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Infelizmente, estamos familiarizados com pastores que deixam o ministério por conta de impropriedades sexuais. Tais incidentes parecem ocorrer com tanta frequência que quase não são dignos de notícia para um mundo que está observando.

Mas outra tendência, igualmente triste, se desenvolveu nos últimos anos: Pastores tiveram que sair por causa do bullying.

Embora devamos nos preocupar com essa tendência, talvez não devêssemos nos surpreender. O apóstolo Pedro já tinha a expectativa desta possibilidade no primeiro século. Escrevendo aos pastores, ele advertiu que eles não deveriam ser “dominadores dos que vos foram confiados” (1Pe 5.3). Mas embora pastores dominadores não sejam um problema novo, parece que estão cada vez mais evidentes na igreja ocidental hoje em dia. Em alguns casos, o bullying continua por muitos anos sendo, ou não reconhecido ou não contestado. Isto levanta algumas questões importantes: Qual virtude da liderança estamos confundindo com o bullying? Qual característica é uma prioridade tão grande que nem percebemos quando ela é implantada de maneira ímpia e biblicamente proibida? Em suma, por que acabamos com valentões como pastores proeminentes?

CEOs e Generais

Minha observação é que este processo se desenrola de maneira ligeiramente diferente, conforme o lado do Atlântico. É comum nas igrejas norte-americanas assimilar sabedoria de liderança vinda do mundo dos negócios. O pastor é o CEO. Seu papel é trazer sucesso, muitas vezes e especialmente medido em termos numéricos: A igreja precisa crescer em números e em ofertas. No Reino Unido, é um pouco diferente. A igreja tende para um modelo militar. O pastor é o general de três estrelas que orienta cada um a fazer as coisas certas.

Obviamente, há muito a aprender com os CEOs de sucesso e também com os grandes generais, mas ambos os modelos podem se tornar rapidamente tóxicos. É de se admirar que quando um dos dois modelos se torna o principal modelo para a liderança cristã, isto resulte em pastores dominadores? A abordagem do pastor-como-CEO pode fomentar o empreendedorismo e assumir riscos, mas torna-se facilmente orientada para os resultados. A abordagem do pastor-general pode promover a perseverança e a determinação, mas torna-se facilmente orientada para as tarefas. Uma produz a arrogância: a palavra deles é lei porque são economicamente indispensáveis para a igreja. A outra produz presunção: As ordens devem ser seguidas porque o general “sabe” o que é melhor para cada pessoa. Em ambos os casos, ou toleramos ou deixamos de ver características de bullying, porque os objetivos de ministério justificam os meios do ministério.

Mas não deve ser assim. Paulo nos adverte até mesmo sobre dons superlativos usados sem amor: “Ainda que eu tenha o dom de profetizar e conheça todos os mistérios e toda a ciência; ainda que eu tenha tamanha fé, a ponto de transportar montes, se não tiver amor, nada serei.” (1Co 13.2).

Paulo não escreveu que simplesmente os dons usados sem amor ficam “comprometidos” ou “diminuem em eficácia”. Ele nem menciona o ministério resultante, mas somente a pessoa que exerce os dons — e eles não são nada. No final das contas, a “superdotação” às custas do caráter nāo é efetiva. Por mais deslumbrantes que sejam aos olhos dos homens, os pastores sem amor desaparecem no nada aos olhos de Deus.

Problemas com a Liderança Dominadora

Portanto, necessitamos olhar de perto para o que Pedro escreveu:

Pastoreai o rebanho de Deus que há entre vós, não por constrangimento, mas espontaneamente, como Deus quer; nem por sórdida ganância, mas de boa vontade; nem como dominadores dos que vos foram confiados, antes, tornando-vos modelos do rebanho. (1Pe. 5.2–3)

Aqui Pedro faz três contrastes sobre a obra e o coração de um presbítero: deve haver disposição, não compulsão; serviço, não ganância; e ele deve liderar pelo exemplo, não por coerção.

Dominar é causar conformidade pela força. No contexto do ministério pastoral, isto ocorre quando o rebanho adere às coisas pela compulsão, e não pela obra do Espírito em seus corações. Envolve o uso de intimidação, ameaças ou bullying. Pode haver alguma conexão com os contrastes anteriores que Pedro tinha acabado de fazer: ser dominador é uma forma de cobiça (“sórdida ganância”) — cobiça por poder sobre os outros. E da mesma maneira como Pedro havia dito que o presbítero deve servir espontaneamente (v. 2), assim também aqueles que seguem devem seguir espontaneamente.

