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6 Pecados Que Possibilitam o Abuso

Mais por Jennifer Greenberg

Uma pessoa ou igreja que encobre ou ignora o abuso geralmente tem um padrão de permitir que outros pecados menores passem desapercebidos. Ninguém acorda uma manhã e pensa: “Estou com vontade de chantagear um membro hoje” , ou “Molestar alguém não é uma grande coisa”. Em vez disso, pecados sutis são como camadas colocadas umas sobre as outras, os quais endurecem o coração e abrem caminho para outros piores. Como Deus disse a Caim: “Se procederes bem, não é certo que serás aceito? Se, todavia, procederes mal, eis que o pecado jaz à porta; o seu desejo será contra ti, mas a ti cumpre dominá-lo.” (Gn 4:7).

Observe como ele diz: “se, todavia, procederes mal, eis que o pecado jaz à porta”. Existem transgressões menores que precedem transgressões maiores e um processo de corrupção ao qual podemos resistir ou favorecer.

Em meu trabalho com líderes de igrejas e vítimas de abuso, notei padrões de pecado que precedem quase todas as crises. Se alguém tivesse se arrependido mais cedo, cortado o pecado pela raiz ou responsabilizado os colegas, a maioria das situações abusivas poderia ser tratada com responsabilidade de uma forma que honrasse a Deus, em vez de serem agravadas ou exacerbadas.

Aqui estão seis pecados que, por si só, são problemas comuns e ordinários, mas que levaram muitos a permanecerem em silêncio diante do mal. Eles também podem servir como “pecados de porta de entrada”, permitindo que o pecador caminhe para pecados mais graves. Como diz o Breve Catecismo de Westminster , “Alguns pecados em si mesmos, e em razão de circunstâncias agravantes, são mais odiosos à vista de Deus do que outros”. Minha esperança é que, se pudermos reconhecer pecados menores antes que eles criem raízes, possamos fazer o que é certo sem dar nenhum lugar ao Diabo (Ef 4:27).

1. Orgulho

O orgulho é um pecado do qual todos somos culpados às vezes, mas que pode nos levar por estradas traiçoeiras. Não consigo pensar em um caso de abuso na igreja em que o orgulho não tenha sido um fator. Muitas vezes, os líderes da igreja não conseguem acreditar que foram enganados pelo agressor. “Certamente” , eles pensam, “se nosso amigo ou colega fosse um abusador, teríamos notado”.

E isso não é apenas um problema para os líderes da igreja. Os membros também odeiam estar errados. Nós nos consideramos sábios e ótimos em discernir. Confiamos demais em nossa capacidade de julgar o caráter de alguém. Esse excesso de confiança nos torna presas fáceis para aqueles que bajulam e manipulam os outros.

E assim, quando uma vítima diz a alguém que seu amigo é um abusador, o outro se recusa a acreditar. Essas pessoas podem justificar o comportamento do abusador, dizendo: “Isso não soa como o homem que eu conheço; você deve estar enganado!”. Elas são orgulhosos demais para considerar que podem ter sido enganadas, que a pessoa em quem confiam é perigosa. E porque elas não estão dispostas a admitir que estão erradas, elas encobrem o abuso, que continua acontecendo.

2. Fofoca

Congregações em que a fofoca reina são parque de diversões para abusadores. Todo mundo já está falando de todo mundo, então não parece estranho a ninguém quando um abusador espalha boatos sobre a vítima: “Ela está desequilibrada! Ela é uma mentirosa! Ore por sua raiva e lutas com a saúde mental!”. Quando a vítima finalmente procura ajuda, todos assumem que ela está mentindo ou delirando.

Outra tática de muitos abusadores — particularmente aqueles em cargos de liderança — é manipular os cristãos para “abrirem-se” com eles. Um pastor, conselheiro ou líder de ministério pode encorajar a congregação a ir além dos limites do decoro e fofocar sobre seus companheiros membros para ele. Ele pode até expressar falsa preocupação pela vítima e pedir às pessoas que “denunciem” caso a vítima diga algo crítico sobre ele. Dessa forma, assim que a vítima procura ajuda de alguém na igreja, o abusador é notificado e pode controlar os danos.

É importante estabelecer uma cultura em sua igreja que desencoraje a fofoca, mas incentive falar a verdade com amor (Ef 4:15). Discernir entre os dois requer maturidade espiritual e, para isso, precisamos buscar a ajuda do Espírito Santo.

3. Idolatria

Quando uma equipe de liderança da igreja encobre os pecados de um abusador, muitas vezes é porque eles amam o abusador — ou a denominação ou reputação dele — mais do que amam Jesus. O mesmo se aplica dentro do ambiente familiar. Quando uma esposa encobre a pedofilia do marido, ou os pais os crimes de uma criança, muitas vezes isso está enraizado na idolatria. Quando amamos alguém ou qualquer coisa mais do que Jesus, coisas terríveis acontecem.

