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Nunca tivemos tanto acesso ao conhecimento quanto temos hoje. Seu smartphone é como uma biblioteca de referência, que traz o mundo ao alcance dos seus dedos. Está curioso sobre a união hipostática? Procure na internet. Está buscando uma definição da expiação substitutiva penal? Pergunte para a Siri (funciona; eu tentei).

Tal quantidade de informações pode ser assustadora e explica por que alguém pode se perguntar: “Quanto necessito saber para ser salvo?” ou, mais precisamente, “O que exatamente necessito saber para ter certeza de que tenho a vida eterna?”. É claro que alguma coisa necessitamos saber. Tal como John Murray corretamente ensinou: “Há um conhecimento indispensável à fé”. Mas qual conhecimento? E quanto dele é necessário?

Pergunta ruim?

Será que deveríamos mesmo fazer essa pergunta? Como em tudo na vida, o motivo faz diferença. Seu objetivo não deve ser afirmar a menor quantidade de verdade doutrinária que é necessária para chegar ao céu. Em vez disso, vise maximizar a quantidade de verdades que você conhece . Davi orava, “Dá-me entendimento, e guardarei a tua lei; de todo o coração a cumprirei.” (Sl 119.34).

Perguntar o mínimo que necessitamos saber para sermos cristãos é como perguntar o quanto podemos pecar e ainda sermos cristãos. Uma pessoa que aspira a um nível tolerável de rebelião não é um crente verdadeiro. Da mesma forma, alguém que espera crer no mínimo possível, provavelmente não conhece o Senhor.

Perguntar o mínimo que necessitamos saber para sermos cristãos é como perguntar o quanto podemos pecar e ainda sermos cristãos.

J. Gresham Machen disse que muitas vezes lhe perguntaram qual era o mínimo necessário do Evangelho para ser salvo. Ele se recusava a responder a essa pergunta, embora fosse por um motivo ligeiramente diferente. Ele insistia que a pergunta é irrespondível:

Quem pode dizer com certeza qual é a condição da alma de outro homem? Quem pode dizer se a atitude do outro homem em relação a Cristo, que ele pode expressar bem com ações mas mal com palavras, é uma atitude de fé salvadora ou não?

Machen identificou um problema pastoral perene. Um membro da minha igreja tem síndrome de Down. Anos atrás, a igreja o acolheu em comunhão. Ele canta com tanta alegria quanto qualquer outro. Ele participa da escola dominical com fervor. Ele fala com toda sua capacidade sobre Jesus em seu coração, embora seja difícil para ele articular o Evangelho de uma maneira compreensível. Não se pode ter certeza do quanto ele compreende. Presumo que Machen tinha casos assim em mente quando escreveu: “Essa é uma das coisas que certamente deve ser deixada para Deus”.

Pergunta Digna

Por mais difícil ou mesmo impossível que seja responder a essa pergunta, a fidelidade exige que tentemos. Jesus disse que a entrada no Reino de Deus exige que nos arrependamos e creiamos (Mc 1.15). Não é, portanto, insensato ponderar no que, de fato, necessitamos crer. E embora essa crença seja mais do que a adesão intelectual à sã doutrina, não é menos do que isso.

Entraremos em um terreno inseguro e instável se tentarmos separar a quantidade exata de doutrina necessária para entrar no céu. Mas a Bíblia não se cala sobre o que se deve crer para ser cristão. E o que se deve crer certamente afetará a maneira como falamos com os outros quando nos empenhamos em ser embaixadores de Cristo (2 Co 5.20).

Resposta Bíblica

Em Romanos 9, Paulo demarcou o desafio, enfatizando a soberania de Deus. A salvação está nas mãos do Senhor. Ele redime como achar melhor, de acordo com a sua vontade e com o objetivo final de trazer glória ao seu grande nome. A bondade de Deus que nos leva ao arrependimento (Rm 2.4) é imerecida e não é solicitada até que o Espírito de Deus mude os nossos desejos. Nossa salvação não depende da nossa sabedoria, obras ou vontade; somos redimidos de acordo com o seu plano e propósito soberanos. A nossa fé não nos salva; Deus salva.

E, no entanto, Deus não nos salva sem arrependimento e fé. Assim, em Romanos 10, Paulo realça a responsabilidade humana. A quem Deus salva? A resposta de Paulo é clara:

Se, com a tua boca, confessares Jesus como Senhor e, em teu coração, creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo (Rm 10.9).

É necessário saber quem Jesus é e o que ele fez. Ele é mais do que um rabino, um carpinteiro ou alguém em busca da verdade. Ele é o Senhor, com autoridade suprema sobre todas as coisas, inclusive sobre nós. Quando o Espírito Santo entra no coração de um pecador, este é levado a crer e professar a Jesus como Senhor sobre si mesmo. Com esse conhecimento vem uma consciência da própria indignidade e um senso de necessidade pessoal. Alguém que sabe que Jesus é o Senhor, sabe que ele ou ela não o é.

