- O argumento contemporâneo e a confusão conceitual
Uma ideia tem ganhado espaço em discussões evangélicas recentes: a de que a tentação ou atração homossexual seria equivalente à tentação heterossexual, constituindo apenas uma inclinação que, em si mesma, não seria pecado, mas se tornaria pecaminosa somente quando há consentimento da vontade. O problema é agravado por uma frequente confusão conceitual entre atração ou inclinação, tentação, desejo ou cobiça, prática, e a própria criação do ser humano. Segundo essa perspectiva, tanto a atração pelo mesmo sexo quanto a atração pelo sexo oposto procederiam da natureza pecaminosa, mas não implicariam culpa moral até que a pessoa consentisse interiormente ou a transformasse em ação.
Um elemento adicional que precisa ser considerado é a confusão moderna entre desejo e identidade. Historicamente, a sexualidade era compreendida como comportamento; apenas na modernidade passou a ser tratada como essência da pessoa. Como observa Christopher Yuan, em Sexualidade santa, essa mudança transforma “o que eu sinto” em “quem eu sou”, convertendo experiência em ontologia. Esse deslocamento não é bíblico, mas fruto de categorias modernas. A Escritura, ao contrário, ancora a identidade humana não nos desejos, mas na criação à imagem de Deus e, redentivamente, na união com Cristo.
Tanto o ensino bíblico quanto as confissões clássicas da tradição reformada – reafirmado inclusive em resolução do Supremo Concílio da Igreja Presbiteriana do Brasil (SC-2022-DOC. XXVI) – indicam que a atração homossexual constitui um desvio grave e não natural da ordem da criação, sendo em si mesma pecaminosa, especialmente à luz do Décimo Mandamento, que condena não apenas atos externos, mas também toda inclinação interna contrária à lei de Deus.
- O testemunho confessional da Igreja Reformada
A resolução do SC/IPB-2022 é explícita ao declarar incompatível com o ensino bíblico a ideia de que “o desejo homossexual em si não se configura como pecado, a não ser que seja levado ao ato sexual efetivo”. O documento cita diretamente o Catecismo Maior de Westminster (Q. 139), que classifica “sodomia e todas as concupiscências desnaturais; todas as imaginações, pensamentos, proposições e afetos impuros” como pecados contra o sétimo mandamento. Assim, a Igreja Presbiteriana do Brasil reafirma que a mera inclinação já carrega culpa moral, sem necessidade de consentimento voluntário para ser considerada pecado.
Importa destacar que, na tradição reformada, as Confissões de Fé e os Catecismos possuem autoridade eclesiástica superior às opiniões pessoais de qualquer teólogo, por mais respeitado que seja. Enquanto João Calvino, John Owen, Jonathan Edwards e até mesmo teólogos contemporâneos como Iain Provan e N.T. Wright são citados com proveito, nenhum deles constitui padrão doutrinário vinculante. A igreja se submete às confissões (Westminster, Belga, Escocesa) e aos catecismos (Maior, Menor e de Heidelberg) como normas subordinadas à Escritura, precisamente porque eles expressam o consenso bíblico da igreja reformada ao longo dos séculos. Por isso, quando a Confissão de Westminster, o Catecismo Maior ou a resolução do Supremo Concílio da IPB declaram que a inclinação homossexual já é pecado, essa declaração possui peso maior e mais definitivo do que qualquer interpretação individual posterior.
- A ordem da criação como fundamento da sexualidade
As Escrituras estabelecem desde o princípio a ordem da criação como fundamento para a sexualidade humana. Em Gênesis 1.27 e 2.24, Deus cria o ser humano como homem e mulher, designando a união heterossexual monogâmica como o único contexto legítimo para a expressão sexual. A diferenciação sexual entre homem e mulher, com sua complementaridade corporal e sua ordenação para a união conjugal, integra a boa ordem da criação. Como reforça N.T. Wright: “Com pressuposições cristãs ou judaicas […] você conclui com masculino e feminino. É tudo sobre Deus fazendo pares complementares que devem operar juntos. […] Um casamento homem-e-mulher é um indicador ou um sinal sobre a bondade da criação original e a intenção de Deus para os eventuais novos céus e nova terra.” Qualquer desvio dessa ordem é uma supressão direta da revelação natural de Deus.