É o amor genuíno por Jesus e um desejo fervoroso de honrar a Deus, não importando o custo, que nos protege de nos tornarmos cúmplices de abuso. Nas palavras frequentemente atribuídas a Dietrich Bonhoeffer: “O silêncio diante do mal é em si mesmo um mal: Deus não nos terá por inocentes. Não falar é falar. Não agir é agir.”

4. Engano

Quer estejamos mentindo para nós mesmos ou para os outros, o engano é talvez o mais ilusório e comum de todos os pecados que listei. Muitas vezes, quando encontramos casos claros de abuso, nós os justificamos, pensando: “Tenho certeza de que foi um incidente único” , ou “Ele pediu desculpas, então não precisamos denunciar” , ou “Talvez o álcool, o estresse no trabalho ou uma doença mental o tenham feito fazer isso” . Em nosso desespero para não acreditar que nosso amigo é um abusador, fazemos ginástica mental — contando mentiras a nós mesmos — para evitar responsabilizá-lo.

Mentimos para nós mesmos e para os outros, dizendo: “Devemos perdoá-los 70 vezes sete vezes”, como se o perdão negasse a justiça ou ajudasse os oprimidos. Nós falhamos em responsabilizar os outros, pensando: “Todos nós lutamos com a luxúria”, ou “Muitas pessoas têm temperamentos explosivos”, ou “Esse cara provavelmente está tendo as mesmas lutas que eu — quem sou eu para repreendê-lo?” . Vemos o homem agredido na beira da estrada, mas continuamos andando (Lc 10:25-37).

Afirmamos: “Como cristãos, estendemos graça aos pecadores”, mas negligenciamos estender graça a crianças traumatizadas e esposas de coração partido. Justificamos nosso silêncio, dizendo: “O amor cobre uma multidão de pecados”, como se Jesus alguma vez falharia em proteger os inocentes ou buscar justiça.

Os pecados do arrependido são cobertos diante de Deus pela justiça de Cristo, mas ainda há consequências para o mal nesta vida. Mesmo depois que o rei Davi se arrependeu genuinamente, o reino acabou entrando em guerra e sua família foi devastada. Deus perdoou Davi, mas não o poupou das consequências de seu pecado (2 Sm 12:10-12).

5. Egoísmo

Muitas vezes, quando vemos alertas vermelhos, raciocinamos: “Isso não é da minha conta”. Como Caim, perguntamos: “Acaso, sou eu tutor de meu irmão?” (Gn 4:9b). Não queremos o estresse, a dor de cabeça ou a retaliação de intervir. Preferimos permanecer ignorantes felizes, ou fingir que não notamos o homem na beira da estrada, em vez de agir como o bom samaritano ( Lc 10:25-37 ). O egoísmo e o engano trabalham juntos, permitindo o abuso ou a tolerância dele.

Na minha vida, tive familiares, amigos e até mesmo uma igreja inteira me boicotando e me evitando porque denunciei abuso infantil. Esse é o risco que corremos quando pegamos uma cruz e seguimos Jesus. Cruzes não são divertidas. Certamente não são fáceis. Mas, no final do dia, devemos ser capazes de dizer que amamos os outros mais do que nosso relacionamento com eles, que amamos nossa comunidade mais do que nossa posição nela, que amamos Jesus mais do que essa vida.

6. Luxúria

O fracasso de algumas igrejas em não repreender a luxúria e o pecado sexual abre caminho para todo tipo de perversão. Por exemplo, quando um líder de igreja assiste pornografia, ele pode ficar insensível ao pecado e começar a objetificar e desumanizar as pessoas. Então, quando ele se depara com um abuso, ele é complacente, despreocupado e não se sente ofendido. Talvez ele minimize esse pecado ou se sinta hipócrita por denunciá-lo, já que ele também caiu na luxúria. Seus olhos estão acostumados à escuridão. Sua mente está acostumada a desvios morais.

E porque esses pecados não o incomodam mais, ele falhará em denunciá-los ou em proteger sua congregação de lobos. Ele se torna como as pobres almas que Deus “entregou” ao seu próprio mal: “porquanto, tendo conhecimento de Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças; antes, se tornaram nulos em seus próprios raciocínios, obscurecendo-se-lhes o coração insensato.” (Rm 1:21).

Existem, sem dúvida, muitos outros pecados que podem levar ao abuso ou permitir sua tolerância. Como cristãos individuais, devemos ter cuidado para proteger nossos corações até mesmo contra os pecados mais aceitáveis socialmente. Como igreja, devemos prestar conta uns aos outros, para que os pecados não criem raízes em nossos corações como sementes e se transformem em males que destroem. A tolerância ou encobrimento de abusos na igreja não acontece da noite para o dia. É o resultado de pecados reincidentes e falta de arrependimento crônico — camada sobre camada de transgressões não contidas — até que a iniquidade e a insensatez finalmente nos atingem.

Traduzido por Rebeca Falavinha.

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