O Que os Millennials Realmente Pensam Sobre o Evangelismo

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Há semanas, um novo relatório do Barna Group surpreendeu a quase todos.

Quase metade — 47% — dos millennials cristãos praticantes disse ao grupo de pesquisa que “é errado que alguém compartilhe sua crença pessoal com uma pessoa de outra fé, na esperança de um dia compartilharem a mesma fé”. (Barna define “cristão praticante” como aquele que se identifica como cristão, concorda fortemente que a fé seja muito importante em sua vida e que tenha frequentado a igreja no último mês.)

A resposta dos artigos de notícias e postagens de blogs lamentando e explicando a constatação se estende por cinco páginas de resultados do Google. (a TGC apresentou duas reações.)

“Novas pesquisas do Barna Group e dos criadores do curso Alpha oferecem algumas notícias decepcionantes”, relatou Christianity Today. Os números fazem dos millennials “a geração mais adversa ao evangelismo já registrada”, escreveu a revista Relevant. “Estarão os cristãos da geração do milênio realmente matando a evangelização?” perguntou a Catholic News Agency.

E é verdade — se metade dos millennials evangélicos creem que compartilhar sua fé é moralmente errado, o futuro do evangelismo estaria em sérios apuros.

Mas isto não é exatamente a verdade.

‘Não Estamos Vendo Eles Recuarem’

“É um ótimo estudo”, disse o diretor do Billy Graham Center Research Institute, Rick Richardson. “E a Barna faz um ótimo trabalho. No geral, esta pesquisa se coaduna bastante com a nossa”.

Exceto por aquela resposta.

“Muito depende de como a pergunta é feita” disse ele. “Não há como saber o que as pessoas estavam pensando quando responderam.”

É possível que os jovens se concentraram na frase “de outra fé” pensando em católicos, ou até mesmo em uma denominação protestante diferente da deles. Ou talvez a frase parecesse excluir os ateus e os agnósticos, que na maioria das vezes vêm à mente como pessoas necessitadas do evangelho.

Em qualquer caso, “chegar à conclusão de que 47% dos millennials cristãos creem que compartilhar a própria fé é sempre errado, seria uma conclusão errônea”, disse Richardson.

Isto não se alinha com o que Richardson observa, nem mesmo com o resto da pesquisa da Barna. Millennials cristãos praticantes disseram que parte de sua fé significa ser uma testemunha sobre Jesus (96%), que a melhor coisa que pode acontecer a alguém é conhecer a Jesus (94%), e que quando alguém levanta questões sobre a fé, eles sabem como responder (86%).

Também não se alinha com uma pesquisa da LifeWay Research e da Ligonier Ministries, divulgada neste outono. Os pesquisadores perguntaram a 3.000 adultos norte-americanos se “é importante que eu pessoalmente encoraje os não-cristãos a confiarem em Jesus como seu Salvador”.

Cerca de 58% dos jovens de 18 a 34 anos concordaram — mais do que qualquer outra faixa etária, e subiu dos 48% em 2016. Se for restringido a apenas jovens evangélicos, o número sobe para 89%.

“Não estamos vendo eles recuarem do evangelismo”, disse o diretor executivo da LifeWay, Scott McConnell.

A Campus Outreach também não está observando isto.

“Até onde lembro, estamos vendo o mesmo número de pessoas, se não mais, virem a Cristo nos campi universitários”, disse Brian Lewis, que está na Campus Outreach há 32 anos. “E adivinha quem está trazendo a maioria dessas pessoas a Cristo? Os millennials da nossa equipe”

Em janeiro, durante um retiro de inverno da Cru (Campus Crusade for Christ) para seis universidades do Nordeste dos EUA, cerca de 65 estudantes passaram uma tarde aprendendo a compartilhar sua fé.

“Não ouvi reações do tipo ‘não dá para acreditar que estamos perdendo tempo com isso’ ou ‘Isso é ofensivo’”, disse Rachel Gilson, uma millennial que trabalha para a Cru na Boston University (BU). “O que ouvimos dos alunos foi que estavam muito gratos por terem um lugar para conversar sobre o compartilhar da fé de uma maneira cativante e cristã”.

Extra Sensível

Aqui está uma conclusão melhor para tirar da pergunta de Barna: Millennials são mais sensíveis do que as gerações anteriores sobre como compartilham sua fé.

Seus colegas e amigos seculares acham que evangelizar “é um movimento colonialista agressivo”, disse Gilson. “Isto aciona todos os alertas. . . . Meus alunos estão muito cientes da visão do homem branco do século XIX que vai para a África ou ao Sudeste Asiático e não apenas compartilha o evangelho, mas também tenta forçar as pessoas a se tornarem europeias. Eles querem ficar o mais longe disso possível.”