Liderança dominadora resulta de uma incompreensão do papel do pastor. Sim, existe uma autoridade real ligada ao ofício. O escritor aos Hebreus nos diz “Obedecei aos vossos guias e sede submissos para com eles” (Hb 13.17). Mas ele continua: “pois velam por vossa alma, como quem deve prestar contas, para que façam isto com alegria e não gemendo; porque isto não aproveita a vós outros.” A primeira parte protege de anticlericalismo por parte da congregação, a segunda de autoritarismo por parte da liderança. O pastor deve servir com alegria, assim como o rebanho deve seguir de bom grado. Embora o pastor esteja sobre o rebanho (1Ts 5.12), essa não é sua única relação com ele. Pedro nos recorda que o rebanho não está apenas “aos seus cuidados” (NVI) (sugerindo que a identidade primária do pastor é de superioridade hierárquica), mas também “entre vocês” (lembrando ao pastor que ele não está acima do rebanho, mas é de fato um membro do rebanho).

A liderança dominadora é baseada em valores do mundo. Jesus disse: “Sabeis que os que são considerados governadores dos povos têm-nos sob seu domínio” (Mc 10.42). Este é o caminho do mundo ao nosso redor, mas não deve ser verdade para a igreja local — “mas entre vós não é assim” (v. 43). Há muito que podemos aprender com insights seculares sobre liderança, mas é necessário também reconhecer que há um claro contraste entre como a liderança é exercida no mundo secular e como é exercida na igreja. Podemos aprender com CEOs e generais, mas os pastores não devem ser CEOs nem generais.

A liderança dominadora é contrária aos ensinamentos do Novo Testamento sobre o governo da igreja. Os cristãos têm convicções diferentes sobre como as igrejas devem ser estruturadas, mas uma coisa parece incontrovertida nas Escrituras: as igrejas devem ser lideradas por uma pluralidade de presbíteros. Em nenhum lugar, o Novo Testamento se refere a um ancião da igreja no singular. A igreja pode ter um pastor principal, mas deve haver uma pluralidade daqueles que compartilham a responsabilidade de liderança. Nenhuma pessoa deve estar no comando. No entanto, é fácil ter um conjunto de presbíteros em teoria e ainda assim ter um pastor que seja dominador. A chave é se há uma clara responsabilidade e correção, e se isto pode ser — e realmente é — exercido.

Catástrofe de Liderança

Ser dominador é catastrófico para um rebanho. A curto prazo, parece eficaz — faz as coisas funcionarem! — mas a long prazo é desastroso. O que Paulo escreveu aos romanos sobre lidar com o “débil na fé” é instrutivo neste contexto. Os débeis na fé (Rm 14.1) se abstêm de certos alimentos ou observam certos dias, embora Deus não exija que eles o façam. Mas se isso se tornou uma questão de consciência, eles não devem ser coagidos a mudar sua prática: “Mas aquele que tem dúvidas é condenado se comer, porque o que faz não provém de fé e tudo o que não provém de fé é pecado” (Rm 14.23).

Paulo está destacando um princípio amplo que se aplica além da discussão imediata sobre alimentos ou dias especiais. Tudo o que não provém da fé é pecado.

Se um crente tem uma certa visão doutrinária ou se comporta de certas maneiras simplesmente porque um pastor dominador o coagiu, então tal visão ou ações não provém da fé. Não foram causadas pelo Espírito de Cristo, mas pela contundência de um líder. Isso é catastrófico pois o crente não está sendo guiado pelo Senhor, mas pelo homem. Crer nas coisas certas não serve para nada se for pelo motivo errado.

Antídoto contra a Liderança Dominadora

O antídoto de ser dominador, então, é liderar pelo exemplo e não por coerção: “nem como dominadores dos que vos foram confiados, antes, tornando-vos modelos do rebanho.” (1Pe 5.3).

O rebanho deve ser liderado, sim, mas não pela força da personalidade. O rebanho deve ser liderado pela beleza do exemplo. Ser dominador é má liderança; e a solução para a má liderança não é não ter liderança, mas ter o tipo certo de liderança.

Novamente, há autoridade no ofício de presbítero (Hb 13.17). Haverá momentos em que um pastor necessita pedir que o cargo seja respeitado e honrado. Mas as pessoas devem ser obedientes aos seus líderes não por terem pavor deles, mas porque são inspirados e encorajados por eles. Em última análise, deve ser porque os líderes, por seu exemplo os apontam para Cristo e os estimulam a seu próprio amor e às boas ações.

 

Traduzido por Felipe Barnabé

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