Discipulado em Tempos de Pandemia

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Hoje eu gostaria de chamar a atenção de vocês para um único verso. Esse versículo tem sido um guia para minha vida pessoal e ministério há anos. Desde quando me deparei com ele precisei rever algumas prioridades.

Por isso, enquanto tivermos oportunidade, façamos o bem a todos, mas principalmente aos da família da fé. Gálatas 6.10

Acredito que há quatro lições importantes para às nossas vidas que podemos aprender com essa orientação do apóstolo, principalmente aplicando-o a esses tempos de pandemia.

Em primeiro lugar: temos uma ordem bíblica – “façamos o bem a todos”. Isso não é uma opção, é uma ordem.

Veja que Paulo nos ensina em orientarmos nossas vidas em direção ao próximo constantemente, “façamos o bem a todos”.

“Fazer o bem a todos” no contexto mais próximo do capítulo seis de Gálatas, significa:

Restaurar o irmão com espírito de brandura quando ele cair (Gl 6.1); levar as cargas uns dos outros (Gl 6.2); servir com bens materiais aqueles que nos instruem na igreja (Gl 6.6).

“Fazer o bem a todos”, portanto implica uma vida de discipulado. Eu preciso estar com meu irmão quando ele cair, restaurá-lo, suportá-lo e estar debaixo de boa instrução. Nada disso é opcional na vida cristã nem pode acontecer em uma vida isolada, mas comunitária.

Eu e minha esposa temos uma expressão que constantemente usamos para brincar um com o outro – “preguiça social”. Preguiça social é quando você acorda sem querer ver ninguém na sua frente. É quando você vai para a igreja, mas não quer dar bom dia para nenhum irmão. Quer sentar sozinho, ouvir a palavra e ir embora. Quer ser consumidor e não servo. É quando você não sente vontade de comunhão. Há várias razões para agirmos assim e eu não tenho espaço para abordar essas causas, mas fato é que nós precisamos nos alertar para a ordem bíblica e vencermos a nossa “preguiça social” constantemente. “Fazei o bem” deve estar gravado em nossas mentes e corações.

Em segundo lugar: o verso diz que devemos fazer o bem a “todos”, ou seja, sem distinção. 

Talvez esse ponto seja o mais difícil, pois nós gostamos de nossas “panelas”. Se você for sincero perceberá que a sua tendência é andar com aqueles que são mais parecidos com você ou tem mais coisas em comum. Damos mais atenção àqueles que gostam do mesmo estilo musical que a gente, se vestem parecidos conosco, torcem para o mesmo time e tem as mesmas preferências. Em resumo realizamos discipulado por semelhanças e não pelo evangelho. O evangelho nos lembra que temos sempre algo em comum com qualquer irmão – Cristo! E é quando pessoas tão diferentes andam juntas em amor e boas obras que a mensagem do evangelho está sendo melhor comunicada. Quando discipulo, amo e caminho com alguém tão diferente de mim, estou nitidamente demonstrando a essa pessoa e aos demais que Cristo é maior que as nossas diferenças.

Experimente ser disciplinado quanto a isso. Tenha sua “panela”, mas deixe a tampa aberta para outros entrarem. Busque intencionalmente a comunhão com os “diferentes”. Deixe Cristo ser o que une você e o seu próximo e assim esse relacionamento será saudável e duradouro.

Dietrich Bonhoeffer exemplifica bem essa ideia em seu livro “Vida em Comunhão”:

“O fato de sermos irmãos exclusivamente através de Jesus Cristo tem um significado imensurável. O irmão com o qual lido na comunhão não é aquela pessoa honesta, ansiosa por fraternidade e piedosa que está diante de mim, mas é a pessoa redimida por Cristo […] Nossa comunhão não pode ser baseada naquilo que a pessoa é em si, em sua espiritualidade e piedade. Determinante para nossa fraternidade é aquilo que a pessoa é a partir de Cristo. Nossa comunhão consiste unicamente no que Cristo fez por nós dois.”

Quando mantemos a motivação da nossa comunhão não no que o nosso irmão faz ou deixa de fazer, mas no que Cristo fez por ele, teremos sempre boas razões para caminharmos juntos.

Em terceiro lugar: discipulado deve respeitar agendas – “enquanto tivermos oportunidade”.

Não, Deus não cobrará de você que discipule todas as pessoas da sua igreja. Nós precisamos respeitar o “princípio da oportunidade”. Há pessoas que moram mais perto de você do que outras. Há aquelas que a agenda “bate” com a sua. Esse princípio é importante e facilitará o nosso discipulado.

Como pastor eu preciso me atentar a isso e quando percebo que esse “princípio da oportunidade” não me permite caminhar com alguém, eu procuro incentivar a pessoa à caminhar com outro irmão e irmã, sem peso na minha consciência. Portanto, busque o discipulado, mas tenha isso em mente. Não se proponha discipular alguém que você não terá outras “oportunidades”. Divida com os demais membros essa responsabilidade.

