onde há 100 anos 10% dos africanos identificavam-se como cristãos, hoje é 54%. Na América do Sul, cidades inteiras estão sendo envoltas em avivamento. Deus está agindo. Jesus prometeu que edificaria sua igreja, e as portas do inferno não prevaleceriam (Mateus 16.18). A década de 1990 marcou o maior ingresso de pessoas na igreja na história da igreja.”

Quando se trata de proclamar a Deus tal como ele se revelou nas Escrituras, a igreja americana pode ser deixada para trás.

5. Tédio com Deus Nos Custará Nossa Relevância

Finalmente, ao Dyck ver o fruto do ministério do evangelho em nível internacional e vê novas oportunidades em todo o mundo e aqui em casa, ele está menos interessado em tentar corrigir o fluxo incessante de caricaturas fabricadas de deuses domesticados sendo formuladas nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha.

“Cansei de me desculpar por Deus”, diz ele. “A cada poucos meses, um ateu escreve um livro acusando Deus de ser maldoso e, de alguma forma, simultaneamente inexistente. Então, gastamos galões de tinta em resposta tentando defender as ações de Deus. Não estou tentando criticar os apologistas, porque creio que o que fazem é crucial. Meu problema é que depois de termos descontado todas as passagens na Bíblia em que Deus parece maldoso, o que temos é um deus desafortunado e mal compreendido.

“Prefiro apenas dizer: Ei, escute. Deus é perigoso. É assim que a Bíblia o retrata. Não é necessário gostar disto. Poderá negar sua existência. Pode tentar acariciá-lo se quiser, mas não espere ter seu braço de volta. Cansei de tentar descontar as perigosas qualidades de Deus, porque algumas delas não são explicáveis, e porque em algum nível devemos simplesmente aceitar a maneira como ele escolheu revelar-se.”

A Relevância da Transcendência

Colocar a Deus numa jaula daquilo que é politicamente correto não vai acontecer. A tentativa em si provará ser a morte de nossa adoração, nosso evangelho, nossa missão e nossa santidade. No final das contas, nos tornaremos triviais.

“Penso que em todo coração continua a existir um desejo profundo de estar na presença de um Deus santo e transcendente”, diz Dyck. “As pessoas têm sede de transcendência. Necessitam ouvir sobre um Deus santo. E mesmo que neguem que são pecaminosos, penso que no fundo eles sabem que o são, sabem que necessitam da graça e da misericórdia de um Deus santo.”

Deus não é um gatinho. Ele é um tigre. Ele é bom, mas ele não é domesticado. Ele é o Deus que encontramos em Ezequiel. Se optarmos por viver negando isto, nossa adoração irá se enfraquecer, nossos padrões de pureza diminuirão, nossa missão chegará a uma parada brusca, nossa mensagem será esvaziada, e nossa parte no trabalho global de Deus se tornará cada vez mais trivial.

A irrelevância cultural pode não ser a pior conseqüência de bocejar perante Deus, mas é certamente uma delas.


Publicado originalmente em DesiringGod.org.

Traduzido por Rafael Salazar.

 

 

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