Como escreve Iain Provan, em O que é ser humano: “Neste mundo de ‘gêneros’ em constante multiplicação (81, segundo uma contagem recente – mas cada vez maior aparentemente a cada semana), o que a antropologia cristã exige de nós? Pois bem, em nenhum dos textos bíblicos que tratam de nossa natureza como portadores da imagem de Deus há qualquer fundamento para a noção de que um ser humano possua um ‘gênero’ que não esteja intrinsecamente ligado ao seu sexo biológico criado por Deus. […] As Escrituras não nos dão qualquer base para acreditarmos que a ‘verdadeira’ identidade de uma pessoa nascida com um corpo feminino seja, na realidade, masculina, ou vice-versa. Tampouco encontramos nelas qualquer fundamento para redefinirmos o corpo que Deus nos deu a fim de torná-lo mais semelhante ao do sexo oposto. Na verdade, a antropologia cristã insiste […] que os seres humanos são ‘entidades psicossomáticas’ […]. Ela não incentiva a crença em qualquer forma de ‘dualismo entre o corpo e a pessoa’, por meio do qual meu corpo não seria realmente meu ‘eu’, mas o ‘eu’ residiria, em vez disso, em algum lugar ‘dentro’ de meu corpo, esperando para irromper em uma existência autêntica. Assim, qualquer noção de que a verdadeira identidade de uma pessoa está ‘dentro’ dela e tem pouca ou nenhuma relação com sua forma corporal é bastante problemática do ponto de vista verdadeiramente cristão.”
Aliás, a doutrina bíblica da imagem de Deus impede dois erros opostos: reduzir o ser humano à sua queda ou ignorar a gravidade do pecado. Como destaca Christopher Yuan, a imago Dei não foi perdida, mas profundamente distorcida pela queda. Isso significa que os desejos humanos não são neutros nem confiáveis em si mesmos, pois são afetados pela corrupção do pecado. Assim, a existência de um desejo não o legitima moralmente; antes, deve ser avaliado à luz da ordem criada e da lei de Deus.
- Romanos 1 e a inversão da ordem criada
Essa ordem criacional não aparece apenas em Gênesis. O apóstolo Paulo interpreta explicitamente essa estrutura em Romanos 1. Seu argumento pressupõe a narrativa da criação: Deus fez a humanidade “macho e fêmea”, e a relação entre homem e mulher constitui a forma natural da sexualidade humana. Quando Paulo fala de relações “contrárias à natureza”, ele não apela a costumes culturais, mas à própria estrutura criada descrita em Gênesis.
Romanos 1.26-27 é explícito: “Por causa disso Deus os entregou a paixões vergonhosas. Até suas mulheres trocaram suas relações sexuais naturais por outras, contrárias à natureza. Da mesma forma, os homens também abandonaram as relações naturais com as mulheres e se inflamaram de paixão uns pelos outros. Começaram a cometer atos indecentes, homens com homens, e receberam em si mesmos o castigo merecido pela sua perversão”. Paulo descreve essas paixões como “vergonhosas”, “indecentes” e “contrárias à natureza”. Não se trata de mera tentação comparável à heterossexual; é uma inversão ativa da ordem criada.
N.T. Wright, em análise detalhada de Romanos 1, aprofunda o vínculo com a criação: “A denúncia de Paulo da prática homossexual em Romanos 1 é bem conhecida, mas não tão bem compreendida […] O ponto de seu destaque de feminino e masculino se afastando do uso natural para o antinatural surge diretamente do texto que é seu subtexto. […] Em Gênesis 1 é claro que macho e fêmea foram criados como portadores da imagem de Deus. […] Paulo vê claramente o comportamento homossexual como, em última análise, uma forma de desconstrução humana. Ele não está dizendo que todos que descobrem instintos homossexuais escolheram cometer idolatria e escolheram o comportamento homossexual como parte disso; em vez disso, ele está dizendo que em um mundo onde homens e mulheres se recusam a honrar a Deus, esse é o tipo de coisa que você encontrará.” Aqui reside a distinção fundamental. A atração pelo sexo oposto, embora possa ser corrompida pela cobiça (como Jesus ensina em Mateus 5.28), não contradiz em si a diferenciação criacional homem-mulher do mesmo modo que a atração pelo mesmo sexo.
Assim, como observa Robert A. J. Gagnon, em A prática homossexual é igual a qualquer outro pecado?, a prática homossexual viola diretamente a complementaridade homem-mulher estabelecida em Gênesis, sendo classificada por Paulo como indecência e comportamento “perverso”. Gagnon destaca que, enquanto adultério ou poligamia violam mandamentos secundários, a homossexualidade ataca o próprio fundamento da criação sexual.