Em quarto lugar: discipulado acontece dentro da igreja local.

Paulo diz: “principalmente aos da família da fé”. Esse talvez seja o princípio mais importante no meu ministério. Deus espera que o discipulado aconteça dentro da igreja local – “aos da família da fé”. Lembrando que a membresia é o instrumento que demonstrará quem são os “da família da fé”.

Em nossa igreja trabalhamos muito bem esse princípio. Por exemplo, nós não adotamos nenhum projeto novo para o ministério da ação social, a não ser que todos da “família da fé” estejam bem assistidos. Eu não discipulo e aconselho aqueles que não são membros, caso haja membros que estão em necessidade e precisam de atenção. Minha maior preocupação sempre foi e sempre será com os da “família da fé”. O princípio nesse ponto é o “princípio da proximidade moral”. [1] Devemos priorizar fazer o bem aqueles que são moralmente mais próximos de nós: familiares, igreja e mundo, essa deveria ser a ordem.

É muito comum hoje em dia vermos discursos em igrejas que apelam dizendo que devemos “sair das quatro paredes”. Devemos nos engajar com inúmeros projetos sociais fora da igreja e buscar os de fora. Mas, quando olhamos para dentro dessas igrejas, pessoas estão tropeçando em sua caminhada cristã, com necessidades materiais e precisando de ajuda. É um pecado inverter a ordem do “especialmente aos da família da fé”. Devemos sempre pensar em discipulado a partir da igreja local. Todos devem estar nesse processo dentro da igreja para então pensarmos nos de fora. Devemos lembrar que “se vos amardes uns aos outros, todos conhecerão que sois meus discípulos” disse Jesus (Jo 13.35). Em outro lugar lemos: “ninguém jamais viu Deus”, mas “se amarmos uns aos outros, Deus permanece em nós e o seu amor em nós é aperfeiçoado” (1Jo 4.12). Em outras palavras, se nos amarmos, Deus será visto no nosso meio e esse será um grande testemunho ao mundo do amor dele. Deus é visto e conhecido através do nosso discipulado.

Com essas quatro lições propostas acima, gostaria de aplicá-las à nossa situação de pandemia:

1. Comece fazendo bem a si mesmo e aos seus familiares

Mais do que nunca precisamos nos disciplinar para nos fortalecermos no Senhor durante esses dias, isso acontece mediante disciplinas espirituais e comunhão. A vida devocional diária é o que sempre nos sustentou e continuará sendo assim durante esse tempo.

Por “devocional”, sugiro a simplicidade:

  • Leia um trecho da bíblia
  • Medite nesse trecho
  • Ore esse trecho

Quando Paulo diz que devemos pensar em tudo o que é “verdadeiro, respeitável, puro” (Fp 4.8), ele diz isso em contraste com a preocupação que toma conta dos nossos pensamentos diários – “não fiquem preocupados com coisa alguma” (Fp 4.6). Portanto, o caminho para vencer a ansiedade, não é só orar (4.7), mas também pensar (4.8). Pensar no que? O apóstolo responde: “O que também aprenderamreceberam e ouviram de mim…” (Fp 4.9). Ou seja, venceremos a ansiedade meditando na palavra apostólica, a palavra de Deus que é verdadeira e pura.

Comece seu dia com essa disciplina. Faça o bem a si mesmo!

Também envolva os demais da sua casa nessa disciplina. Pais, façam o bem a seus filhos instruindo-os no caminho do Senhor (Ef 6.4). Maridos, façam o bem às suas esposas alimento-a por meio da palavra (Ef 6.26, 29). Mulheres façam o bem aos de sua casa através da sua vida santa, com a beleza de um espírito manso e tranquilo (1Pe 3.3). Esqueçamos os de fora se temos esquecido os de dentro. Não invertamos a ordem divina.

Deem pouco tempo às notícias atuais. Faça o mesmo com o celular. Essas fontes estão secas. A Bíblia é clara em nos ensinar que ela mesma é a fonte da nossa alegria. Veja exemplos:

Os preceitos do Senhor são retos e alegram o coração (Salmos 19.8). Terei prazer nos teus decretos; não me esquecerei da tua palavra (Salmos 119.16). Quanto amo a tua lei! É a minha meditação todo o dia (Salmos 119.97). Os teus testemunhos, recebi-os por legado perpétuo, porque são a alegria do meu coração (Salmos 119.111). Achadas as tuas palavras, logo as comi. As tuas palavras encheram o meu coração de júbilo e de alegria, pois sou chamado pelo teu nome, ó Senhor, Deus dos Exércitos (Jeremias 15:16). Pelo contrário, o seu prazer está na lei do Senhor, e na sua lei medita de dia e de noite (Salmos 1:2). Tenho lhes dito estas coisas para que a minha alegria esteja em vocês, e a alegria de vocês seja completa (João 15:11).

