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É provável que você compartilhe minha angústia sobre o analfabetismo bíblico. No entanto, creio que às vezes presumimos que tal analfabetismo ocorre somente nas beiradas mais distantes do cristianismo cultural. Com certeza, há uma certa verdade nisto. É por isso que as livrarias cristãs (ou suas equivalentes digitais) não vendem muitos livros sobre o significado da justificação em Gálatas, mas grandes quantidades de livros com dicas sobre dieta vindas do livro de Ezequiel ou sobre mensagens encaminhadas do céu.

No entanto, o problema é muito maior.

Eu nāo havia conseguido articular adequadamente o escopo do analfabetismo bíblico que enfrentamos até que li uma frase no útil livro de David Nienhuis, A Concise Guide to Reading the New Testament [Guia Conciso de Leitura do Novo Testamento]. Referindo-se aos alunos de suas aulas de Novo Testamento da faculdade, Nienhuis escreveu que eles têm dificuldades com o material bíblico “porque foram treinados para serem pessoas que citam a Bíblia e não pessoas que lêem a Bíblia”.

Ele tem toda a razāo.

Nienhuis atribui parte do problema à forma como a exegese utilizando a crítica maior procurou remover a Bíblia do âmbito da igreja em geral, para a suposta habilidade daqueles capazes de discernir o “contexto original”, de uma maneira inédita em relaçāo à leitura que a igreja tem feito através dos tempos. No entanto, o problema vai além disso, ele observou. O problema é também a maneira como a Bíblia é usada nas igrejas.

Textos Curtos, Fora de Contexto

“Alguns dos meus alunos freqüentam igrejas populares não-denominacionais lideradas por líderes com mentalidade empresarial que afirmam ‘crer na Bíblia’ e se esforçam para oferecer sermões ‘relevantes’ para uma vida cristã bem-sucedida”, escreveu Nienhuis. “Infelizmente, em muitos casos, esta fórmula resulta em um pregador utilizando um curto texto das Escrituras, fora de contexto, a fim de apoiar um conjunto predeterminado de ‘princípios bíblicos’ para guiar a vida diária dos congregantes. Infelizmente, a única Bíblia com a qual tais estudantes se defrontam é uma versão cuidadosamente destilada, de acordo com as preocupações teológicas e ideológicas que moldaram a formação espiritual do pastor líder ”.

Eu diria que o problema vai muito além das igrejas não denominacionais, ou mesmo das igrejas com liderança empreendedora, uma vez que a interpretação bíblica no mundo evangélico norte-americano tende a vazar lentamente, vinda dos pioneiros do ministério com mentalidade empresarial a todos os outros.

De acordo com Nienhuis, o resultado final é: “Eles têm a capacidade de se recordarem de um texto bíblico relevante em apoio a um ponto doutrinário específico, ou em oposição a um tópico polêmico das guerras culturais, ou na esperança de receber apoio emocional quando as coisas se tornam difíceis . Eles abordam a Bíblia como uma espécie de livro de referência, uma coleção de citações úteis de Deus que podem ser pesquisadas da mesma maneira como se localiza palavras em um dicionário ou um artigo em uma enciclopédia ”.

Ele continua: “O que eles não são treinados a fazer é ler um livro da Bíblia do começo ao fim, identificar a direçāo principal da narrativa, discernir seus principais temas e se perguntarem como isto poderia moldar nossa fé nos dias de hoje”.

Problema Amplo

Isto não é uma questão de pessoas que estudaram versus os ignorantes. O mesmo problema existe em ambos os casos. Conheci pessoas que sāo especialistas na gramática da Bíblia Grega e da Hebraica, que não conseguiam realmente entender o fluxo da conhecida e velha história. Mas se a Bíblia é a Palavra de Deus — e na verdade é — necessitamos treinar pessoas que não apenas crêem nela, mas também sabem o que ela diz.

A soluçāo não é fácil. Parte do problema é aquilo que Nienhuis mencionou: o exemplo do uso das Escrituras em alguns ensinamentos e pregações. Parte do problema é a questão cultural mais ampla de se a mente moderna, distraída e fragmentada, ainda tem a capacidade de ler um texto (um texto literário real e não apenas uma mensagem de texto). E parte do problema é que, para treinar as pessoas a lerem a Bíblia, a igreja necessita se reunir por mais do que apenas uma ou duas horas por semana.

A neutralização de uma narrativa cultural potente exige — perdoem-me esta metáfora, meus amigos que crêem no batismo de crianças — não apenas uma aspersão, mas uma imersão na Palavra de Deus.

Traduzido por Pedro Henrique Aquino

 

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