O Que Não É Negociável na Integridade Missionária

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Em muitos lugares, os missionários se encaixam na mesma categoria social que os políticos e os mecânicos de automóveis. São recebidos com suspeita, seja na alfândega ou no salāo de barbeiro. Raramente se acredita nas palavras deles. Isso ocorre porque mais e mais embaixadores do Reino estão indo para áreas que são cada vez mais nacionalistas ou hostis ao Evangelho. Mesmo quando os moradores locais não se opõem ao cristianismo, eles podem simplesmente desconfiar de estrangeiros.

A realidade é que missionários enfrentam uma jornada difícil pela credibilidade relacional. Nem sempre é possível controlar as percepções das pessoas, mas é possível controlar a realidade. E a realidade é que missionários devem ter integridade de identidade.

Isto é especialmente significativo porque pregamos uma mensagem que depende da credibilidade. O Evangelho evoca a confiança. Portanto, se missionários perderem a integridade pessoal ou ocupacional, perderāo essencialmente a capacidade de fazer o seu trabalho. Afinal, se alguém não acredita em você, nunca acreditará no que você tem a dizer.

Estresse de Identidade

Lembro-me claramente da primeira vez que conheci meu senhorio na Ásia Central. Sua primeira pergunta foi: “Então, você trabalha para a CIA?”. Surpreso, respondi negativamente enquanto dava risinhos desconfortáveis.

Mas seria ingênuo supor que ele aceitara minha resposta cegamente. Não demorou muito para que eu percebesse que ele havia verbalizado uma suposição que muitos dos meus vizinhos compartilhavam. Eu havia chegado para me infiltrar na comunidade deles e subverter seu governo. Eles haviam me encaixado nesta suposiçāo desde o primeiro dia.

À medida que os missionários vão para o exterior — seja para um país muçulmano fechado, ou até para um país secular que restringe suas fronteiras — eles são frequentemente forçados a usar formas não tradicionais de obter entrada e garantir a residência. Alguns entram como turistas. Outros, como estudantes ou professores. Muitos dirigem uma organização não governamental (ONG) ou algum outro negócio. Mas poucos obtêm vistos de obreiros religiosos.

Aqui está o problema — que se desenvolve primeiro nas partes mais internas da psiquê de um missionário. É o estresse da identidade pessoal. E eu estava bem ciente disso a cada dia, nos sete anos que passei no exterior.

Quem sou eu? Sei que não sou um agente da CIA. Mas o que devo responder, quando meu vizinho, ou a polícia, perguntar se sou missionário?

Já lidei com essa questão em muitas ocasiões. E testemunhei meus colegas de trabalho responderem de várias maneiras. Respondiam que eram autores, educadores, construtores, consultores, artistas e designers — só para citar algumas. Em alguns casos, eles realmente o eram. Mas em outros, certamente não era o caso.

Infelizmente, alguns missionários não fazem nada do trabalho que dizem fazer. Ou o fazem tão raramente — ou consistentemente operam seus negócios no vermelho — que ninguém jamais poderia esperar viver com seu salário, muito menos sustentar uma família. Então, sempre que a pergunta “de onde você recebe seu dinheiro?” vem, eles não têm resposta confortável ou franca. A menos, claro, que afirmem ser independentemente ricos.

Dissonância Ocupacional

Antes de condenar todos esses missionários, experimente se colocar no lugar deles. Muitos não foram inspirados a deixar a família ou o conforto de casa pela perspectiva de ensinar negativos duplos em inglês. Não prestaram muita atenção aos balanços no primeiro ano do curso de administraçāo de empresas, e certamente não têm interesse em preenchê-los agora. Não, eles desistiram de tudo para levar o Evangelho às nações. Estão até dispostos a arriscar suas vidas por isso. Assim, a perspectiva de “perder tempo” fazendo outro trabalho apenas para obter acesso pode parecer como que os distrairá da questão principal.

Então, montamos estratégias para criar maneiras de chegar lá, e aí as chamamos de plataforma. Trabalhamos duro para obter acesso a um lugar, mas na verdade não trabalhamos duro vocacionalmente quando chegamos lá. Fazemos as malas e levamos nossa família para o outro lado do mundo, depois dizemos a nossos vizinhos que não começaremos a trabalhar por alguns anos, até que aprendamos a língua.

Eu sei, porque foi o que fiz.

Mas o mais doloroso para mim é que temo que nossos vizinhos estrangeiros possam enxergar através dessa fachada. Todo mundo que sustenta uma família na comunidade têm uma longa semana de trabalho, enquanto eu, aparentemente, não faço nada. Que trabalho sinistro devo estar tramando todos os dias atrás do meu computador, e dentro dos limites do meu apartamento? Quero dizer, você não estaria fazendo estas mesmas perguntas se um homem saudita trouxesse a família para a sua vizinhança, mas não parecesse trabalhar ou ter uma fonte de renda? E, se você ousasse perguntar, e ele balbuciasse a respeito de algum plano nebuloso para a possibilidade de um emprego futuro?

É assim para muitos missionários. Eles enfrentam o dilema do dia a dia do escrutínio governamental. Mas muito mais significativa é a percepção da comunidade local. Pouco importa o que pensa um burocrata nos escritórios do ministério de relações estrangeiras. Os missionários devem se preocupar primeiro com sua própria incongruência ocupacional, que é o que mais preocupa a família vizinha.

Confie no Mensageiro

Para ser claro, não estou sugerindo que esses missionários sāo mentirosos. Na verdade, acho que, na maioria dos casos, eles estão dizendo coisas verdadeiras. Também não sou contra o uso de plataformas. Desde que sejam legítimas, as plataformas têm um potencial maravilhoso. Mas esta é a questão. As plataformas — e a maneira pela qual nos explicamos ― acabam sendo críveis? Ou os missionários estariam minando a mensagem que proclamam sendo indignos de confiança?

Acho que podemos e devemos enviar missionários para lugares difíceis. Mas também creio que esses missionários devem ser quem eles dizem ser e fazer o que dizem que fazem — mesmo que não seja tudo o que estão sendo e fazendo. Em muitos casos, isto significará um sacrifício em horas destinadas ao ministério ou à agência missionária. Isso significará estar disposto a fazer o desagradável e o mundano em prol da construção de relacionamentos de confiança e de um testemunho confiável. Isso significa que eles nem sempre podem estar fazendo a “coisa principal”.

Com muita frequência, nós, da comunidade missionária, nos concentramos em criar acesso sem criar credibilidade. Estamos fazendo nosso trabalho sem integridade pessoal ou organizacional. E com o aumento de interesse na comunidade missionária, em torno da tendência do modelo de negócios como missão ― que eu creio que apresenta possibilidades ilimitadas ― devemos reconhecer que isso só funcionará se os envolvidos realmente fizerem seus negócios e o fizerem bem.

Este é o custo das missões modernas. Pode não significar perseguição ou martírio, mesmo nos locais mais perigosos. Em vez disso, pode significar horas sem fim de trabalho monótono para a glória de Deus. Este é o preço não negociável da integridade pessoal nas missões. Necessitamos reconhecer que as pessoas só confiarão em nossa mensagem se puderem confiar em seu mensageiro.

 

 

Traduzido por Joāo Pedro Cavani

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