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Felipe Neto e o Discipulado

Eu já fui mais entusiasta de falar dos hot topics. Acreditava que a resposta e os posicionamentos deveriam ser rápida e prontamente estabelecidos. Hoje penso que não vale a pena falar sem algum tempo de ponderação. Mas alguns assuntos do momento devem ser considerados e comentados, dada a sua urgência e relevância. Por isso penso que devemos falar sobre o youtuber e influencer Felipe Neto.

Acredito que é uma estratégia ruim dar “ibope” e colocar em evidência aqueles que se envolvem em polêmica exatamente para ser vistos. O melhor tratamento para quem quer “causar” é deixar tal pessoa na irrelevância. Mas o fato é que, com quase 40 milhões de inscritos no Youtube, não é possível dar algum ibope ao Felipe Neto que ele já não tenha.

Por isso, a lógica de ação é diferente. Não é adequado tratá-lo como se não existisse e como se a omissão resolvesse o problema. Deixar de refletir e lidar com a questão pode nos colocar na confortável posição de não fazer nada, ao mesmo tempo em que o problema cresce aos nossos olhos.

Mas qual é o problema?

O “problema” Felipe Neto

Com um público amplo de crianças e adolescentes, o YouTuber tem apresentado desafios significativos às famílias e, se não desafios diretos ao cristianismo, pelo menos pontos de reflexão para a igreja cristã.

Alguns colocarão a pauta dos costumes como o problema central. Neto fala abertamente a partir de uma moral distorcida, com piadas sexuais, críticas à visão bíblica de sexualidade, defesa da agenda LGBT, dentre outros exemplos.

Mais recentemente, a pauta agora é da ideologia política. Neto decidiu fazer frente ao governo Bolsonaro e ao conservadorismo político. Como resultado da ocupação desse espaço, já participou de programas como o Roda Viva, gravou vídeo de opinião em inglês, veiculado pelo New York Times, participou de live com o ministro Luís Roberto Barroso (do STF), foi convidado pelo presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, a debater o projeto de lei das “fake news” (PL 2630/2020) e tem aparecido em outros programas e veículos como o Jornal Nacional e Globo News.

Cada oposição traz uma agenda implícita. A contraposição à direita manifesta um alinhamento a perspectivas situadas à esquerda no espectro político. Se há coerência ou intencionalidade é passível de discussão, mas a realidade é que a voz de Felipe Neto tem servido à causa progressista.

O problema é a pauta dos costumes de a ideologia política? O cristão deve considerar tudo isso, mas pensar além: a questão é mais profunda.

O dilema subjacente

Felipe Neto não é problemático apenas por suas piadas de duplo sentido e iniciação de crianças e adolescentes em um imaginário sexual pervertido. Não é ruim apenas por se tornar porta-voz da esquerda ou do beautiful people do Roda Viva.

Ele é um problema porque, no conjunto dessas obras e além delas, providencia um modelo e rotinas que apresentam uma visão do que é a boa vida, e capturam o coração de crianças, adolescentes e jovens.

Vê-lo agir como um irresponsável em diversos vídeos, capitalizar sobre futilidades, e estabelecer uma liturgia da estultícia, com vídeos novos diariamente, produz um efeito maior do que se considera, em um campo mais relevante do que o da política ou de práticas sociais aceitáveis – o campo do coração.

Não é correto pintá-lo como o diabo. Neto é um homem, com todas as complexidades que os filhos de Adão carregam. Não é anjo, como querem alguns, nem demônio, como querem outros. Por isso, assim como se fala em um ataque coordenado, com vários vídeos resgatando declarações passadas e acusações maiores, não é sem razão a defesa coordenada do rapaz, com manifestações de solidariedade e apoio de artistas, jornalistas e instituições.

Não é que entidades e celebridades se importem com Felipe Neto. No projeto coletivista, o indivíduo não tem valor intrínseco. A questão é estratégica. Felipe Neto é importante por ter construído a sua audiência e relevância, que agora pode ser instrumentalizada para uma causa.

Independentemente de se crer em uma conspiração ou não no contexto moral e político, sempre haverá uma causa no coração de quebradores do pacto: a causa da autonomia, expressa na cosmovisão humanista secular, que balança o berço da sociedade ocidental. Nesse contexto é fundamental lutar contra as representações de tradição, família e fé – notadamente a fé cristã, esse grilo falante acusando a consciência do Ocidente.

A questão central

Não se engane: Felipe Neto é importante porque ele está fazendo o trabalho de discipulado que eu e você deveríamos fazer: um trabalho diário e dedicado, que torna crianças e adolescentes mais próximos dele do que dos professores de EBD ou de seus líderes na igreja.

Enquanto nossas igrejas se omitem das conexões entre a fé cristã e a vida no espaço público; enquanto repetimos chavões evangélicos sem entender as mudanças na forma de nossos jovens e adolescentes perceberem e experimentarem a realidade; enquanto falhamos em ouvir as questões e os dilemas e em oferecer respostas honestas e biblicamente orientadas, há uma catequese acontecendo por YouTubers como Neto – diariamente providenciando modelos e respostas; diariamente tocando não apenas a razão, mas o campo da sensibilidade e o estímulo à vontade; diariamente abrindo aspectos de sua vida e se mostrando “gente real”, com muito mais apelo do que nossa liderança distanciada.

Quando o evangelista Francis Schaeffer (1912 – 1984) fundou a comunidade L’Abri, na Suíça, passou a receber jovens de vários perfis. Muitos deles, no entanto, eram cristãos “perdidos”. Alguns, apresentando suas dúvidas aos líderes, recebiam “tapinhas nas costas” e a resposta: “não se preocupe com isso, apenas creia”. Outros eram incompreendidos. Muitos jamais foram discipulados e alcançados com maior proximidade, mesmo estando na igreja dominicalmente. Isso reflete algo da nossa realidade presente.

Por isso não basta criticar o Felipe Neto. É necessário termos uma caminhada de discipulado mais consistente e intencional. É necessário resgatar um senso de comunidade e o verdadeiro compartilhamento de vida que nos aproximará dos mais jovens para ajudá-los a entender o mundo com as lentes da Bíblia. Esse trabalho é fundamental em cada geração, porque Felipe Neto não é o único influencer, e depois dele outros virão.

Onde estão seus filhos? Onde estão os jovens da sua igreja? Onde está você?

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