“A gente tem que superrar a família…é um horror.” – Milly Lacombe
Conheço pouco a jornalista, e minha intenção não é falar acerca dela. O que me chamou a atenção em sua fala — ataque à família — é que ele não é nada novo, embora assuma contornos diferentes de tempos em tempos.
Na época da Revolução Francesa (1789-1799), centenas de sacerdotes foram mortos, a histórica Catedral de Notre-Dame foi batizada com um novo nome, “Templo da Razão”, e a Assembleia Nacional promulgou a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, dizendo que a “fonte de toda soberania está localizada, em essência, na nação…”. Claro, isso respingou no casamento, que até então era considerado um sacramento da Igreja Católica, mas agora passava a ser um ato civil, registrado pelo Estado — apenas um contrato entre dois cidadãos. Os efeitos de uma sociedade contratual e não mais pactual mudam tudo, principalmente nossas relações mais íntimas, que se tornam relações de interesse pessoal, deveres e direitos.
Depois tivemos ataques declarados por Marx e Engels no Manifesto Comunista (1848) e em A origem da família, da propriedade privada e do Estado (1884). Só para citar o primeiro exemplo: “Supressão da família! Até os mais radicais se indignam com esse propósito infame dos comunistas. Sobre o que se baseia a família atual, a família burguesa? Sobre o capital, sobre o ganho privado. Em sua plenitude, ela existe apenas entre a burguesia; mas encontra seu complemento na ausência forçada da família entre os proletários e na prostituição pública.”
A Revolução Industrial (séc. XVIII), de forma indireta, cooperou para que os homens deixassem seus lares e se tornassem “seculares”, tornando a mulher a nova “guardiã moral” do lar e instrumento de purificação do marido. Consequência que mais tarde serviu de semente fértil para o feminismo radical, destacando a superioridade feminina e a inveja das possibilidades masculinas, especialmente aquelas relacionadas ao trabalho.
Poderíamos ainda mencionar a biotecnologia: FIV, doação de gametas, gestação por substituição etc. Por mais nobres que sejam as motivações por detrás desses métodos, eles acabam dissociando vínculos biológicos, gestacionais e jurídicos. É a mercantilização do corpo e a contratualização dos filhos. Os debates éticos aqui são intermináveis: disputas legais entre genitores biológicos, gestacionais e sociais, além da produção seletiva de filhos.
Enfim, a lista só aumenta…
Biblicamente falando, a serpente astuta sempre atacou a família. Ela aparece a primeira vez no Éden, na tentação do primeiro casal (Gn 3). A abertura do capítulo é emblemática: “Mas a serpente, mais astuta que todos os animais […] disse: ‘É verdade…?’”. O fim trágico já conhecemos: o casal foi enganado e, em vez de “ossos dos meus ossos”, a relação agora era “a mulher que tu me deste”. De compatibilidade harmoniosa para guerra dos sexos.
Depois, o diabo é mencionado em 1Co 7.5. Reparem o contexto: “Não se privem um ao outro, a não ser talvez por mútuo consentimento, por algum tempo, para se dedicarem à oração. Depois, retomem a vida conjugal, para que Satanás não tente vocês por não terem domínio próprio.” O mesmo contexto — vida conjugal. Paulo sabia do interesse milenar da serpente na destruição familiar, por isso alerta as famílias de Corinto.
Em Efésios 6 temos o famoso capítulo sobre a batalha espiritual na perspectiva paulina. Devemos “vestir a armadura de Deus […] contra os ataques do diabo” (Ef 6.11). Mas lembre-se de que o contexto anterior eram as relações sociais, especialmente o casamento (Ef 5.21-33) e os filhos (Ef 6.1-4). Seria mera coincidência Paulo arranjar esses temas tão próximos? Acredito que não.
Quando chegamos ao Apocalipse, lemos que a antiga serpente perseguia a mulher grávida, tentando evitar que ela parisse seu Filho. Uma imagem clara sobre a Igreja e Cristo (na minha opinião), mas o contexto familiar também deveria nos chamar a atenção — a imagem de uma possível obstrução gestacional. Aliás, o diabo sempre teve seus Herodes na história humana: aqueles que, ameaçados por quaisquer razões, matam os mais indefesos — as crianças.
Agora, por que o ataque tão comum às famílias? A resposta é simples: pelo que ela representa.
Ao Estado, ela representa resistência. Afinal de contas, “minha casa, minhas regras”. Essa limitação que o Estado enfrenta com as famílias bem estruturadas o incomoda demasiadamente, pois leis e decretos ímpios encontram novos códigos morais dentro das casas, e ali, a voz do pai e da mãe sempre será suprema.
Ela também representa uma contracultura ao status quo. Cada família tem sua própria cultura e, por mais que o “curso deste mundo” (Ef 2.2) tenha sua própria bússola moral e espiritual, em casa as virtudes estão diariamente sendo criadas pelos hábitos morais impostos pelos pais e baseados naquilo que eles acreditam.
A família também representa outro tipo de resistência — a do individualismo. Aqui lembro de Roel Kuyper, que diz: “Individualização significa, entre outros, fazer uso para si mesmo de todas as escolhas disponíveis, também, e não menos, no domínio das relações sociais.” Mas todo mundo que vive em uma família sabe que liberdade plena e amor são antagônicos, pois ao amarmos nos restringimos — seja na rotina, no conforto, nas finanças ou nas vontades (por que não também nos pecados?).
Essa é a família: salvando sempre a humanidade do seu colapso.
Mas, por fim, Satanás não está interessado na cultura por si mesma, mas no evangelho. É nessa mensagem que Cristo subjugou seus poderes e a transformou em escândalo para o mundo (Cl 2.15). Agora entendemos a luta ferrenha da serpente contra a família: é no casamento que temos uma parábola de Cristo e a Sua Igreja (Ef 5); na relação entre irmãos de sangue que aprendemos sobre a “família da fé” (Gl 6.10); na paternidade divina temos exemplo do “Pai nosso…” (Mt 6.9); e nos nossos filhos lembramos dos “filhos espirituais na fé” (1Tm 1.2).
A família representa tudo isso. E Satanás detesta tudo isso.