A Deificação do Trabalho

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O trabalho não é só árduo…

Deus criou o trabalho e fez dele uma bênção. Um meio para obter o necessário para sobreviver e compor o ritmo da vida. Mas com o pecado, o trabalho se tornou árduo (Gn 3.17). Deus implementou essa característica como castigo para lembrarmos de que somos pó, pecadores e carecemos de uma redenção para o trabalho também. No entanto, para piorar, o homem o deificou elevando-o à categoria de um deus funcional. E isso se evidencia no fato de buscarmos nele o significado para a vida e a ele vincularmos a nossa identidade. Não seria de se estranhar que nos identifiquemos pelo título que o trabalho nos dá: sou designer gráfico, sou pastor, sou enfermeiro, sou missionário, sou engenheiro, sou assistente social, sou médico, sou advogado, sou policial, sou desenvolvedor de apps e games etc. “Eu sou o trabalho que eu faço, que eu domino”. Em certa medida é confortável identificarmo-nos pelo que fazemos, por aquilo sobre o qual temos controle. Mas, lembre-se que ele também pode nos dominar e nos controlar.

Somos a cara do nosso trabalho

O descanso semanal proposto na relação seis para um, isto é, seis dias de trabalho e um de descanso é o mais efetivo exercício espiritual de libertação das amarras do trabalho que se impõe como esse deus funcional, dando-nos identidade. Ao abdicarmos desse descanso, não é de se estranhar que nos tornamos o que adoramos. É evidente que isso acontece. Observe que apenas pelos critérios do senso comum é perceptível para todos nós identificarmos a profissão de determinadas pessoas, pois elas a evidenciam de maneira muito clara. Quem nunca fez a pergunta do tipo: “você é médico, não é?”; ou “você é pastor, não é?”; ou “você é militar, não é?”… É isso que eu estou defendendo aqui, a deificação do trabalho nos torna a cara dele. Em umas pessoas é mais forte do que em outras. E para essas pessoas em que a deificação é a âncora pra vida, a carga é tão alta que até mesmo no seio familiar ele continua sendo o médico, o militar, o engenheiro, o pastor, o pedreiro, o auxiliar administrativo e assim por diante.

Minha profissão é a salvação!

Há também, acoplado a deificação do trabalho, o que eu chamo de uma concepção soteriológica da profissão. Isto é, a consciência de que a área em que o indivíduo atua tem uma contribuição redentora para sociedade. E não poderia ser diferente, afinal tudo que é deificado será, em última instância, um salvador. Pense nos educadores, nos médicos, nos escritores, nos pesquisadores, nos biólogos, nos advogados, nos pastores, nos missionários etc. Todos, sem exceção, estão imbuídos em associar sua profissão com a redenção, em alguma medida, do ser humano e da sociedade. Sem ela a vida seria um inferno.  Isso ficou evidente quando o apresentador/comediante Jô Soares, numa entrevista concedida a Rede Band News (14/09/2019) afirmou: “A grande esperança da humanidade é o humor.”

Deificar o trabalho traz consigo a deificação do próprio indivíduo. Pois se nós deificamos o trabalho ou a nossa profissão, ocorre o que Deus nos revela que na Escritura Sagrada:  tornamo-nos naquilo que adoramos (Sl 115.4-8). Desta forma somos como deuses autossuficientes e salvadores das pessoas e da sociedade, como um sol ao redor do qual todos orbitam e dependem.

Lembre-se que o trabalho nos abandonará!

Além da idolatria funcional, que é um grande mal, quando quebramos o primeiro mandamento há uma consequência que entra sorrateiramente na vida das pessoas à medida que envelhecem. Afinal, o trabalho requer saúde, força, habilidade não só motora, mas intelectual. E com a velhice o trabalho nos abandonará. Posso dizer de uma forma mais objetiva, o deus trabalho, no qual vinculamos a nossa identidade nos abandonará e proporcionalmente ao buraco que ele deixa em nossas vidas aparecerá uma fonte de tristeza, pesar e amargura. Não é de se estranhar um sem número de pastores, por exemplo, que não aceitam o título de emergência e a jubilação e não conseguem conviver com o “barulho” que essa nova fase de “não-trabalho” lhes traz. E ficam completamente perdidos, angustiados, amargurados, reclamando de tudo e a todos porque já não podem usar o trabalho como tábua de afirmação identitária, totalmente frustrados.

