Por que eu sou protestante

A semana de 31 de Outubro, época tradicional para lembrar a Reforma, é também o momento anual em que gosto de refletir sobre porque sou protestante.

Com o passar dos anos, ser protestante se torna cada vez mais fácil para mim. Afinal, nisso, o Papa Francisco tem sido uma dádiva constante. Com seu aparente desejo de transformar a Igreja Católica Romana na forma padrão de protestantismo liberal (um pouco mais colorido), faz com que seu programa não seja nem um pouco convincente para quem, emprestando uma frase de Newman, esteja aprofundado na história. Embora possamos nunca saber a verdade sobre sua recente suposta negação da divindade de Cristo, o fato é que essa história testemunha, de forma plausível, a falta de entendimento teológico que caracterizou seu pontificado desde o início. Desde os dias de glória do Renascimento, que a Igreja Católica não tem um papa que torna o protestantismo ortodoxo tão atraente.

Obviamente, o protestantismo tem seus próprios problemas. A miríade de magistérios dos inúmeros ministérios paraeclesiásticos oferece tênues esferas de influência para uma infinidade de pequenos papas. E a ortodoxia doutrinária tem um valor alto: um foco estreito na autoridade das escrituras levou a uma negligência das dimensões do credo católico sobre a fé. O teísmo clássico e o trinitarianismo estão lutando contra uma ação de retaguarda, mesmo dentro de algumas instituições e igrejas confessionais. Um biblicismo dominante e uma guilda de teólogos sem formação em teologia histórica nos deixaram vulneráveis a um socinianismo sútil, que floresce no solo do pensamento desleixado que caracteriza grande parte do cristianismo contemporâneo. E a realidade econômica da competição por um número cada vez menor de consumidores significa que as instituições protestantes – seminários e até igrejas – são constantemente tentadas a “mercadejar” suas diferenças denominacionais marginais como se fossem a essência da fé.

No entanto, apesar de todo o caos, muitas igrejas protestantes continuam, tranquila e modestamente, prosperando. Longe do palco dos garotos do “Big Eva”, pastores e congregações anônimas cuidam dos interesses da igreja. Na congregação onde eu adoro, o ministro prega fielmente a palavra e administra os sacramentos ao longo do ano. Os presbíteros e diáconos cuidam das almas e das necessidades materiais do povo. E os congregantes abrem suas casas para hospitalidade, cuidam um do outro, compartilham a vida um do outro.

Eles refletem as verdades básicas da Reforma Protestante: Chamada à vida pela Palavra, a igreja proclama essa Palavra e reflete o caráter de Deus para o mundo através de humildes atos de hospitalidade, amizade e bondade. E também coragem – coragem que não é demonstrada pela assinatura de alguma petição on-line sobre homossexualidade ou discursando em uma das “câmaras de eco ideológicas” on-line, mas pelo testemunho fiel da verdade em um ambiente de trabalho hostil. É aí que o cristianismo protestante é frequentemente o melhor.

No entanto, o Dia da Reforma também traz a tentação da nostalgia. Como os integralistas católicos romanos podem entrar em fantasias de uma recriação de alguma síntese mítica medieval, os protestantes podem ficar tentados a pensar que os séculos XVI e XVII forneceram um Nirvana ao qual devemos retornar. Existem dois problemas com isso. Primeiro, os problemas protestantes de hoje existem desde o início: uma liderança egoísta, socinianos por perto, um relacionamento difícil e contencioso com a história. Tais problemas são óbvios.

Mas o segundo problema com a nostalgia cristã é que muitas vezes olhamos para as eras erradas para obter orientação para o presente. Os análogos reais para hoje não são encontrados na Alta Idade Média ou nos séculos XVI e XVII. O protestantismo da reforma ocorreu dentro do contexto cultural da cristandade. Apesar de todas as diferenças importantes entre Lutero e Leão X, Calvino e Trento, católicos e protestantes compartilhavam uma suposição comum de que alguma forma de cristianismo proporcionaria a cultura dominante.

Mas esse não é o nosso mundo hoje. Na sociedade moderna, poucos têm tempo para o cristianismo, seja lá de que tipo que for. O contexto cristão básico de nossos antepassados da Reforma já se foi e, se não completamente esquecido, é amplamente desprezado. Precisamos procurar ajuda em um tempo anterior: Especificamente, no segundo e terceiro séculos.

Como no segundo século, o cristianismo agora é considerado não apenas absurdo, mas também imoral. Podemos não ser acusados de canibalismo e incesto, mas nossa ética sexual e nossa compreensão da individualidade são vistas como odiosas e ignorantes. E talvez pela primeira vez desde as perseguições dos séculos III e IV por Décio, Valeriano e Diocleciano, os termos de lealdade cívica e de filiação fiel à igreja estão se tornando mutuamente exclusivos.

Como os cristãos romanos antigos que tinha que escolher entre sacrificar ao imperador ou correr o risco de serem punidos como subversivos da sociedade civil, os cristãos ocidentais modernos estão começando a enfrentar essa escolha. Apoie o casamento gay ou tenha seu negócio boicotado. Deixe seus filhos escolherem seu próprio sexo ou os tiraremos de você. Talvez ainda não estejamos lá, mas estamos perto demais para nos mantermos confortáveis e complacentes. Quem pensa que a presidência de Trump não passa de um breve período de desaceleração nessas questões está se enganando.

Para mim, o Dia da Reforma é um bom momento para refletir sobre minhas razões para ser protestante. É o tempo, como um católico, de agradecer àqueles que, desde os apóstolos em diante, transmitiram fielmente a fé de geração em geração. Mas também é um momento para perceber que o mundo dos reformadores se foi, que vivemos agora em tempos em que os desafios, embora não sejam inéditos, não são apenas os mesmos do século XVI.

Newman declarou que se aprofundar na história é deixar de ser protestante. Mas isso depende da parte da história em que você se aprofunda. Mais especificamente aos dias atuais: estar aprofundado na história é perceber que nós, cristãos, precisamos mais do que o final da Idade Média ou a Reforma para nos guiar e nos encorajar em um mundo que está se aproximando de nós com uma velocidade surpreendente.

 

Publicado originalmente em FirstThings.com.
Tradução: Paulo Reiss Junior.
Revisão: Filipe Castelo Branco.

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