E a atração homossexual carrega agravante adicional. Gagnon, ao analisar Romanos 1 e Levítico 18.22; 20.13, mostra que a homossexualidade é classificada nas Escrituras como to’evah (“abominação repugnante”) e situada entre as ofensas sexuais mais graves, ao lado do incesto e da bestialidade. A Confissão de Fé de Westminster afirma explicitamente que “as transgressões da lei de Deus não são todas igualmente abomináveis, mas alguns pecados por si sós, e em razão de diversos agravantes, são mais abomináveis aos olhos de Deus do que outros”. Mais uma vez: diferente da tentação heterossexual, que pode ser direcionada ao casamento bíblico (ainda que distorcida pela cobiça), a tentação homossexual inverte completamente a ordem criacional e manifesta supressão ativa da revelação de Deus.
Nesse contexto, a questão não é apenas moral, mas profundamente teológica. A elevação da sexualidade ao nível de identidade constitui uma forma de idolatria, aquilo que a Escritura descreve como a troca da verdade de Deus por uma mentira (Rm 1.25). Como observa Christopher Yuan, a cultura contemporânea transformou a sexualidade em elemento definidor do “eu”, quando, biblicamente, a identidade humana está enraizada na criação à imagem de Deus e, redentivamente, em Cristo. Assim, o problema não é apenas o comportamento, mas a absolutização do desejo.
- Estrutura e direção
Albert M. Wolters, em A criação restaurada, distingue entre estrutura e direção. A estrutura refere-se à ordem criada por Deus, boa em si mesma e inscrita na realidade, isto é, à constituição criacional das coisas conforme a lei da criação.
A direção, por sua vez, refere-se ao modo como essa estrutura é orientada na história: pode ser dirigida em obediência a Deus ou desviada pelo pecado, mas também pode ser redirecionada pela redenção em Cristo. Trata-se, portanto, da ordem da queda e da redenção atuando sobre a criação.
Aplicando essa distinção à sexualidade humana, a estrutura diz respeito à sua constituição criacional como parte da boa criação de Deus, ordenada segundo sua lei e dotada de um apelo normativo – como o chamado ao amor, ao compromisso e à fidelidade. Esse apelo permanece mesmo após a queda, como indica a própria Escritura (cf. Pv 8), ainda que frequentemente reprimido ou distorcido.
A direção, por outro lado, refere-se à forma como a sexualidade é vivida: ela pode ser orientada para a obediência ou para a desobediência. Assim, práticas que se desviam do desígnio criacional de Deus constituem não uma alteração da estrutura, mas uma distorção direcional – isto é, uma orientação desordenada daquilo que, em si mesmo, permanece criação boa.
Nesse sentido, mesmo formas profundamente desordenadas de sexualidade não anulam a estrutura criada, mas a distorcem. É por isso que Wolters insiste que a estrutura persiste apesar da perversão direcional: o pecado não destrói a criação, mas a desfigura.
Além disso, Deus, em sua fidelidade à criação, restringe os efeitos do pecado (aquilo que a tradição reformada chama de graça comum) impedindo que a distorção leve à completa desintegração da ordem criada. Essa contenção não redime, mas preserva. A redenção propriamente dita, porém, encontra-se em Cristo, que restaura a direção da vida humana à verdadeira obediência.
Dessa forma, evita-se o erro gnóstico de identificar o mal com algum aspecto da própria criação. O problema não está na sexualidade enquanto tal, mas na sua direção. A estrutura permanece boa; o que pode ser mau é a sua orientação.
- O testemunho da teologia reformada
João Calvino, em seu comentário à epístola aos Romanos, chama o ato homossexual de “um crime terrível de concupiscência não natural” e “pior do que desejos bestiais, uma vez que reverte toda a ordem da natureza”. Calvino explica que Deus entregou os homens a tais “paixões vergonhosas” e “feitos monstruosos” como juízo visível contra a idolatria. A própria paixão interna já manifesta a ira de Deus, sem necessidade de ato externo para ser condenável.
Ele reforça exatamente esse ponto em seu comentário à epístola de Tiago: “E os papistas ignorantemente se seguram nesta passagem, e procuram provar a partir dela que cruel, sim, sujo, perverso, e as mais abomináveis luxúrias não são pecados, desde que não haja consentimento”. Enquanto o catolicismo romano, ao rejeitar grande parte da antropologia agostiniana, ensina que a concupiscência só se torna pecado com o consentimento da vontade, Calvino afirmou o contrário: a própria concupiscência já é pecado perante Deus, independentemente de qualquer aquiescência voluntária. Assim, a atração homossexual, sendo uma forma de concupiscência, é moralmente culpável em si mesma, mesmo sem ato externo. A Escritura não deixa margem para reduzi-la a mera inclinação neutra.
