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Socorro! Não aquento mais meus pais!

Ela não aguentava a sogra. A excêntrica mulher acumulava suprimentos de artesanato, coletava duplicatas de cada bugiganga doméstica no caso de o original quebrar, e mantinha um extenso catálogo de cupons organizados por data e categoria. Quando a família vinha visitar, todos se juntavam para criar caminhos entre caixas de bugigangas e limpar os quartos de tralhas, apenas para tornar as coisas seguras para os netos.

Ele não suportava o pai. O aposentado, veterano do Vietnã era mal humorado e teimoso. Obcecado por política, por mascar tabaco e por carros clássicos, ele estragava todos os encontros de família com discursos sobre a última conspiração do governo, escândalos políticos ou propagandas do momento. A família respeitosamente pediu-lhe para não discutir as notícias durante o jantar. Também lhe pediram para não deixar latas de coca-cola cheias de cuspe de tabaco na varanda. Mas o papai era o papai. E ele não mudaria.

Quando crianças, muitas vezes vemos nossos pais como super-heróis. São as pessoas mais simpáticas, inteligentes e legais do mundo, porque somos seus filhos e os amamos. Mas todos amadurecemos, e vemos nossos pais de forma diferente quando somos adultos. Notamos seus defeitos, e suas peculiaridades antes cativantes agora dão nos nervos. Essa mudança de compreensão — a humanização de nossos pais — pode ser extremamente dolorosa.

Minha transição para uma compreensão adulta dos meus pais foi, provavelmente, mais extrema do que a maioria. Quando criança, lembro-me de pensar que meu pai era um cientista brilhante e teólogo temente a Deus. Só quando cresci e pude ver meu pai com olhos adultos percebi que ele era um predador sexual violento.

Eu o perdoei, embora provavelmente nunca o deixarei voltar à minha vida. Perdoei muitas pessoas que permitiram, ignoraram ou deixaram de impedi-lo de cometer o mal. Portanto, como combatente veterana neste campo de batalha, deixe-me oferecer alguns conselhos práticos.

Talvez seus pais tenham problemas com o pecado, ou talvez sejam apenas deploráveis. De qualquer forma, minha esperança é ajudá-lo a se livrar da irritação, da decepção e eliminar a raiva que inibe sua relação com seus pais.

1. Humilhe-se e Ore

Quer sejam as peculiaridades e fraquezas irritantes de nossos pais, ou até pecados e crimes, nosso primeiro passo para nos relacionarmos bem com eles deve ser sempre nos aproximarmos de Deus em oração. Nos arrependermos perante Jesus por quaisquer erros conhecidos ou atitudes pecaminosas que tenhamos. Pedirmos também a Deus que revele e perdoe os pecados que não podemos ver, os comportamentos e pensamentos que não percebemos imediatamente como errados.

Talvez você idolatre um ideal de família digna do Instagram, com uma expectativa secreta irrealista de seus pais. Talvez você tenha ressentimentos, e toda vez que seus pais te irritam, insultos amargos surgem em sua mente. Talvez você cobice os pais incríveis de seus amigos, a ponto de ter dificuldade para apreciar os pais que você tem.

Estes pecados o farão tropeçar e se retrair; estes venenos em baixa dose, comprimidos escondidos na geleia, nos deixam doentes antes de percebermos o que engolimos.

A primeira forma de ataque de Satanás é geralmente cegar-nos ao pecado. Mas uma vez que percebemos o pecado nos outros — uma vez que diagnosticamos seus problemas — ele também pode se aproveitar disso. Nossa raiva justificada e indignação moral podem rapidamente se tornar a entrada do pecado na porta de nossas almas. A ira santa é facilmente torcida em malícia e vingança. O desgosto justificado se transforma em condescendência hipócrita. Nossos corações tendem para a maldade. Nossas melhores intenções são terreno fértil para a depravação (Is 64.6).