Um exemplo que temos na história de um homem achando alegria na palavra de Deus é George Mueller (1805-1898), famoso por fundar orfanatos na Inglaterra. Veja o que ele diz sobre sua disciplina matinal:

“[…] vi claramente como jamais antes que o maior e principal assunto com que eu devia ocupar-me todos os dias era ter minha alma feliz no Senhor. A primeira coisa com que preocupar-me não era o quanto eu poderia servir ao Senhor, como eu poderia glorificar ao Senhor, mas como poderia alimentar meu homem interior. […] Antes dessa época meu costume fora, pelo menos nos dez anos anteriores, dedicar-me habitualmente à oração depois de me vestir de manhã. Agora eu vi que a coisa mais importante que tinha a fazer era dedicar-me à leitura da Palavra de Deus e a meditar nela, para que meu coração fosse confortado, encorajado, advertido, acusado, instruído; e que assim, enquanto eu meditava, meu coração fosse trazido à experiência da comunhão com o Senhor.

A primeira coisa que eu fazia, depois de pedir com poucas palavras a bênção do Senhor sobre sua preciosa Palavra, era começar a meditar na Palavra de Deus, investigando, por assim dizer, cada versículo para extrair bênçãos dele; não tendo nada em vista o ministério público da Palavra, nem com o propósito de pregar sobre o que tinha meditado, mas a fim de obter alimento para a minha própria alma. Descobri que o resultado quase invariavelmente é que, depois de uns poucos minutos, minha alma é levada a confessar, ou agradecer, ou interceder, ou suplicar; de modo que, apesar de eu não me dedicar à oração diretamente mas à meditação, ela se transformava quase imediatamente mais ou menos em oração.

Com frequência fico perplexo por não ter visto isso antes. Em nenhum livro jamais li sobre isso. Nenhum pregador já me aprestou a questão. Nenhuma conversa com um irmão despertou-me para esse assunto. Mesmo assim, agora, desde que Deus ensinou-me essa questão, ficou muito claro para mim que a primeira coisa que um filho de Deus tem de fazer manhã após manhã é buscar o alimento para seu homem interior. […] E o que é o alimento para o homem interior? Não é a oração, mas a Palavra de Deus; e novamente não a simples leitura da Palavra de Deus, para simplesmente fazê-la passar por nossa mente como água que corre por um cano, mas pensando no que lemos, ponderando e aplicando ao nosso coração.” [2]

Cuidemos de nós mesmos durante esses tempos de pandemia. É hora de redobramos a atenção e cuidado mútuo dentro de nossas casas, com paciência, amor e desenvolvendo a boa comunhão com Deus e uns com os outros. Lembrem que a primeira menção bíblica de satanás é no Éden, visando a destruição daquela primeira família. Ele continua agindo assim através dos tempos.

2. Faça o bem a todos da sua igreja local

A ordem divina não deve ser enfraquecida durante esse tempo de pandemia, pelo contrário. A pergunta constante que devemos fazer é “como farei o bem aos da família da fé durante esse tempo?”.

Faça o bem:

  • Orando por todos os membros de nossa igreja
  • Enviando mensagens de conforto e cuidado
  • Oferecendo ajuda prática
  • Participando ativamente das atividades online da igreja demonstrando o quanto você ama estar com os irmãos da fé
  • Servindo financeiramente aos irmãos necessitados

Não devemos pensar que esse tempo de pandemia é uma exceção para descumprimos o nosso cuidado mútuo.

Membros, não transfiram para os pastores aquilo que Deus te chamou para fazer.

3. Faça o bem a todos, inclusive aos que não são da “família da fé”

Também devemos nos atentar para com os de fora da nossa igreja local. O “especialmente” não deve ser substituído por exclusivamente “aos da família da fé”. Nosso amor e cuidado também deve estar sobre aqueles que Cristo ainda não alcançou.

Podemos amá-los:

  • Respeitando o distanciamento social proposto nesse momento para evitarmos uma contaminação maior do COVID-19;
  • Nos sacrificando com boas obras para que por meio delas eles venham glorificar a Deus, nosso Pai (Mt 5.16);
  • Pregando o evangelho a eles. Essa é na verdade a maior demonstração de amor, pois mais importante que um pão para matar a fome é o “pão vivo”, Jesus Cristo, que os salvará da fome e morte espiritual eterna.

Discipulado nunca foi tão importante como em tempos de pandemia.

Que Deus nos ajude!


[1] Aprendi esse princípio com Kevin DeYoung e Greg Gilbert no livro “Qual a missão da igreja” pela editora Fiel.

[2] PIPER, J. Em busca de Deus: a plenitude da alegria cristã. São Paulo: Shedd, 2008. pp. 128-130

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