Quando o Cristianismo Não Funciona

Muitas vezes, quando as pessoas vêm a Cristo, lhes é prometida “vitória em Jesus”. Pessoas radiantes e sorridentes contam como já foram infelizes, mas agora estão cheias de júbilo intenso. Os casamentos quebrados foram refeitos, os filhos rebeldes foram endireitados, e a depressão foi banida para sempre.

Mas o que acontece quando o cristianismo não funciona assim?

Prova A: Jó

Jó era profundamente dedicado a Deus e à sua Palavra. Jó era tão zeloso por sua família que regularmente oferecia sacrifícios em favor deles, caso eles houvessem pecado (Jó 1.5). Satanás repreendeu a Deus pela fidelidade de Jó: “Porventura, Jó debalde teme a Deus?” Afinal, Jó vivia uma vida privilegiada. Era rico, feliz, e sua família tinha tudo. Então Deus permitiu que Satanás o provasse.

O dia seguinte trouxe um desastre após o outro. Em 24 horas, Jó perdeu quase tudo que era precioso para ele. No entanto, ele respondeu: “Nu saí do ventre de minha mãe e nu voltarei; o SENHOR o deu e o SENHOR o tomou; bendito seja o nome do SENHOR!” (Jó 1.21). Jó se recusou a acusar Deus de agir mal. Então Satanás se aproximou de Deus novamente: “Estende, porém, a mão, toca-lhe nos ossos e na carne e verás se não blasfema contra ti na tua face.” E desta maneira o corpo de Jó foi atormentado por tumores e dores até que sua própria esposa implorou: “Amaldiçoe a Deus, e morre!” Mesmo assim, Jó respondeu: “temos recebido o bem de Deus e não receberíamos também o mal??” (Jó 2.9-10).

Eis que chegam os famosos conselheiros de Jó. A princípio, eles responderam bem, passando uma semana simplesmente sentando-se com ele, recusando-se a dizer qualquer coisa porque viram sua dor. O que ele precisava era de amizade, não um caminhão de sermões. Mas depois de uma semana, eles começaram a expressar suas opiniões sobre os problemas de Jó. Tudo começou com o grito de desespero de Jó, amaldiçoando o dia de seu nascimento. Uma profunda e escura nuvem de depressão se apossou de Jó, e ele só podia desejar nunca ter nascido. Finalmente, Deus falou por si mesmo:

Quem é este que escurece os meus desígnios com palavras sem conhecimento? Cinge, pois, os lombos como homem, pois eu te perguntarei, e tu me farás saber. Onde estavas tu, quando eu lançava os fundamentos da terra? Dize-mo, se tens entendimento. (Jó 38.2-4).

A defesa de Deus deixou Jó sem desculpas. Apesar de sua elevada teologia, a experiência de Jó o levou a questionar a soberania e a bondade de Deus. Como não conseguia entender como essa experiência poderia ser conciliada com sua visão de Deus, concluiu que não havia resposta. Mas Deus o lembrou, tal como ele também nos lembra, que só porque não temos as respostas, não significa que não haja respostas.

Medo da Vida

A suposição natural diante de tal sofrimento é que Deus está nos castigando por nossos pecados. No entanto, sabemos pelo prólogo que aquela prova teve outra origem. Tal como Jó, tiramos conclusões com base em informações limitadas, tentando descobrir por que as coisas estão acontecendo conosco. Não temos acesso ao arquivo de Deus, à sua recâmera interior, e ele não nos diz diretamente por que coisas ruins estão acontecendo.

Isto não nos impede de tirar conclusões de qualquer maneira. Buscamos racionalizar o propósito por trás de tudo, mas Deus se recusa a ser “compreendido” nesses casos, e seu conselho está oculto aos mortais.

Para aqueles que estāo amarrados aos altos mastros do sofrimento, geralmente há um medo maior que o medo da morte. É o medo da vida. É o medo da manhã seguinte e da próxima manhã.

Diante do desespero profundo, é grande a tentação para o crente ou de se afastar de Deus, presumindo que ele está agindo iradamente contra o pecado pessoal, ou de se voltar para ele, sabendo que o crente está em paz com Deus. É por isso que Jó disse que seria capaz de se voltar para Deus nessa situação — se ele apenas tivesse um advogado. Gradualmente, porém, ele chega a uma maior confiança neste mediador:

Já agora sabei que a minha testemunha está no céu, e, nas alturas, quem advoga a minha causa. para que ele mantenha o direito do homem contra o próprio Deus e o do filho do homem contra o seu próximo. (Jó 16.19–21)

Mesmo que estejamos fracos demais para nos agarrar a Cristo, ele é forte o suficiente para nos segurar. Mesmo que não sejamos capazes de enfrentar o amanhã, Cristo já passou pela morte para o outro lado e tirou o aguilhão da morte. Tal como Jó, que sabia que seu Redentor vive e o veria no próprio corpo que, naquele momento estava coberto de chagas sangrentas e dolorosas, Paulo declarou:

E, se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação, e vã, a vossa fé… Se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida, somos os mais infelizes de todos os homens. (1Co 15.14, 19)

Mas E Se Não Funcionar?

O cristianismo não é verdade porque funciona. Na realidade, em muitos casos não funciona. Não resolve todos os problemas que achamos que deveria resolver. Aqueles que se tornaram cristãos porque lhes disseram que isto consertaria seus casamentos, mas agora têm de encarar o divórcio, poderiam muito bem desistir do cristianismo. Aqueles que esperavam se libertar de hábitos e desejos pecaminosos após uma conversão na qual a “vitória repentina” lhes foi prometida podem ficar desiludidos com Deus logo em seguida.

Não somos chamados para julgar a Deus. Ele não prometeu a nenhum de nós saúde, riqueza ou conforto. Antes, ele nos diz que nós que temos a expectativa de compartilhar a glória de Cristo também compartilharemos seu sofrimento. O cristianismo é verdade, não porque funciona para as pessoas, mas porque em torno de 2.000 anos atrás, nos arredores de Jerusalém, o Filho de Deus foi crucificado por nossos pecados e ressuscitado para nossa justificação.

Este evento histórico pode não consertar nossos casamentos, nossos relacionamentos ou nossas vidas bagunçadas da maneira — ou no momento — que desejamos, mas nos salva da ira de Deus que está por vir. Certamente todo o resto fica em segundo plano em comparação com esta grande questão. “E, assim como aos homens está ordenado morrerem uma só vez, vindo, depois disto, o juízo” (Hb 9.27).

Esperança Que Funciona

O cristianismo oferece esperança mesmo quando não funciona.

Tal como Jó disse que, se tivesse um mediador, poderia erguer os olhos para Deus em seu sofrimento, da mesma forma todos nós podemos chorar no ombro de nosso Pai, porque não temos nada a temer. Se pertencemos a ele, não é por Sua ira que nos enviou a dor e o sofrimento, pois ele intercepta os desígnios de Satanás e depois os molda — até mesmo o pecado e o mal — em mensageiros da graça.

E para todos nós que temos medo da morte ou medo da vida, as boas novas sāo que esse homem ainda está à direita de Deus, esse advogado que defende nossa causa. O nome dele é Jesus Cristo, e se a sua fé estiver nesta Rocha Eterna — neste Castelo Forte — ele será seu amigo, tanto neste mundo como no mundo vindouro.

Nota dos editores: Este artigo foi publicado originalmente no Core Christianity.

Traduzido por Vittor Rocha

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