Cuidado Com os Perigos Teológicos Vindos Tanto da Esquerda quanto da Direita

Unsplash

Paulo encarrega Timóteo de “guardar o bom depósito” (2 Tm 1.14), que é o Evangelho de Jesus Cristo. Devemos permanecer vigilantes ao guardarmos o Evangelho, porque tanto as Escrituras como a história da igreja nos recordam de que muitos se desviaram da verdade. Mesmo uma leitura superficial do Novo Testamento revela que manter a verdade e a pureza do Evangelho tem sido um desafio desde os primórdios. Não estamos enfrentando nada novo em nossos dias, e temos a promessa de que a Igreja de Jesus Cristo triunfará sobre “as portas do inferno” (Mt 16.18).

Neste artigo, quero considerar brevemente ameaças ao Evangelho — vindas tanto da esquerda como da direita.

Perigos Vindos da Esquerda

O discurso de Paulo aos presbíteros efésios é o único discurso em Atos dirigido aos cristãos (At 20.17–35), e é significativo que seja dirigido aos líderes, aos presbíteros e bispos na igreja (At 20.17, 28). Paulo os adverte nos termos mais fortes sobre o perigo das falsas doutrinas:

“Atendei por vós e por todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo vos constituiu bispos, para pastoreardes a igreja de Deus, a qual ele comprou com o seu próprio sangue. Eu sei que, depois da minha partida, entre vós penetrarão lobos vorazes, que não pouparão o rebanho. E que, dentre vós mesmos, se levantarão homens falando coisas pervertidas para arrastar os discípulos atrás deles. Portanto, vigiai, lembrando-vos de que, por três anos, noite e dia, não cessei de admoestar, com lágrimas, a cada um.” (At 20.28-31)

Como evangélicos, necessitamos ficar alertas ao perigo das falsas doutrinas. Qualquer um que conheça a história das universidades religiosas nos Estados Unidos sabe que o declínio da ortodoxia começou com as dúvidas sobre — e a seguir com a rejeição — da veracidade das Escrituras.

Alguns podem estar inclinados a questionar a preocupação com a ortodoxia e a fidelidade doutrinária que inspiram muitos evangélicos. Podem protestar que tais preocupações são defensivas e negativas, em vez de positivas e construtivas. Mas qualquer leitura do Novo Testamento demonstra que tais preocupações defensivas são adequadas e imperativas. Nas Epístolas Pastorais, Paulo defendeu ardentemente a verdade contra os falsos mestres. Pedro partilha da mesma preocupação em sua segunda carta, e 1 João também se engaja em uma polêmica contra falsos mestres.

Um ministério confiável encoraja e adverte, edifica e contradiz, fortalece e derruba.

De fato, o foco em defender a fé nas cartas do Novo Testamento é enfático e quase surpreendente. Se alguém disser que seu ministério é positivo e nunca negativo, que apenas encoraja e nunca adverte, então se afastou de uma das grandes ênfases do Novo Testamento. Em Tito 1.9, Paulo diz que um presbítero deve ser “apegado à palavra fiel, que é segundo a doutrina, de modo que tenha poder tanto para exortar pelo reto ensino como para convencer os que contradizem” (Tt 1.9).

Um ministério fiel encoraja e adverte, fortalece e contradiz, edifica e derruba.

O perigo vindo da esquerda é que se perde a preocupação com a ortodoxia, que a tarefa de defender e corrigir a verdade é abandonada. A tendência é zombar e ridicularizar aqueles que defendem a veracidade e a inerrância das Escrituras.

Ao mesmo tempo, há perigos vindo da direita também.

Perigos Vindos da Direita

Embora Roger Olson e eu discordemos em uma série de questões, creio que ele nos adverte corretamente sobre o “conservadorismo máximo”. O conservadorismo máximo traça limites em praticamente tudo. Entende-se que defender a fé significa manter a posição mais conservadora em cada temática. O perigo é que nos tornemos como os fariseus, que ergueram uma cerca ao redor da lei.

Muitos exemplos podem ser dados, mas podemos pensar no debate entre os que são Reformados e os que são Arminianos. Com relação à salvação, sou convictamente Reformado, e creio que o ensinamento Arminiano é deficiente. No entanto, há uma diferença entre ser deficiente e ser herético, e não tenho problema em reconhecer que os arminianos estão dentro do círculo da ortodoxia. De fato, a palavra “Arminiano” é anacrônica, pois a teologia arminiana tem uma longa história. Qualquer um que tenha lido João Crisóstomo (347-407 dC) reconhece isso, e se Crisóstomo não é ortodoxo, então o número daqueles que são ortodoxos é de fato pequeno!

É tentador acusar alguém de quem discordamos de ser anti-bíblico e infiel, embora o debate que estamos tendo com esta pessoa esteja realmente dentro do círculo do evangelicalismo — quer o assunto seja os dons espirituais, a doutrina da Trindade ou o aconselhamento. Todos nós, é claro, somos de certo modo não bíblicos e infiéis, a não ser que queiramos dizer que nossa doutrina é perfeita. Cuidado ao acusar alguém de estar fora dos limites da ortodoxia, quando na verdade o único problema é que esta pessoa discorda de você.

Cuidado ao acusar alguém de estar fora dos limites da ortodoxia, quando na verdade o único problema é que esta pessoa discorda de você.

Tal zelo na Direita pode na verdade afastar as pessoas da verdade, porque se os acusarmos de não serem ortodoxos (quando eles são ortodoxos), eles poderão começar a encontrar amigos na Esquerda que não distorcem suas opiniões. Ou, talvez possam começar a pensar: Bem, se isto é ortodoxia, então creio que não sou ortodoxo. Se os parâmetros forem delimitados com demasiada rigidez, podemos inadvertidamente jogar nossos amigos nos braços daqueles que são verdadeiramente não ortodoxos.

Além disso, se condenarmos regularmente como não ortodoxos aqueles que são ortodoxos, corremos o risco de dar alarmes falsos. Quando o verdadeiro lobo chegar, ninguém vai prestar mais atenção a nós, porque criticamos outros com tanta frequência. Se formos negativos sobre tudo, exceto às nossas próprias opiniões, as pessoas começarão a pensar que somos implicantes e nos ignorarão quando houver um problema de fato.

Uma Palavra Final

O diabo (a dificuldade) está nos detalhes [ditado em inglês] e, num artigo curto como este, não posso entrar nos pormenores. Como podemos notar no âmbito político, vivemos em um mundo onde aqueles que discordam são rapidamente demonizados, onde questões sectárias são potencializadas. Como cristãos, não devemos seguir o mesmo caminho. Necessitamos ser vigilantes com relação à verdade e para defender a fé. Ao mesmo tempo, necessitamos ter cuidado para nāo delimitarmos parâmetros demasiadamente rígidos, e para não fazermos acusações de heresia com demasiada rapidez. Necessitamos nos perguntar se o irmão ou irmã simplesmente discorda de nós e da nossa teologia.

Como disse certa vez Roger Nicole sobre pessoas que estavam em meio a uma controvérsia: “Eles pensam que são Martinho Lutero, mas aquilo de que realmente necessitamos é de Martin Bucer”. O equilíbrio do qual necessitamos virá de juntarmos estes dois homens. Em outras palavras, necessitamos simultaneamente da vigilância à respeito da verdade de um Martinho Lutero e do amor pela paz e pela harmonia de um Martin Bucer.

 

 

Traduzido por Cynthia Costa

Compartilhar
CARREGAR MAIS
Loading