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Nos Estados Unidos hoje em dia, milhões de membros de igreja são “cristãos” por apenas algumas horas por semana. Aparecem no domingo (e, se forem super-santos, na noite de quarta-feira). Vão ao grupo comunitário e lêem suas Bíblias. Tudo isso ocupa algumas horas de seu tempo. Em tudo o mais que fazem, pode ser difícil notar se sua fé faz alguma diferença.

Ser cristão por apenas algumas horas por semana implica em uma profunda hipocrisia. Nossas vidas não combinam com nossas profissões de fé. Nos conformamos com este mundo em vez de sermos transformados pela renovação de nossas mentes e vidas (Rm 12.1-2).

Esta hipocrisia fortalece nossa idolatria. À medida que nos conformamos com as estruturas do mundo em 95% de nossas vidas, gradualmente estabelecemos essas estruturas mundanas como ídolos. E o ídolo que seguimos na prática com os 95%, eventualmente, substituem o Deus que professamos nos outros 5%. A autoridade e a verdade do Criador são trocadas por coisas criadas que nos oferecem promessas inconstantes de sucesso, conforto e felicidade.

Ser cristão por apenas algumas horas por semana também implica em escravidão aos sistemas mundanos de injustiça. Quer estejamos falando sobre a vida de crianças nascituras, ou de pessoas presas numa dependência em programas de auxílio do governo, de mulheres exploradas e escravizadas para prazer dos outros, ou trabalhadores maltratados para gerar lucros a outros, estamos cercados por injustiças que exigem uma resposta. E, além disso, estamos envolvidos nesta exploração e crueldade se não estivermos resistindo ativamente.

Há quinhentos anos, Martinho Lutero enfrentou um dilema semelhante. Em sua época, as obras de devoção religiosa eram separadas da vida comum, da mesma forma que colocamos nossa fé em primeiro plano no domingo, mas temos dificuldade para fazer o mesmo na segunda-feira. Esta separação levou à idolatria e à sistemas de injustiça, incluindo a venda de indulgências.

E a primeira coisa da qual devemos nos arrepender é de nossa compreensão limitada de arrependimento.

Lutero começou seu ataque à venda de indulgências nas 95 teses, concentrando-se no arrependimento:

Quando nosso Senhor e Mestre Jesus Cristo disse: “Arrependei-vos!” Ele queria que a vida inteira dos crentes se tornasse uma vida de arrependimento. (Tese 1)

A solução para a hipocrisia, a idolatria e a injustiça é o arrependimento. E a primeira coisa da qual devemos nos arrepender é de nossa compreensão limitada de arrependimento.

O Arrependimento Verdadeiro

O arrependimento superficial do pecado leva a soluções superficiais para o pecado: “Você admite que é um pecador? Excelente! O que você necessita é de bens e serviços religiosos para compensar o seu déficit espiritual. Aqui está o nosso menu de opções para escolher.”

Lutero rejeitou esta abordagem, mas isso não significa que ele tenha negado a importância especial da igreja. Longe disso! Ele insistia que a igreja local fornece às pessoas uma mensagem de Deus, bem como outros elementos; os sacramentos, uma comunidade espiritual, que não podem obter em nenhum outro lugar. Todos nós estaríamos perdidos e sem esperança se não tivéssemos o evangelho, e a igreja local e seu pastor são especialmente responsáveis ​​por disponibilizá-lo a todos. Na verdade, a teologia luterana eleva este papel especial da igreja até mais do que outros protestantes, e isso se remonta ao próprio Lutero.

Lutero se opunha não à importância da igreja, mas à negligência da importância de todo o resto, ou seja, dos 95% que as pessoas estāo vivendo no mundo e não na igreja. O sistema de indulgências estava permitindo que as pessoas usassem seus 5% das atividades da igreja como um substituto de seguir a Deus nos outros 95% de suas vidas.

Usar as relíquias e as boas obras da igreja como um substituto do verdadeiro arrependimento é exatamente o problema que está por trás da segunda tese de Lutero:

Esta palavra [“arrependimento”] não pode significar o sacramento da penitência, isto é, a confissão e a satisfação administradas pelo clero [pastores e oficiais da igreja]. (Tese 2)

Observe a palavra “satisfação”. É uma palavra de muita importância no contexto.