O primeiro sermão de Pedro chega ao clímax com uma proclamação da autoridade divina de Jesus:

Esteja absolutamente certa, pois, toda a casa de Israel de que a este Jesus, que vós crucificastes, Deus o fez Senhor e Cristo (At 2.36).

E quando os ouvintes entenderam quem era Jesus, “compungiu-se-lhes o coração” (At 2.37). Saber quem Jesus é os deixou desarmados, conscientes do seu pecado, imaginando o que poderiam fazer para serem salvos. A salvação requer o conhecimento de que necessitamos ser salvos, e isso requer o conhecimento de que Jesus pode salvar.

Mas o cristão sabe mais do que o fato de que Jesus é o Senhor; ele também sabe que “Deus o ressuscitou dos mortos”. Essa é uma afirmação simples o suficiente para que uma criança possa crer; ela, de fato, requer fé como de uma criança para aceitar (Mt 19.13-15; Mc 10.13-16; Lc 18.15-17).

Ser ressuscitado sugere que Jesus morreu e, para ser cristão, é necessário crer que ele morreu por você. Ele é a resposta ao seu problema. Sua morte é a chave para a sua salvação. Sua cruz é sua única esperança.

Perguntar sobre o nível mínimo de conhecimento doutrinário que o cristão necessita ter é perigoso, se a pessoa está tentando se safar de crer na Bíblia inteira.

João Calvino definiu a fé como “um conhecimento firme e seguro da benevolência de Deus para conosco, fundada na verdade da promessa dada livremente em Cristo”. Qual é a “benevolência de Deus para conosco” se não, pelo menos, o conhecimento de que Cristo morreu e ressuscitou para nos salvar? E qual é o fundamento desse conhecimento, se não a “verdade” de que Sua salvação está na promessa de Deus de salvar todos os que se voltam e confiam nele?

Perguntar sobre o nível mínimo de conhecimento doutrinário que o cristão necessita ter é perigoso, se a pessoa está tentando se safar de crer na Bíblia inteira. Mas, se for perguntada humildemente, a resposta é um doce lembrete de que, como diz o velho ditado, o Evangelho é raso o suficiente para uma criança entrar e profundo o suficiente para um adulto nadar nele. Ser cristão é se apegar a Cristo como Senhor soberano e Salvador ressuscitado. Em outras palavras, é crer que você é pecador, e que Sua morte e ressurreição são a única resposta para este problema hediondo.

Não é Necessário um Diploma de Seminário

Desejo que os membros da igreja em quem sirvo percebam que não necessitam estudar no seminário para compartilhar o Evangelho. Espero que eles tenham confiança no poder do Espírito Santo para salvar. E é crucial que eles conheçam a verdade simples de que Deus salva os pecadores através do Senhor Jesus crucificado e ressuscitado. Essa é uma mensagem que a maioria consegue comunicar.

Não é de admirar que Charles Spurgeon gostasse de relembrar o sermão que Deus usou para mudar seu coração. Um pregador desconhecido convidado, em uma capela metodista primitiva, usou Isaías 45.22 como texto base e instigou Spurgeon a olhar para Cristo. Falando pelo Salvador, o simples pregador disse:

Olhe para mim; meu suor é como gotas de sangue. Olhe para mim; estou pendurado na cruz. Olhe para mim; estou morto e enterrado. Olhe para mim; ressuscitado. Olhe para mim; subi ao céu. Olhe para mim; estou sentado à direita do Pai. Ó pobre pecador, olhe para mim! Olhe para mim!

Claro, eu quero dizer muito mais do que isso quando explicar o Evangelho. Quero que as pessoas entendam a Trindade, a importância da expiação substitutiva penal, a necessidade de boas obras como uma resposta à fé salvadora, e a inerrância e autoridade das Escrituras. Eu falaria sobre a segunda vinda, o novo céu e a nova terra, e a necessidade de estar pronto para o dia do julgamento.

Se alguém professar fé em Cristo e quiser se unir à nossa igreja, nós, tal como a maioria das igrejas, pediríamos a aderência a essas crenças básicas. Não porque estamos convencidos de que todas elas são essenciais para a salvação, mas porque não temos certeza de como podemos afirmar como cristão, alguém que negue essas verdades. A verdadeira fé o levará a afirmar o máximo da verdade de Deus que puder. Louis Berkhof colocou bem: “O conhecimento da fé consiste em um reconhecimento positivo da verdade, em que o homem aceita como verdadeiro o que Deus diz em sua Palavra”.

É difícil dizer qual é, precisamente, o mínimo que se deve crer para ser cristão. No entanto, nunca é errado concordar com Paulo: “Se, com a tua boca, confessares Jesus como Senhor e, em teu coração, creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo”. (Rm 10.9).

 

 

Traduzido por Mariana Ciocca Alves Passos

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