Os exemplos de Bixler e Stemper: Identidade em Deus

Lembro-me de dois pastores que tiveram importantes papéis em minha família que me impactaram pela sua relação com o seu trabalho na fase final de suas vidas. O primeiro deles foi o missionário americano presbiteriano Rev. Cassius Bixler, por meio de quem meu tataravô (carinhosamente chamado de Papai Velho) conheceu o evangelho, no começo do século vinte. Rev. Bixler, depois do seu árduo trabalho em Sergipe e Bahia retornou aos Estados Unidos da América. E escolheu sentar-se no banco da igreja como um membro comum. O empreendimento missionário e tudo que Ele viu Deus fazer por meio dele, não causou a deificação do seu trabalho e foi como membro comum de uma igreja que ele faleceu.

O outro pastor é o Rev. John Stemper (ainda vivo) que em seu curto período no Brasil, nos idos de 1966 foi o responsável por conduzir o meu pai, Rev. Neemias, ao Seminário Presbiteriano do Norte. Em 2013 tivemos o privilégio de reencontrá-lo, nos Estados Unidos, depois de pouco mais de quarenta anos sem qualquer contato entre meu pai e ele. Naquele dia, ele estava com oitenta e dois anos. Suas palavras ao meu pai me confrontaram: “Neemias, as pessoas já não me chamam para pregar. Prego muito pouco. Eu estou velho. Mas Deus me deu um novo ministério, o da oração.” E exortou o meu pai para essa realidade da vida. Ele evidenciava que o sentido da vida e sua identidade estavam em Deus. É possível ressignificarmos esses momentos da vida quando o trabalho nos escapa. Mas isso só é possível quando atrelamos a nossa existência ao Deus Criador. A nossa identidade se encontra em Deus e em Cristo.

A identidade do cristão nasce no poder de Deus

Nas minhas lutas de afirmação identitária ouvi o meu conselheiro e missionário americano Tom Marks dizer, numa referência a Efésios 1.19 e 20, o seguinte: “…o apóstolo Paulo nos ensina que o poder que Deus usou para ressuscitar a Cristo foi o mesmo que ele usou para nos salvar.” Aquilo entrou no meu coração como um vento tempestuoso e se tornou em uma brisa refrescante e suave. A minha identidade estava aí explicitada. Não sou um pastor-missionário apenas. Sou filho-de-Deus, depois esposo, pai, pastor-missionário. Sim, essa é a nossa primeira e definidora identidade: filhos de Deus. Isso é libertador e confortador. Não importa o que as pessoas pensem quem eu sou, porque a minha identidade não é definida por elas, nem muito menos pelo meu trabalho, pela minha profissão. Tudo isso é frágil. É no poder de Deus que está ancorada a minha e a sua identidade

O Sabbath é o caminho da libertação

Precisamos olhar no espelho da nossa alma com os olhos (espirituais) bem abertos e perguntarmos, cada um de nós: o estilo de vida que eu levo, reflete a profissão que eu abraço ou reflete o Deus que criou o trabalho e me deu a habilidade e capacidade de laborar para subsistir e encontrar o meu significado e identidade nEle e para Glória Dele?

Concordo com as palavras de Timothy Keller no seu tweet de 19 de fevereiro de 2015: “O Sabbath é a declaração de libertação da tirania da identidade no ambiente do trabalho colocado sobre nós na [nossa] cultura.” Não tenha dúvida de que o quarto mandamento é atual e libertador. Sempre o associamos ao legalismo cego dos fariseus e por isso nem o contabilizamos na nossa caminhada cristã. Penso que o nosso erro é de o desqualificarmos como Palavra de Deus para hoje, como se fosse algo para os antigos apenas ou para os ultraconservadores. Mas pense bem e reconsidere. A guarda do dia do Senhor é um presente advindo do amor do pai por nós, no mesmo patamar das suas misericórdias que se renovam a cada dia. O Santo Sabbath é o nosso fundamental exercício para ensinar à nossa frágil alma que a nossa identidade e o sentido da nossa existência estão firmados sobre uma plataforma eterna que é o próprio Deus e não no nosso trabalho. Guardar o dia do Senhor é reafirmar ao nosso instável coração e refrescar a nossa frágil e amnésica memória de que no EU SOU apenas é que nossa vida encontra verdadeiro significado, e que Nele nos deleitaremos, com uma identidade também eterna, de filhos de Deus.

Que Deus nos abençoe com a alegria e o deleite do ritmo semanal por Ele proposto, como exercício espiritual de realinhamento identitário ao nosso Criador; Aquele que depois de criar todas as coisas, descansou (de contentamento, por estar tudo completado por Ele). Que Ele seja a nossa alegria!

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