Ore fervorosamente pela proteção de Deus. Então, guarde o seu coração. Corte a amargura pela raiz. Arrependa-se dos pecados cometidos, peça a Ele que revele pecados desconhecidos, e implore a Deus por fortaleza contra a fraqueza e a tentação. Certamente há tempo e lugar para a ira santa (Ef 4.26), mas precisamos da ajuda do Espírito Santo para navegar por ela sem pecar.

2. Lute pela Alegria

Não é nossa responsabilidade consertar nossos pais. Podemos honrá-los. Podemos amá-los. Podemos pedir a eles que não deem novamente 10 pirulitos aos nossos filhos. Mas não podemos mudá-los. É preciso humildade para entender isso, mas também é incrivelmente libertador. Saber que essas coisas estão fora do nosso controle, mas dentro do controle de Deus, pode aliviar grande parte da pressão que alimenta nossa frustração.

Portanto, da próxima vez que seu sogro colocar manteiga no café, ou sua mãe reorganizar todas as gavetas da sua cozinha e você não encontrar nada, você pode resmungar, e então pode rir. Ore para que Deus a ajude a ignorar, e lhe permita encontrar o humor na situação em que você está. Sua vida pode ser muito mais parecida com “The Office” do que imagina!

As peculiaridades que fazem você subir pelas paredes podem ser exatamente as memórias que você valorizará e das quais rirá depois que seus pais se forem. As idiossincrasias que deixam você louca agora podem ser bênçãos para os outros ou pontos fortes nas circunstâncias certas.

3. Confie em Deus para Salvar ou Não

Às vezes nossos pais têm um pecado feio que nos aflige. Lembro-me quando criança me dizerem que se eu fosse uma filha boa o suficiente, meu pai veria Jesus em mim, e deixaria de ser abusivo. Isto era uma mentira, e colocou um fardo pesado demais em meus ombros jovens. Você não pode salvar seus pais. As almas deles são responsabilidade de Deus, não sua.

Sempre que tentamos preencher o lugar de Deus, nos condenamos ao fracasso. Necessitamos confiar em Deus o suficiente para reconhecer que Ele terá misericórdia de quem tiver misericórdia (Ex. 33.19), e que tudo o que Ele faz é justo, independentemente daquilo que queremos. Ele pode salvar nossos pais. Ele pode não salvá-los. Ele pode santificá-los e curá-los. Ele pode não fazê-lo.

Tive que chegar em um ponto em minha fé onde orei: “Deus, pode ser que não salves meu pai, mas estou em paz com a tua vontade porque o que quer que fizer é sagrado.” Não só não podemos controlar nossos pais, mas não podemos controlar Deus ou Seu plano para suas almas. Podemos amar nossos pais, podemos lamentar por seus pecados, e podemos modelar Jesus para eles, mas não somos Jesus. Desça dessa cruz.

4. Deus Ainda Está Amadurecendo Seus Pais

Da mesma maneira como confiamos a salvação de nossos pais incrédulos à Deus, podemos confiar à Deus a santificação de nossos pais crentes. Aquele que começou a boa obra em seus pais, a completará até o dia de Cristo Jesus (Fp 1.6).

Seus pais podem ser velhos e arraigados em seus hábitos, mas não são espiritualmente “crescidos”. Tal como você, eles são uma obra em andamento. Todos os crentes necessitam “crescimento para a salvação” (1Pe 2.2). Em vez de tentar santificar seus pais, descanse ao saber que Deus está operando. Seus pais não são agora as pessoas que serão em 10 anos, muito menos na eternidade.

5. Aprecie a Ingenuidade da Sua Infância

Parte da frustração que sentimos para com nossos pais está enraizada no fato de que uma vez os idealizamos. Talvez até os idolatrássemos. Como resultado, não ficamos decepcionados apenas com nossos pais; ficamos decepcionados com nós mesmos. Como pudemos ser tão ingênuos? Por que adoramos alguém que era um produto da nossa imaginação infantil? Consequentemente, sentimo-nos tolos por termos sido crianças, e descontamos isso nos nossos pais.