É necessário distinguir entre tentação externa e concupiscência interna. Cristo foi tentado externamente pelo diabo (Mt 4.1), mas não havia nele qualquer inclinação pecaminosa. Sua tentação não brotava de dentro, mas vinha inteiramente de fora. Tiago 1.14 descreve uma realidade distinta na humanidade caída: “Cada um é tentado pela sua própria cobiça, quando esta o atrai e seduz”. Aqui, a tentação não é meramente externa, mas nasce do interior da própria natureza corrompida. Essa inclinação interna é a concupiscência. E ela não é moralmente neutra: já constitui, em si mesma, pecado, ainda antes de qualquer consentimento deliberado da vontade. Não se trata apenas de uma possibilidade de pecado, mas de uma desordem real do coração, que já viola a lei de Deus em nível de desejo e inclinação.
O ensino de Jesus confirma esse princípio. Em Marcos 7.21–23, Cristo declara que a imoralidade sexual procede do coração humano, juntamente com outros pecados que contaminam o homem. Assim, a raiz do pecado não está apenas no ato exterior, mas na disposição interior do coração. Ou seja, desejos desordenados são moralmente culpáveis diante de Deus.
E o apóstolo Paulo reforça esse princípio ao tratar das paixões desordenadas. Em 1 Tessalonicenses 4.3–5, Paulo exorta os cristãos a se absterem da imoralidade sexual e a não viverem “com desejos imorais, como os gentios que não conhecem a Deus”. O apóstolo não condena apenas atos externos, mas a própria paixão desordenada que brota da natureza caída.
- O décimo mandamento e o pecado das inclinações
O Décimo Mandamento aprofunda essa análise, indo além dos atos externos para condenar o desejo interno. Êxodo 20.17 ordena: “Não cobice a casa do seu próximo. Não cobice a mulher do seu próximo […] nem coisa alguma que pertença ao seu próximo”. A tradição reformada interpreta isso como proibição de toda inclinação desordenada. O Catecismo de Heidelberg (Q. 113) é claro: “Que requer Deus de nós no décimo mandamento? Que nem mesmo a menor inclinação ou pensamento contra qualquer dos mandamentos de Deus se levante em nosso coração; antes, que em todo o tempo odiemos o pecado com todo o nosso coração e tenhamos prazer em toda justiça”.
Qualquer “inclinação” ou “pensamento” contrário à lei divina, incluindo a ordem da criação, é pecado. A atração homossexual não é uma tentação neutra; é uma inclinação contrária ao sétimo mandamento, que enfatiza a pureza sexual no casamento heterossexual, e à estrutura criacional. Ou seja, a mera inclinação homossexual, por ser contrária à ordem criacional, já viola o sétimo e o décimo mandamentos, sem necessidade de consentimento voluntário.
- Concupiscência e a corrupção humana
O próprio Cristo aprofunda essa interpretação da lei moral. Em Mateus 5.27–28, ele ensina que o adultério não começa apenas no ato externo, mas no desejo interior: “Todo o que olhar para uma mulher com intenção impura, já cometeu adultério com ela no seu coração”. Com isso, Jesus confirma que a lei de Deus julga não apenas as ações visíveis, mas também os movimentos internos do coração.
A Confissão de Fé de Westminster reforça esse ensino: “Esta corrupção da natureza, durante esta vida, permanece nos que são regenerados; e, embora seja perdoada e mortificada por meio de Cristo, contudo ela mesma e todos os seus movimentos são verdadeiramente e propriamente pecado” (VI.5). Os “movimentos” da natureza corrupta, ou seja, as inclinações, desejos e concupiscências, não são inocentes até o consentimento; são, em si mesmos, pecado. O Catecismo Maior de Westminster (Q. 149) lista entre os pecados proibidos pelo décimo mandamento “todos os movimentos desordenados e afeições a qualquer coisa que seja [do próximo]”.
