As Parábolas de Jesus Não São Ilustrações de Sermão Comoventes

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“Você precisa contar mais histórias quando prega. As pessoas gostam de ouvir histórias. Jesus contou parábolas para que até as crianças pudessem entender.”

Recebi este feedback de sermão de um pastor há alguns anos. Embora a crítica provavelmente tenha sido merecida, fiquei perplexo no momento acerca da razão desta. É realmente verdade que Jesus contou parábolas para que pudesse ser mais facilmente compreendido?

Esta questão está no cerne da Parábola do Semeador.

Celebremente nesta parábola – descrita como a chave para entender todo o restante (Mc 4.13b) – Jesus parece dizer que fala em parábolas não para que seja mais facilmente compreendido, mas precisamente para que seus ouvintes não ouçam e entendam, “para não suceder” que se arrependam e sejam perdoados.

Como devemos lidar com essa passagem difícil?

O Que Jesus Disse?

Aparecendo em Mateus 13.1–23, Marcos 4.1–20 e Lucas 8.1–15, essa parábola é uma das mais importantes que Jesus contou. Como subsequentemente explicou, foca nos resultados vistos quando a semente do semeador (“a palavra”) cai em várias condições de coração. Sementes no caminho são devoradas por pássaros (“o maligno”); sementes brotando em solo rochoso são queimadas pelo sol (“angústia/perseguição”); as sementes que brotam entre espinhos são sufocadas (“cuidados do mundo”); mas as sementes em solo bom produzem múltiplas colheitas. É importante ressaltar que Jesus descreve a última categoria de semente como “o que ouve a palavra e a compreende” (Mt 13.23).

Jesus conta a parábola publicamente para uma multidão, mas em particular para seus discípulos (Mt 13.10). E ele deu uma explicação que por gerações tem surpreendido os que a lêem.

Os três evangelistas (Mateus, Marcos e Lucas) apresentam versões ligeiramente diferentes, mas concordam em duas coisas fundamentais:

O que está em jogo nas parábolas é o “segredo/mistério” do reino de Deus. Dentro de cada parábola – algumas mais diretamente do que outras – está algo acerca da proclamação de Jesus e a inauguração do reino.

As parábolas desempenham um papel surpreendente. Quando Jesus dá sua razão para falar em parábolas, ele não diz: “Para que até as crianças possam entender”, muito menos: “Porque as pessoas gostam de histórias divertidas.” Em vez disso, ele oferece uma razão quase oposta. Existem pequenas diferenças entre Mateus e Marcos/Lucas. Em Mateus se lê “porque vendo, não vêem”, enquanto que em Marcos e Lucas se lê “para que, vendo, vejam e não percebam.” Embora neste ponto Mateus seja um pouco menos severo do que os outros, seu relato mais extenso conclui (tal como Marcos) que as parábolas produzem tais resultados “para não suceder” ou para que o ouvinte não se volte e seja perdoado.

Em outras palavras, Jesus fala em parábolas para que alguns “ouçam” seu ensinamento e “vejam” o reino vindouro, mas não verdadeiramente “ouçam e vejam” (e conseqüentemente, não respondam com arrependimento e fé).
A tensão é imediatamente visível nisto: está Jesus dizendo que sua pregação é projetada para um fracasso em produzir resultados? Está Jesus sendo intencionalmente obscurantista para afastar as pessoas?

O Que Jesus Quis Dizer?

A chave para desvendar as palavras de Jesus está bem à nossa frente no texto. Explicitamente em Mateus e implicitamente em Marcos/Lucas, Jesus revela que está cumprindo as palavras de Isaías. No célebre comissionamento de Isaías, Deus o ordena:

Vá e diga a este povo: “Ouvi, ouvi e não entendais; vede, vede, mas não percebais.” Torna insensível o coração deste povo, endurece-lhe os ouvidos e fecha-lhe os olhos, para que não venha ele a ver com os olhos, a ouvir com os ouvidos e a entender com o coração, e se converta, e seja salvo. (Is 6.9-10).

Enquanto os três evangelistas interpretam esse comando de maneiras ligeiramente diferentes, todos capturam o sentido básico. O duro “para não suceder” de Jesus está enraizado na profecia de Isaías.

Isaías teve uma visão do Senhor e foi encarregado de pregar à nação. Passou sua vida proclamando o julgamento iminente para muitos e a restauração de um remanescente. Deus disse a ele de início, entretanto, que sua pregação às vezes produziria o oposto do que Isaías pudesse desejar: tornaria alguns mais insensíveis e indiferentes, não menos.