Em uma pesquisa de 2015, quase metade dos estudantes da Wheaton [Faculdade cristã] disse que o maior obstáculo para compartilhar sua fé era o medo do que outras pessoas pensariam deles, disse o professor de física Robert Bishop. Ele também é diretor associado da Wheaton Evangelism Iniciative [Iniciativa de Evangelismo de Wheaton] e presbítero da Igreja Presbiteriana na América.

“Seus comentários incluem falas do tipo ‘sinto que estaria impondo minha opinião sobre alguém’ ou ‘estou preocupado em perder uma amizade’, ou ‘vão pensar que estou sendo crítico’, disse ele. O segundo maior obstáculo foi sentirem-se inadequados nas interações sociais evangelísticas (48,5%), seguido de sentirem-se despreparados (26%).

Nas universidades laicas, os cristãos podem receber muitas opiniões agressivas — em uma aula de ética na BU, o professor critica o cristianismo várias vezes por semana, disse Gilson. “Portanto, os alunos sabem que há uma maneira de compartilhar opiniões que provavelmente gerará reações negativas”, disse ela.

O ambiente pós-cristão — especialmente forte nas universidades e nas áreas urbanas onde vivem muitos jovens — também significa que falar sobre fé “diminuirá seu status social”, disse o pastor de Seattle, David Fairchild. Mais de 30% dos 550 membros de sua igreja são da geração do milênio.

“Tempos atrás, não muito distantes, ser cristão implicava certo prestígio social e abria algumas portas”, disse ele. Hoje, o “leve constrangimento sobre a igreja e o cristianismo que os jovens sentem, não é por causa de Jesus ou até mesmo por sua igreja local. É porque muito do que é oferecido lá fora com o rótulo de Cristianismo é ofensivo e inútil. Ser rotulado como cristão significa que você é um fanático racista e misógino.”

O número cada vez menor de cristãos norte-americanos também significa que os millennials têm mais amigos não-cristãos, disse ele. Quando jovens cristãos leem perguntas como as de Barna, provavelmente estão pensando em uma pessoa específica. Para as gerações mais velhas, a questão pode ser mais teórica e, portanto, mais fácil de responder.

“O ambiente é um pouco mais hostil agora”, disse Lewis. “Parece que a temperatura aumentou.”

Portanto, não é de se surpreender que a geração do milênio tenha o cuidado de não ofender. Certamente, ser gentil com as pessoas e ter cuidado com o seu tom de voz é uma ótima ideia.

É um dos pontos mais fortes desta geração, mas também é o seu maior desafio.

Maior Obstáculo

Quase três quartos dos millennials (73%) disseram a Barna que “tinham o dom de compartilhar a fé com outras pessoas”, mais do que a Geração X (66%), os Boomers (59%) ou idosos (56%).

É um número estranho de se ver ao lado dos 47% que disseram que compartilhar a fé era errado. Isto significaria que pelo menos 20% dos millennials creem que (1) tem um dom para compartilhar sua fé e que (2) usá-lo com a esperança de uma conversão é errado.

“Eu me pergunto se os alunos que estão dizendo: ‘Sou bom em compartilhar minha fé’ estão pensando: ‘Sou cativante ao compartilhar que tenho fé'”, disse Gilson. “Isto é diferente de compartilhar o evangelho.”

A Cru diz aos alunos que eles “não compartilharam todo o evangelho com uma pessoa até que a levem a um ponto de tomar uma decisão. Não significa que conversas que não atinjam este ponto não sejam valiosas. Mas precisamos levar pessoas a enxergarem a escolha — ou são a favor ou são contra Jesus como seu Salvador.”

Conduzir a conversa do “isso é verdade para mim” para “isso também é verdade para você” é o maior desafio desta geração, disse Richardson.

“Você pode compartilhar sua história de fé, mas não insinuar que alguém deva crer naquilo que você crê”, disse ele. “Como dar o passo e dizer que eles devem crer naquilo que você crê? Esta é a grande transição nas conversas e relacionamentos ”.

Fazer isto é difícil para todos os cristãos, não apenas para a geração do milênio. Uma pesquisa da LifeWay em 2016 revelou que apenas um terço de 2.000 norte-americanos que não vão à igreja já ouviu falar dos benefícios de ser cristão (35%).

“Pessoas que nāo frequentam uma igreja indicaram que conhecem cristãos, mas na maioria das vezes não dizem que os cristãos estão falando demais sobre sua fé”, disse McConnell. “Não estamos forçando o limite. Não estamos exagerando.”

A maioria das pessoas que não frequentam igrejas (79%) respondeu “se um amigo meu realmente valoriza a própria fé, não me importo que fale a respeito”. Quase metade disse que “interagiria tranquilamente” se o assunto fosse abordado (47%).

