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Os seguidores da Coalizão pelo Evangelho [EUA] provavelmente notaram uma série recente de vídeos e artigos com o título “What Seminary Didn’t Teach (Name) [O Que o Seminário Não Ensinou a (nome)]”. Líderes dentro da comunidade evangélica mais ampla, Don Carson, Tim Keller, John Piper, Mark Dever, Ligon Duncan e outros, estão nessa série e compartilham o que só conseguiram aprender no ministério cotidiano, não no seminário. Essas vinhetas são para divulgação do livro 15 Things Seminary Couldn’t Teach Me [15 Coisas Que o Seminário Não Conseguiu Me Ensinar] (Crossway/TGC), editado em inglês por Collin Hansen e Jeff Robinson. Um dos textos principais foi o “Seminaries Don’t Make Pastors. Churches Do. [Seminários não formam pastores, igrejas formam]” de Albert Mohler.

Essa barragem cheia de conteúdo enfatizando aquilo que os seminários não fazem pode ter levado alguns a perguntar: “Por que a Coalizão pelo Evangelho de repente se voltou contra os seminários?” É uma questão bastante intrigante porque vários dos colaboradores (incluindo os editores) são professores ou presidentes de seminários, e a maioria reconhece o valor do seminário em seus vídeos.

Como sou uma pessoa com um pé em ambos os mundos (seminário reformado e igreja presbiteriana local), fiquei realmente intrigado. Nenhum professor de seminário que eu conheço fingiria que a educação seminarista sozinha “faz” de alguém pastor, ou que capacita futuros ministros, missionários, evangelistas e professores com tudo o que eles precisam (assim como, por exemplo, uma escola de medicina também não). Todos os seminários principais têm como peças proeminentes do pacote educacional completo um programa de estágio no ministério e a preparação para a ordenação.

No entanto, os vídeos e o livro sobre o que faltou podem ter possíveis efeitos colaterais negativos. Eles podem alimentar o que se tornou uma tendência crescente, especialmente entre os movimentos não denominacionais que geralmente não exigem diplomas ministeriais, de rejeitar completamente o papel e o valor do ensino do seminário. Essa percepção vai e vem, mas, como a maioria dos departamentos de matrículas pode confirmar, ela é bastante forte no momento. Muitas pessoas acreditam que os seminários são somente sobre o conhecimento mental, e que a única preparação que você precisa para o ministério é o trabalho prático, seja à sombra de um pastor ou aprendendo a ser pastor na prática.

Em outras palavras, o tema “o que o seminário não conseguiu fazer” pode involuntariamente validar a opinião de que o seminário é um obstáculo inconveniente ou mesmo desnecessário ao “ministério real”.

Sabendo que a série da TGC não estava intencionalmente perpetuando esse equívoco, escrevi uma resposta que tentava complementar e equilibrar a discussão. A Coalizão, por sua vez, gentilmente pediu-me para resumi-la aqui.

Se todos concordamos com o valor do treinamento prático para o ministério, qual é a contribuição dos seminários? Qual valor eles acrescentam que um estágio na igreja, debaixo de um pastor (sobrecarregado), não pode reproduzir? Em outras palavras, por que buscar um treinamento teológico formal?

Aqui estão 15 benefícios oferecidos pelo seminário que seu pastor(ado) ocupado não consegue oferecer.

1. Obter uma Perspectiva Teológica Diferente da Sua

Qualquer igreja na qual você estagiar, quase que por necessidade, tende a pensar dentro de uma determinada tradição sobre assuntos teológicos. No entanto, há algo imensamente valioso em estudar profundamente as visões teológicas de outras partes da cristandade. Conversar com estudantes e professores que possuem, com forte convicção bíblica, uma posição diferente da sua. Estudar argumentos opostos em primeira mão, em vez de filtrados através das mãos de alguém que pense de maneira semelhante. Afiar o seu próprio pensamento, mas também desenvolver uma caridade teológica. Há poucas oportunidades de fazer isso, assim de maneira rigorosa, quando você está lidando com o ministério cotidiano e aprendendo com um mentor com o qual você é incentivado a concordar.