Já o Catecismo de Heidelberg (Q. 108–109) ensina que toda impureza sexual (e não apenas adultério) é amaldiçoada por Deus. Isso inclui não só atos externos, mas pensamentos, desejos e inclinações internas. O cristão deve abominá-la de todo o coração e viver em castidade, seja casado ou solteiro. Não custa lembrar que, na tradição reformada, essa condenação de “toda a impureza sexual” abrange a prática e o desejo homossexual, porque a Escritura (Lv 18, Rm 1, 1Co 6 etc.) os classifica como contrários à ordem da criação. E o catecismo pressupõe exatamente esse ensino bíblico.
John Owen, em Indwelling Sin in Believers, afirma: “A proposta que vem de dentro, sendo ato da própria alma, é pecado”, porque procede da lei do pecado que habita em nós (Rm 7.17, 20). Com isso, Owen demonstra que a concupiscência não requer o pleno consentimento da vontade para ser moralmente culpável; ela é, antes, a corrupção ativa e constante da natureza caída. Jonathan Edwards, em Pecado original, declara que “a inclinação em si mesma é pecaminosa”. Ele argumenta que o homem nasce com uma “propensão ao mal moral” que torna toda disposição do coração culpável perante Deus. Reduzir o pecado original a mera sensualidade sem culpa até o consentimento destrói a doutrina bíblica da depravação total.
Essa distinção fundamental é reforçada na dissertação doutoral de Jared H. Moore, A Biblical and Historical Appraisal of Concupiscence with Special Attention to Same-Sex Attraction. Ele demonstra que a atração homossexual não é mera “tentação neutra” ou “doença”, mas é, por definição, uma forma de concupiscência contrária à lei moral de Deus. Por isso, “a atração homossexual, por ser uma forma de concupiscência, é sempre pecaminosa” – moralmente culpável em si mesma, mesmo sem ato externo. Moore classifica a posição que nega a culpabilidade da atração como mais próxima da visão romana católica rejeitada pelos reformados do que da tradição confessional reformada.
A ideia de que a atração homossexual procede da natureza pecaminosa, mas não constitui pecado em si mesma, ecoa precisamente o ensino semipelagiano e tridentino, que declarou explicitamente que a concupiscência “não é verdadeira e propriamente pecado” no batizado, e foi refutado pela Confissão de Fé de Westminster, pelo Catecismo Maior e pela Resolução da IPB SC-2022, que reafirmam a depravação total e a pecaminosidade inerente de toda concupiscência.
O pecado original não é mera potencialidade; é realidade ativa na natureza humana caída (Ef 2.3: “Éramos por natureza filhos da ira”). Calvino, Owen e Edwards concordam: os desejos internos contrários à lei de Deus são pecados reais, não meras tentações neutras. A graça regenera e mortifica esses desejos, não os normaliza.
- Síntese doutrinária
A posição que equipara a tentação homossexual à heterossexual não tem respaldo bíblico porque:
- Ignora Romanos 1 e Gênesis 1-2, que declaram a homossexualidade contrária à natureza e à ordem da criação;
- Contradiz o Décimo Mandamento, interpretado pelas confissões e catecismos reformados como proibição de toda inclinação contrária à lei;
- Reduz o pecado original a mera sensualidade ou concupiscência como mero impulso sem culpa inerente, posição rejeitada por Owen e Edwards e incompatível com a Confissão de Fé de Westminster, o Catecismo Maior e a resolução IPB SC-2022;
- Desconsidera que pecados diferem em gravidade (como afirmado nas confissões e catecismos reformados), e a prática homossexual carrega o agravante de contrariar de modo direto a ordem criacional;
- E que nenhum desejo contrário ao desígnio de Deus (incluindo a atração homossexual) pode ser legitimado, normalizado ou convertido em virtude espiritual.
- Conclusão
A tradição reformada não oferece conforto à tentativa de minimizar a gravidade da inclinação homossexual, mas também não abandona o pecador sem esperança. O pecado não pode ser tratado como moralmente neutro; deve ser reconhecido diante de Deus, confessado com sinceridade e combatido pela graça do Espírito. A santidade cristã não consiste em acomodar desejos contrários à ordem da criação, mas em submetê-los ao senhorio de Cristo, que transforma o coração e renova a vida.
Por isso, o caminho do discípulo de Cristo é o do arrependimento contínuo, da mortificação do pecado e da busca alegre por uma vida santa. Em Cristo, que assumiu nossa natureza humana sem pecado, encontramos poder para fazer morrer os desejos desordenados e andar em novidade de vida (Rm 6.6-7; 8.13). Assim, longe de nos deixar presos à culpa, o evangelho nos chama a uma vida de graça, transformação e liberdade diante de Deus.