“Se os jovens adultos estão hesitantes — e com base em todos os dados, não penso que estejam — eles podem estar sendo mais sensíveis e delicados do que necessitam ser”, disse McConnell.

De Histórias a Decisões

Os millennials ouvem e contam suas histórias de uma forma diferente do habitual testemunho “eu era uma pessoa horrível que foi salva por uma oração e agora sou uma pessoa incrível” que costumava ser compartilhado nas igrejas e reuniões ao ar livre, disse Fairchild.

Ele os instrui a compartilhar “histórias de microrredenção” da vida cotidiana — “Briguei com minha esposa na noite passada, eu pequei desta maneira, e eis como Deus me perdoou e ajudou minha esposa a me perdoar”. Estes episódios demonstram aos amigos incrédulos “o que acontece quando nos revestimos de Cristo”, disse ele.

A Cru ensina da mesma maneira. “Uma das principais coisas que fazemos é ajudar funcionários e alunos a descobrirem como compartilhar seu testemunho de uma forma que as pessoas ao seu redor possam ver que Jesus é relevante nas suas vidas agora”, disse Gilson. “Não queremos dizer que oramos aos 5 anos e agora está tudo bem. Queremos mostrar como Jesus se relaciona com um jovem de 20 anos todo estressado”.

Falar sobre o estresse — ou a raiva, ou luta contra a pornografia, ou uma péssima e constrangedora decisão — é crucial para uma geração que foi alvo do ‘marketing’ desde o primeiro contato com o smartphone de seus pais. (Com as mídias sociais, eles também se propagandeiam.) “Eles percebem a falsidade de longe”, disse Fairchild. “Têm um ótimo filtro, e valorizam a autenticidade.”

Mas então, a geração do milênio precisa preencher a lacuna entre “Jesus está tornando minha vida melhor” e “Você tem que decidir se é a favor ou contra Ele”, disse Gilson.

No Wheaton College, Bishop ensina aos seus alunos o idioma a ser usado.

“A segunda lei da termodinâmica nos diz que para transformar energia em algo útil, há um custo de energia”, diz ele, ajudando os alunos a verem uma linha clara entre a física e a cruz. “À medida que nossos corpos transformam a comida que ingerimos em energia que nos mantém em movimento, há uma quantidade de energia liberada em forma de calor que nos mantém aquecidos e saudáveis. Deus criou um mundo onde um fato físico comum, em que normalmente não pensamos, possibilita a vida ”.

A primeira reação deles é: “Oh, nunca tinha notado isso”, disse ele.

Um Deus que nos ama o suficiente para nos dar a segunda lei da termodinâmica, diz Bishop aos alunos, também deu seu Filho por nós.

Se você está conversando com um incrédulo sobre isso, “pode falar sobre o amor de Deus em Cristo de várias maneiras: ‘O amor sempre tem um custo, você notou?'” Para vivermos plenamente no amor de Deus, Ele fez o sacrifício final a fim de nos levar a um relacionamento com Ele’”.

Então, a chave

Se a conversa progredir, “você poderia perguntar algo como: ‘Existe algo que esteja te impedindo de aceitar a Jesus como seu Salvador agora?’” diz ele aos alunos.

Na Trinity West Seattle, Fairchild usa uma geração mais antiga para ajudar os millennials a fazerem uma ponte sobre este fosso. Em grupos comunitários de idades variadas, ele encoraja os membros mais velhos a “estarem engajados com os millennials quando fizerem perguntas.”

Ele gosta das possibilidades de ter um mentor para a evangelização. “É tão lindo quando a geração do milênio diz: ‘Ei, o que você faz com isso?’”

Bom Evangelismo dos Millennials

Em cada geração, “há aspectos em que realmente nos alinhamos com Deus, porque Ele nos criou à sua imagem”, disse Gilson. “E cada cultura tem coisas que estão fora de sintonia com Deus, porque somos caídos”.

Não importa suas forças ou fraquezas, “não vamos nos deparar com uma geração cujo coração seja mais duro ou mais poderoso do que a Palavra de Deus em mudar e moldar um coração para o evangelismo”, disse Lewis.

Gilson concorda. “O evangelho é o mesmo. Temos todas essas barreiras que desmoronam instantaneamente uma vez que o Espírito atua. . . . Para citar Sam Allberry [pastor e editor da TGC], ‘é ridiculamente fácil para Deus salvar alguém.’”

Da mesma forma que as gerações anteriores, disse ela, “quando os millennials vêem que Deus é real, que Ele está agindo e que suas promessas são relevantes — querem compartilhar com seus colegas e amigos”.

 

Traduzido por Juliana Reimer

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