Essa dinâmica também se estende além das linhas denominacionais. O seminário é uma oportunidade incrível para os alunos, homens e mulheres, independentemente das opiniões sobre questões de ordenação, interagirem uns com os outros de uma maneira séria e robusta sobre teologia, ética e prática.

2. Obter Perspectivas Práticas de Pessoas de Fora da Sua Igreja Local

Trabalhar nas trincheiras de uma igreja local pode gerar uma espécie de miopia em termos de como “fazer” a igreja funcionar. Podemos tender a pensar que nossa igreja atual, ou uma experiência anterior na igreja, é o padrão de ouro para todas as coisas.

No entanto, o seminário, em especial um que não seja casado com uma única denominação, oferece uma oportunidade quase inigualável para aprender como outros cristãos sinceros, cuidadosos e historicamente informados fazem coisas práticas no ministério: liturgia, pregação, música, ministério de homens, ministério de mulheres, evangelismo, mídia social e assim por diante. Você não precisa concordar com eles, mas aprender com eles é essencial para ser equilibrado.

3. Pensar de Forma Crítica Sobre Você e Suas Influências Dominantes

Vivemos em uma era de igrejas orientadas pela personalidade. Particularmente em grandes igrejas, há uma tendência a idolatrar a maneira como a sua equipe de ministério ou o seu pastor sênior faz as coisas, e procurar seguir o caminho deles.

Devido à presença de numerosas vozes experientes (corpo docente, palestrantes convidados, colegas) que não são facilmente convencidos pelo seu pastor como você, o seminário oferece uma oportunidade rara de parar e pensar criticamente sobre si mesmo e as suas influências pastorais dominantes em relação a pontos fortes, fracos e cegos.

4. Usar os Idiomas Bíblicos de Maneira Responsável

Você pode aprender o vocabulário hebraico ou os paradigmas gregos online, assinar Podcasts diários e descobrir como clicar no BibleWorks. Mas nada disso cultiva os instintos de exegese responsável que vai além de soltar “porque no original grego” em sermões. E, se não for tratada, a tirania da urgência no ministério pastoral abafará o uso das línguas bíblicas, e ainda mais o prazer em usá-las.

O seminário, pelo menos aqueles que ainda oferecem um treinamento de idiomas robusto e não simplesmente “como usar o computador”, é o principal local em que você pode não apenas aprender os idiomas, mas, mais importante, vê-los usados ​​de maneira responsável. Isso acontece na comunidade, no uso repetido do dia-a-dia, mostrando como as coisas que você memorizou são importantes.

Ninguém se torna carpinteiro assistindo a vídeos do YouTube. Isso só dá a aparência de competência. A competência real e duradoura vem de pegar nas ferramentas e usá-las sob o olhar atento de quem sabe o que está fazendo.

5. Pensar Teologicamente Sobre Questões Importantes

Uma semana de ministério inevitavelmente se enche de crises. A tentação é entrar no modo de reação: faça o que for necessário para deixar a equipe feliz, mantenha os diáconos a bordo, equilibre o orçamento e mantenha a frequência dos membros.

Isso tudo é normal. Mas uma das bênçãos geralmente esquecidas da educação no seminário é que ela força você (por meio de tarefas, palestras, palestrantes) a parar e pensar, em vez de apenas responder. Estudar o amplo ensinamento bíblico, teológico e histórico da igreja sobre algo antes dele se tornar um incêndio em sua própria igreja, e cultivar as disciplinas que permitirão que você continue fazendo isso no futuro.

6. Receber uma Avaliação Imparcial Sobre o Seu Ensino

No ministério na igreja, você tipicamente tem no máximo duas fontes reais de avaliação sobre os seus sermões/lições: (1) o seu pastor/mentor (se você tiver sorte) e (2) alguns membros da congregação (pessoas mal-humoradas, pessoas agradáveis demais, seu cônjuge) que estão dispostos a dizer alguma coisa para você. Isso pode virar uma câmara de eco.

O seminário é uma oportunidade rara de receber críticas sérias sobre a sua pregação/ensino, vindas de colegas e professores que não estão ligados a você, à sua igreja ou ao seu pastor. Eles não hesitarão em lhe dar uma avaliação completa, em amor, de como você está e como pode melhorar. Eles não se importam se o seu pastor sênior quer piadas mais inteligentes. Essa objetividade é imensamente valiosa.

