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Em cada geração, a igreja é ordenada a batalhar “pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos”. Esta não é uma tarefa fácil, e é complicada pelos múltiplos ataques à verdade cristã que caracterizam a nossa era contemporânea. Os ataques à fé cristã não são mais dirigidos apenas a doutrinas isoladas. Toda a estrutura da verdade cristã está agora sob ataque por aqueles que subvertem a integridade teológica do cristianismo.

O cristão de hoje enfrenta a tarefa assustadora de definir a quais doutrinas cristãs e questões teológicas devem ser dadas a máxima prioridade em termos do nosso contexto contemporâneo. Isto se aplica tanto à defesa pública do cristianismo diante do desafio secular quanto à responsabilidade interna de lidar com discordâncias doutrinárias. Nem uma nem outra sāo tarefas fáceis, mas a seriedade teológica e a maturidade exigem que consideremos questões doutrinárias em termos de sua importância relativa. A verdade de Deus necessita ser defendida em todos os pontos e em todos os detalhes, mas os cristãos responsáveis necessitam determinar quais questões merecem atenção de primeira linha em um tempo de crise teológica.

Uma visita à sala de emergência do hospital local há alguns anos alertou-me para uma ferramenta intelectual que é muito útil para cumprir a nossa responsabilidade teológica. Nos últimos anos, o pessoal da emergência médica tem praticado uma disciplina conhecida como triagem — um processo que permite que pessoas treinadas façam uma avaliação rápida da relativa urgência médica. Devido ao caos da área de recepção da sala de emergência, alguém necessita ter a competência para determinar imediatamente a prioridade médica. Quais pacientes devem ser encaminhados imediatamente para cirurgia? Quais pacientes podem esperar por um exame menos urgente? Os funcionários não podem hesitar em fazer estes questionamentos e assumir a responsabilidade de dar aos pacientes mais críticos prioridade em termos de tratamento.

A mesma disciplina que traz ordem à agitada arena das salas de emergência também pode oferecer grande ajuda aos cristãos que defendem a verdade na época atual. Uma disciplina de triagem teológica exigiria que os cristãos determinem uma escala de urgência teológica que corresponderia à estrutura para determinar prioridades no mundo da medicina. Com isto em mente, gostaria de sugerir três níveis diferentes de urgência teológica, cada um correspondendo a um conjunto de questões e prioridades teológicas encontradas nos debates doutrinários atuais.

As questões teológicas de primeiro nível incluiriam as doutrinas mais centrais e essenciais para a fé cristã. Incluídas entre estas doutrinas mais cruciais estariam doutrinas como a Trindade, a completa divindade e humanidade de Jesus Cristo, a justificação pela fé e a autoridade das Escrituras.

Nos primeiros séculos do movimento cristão, os hereges dirigiam seus ataques mais perigosos contra a compreensão da igreja de quem Jesus é, e em que sentido Ele é o próprio Filho de Deus. Outros debates cruciais diziam respeito à questão de como o Filho está relacionado com o Pai e o Espírito Santo. Em pontos históricos como os conselhos de Niceia, Constantinopla e Calcedônia, a ortodoxia foi confirmada e a heresia condenada — e estes conselhos lidaram com doutrinas de importância inquestionavelmente de primeira ordem. O cristianismo permanece ou cai baseado na afirmação de que Jesus Cristo é plenamente homem e plenamente Deus.

As questões teológicas de primeiro nível incluiriam as doutrinas mais centrais e essenciais para a fé cristã. Incluídas entre estas doutrinas mais cruciais estariam doutrinas como a Trindade, a completa divindade e humanidade de Jesus Cristo, a justificação pela fé e a autoridade das Escrituras.

A igreja rapidamente se moveu para afirmar que a divindade e a humanidade plena de Jesus Cristo são absolutamente necessárias para a fé cristã. Qualquer negação do que se tornou conhecido como cristologia niceno-calcedoniana é, por definição, condenada como heresia. As verdades essenciais da encarnação incluem a morte, o enterro e a ressurreição corporal do Senhor Jesus Cristo. Aqueles que negam estas verdades reveladas são, por definição, não cristãos.

O mesmo acontece com a doutrina da Trindade. A igreja primitiva esclareceu e codificou sua compreensão do único Deus verdadeiro e vivo, afirmando a divindade plena do Pai, do Filho e do Espírito Santo — ao mesmo tempo em que insistia que a Bíblia revela um só Deus em três pessoas.

Além das doutrinas cristológicas e trinitárias, a doutrina da justificação pela fé também deve ser incluída entre estas verdades de primeira ordem. Sem esta doutrina, somos relegados a uma negação do próprio Evangelho e a salvação é transformada em alguma estrutura da justiça humana.

A veracidade e a autoridade das Sagradas Escrituras também devem ser classificadas como doutrinas de primeira ordem, pois sem a afirmação de que a Bíblia é a própria Palavra de Deus, ficamos sem qualquer autoridade adequada para distinguir a verdade do erro.