Mas o que diz a Bíblia sobre o coração de uma criança? “Fiz calar e sossegar a minha alma; como a criança desmamada se aquieta nos braços de sua mãe” (Sl. 131.2). Deus deseja que descansemos sobre ele tal como uma criança adormece no ombro de seus pais. Essa satisfação, essa fé, essa confiança inquestionável é como Deus quer que nos sintamos com relaçāo a Ele.

Jamais se esqueça de que você já foi como as criancinhas que Jesus acolheu e honrou (Mt 19.14). Não se culpe por sua ingenuidade. Inocência não é uma coisa ruim. O amor não é uma falha. Pelo contrário, as memórias dos nossos corações infantis ensinam-nos como deve ser a nossa confiança em Deus. A exuberância juvenil, a inocência e o idealismo nos dão uma imagem preciosa de como um dia, no céu, nos sentiremos novamente.

6. Aprenda com os Erros Deles

Todo mundo lidera pelo exemplo. Alguns são ótimos exemplos do que não fazer. Felizmente, temos um Deus que faz todas as coisas para o bem daqueles que o amam (Rm 8.28). Podemos confiar que Deus vai fazer o bem para nós, mesmo através de nossos pais imperfeitos, e podemos seguir o exemplo de Deus ao usar experiências ruins para aprender e crescer.

Quando ficamos frustrados que o papai foi jogar golfe em vez de participar da festa de aniversário do nosso filho, podemos tomar nota para que priorizemos ir às festas de nosso próprio neto um dia. Quando a mamãe preparar o bezerro cevado para o jantar, mesmo que nós a tenhamos lembrado ontem que nosso cônjuge é vegetariano, podemos nos comprometer a honrar os futuros cônjuges de nossos filhos, mesmo que sejam diferentes de nós. Aprenda com os erros dos seus pais. Confie em que Deus vai operar o bem para você — e para aqueles que você ama — mesmo através de experiências frustrantes.

7. A Alegria Que Nos Está Proposta

Pedro nos relembra:

“Pois fostes regenerados não de semente corruptível, mas de incorruptível, mediante a palavra de Deus, a qual vive e é permanente. Pois toda carne é como a erva, e toda a sua glória, como a flor da erva; seca-se a erva, e cai a sua flor; a palavra do Senhor, porém, permanece eternamente.” (1Pe 1.22-25)

O tempo dos nossos pais na Terra é limitado. Quer sejam salvos ou não, quer suas falhas sejam peculiaridades irritantes ou o mal devastador, como a grama eles secarão e como flores cairão. Às vezes amar nossos pais significa aprender a rir de excentricidades inofensivas. Às vezes amar nossos pais significa colocar limites para que eles não possam pecar mais contra nós. Mas esta é apenas uma fase; um tempo que passará para a memória. Conforte-se e encontre a paz sabendo que o agora não é para sempre.

E um dia em breve, nós também passaremos para a plenitude, a integridade e a falta de pecado. Naquele dia, Jesus enxugará cada lágrima de nossos olhos — lágrimas de tristeza, lágrimas de raiva, lágrimas de preocupação, lágrimas de exaustão. Não haverá mais morte, luto, frustração ou dor, pois a velha ordem das coisas passará (Ap 21.4).

O mal e o pecado, as fraquezas e as falhas, as excentricidades e as peculiaridades neuróticas serão aliviadas e endireitadas. Se nossos pais são incrédulos, Deus, o Juiz justo, os chamará a prestar contas. Se os nossos pais sāo salvos, eles serão refeitos e curados. Nosso relacionamento com eles será endireitado quando nos juntarmos à glorificada família de Deus. O acúmulo enlouquecedor de pecado e a fadiga de batalha deste mundo escuro desaparecerão para sempre. Nós também seremos feitos completamente santos, vivenciando o cumprimento do nosso otimismo infantil à medida em que nos deleitamos no único Pai perfeito.

Traduzido por Felipe Barnabé.

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