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Nota do Editor: 

Este artigo foi adaptado de uma série de posts no The Green Room [A Sala Verde].

A escatologia tem sido um ponto complexo para o movimento de “fé e obras”.

Não podemos evitar a escatologia, pois nossa vida diária não estará centrada no evangelho se nosso trabalho diário não direcionar as pessoas ao glorioso futuro da volta de Cristo. Necessitamos saber qual é a finalidade de nosso trabalho.

No romance alegórico de C. S. Lewis, O Regresso do Peregrino, o Sr. Savage [Selvagem] zomba dos habitantes de Claptrap [Engano] (que representam a respeitável sociedade iluminista burguesa) por passarem a vida inteira trabalhando e construindo, embora todos eles morram ao final, perdendo tudo aquilo que trabalharam para construir.

“Eles podem estar construindo para a posteridade”, objeta o Sr. Virtue [Virtude].

“E para quem a posteridade irá construir?”, bufa o Sr. Savage. “Eles não conseguem enxergar que tudo isto não vai dar em nada?”.

Alguns no movimento de “fé e obras” tendem a enfatizar a continuidade escatológica — a ideia de que a volta de Jesus trará a realização final da obra redentora que ele já está realizando. Outros enfatizam a descontinuidade escatológica, a ideia de que a volta de Jesus encerrará a era antiga com uma catástrofe de julgamento destrutivo e novos começos radicais.

Continuidade e descontinuidade são necessárias para uma escatologia sã, e consequentemente, para uma abordagem saudável ao nosso trabalho diário. A continuidade isoladamente nos traz um cativeiro vocacional aos padrões mundanos e ao legalismo moralista. A descontinuidade isoladamente nos traz um distanciamento vocacional, e até mesmo um isolamento rancoroso.

Até que o Espírito Santo santifique a igreja de tal forma que todos equilibremos a balança exatamente, o melhor caminho é ouvir e aprender com aqueles cuja tendência é inclinar-se na direção oposta às nossas próprias preferências. Reconheço em mim mesmo a tendência de enfatizar a descontinuidade, por isso meu dever é prestar atençāo cuidadosamente aos que enfatizam a continuidade.

Chamados e Confortados

A continuidade escatológica enfatiza a excelência de execução em nosso trabalho, estabelecendo o padrão pelo qual nos empenhamos. Devemos começar agora o trabalho da nova era, que continuará pela eternidade. Caso contrário, realmente não estaremos vivendo no reino de Deus, o qual Jesus disse que estava próximo, quando ele veio pela primeira vez. Necessitamos de um objetivo e de uma ética operacional da nova era, que possamos colocar em prática, ao contrário nosso trabalho será dominado pelos objetivos e pela ética da era antiga ao nosso redor.

Ao mesmo tempo, a descontinuidade escatológica enfatiza o conforto e a esperança, quando nosso trabalho é doloroso e frustrante. Até que Jesus volte e encerre a era antiga, a missão da nova era é limitada em âmbito. Sabemos que nossa fé é uma fonte de profundo conforto para nossos sofrimentos e frustrações diárias. Somente por conter a promessa de um mundo melhor, no qual o sofrimento e a frustração serão destruídos para sempre, é que ela nos conforta.

Polêmicos e Pacientes

A continuidade escatológica enfatiza a luta pela justiça, dando testemunho profético contra as trevas do mundo e pelo exercício de autoridade de Rei ou Rainha para afastar as trevas das áreas sob nossa responsabilidade.

Em nosso trabalho diário, estamos engajados nas linhas de frente de uma guerra santa para reconquistar do pecado e de Satanás, esferas sob nossa responsabilidade. É por isto que o primeiro item em nossa lista de tarefas no trabalho a cada dia é, como disse Dallas Willard, uma “não cooperação delicada, mas firme, com coisas que todos sabem estar erradas”. Não importa quão gentis somos, devemos ser firmes e isto significa tensão e conflitos.

A linha de demarcação entre o bem e o mal, no entanto, nem sempre é aquela que “todo mundo sabe”. Nem sempre concordamos sobre o que é aceitável. Às vezes, a coisa certa a fazer não é óbvia. E às vezes até é bem clara, mas o pecado ganhou uma aceitação cultural tão difundida que as mentes dos que nos rodeiam são obscurecidas até mesmo para imperativos morais óbvios.

A descontinuidade escatológica pode nos ajudar aqui, enfatizando a moderação de nossas ambições de ver a justiça e a misericórdia vindicadas, e esperando pacientemente pelo julgamento do Senhor sobre a esmagadora maioria do mal que não somos autorizados ou capazes de remover por nós mesmos.

Há dois perigos aqui. Um deles é nos tornarmos complacentes na luta pela justiça, permitindo que o mal permaneça sem ser importunado nos domínios sobre os quais temos jurisdição, e sem ser desafiado em outras jurisdições. O outro é esquecermo-nos dos limites de nossa autoridade e de nossa capacidade de remover o mal num mundo que permanece caído e, ao fazermos isto, em nosso zelo ultrapassarmos nossos limites e ferirmos outras pessoas.

A continuidade escatológica nos ajuda a continuar avançando até os limites, a cada dia, na guerra contra o pecado. A descontinuidade escatológica nos ajuda a esperar pacientemente, mesmo que o mal pareça triunfar por uma época.

Unidos e Flexíveis

O movimento de “fé e obras” enfatiza que as Escrituras nos conclamam a servir ao bem comum entre a igreja e o mundo — coisas boas que servem não apenas à igreja, mas a todos. Desta maneira, podemos participar daquilo que Deus está fazendo no mundo.

Mas é possível ter um “bem comum” [common good] sem termos um “deus comum” [common god]? Sim e não. A recusa do mundo em reconhecer a Deus não altera o que é realmente bom para os seres humanos — as coisas que Deus ordenou como sendo boas para nós. No entanto, se esperarmos que todos, em um mundo caído, concordem sobre o que é bom e demandemos ter o direito que todos concordem, então a guerra cultural sem fim será o resultado.

Quando lembramos que a volta de Jesus renovará a terra e consumará a boa obra contínua de Deus, buscaremos construir consenso moral com nossos vizinhos, a fim de realizar a obra de Deus no presente. A continuidade escatológica enfatiza a união com os outros para servir ao bem comum da comunidade, indo além das paredes da igreja para formar uma comunidade cívica com aqueles que creem de maneira diferente, a serviço de causas comuns.

E quando recordamos que a volta de Jesus trará um confronto catastrófico e um julgamento sobre um mundo pecaminoso, aceitaremos estas diferenças com graça. Iremos nos esforçar para lidar com o pluralismo através de meio-termos, sem exigir uma unidade social que só a volta de Jesus pode trazer. A descontinuidade escatológica enfatiza a aceitação de diferenças e meio-termos, tolerando, com espírito de paciência e graça, a rejeição do mundo para com a mensagem e a obra da igreja.

Como muitos aspectos da teologia, a escatologia é mais “tanto um como outro” do que “ou um ou outro”. Com o auxílio do Espírito Santo, podemos equilibrar nossa perspectiva de trabalho para sermos chamados e consolados, polêmicos e pacientes, unidos e tolerantes.

 

Traduzido por João Pedro Cavani

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