Estas doutrinas de primeira ordem representam as verdades mais fundamentais da fé cristã, e a negação destas doutrinas representa nada menos do que uma eventual negação do próprio cristianismo.

O conjunto de doutrinas de segunda ordem se distingue do conjunto de primeira ordem pelo fato de que os cristãos crentes podem discordar sobre questões de segunda ordem, embora tal discordância crie barreiras significativas entre os crentes. Quando os cristãos se organizam em congregações e formas denominacionais, estas barreiras se tornam evidentes.

Questões de segunda ordem incluiriam o significado e o modo do batismo. Batistas e Presbiterianos, por exemplo, discordam fervorosamente sobre a compreensão mais básica do batismo cristão. A prática do batismo infantil é inconcebível para a mente batista, enquanto os presbiterianos ligam o batismo infantil à sua compreensão mais básica do pacto. Unidos nas doutrinas de primeira ordem, os batistas e presbiterianos se reconhecem entusiasticamente como cristãos crentes, mas reconhecem que o desacordo sobre questões desta importância impedirá a comunhão dentro da mesma congregação ou denominação.

Cristãos de uma vasta gama denominacional podem permanecer juntos nas doutrinas de primeira ordem e reconhecerem-se como cristãos autênticos, embora entendam que a existência de discordâncias de segunda ordem impede a proximidade da comunhão que de outra forma gozariam. Uma igreja ou reconhecerá o batismo infantil, ou não. Tal escolha cria imediatamente um conflito de segunda ordem com aqueles que estāo convictos da posição oposta.

Nos últimos anos, a questão das mulheres servindo como pastoras surgiu como outra questão de segunda ordem. Mais uma vez, uma igreja ou denominação pode ou nāo ordenar mulheres para o pastorado. Problemas de segunda ordem resistem a uma solução fácil por aqueles que preferem uma abordagem ou/ou. Muitas das divergências mais acaloradas entre os crentes sérios ocorrem no nível de segunda ordem, pois tais questões enquadram nossa compreensão da igreja e sua ordem, vindas da Palavra de Deus.

Questões de terceira ordem são doutrinas sobre as quais os cristãos podem discordar e permanecer em estreita comunhão, mesmo dentro de congregações locais. Gostaria de colocar a maior parte dos debates sobre a escatologia, por exemplo, nesta categoria. Os cristãos que afirmam o retorno corporal, histórico e vitorioso do Senhor Jesus Cristo podem diferir em relação ao calendário e à sequência sem romper a comunhão da igreja. Os cristãos podem estar em desacordo sobre inúmeras questões relacionadas com a interpretação de textos difíceis ou a compreensão de assuntos comuns de discordância. No entanto, mantendo-se unidos nas questões de importância mais urgente, os crentes são capazes de se aceitar uns aos outros sem problemas quando questões de terceira ordem estão em causa.

Uma estrutura de triagem teológica não implica que os cristãos possam considerar qualquer verdade bíblica com menos seriedade. Somos chamados a acolher e a ensinar a veracidade integral da fé cristã, tal como revelada nas Sagradas Escrituras. Não há doutrinas insignificantes reveladas na Bíblia, mas há um fundamento essencial da verdade que sustenta todo o sistema da verdade bíblica.

Esta estrutura de triagem teológica também pode ajudar a explicar como muitas vezes a confusão pode ocorrer em meio ao debate doutrinário. Se a urgência relativa destas verdades não for levada em conta, o debate pode rapidamente tornar-se inútil. O erro do liberalismo teológico é evidente em um desrespeito básico à autoridade bíblica e ao tesouro de verdades da igreja. A característica do verdadeiro liberalismo é a recusa em admitir que existem questões teológicas de primeira ordem. Os liberais tratam doutrinas de primeira ordem como se fossem meramente de terceira ordem em importância e a ambiguidade doutrinal é o resultado inevitável.

O fundamentalismo, por outro lado, tende ao erro oposto. O erro de julgamento do verdadeiro fundamentalismo é a crença de que todas as divergências dizem respeito a doutrinas de primeira ordem. Desta maneira, questões de terceira ordem são elevadas a uma importância de primeira ordem e os cristãos ficam injusta e prejudicialmente divididos.

Vivendo numa era de negação doutrinária generalizada e intensa confusão teológica, os cristãos pensantes necessitam enfrentar o desafio da maturidade cristã, mesmo em meio a uma emergência teológica. Necessitamos separar as questões com a mente treinada e um coração humilde, para proteger aquilo que o Apóstolo Paulo chamou de “tesouro” que nos foi confiado. Dada a urgência deste desafio, uma lição da sala de emergência pode nos ajudar.

Traduzido por: Felipe Barnabé Duarte

Nota to editor: Este artigo foi originalmente publicado na revista Summer 2006 Southern Seminary Magazine.
Fonte: 9marks.org

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