Enquanto o ministério de Isaías despertou fé em alguns, ele endureceu ainda mais os que já se afastavam de Deus. Quase de forma chocante, o Senhor disse a Isaías que, no misterioso plano de Deus, seu ministério profético foi concebido, para produzir divisão na nação entre os que se arrependem e os impenitentes.

Quando Jesus, então, toma a comissão de Isaías em seus próprios lábios, ele está revelando que seu ministério produzirá o mesmo resultado.

Mas, por que parábolas?

Amolecimento, Endurecimento

Uma pista do porquê Jesus apresentou seu ministério de parábolas desta maneira pode ser encontrada na própria palavra. O sentido de “parábola” é bastante familiar, normalmente se referindo a histórias curtas com múltiplos níveis de significado (literal, moral e assim por diante). Mas em grego e hebraico, a palavra abrange histórias, enigmas, insultos, provérbios e muito mais – e seu uso nos Evangelhos é semelhantemente variado.

O Antigo Testamento revela que os profetas falaram por parábolas como parte de sua missão. Por exemplo, o Salmo 78.2–4 descreve o profeta como “abrirei os lábios em parábolas. . . contaremos à vindoura geração os louvores do SENHOR.” Da mesma forma, Ezequiel se queixa: “ah, SENHOR Deus! Eles dizem de mim: Não é ele proferidor de parábolas?”(Ez 20.49) – como resposta Deus lhe diz para continuar pregando contra Jerusalém (Ez 21.2).

Os profetas usaram parábolas de todos os tipos para velar e desvendar a verdade, para levar os ouvintes ao ponto de reconhecer seu próprio auto-julgamento e para produzir uma resposta para Deus.

Então, o que exatamente Jesus está fazendo com suas parábolas? Havendo se identificado em outras ocasiões como um profeta (Mt 13.57; Lc 13.33), Jesus afirma estar continuando, até mesmo culminando, a missão profética que Isaías exemplificou. Tal como os profetas antigos, Jesus usou parábolas para revelar o mistério do reino, para estimular reflexão sobre o pecado, para chamar pessoas ao arrependimento – e para produzir o oposto entre os endurecidos contra ele.

Os que têm coração preparado como boa terra, que “têm ouvidos para ouvir” (Mt 13.9), deleitam-se na gloriosa simplicidade e profundas verdades das parábolas de Jesus; a estes Deus deu a “conhecer os mistérios do reino dos céus” (Mt 13.11). Mas para aqueles endurecidos contra Deus, as parábolas são projetadas para permanecerem histórias mundanas sobre horticultura, vinhedos, redes de pesca, economia imobiliária, viagens ou banquetes – nada mais. Para essas pessoas, as parábolas permanecem opacas, veladas e até estranhas – assim como o próprio evangelho.

Ao inspecionarmos cuidadosamente, veremos que Jesus não está sendo obscurantista como um objetivo em si mesmo. Suas parábolas retratam o evangelho e suas exigências em cores terrenas. Mas, como sabemos por outras partes das Escrituras, o evangelho endurece alguns, ao mesmo tempo que amolece outros. De fato, é precisamente através deste mistério de endurecimento e amolecimento que o reino avança.

João 12.40 aplica Isaías 6.9–10 ao ministério de pregação de Jesus para explicar como tantos que ouviram suas palavras “não puderam crer.” Da mesma forma, em Atos 28.24, Paulo explica o resultado líquido de seu próprio ministério – “Houve alguns que ficaram persuadidos pelo que ele dizia; outros, porém, continuaram incrédulos.” – apelando para Isaías 6. 9-10 (cf. (At 20.26-27). Isto é visto mais claramente no modo como a dureza daqueles que rejeitaram Jesus preparou o caminho para a cruz, o que, por sua vez, abre o reino para aqueles que o recebem.

Mistério Soberano

Em suma, a teologia por trás da Parábola do Semeador, e a da observação de João sobre o ministério de Jesus, e a visão de Paulo sobre seu próprio ministério – decorrente do ministério de Isaías – é que a soberania do Senhor na salvação procede de maneira às vezes intrigante, mas auto-glorificadora.

A semente do evangelho é livre e amorosamente espalhada para todo e qualquer um. Mas o solo é o que importa, e somente Deus pode prepará-lo para receber a semente e produzir a múltipla colheita de arrependimento e perdão. Isto liberta o pregador para semear a semente fielmente, e então observar a obra de Deus para mudar corações pecaminosos de acordo com sua vontade soberana.

Traduzido por Rafael Salazar

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