7. Cultivar Amizades com Outros Líderes de Ministério

Quase todos os que são novos no ministério pastoral admitem que uma das coisas mais difíceis é a solidão e o isolamento. O modo pastor está sempre “ligado”. São poucos os momentos em que as pessoas não olham para você como “o pastor” ou “a líder do departamento feminino”. Todos em sua vida são (a) seu chefe ou (b) seu rebanho. Fica difícil ser vulnerável e ter amigos.

O seminário é uma das poucas vezes em sua vida em que você, e, também importante, seu cônjuge, pode desenvolver relacionamentos profundos com outras pessoas que estarão em situação semelhante, mas com alguma distância. Eles “entendem” o que você está passando, mas porque não estão na mesma igreja, eles são uma saída segura onde você pode ser vulnerável a respeito das lutas pessoais e relacionadas à igreja.

8. Aprender Inúmeras Coisas que Formarão Você Como Pessoa

Sempre há um sermão a ser escrito ou um projeto ministerial a ser feito. Essa pressão faz com que você se concentre em atividades em que o “e daí” é óbvio, mensurável e prático.

O seminário, por outro lado, é um momento especial em que você aprende um número incrível de coisas cujo resultado mensurável pode ser pequeno aos olhos do mundo cristão. Você pode fazer um curso sobre acadiano. Pode mergulhar profundamente em manuscritos antigos, fazer um estudo dirigido sobre o judaísmo do Segundo Templo ou estudar arqueologia antiga. Na maioria dos casos, tais esforços não terão um efeito direto na preparação do sermão. Mas esse não é o único objetivo. O tema “15 Coisas Que o Seminário Não Conseguiu Ensinar” pode infelizmente reforçar a crença de que as únicas coisas que valem a pena estudar são aquelas que têm impacto prático imediato. Mas isso não é um MBA. Às vezes o impacto é em você.

9. Ser um Adulto Melhor

Particularmente para os mais jovens, o treinamento no seminário os ajuda a trabalhar duro, ser responsável, estar presente e fazer o seu trabalho. Essa formação adulta básica não está acontecendo com a mesma consistência de antes nos anos formativos.

Tem coisas no desafio do ensino universitário que obrigam você a, na hora do aperto, desenvolver padrões que durarão por toda a vida.

10. Integrar Exegese Bíblica, Teologia Sistemática e História da Igreja

Alguns dos melhores momentos como aluno ou instrutor são quando o material da aula se conecta com o que está sendo coberto em outro lugar, para que tudo comece a se encaixar em 3D. Quando as riquezas de 2 Coríntios 3–4 se encaixam no curso de teologia da aliança. Quando a cristologia divina nos Evangelhos traz as mesmas questões cobertas pela sistemática. Quando uma análise da relacionalidade profunda nas cartas de Paulo dói no coração do currículo de teologia ministerial.

Há poucas oportunidades para fazer isso durante o ministério do dia-a-dia. Uma pessoa lerá um comentário e escreverá um sermão. Outra pode desenferrujar algo do Bavinck para fazer uma aula de escola dominical sobre a eleição. Mas a integração das riquezas da tradição cristã de maneira profunda, por centenas de horas dentro e fora da sala de aula, é insuperável no ambiente do seminário.

11. Escrever Artigos Penosos e Difíceis

O atual momento cultural prefere artigos rasos e provocativos de 1.000 palavras (ou 280 caracteres), em vez de uma reflexão sutil e cuidadosa. A predileção por apelos emocionais expressivos e pela veneração da pessoa que fala mais alto pode permear a igreja também. Por que ler profundamente sobre um assunto, muito menos colocar os seus pensamentos no papel, quando você pode retuitar um post de blog que apoie sua opinião preconcebida e depois seguir em frente?

É exatamente por isso que muitos professores de seminário ainda pedem artigos difíceis. Tais tarefas o forçam a lidar profundamente com perspectivas opostas, exaurir o texto bíblico nos níveis micro e macro, pesquisar usando materiais além da literatura popular fácil, produzir resultados escritos nos quais você defende uma tese e submetê-la ao escrutínio de alguém que possa avaliá-la competentemente. Esse trabalho produz ​​benefícios inestimáveis para o aluno: saber argumentar, conhecer bem algo e saber o que você não sabe.