Todos desejamos satisfação. A questão é para que estamos buscando satisfação?

O arrependimento superficial pergunta: o que irá satisfazer a minha alma?

O verdadeiro arrependimento reconhece que esta não é a questão mais importante. O verdadeiro arrependimento pergunta: o que satisfará a justiça de Deus contra o meu pecado? Deus está descontente com a nossa maldade detestável e determinado a puni-la, e ele tem toda a razão em fazê-lo. Não encontraremos descanso para as nossas almas até descobrirmos o que pode extinguir a ira de Deus.

A Verdadeira Satisfação

Somente o próprio Deus pode prover o sacrifício expiatório que satisfaz sua justiça em nosso favor. Deus tornou-se um homem, viveu uma vida perfeita para satisfazer as exigências da lei de Deus, e tomou toda a culpa e punição do pecado sobre si mesmo para satisfazer a justiça da ira de Deus. Então ele ressuscitou para vindicar a Deus, derramar seu Espírito sobre a igreja e começar a regenerar o mundo para Deus.

Se só Deus pode fazer isso, então, obviamente, a igreja não pode fazê-lo. A “satisfação” não é “administrada pelo clero”, como os pregadores de indulgência com sua teologia inventada levavam as pessoas a crer. As relíquias e boas obras não podem satisfazer a justiça de Deus.

E se elas não podem satisfazer a justiça de Deus, elas não podem satisfazer nossas almas.

A obra da igreja não é prover serviços e bens religiosos. É, antes de tudo, ajudar as pessoas a entenderem do que realmente necessitam, que é Jesus. Em outras palavras, o trabalho da igreja é precisamente ajudar as pessoas a pararem de tentar usar serviços e bens religiosos para compensar seus déficits espirituais.

A obra da igreja não é prover serviços e bens religiosos.

É Jesus; através de sua vida perfeita, sua morte na cruz e sua saída do túmulo, quem satisfaz a justiça de Deus contra o nosso pecado. Tudo é feito por Jesus, em Jesus, através de Jesus. Não podemos merecer isto e não recebemos isto por qualquer obra própria; só podemos virar as costas ao pecado e confiar em Jesus, e receber dele como uma dádiva.

Mas aqui enfrentamos uma tentação perigosa. Há ainda um tipo de complacência espiritual ainda pior, ainda mais superficial, nos aguardando neste ponto. Lutero aborda isso em sua terceira tese:

O arrependimento interno não é suficiente, pois tal arrependimento é vazio, a menos que ele produza sinais externos, morrer para a carne de muitas maneiras. (Tese 3)

Não basta deixar de confiar em bens e serviços religiosos se as substituímos por nada, ou seja, temos um arrependimento “vazio” que não altera nossas vidas.

Vida Transformada

Você poderia trocar uma fralda como discípulo de Jesus?

Poucos anos depois das 95 teses, Lutero pregou um sermão sobre o casamento, no qual ele descreveu como o mundo olha para um homem que faz “trabalho de mulher”. Mas Lutero argumentou que um marido cristão está servindo a Jesus Cristo quando trabalha em casa, porque todo o seu trabalho, toda a sua vida, é um serviço para Cristo. Ele disse que todos os anjos e santos no céu cantam glória e louvor a Deus quando vêem um homem trocando uma fralda! (Não se preocupem, senhoras, as mulheres também podem trocar fraldas para a glória de Deus, portanto nāo se sintam deixadas de fora.)

Lutero não foi o primeiro a destacar este chamado para servir a Deus em todos os aspectos da vida, aquilo que os teólogos chamam de doutrina da vocação. E os que vieram depois dele contribuíram significativamente para a nossa compreensão disso. Mas na história, Lutero foi um dos maiores defensores desta doutrina. Pode-se ver as sementes de suas visões posteriores sobre isso bem no início das 95 Teses, com sua insistência de que o arrependimento do pecado é um modo de vida em tempo integral e que as obras religiosas não podem substituí-lo.


Nota do editor: Este é um trecho adaptado do novo eBook de Greg Forster, The Church on Notice: Overcoming Our Complacency, Consumerism, Idolatry and Injustice with Luther’s 95 Theses [A Igreja sob Aviso: Superando nossa Complacência, Consumismo, Idolatria e Injustiça com as 95 teses de Lutero].

Traduzido por Victor San

 

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