12. Ler Livros Difíceis

A vida no ministério é ocupada, e na medida em que alguém arranja tempo para ler, a atração gravitacional é em direção a livros leves, de 150 páginas, relevantes sobre esse ou aquele assunto. Eu não estou denegrindo esses livros, estou simplesmente observando que o dia-a-dia pastoral não apóia ou recompensa a leitura de livros difíceis. Não quando há agendas de reuniões, sermões ou orçamentos clamando por sua atenção limitada.

Além de um ano sabático, o seminário é uma oportunidade rara de ler um punhado de livros difíceis. Daqueles bem difíceis, como Ridderbos ou Vos, que não são fáceis mas valem a pena. Livros, até mesmo parágrafos e frases, que mudarão a sua vida.

13. Ganhar humildade para o ministério

A maioria das pessoas que entram no ministério recebeu a afirmação de outras pessoas para fazê-lo. Isso é importante. Mas as coisas que fazem com que os outros percebam os dons em você também podem reforçar, dentro do seu próprio coração, que você é “o cara”. Que você é o “peixe grande” da sua igreja, bem formado e que fala bem. Essa perspectiva, se não for tratada, piora com o tempo, à medida que se transforma em uma mentalidade de guru.

O seminário ajuda você a sair do seu lago e coloca você em um maior, com outros peixes, a maioria dos quais também são “o cara” em suas igrejas. Quando você encontra com eles, ocorre uma recalibragem saudável: você aprende que não tem o mercado cativo no ministério, que tem muito a aprender, e que pode celebrar os dons dos outros sem competir com eles.

(Jeff Robinson reflete utilmente sobre este ponto aqui.)

14. Aprender a Aprender (por toda a Vida)

Os seminários não servem apenas para transmitir informações. Nem é esse o seu objetivo principal. Os instrutores estão cientes de que os alunos reterão poucos dos detalhes abordados nas aulas e nas leituras. Mas esse não é o foco. O objetivo é, na verdade, modelar como aprender a longo prazo: como ler cuidadosamente e de forma judiciosa, avaliar argumentos de maneira de forma caridosa e sábia, aprender com os outros com os quais você discorda, rastrear recursos e julgar seu valor e assim por diante.

É um conjunto de ferramentas, não de dados, que torna a experiência do seminário tão inestimável. Temo que isso se perca na tendência geral de difamar seminários pelo seu foco no conhecimento mental.

15. Desenvolver uma Especialidade

A morte da especialização é a mais recente vítima mortal dos desequilíbrios tóxicos das mídias sociais e da geração que cresceu na internet, com pouco tempo de concentração. Essa antipatia pelo conhecimento especializado também afeta a igreja. Para alguns, a eficácia é mais valorizada do que a especialização. Para outros, a especialização é recebida com receio direto (anti-intelectual).

Mas o ministério continua, no fundo, sendo um chamado aprendido (de aprender). Enquanto você ganha muitas coisas no trabalho com o seu pastor e com outras pessoas em sua igreja, nenhum pastor é um especialista em tudo. Até mesmo atletas profissionais possuem treinadores especializados.

Há tremendo valor em reservar tempo para ser treinado por numerosas pessoas que são verdadeiros especialistas no assunto, especialmente se nosso chamado é nos tornarmos os ministros mais fiéis da Palavra de Deus que podemos ser.

Resumindo

Meu objetivo não é voltar ao outro extremo do que pode facilmente se tornar uma competição entre a igreja e o seminário. A grande maioria dos educadores do seminário não pensa assim nem de longe. Nós nos vemos como servos da igreja, e poucas coisas nos alegram mais do que ver nossos alunos crescerem e prosperarem no dia-a-dia do ministério da igreja, tanto durante como depois de seu tempo conosco.

No entanto, eu espero que esta lista possa fazer com que as pessoas parem antes de permitir que o título “15 Coisas Que o Seminário Não Conseguiu Me Ensinar” se transforme em “Por que fazer seminário então?”

 

Traduzido por Mariana Alves Passos

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