Plantador de Igrejas, Não Subestime os Negligenciados

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Nunca me esquecerei do dia em que o Espírito Santo me bateu na cabeça por meio de uma mulher de meia-idade.

Anna é uma mulher de 32 anos com uma deficiência de desenvolvimento. Ela veio à fé alguns anos depois de plantarmos nossa igreja. O ato de batizá-la foi um dos pontos mais claros da bondade de Deus em meu ministério até agora.

Anna é um membro maravilhoso e fiel de nossa igreja — mas ela não vai dirigir um ministério ou conduzir um estudo bíblico tão cedo. Na verdade, ela tem que se esforçar para ler e compreender a Bíblia por si mesma.

Anna não se encaixa em muitos dos programas convencionais de uma igreja. Ela não pode trabalhar no berçário ou no ministério infantil de forma independente. Muitos de nossos estudos bíblicos estão no limite de sua capacidade. Isso não é por ela ser preguiçosa ou desmotivada a respeito da glória de Cristo, nem por ficar distraída com coisas menores. Pelo contrário, posições ministeriais formais estão fora do alcance de Anna por causa da sabedoria de Deus. Ela não foi feita para estes tipos de ministério.

Mas isto significa que ela não possa ministrar? Muito pelo contrário — já observei Deus se deleitar em usar o não-espetacular de maneiras espetaculares. Mas nós, como pastores e plantadores de igrejas, precisamos ter olhos para ver isto.

Eis o que quero dizer:

Anna e Brenda

Brenda — outra mulher em nossa igreja — perdeu um ente querido recentemente, e isso a deixou magoada demais. Ela estava tendo problemas com aquilo. Como acontece com demasiada frequência, a maioria dos membros da igreja, no ir e vir da vida e do ministério, não percebeu o peso da dor da nossa irmã. Em meio às agitações do levar as crianças para a escola dominical, do preparar os materiais de culto e do manter os olhos vigilantes para dar as boas vindas aos visitantes, eles perderam uma importante oportunidade de ministério.

Mas Anna, que se tornara crente há apenas alguns meses, não perdeu. Ela notou a dor de Brenda e foi em direção à sua irmã em Cristo. Anna começou a escrever cartas para Brenda. Ela ligava à cada dia para ver como estavam as coisas. Anna foi amorosamente implacável em mostrar à Brenda que ela era amada e que não estava sozinha em sua dor.

Repreensão Necessária

À medida em que eu observava aquele relacionamento se desenvolver, o Espírito usou o exemplo de Anna para me repreender de duas maneiras. Primeiro, meu orgulho levou um fortíssimo golpe. Eu tinha a expectativa de que Deus me usasse. Afinal, sou talentoso, treinado e experiente. Sou o pastor! Mas Anna — com grande amor e gentil humildade — estava me ensinando coisas que eu nem sabia que necessitava aprender.

Quando Deus usou Anna tão lindamente, aquilo me surpreendeu. Ela não tinha nenhum dos óbvios dons, os quais tenho a tendência de valorizar acima de outros. Ela não era “estratégica”. De repente, percebi a profundidade da minha autoconfiança pecaminosa. Eu realmente achava que, de alguma forma, meus dons e habilidades eram uma parte necessária da equação. Eu tinha nutrido a ideia de que eu tinha algo de que Deus precisava.

Mas em e através de Anna, a força de Cristo irradiou fortemente. Na fraqueza dela, Seu poder foi aperfeiçoado (2Co 12.9). O Espírito estava operando, e ele não estava esperando por alguém como eu.

Ao levantar os olhos da auto-análise de meu orgulho, fiquei fascinado com a beleza e o poder da obra do Espírito na igreja. Deus estava usando Anna, mesmo quando o pastor dela e os outros membros da igreja não sabiam como.

Humanamente falando, Anna é difícil de treinar. Ela não se encaixa em nossos parâmetros normais de serviço ou liderança. Ela é uma discípula da qual é fácil de se esperar pouco, especialmente no que tange ao plantio de igrejas. Mas o Espírito se deleita em usá-la poderosamente.

Surpreso?

Deveríamos realmente nos surpreender? “A manifestação do Espírito é concedida a cada um visando a um fim proveitoso” (1Co 12.7). Louvado seja Deus, por ele não ser manietado pelas fraquezas de homens e mulheres — pelas fraquezas de pessoas como eu.

Irmãos e irmãs, o Espírito Santo é quem realiza o ministério em sua vida e igreja. Ele se deleita em usar o povo de Deus, embora não necessite de nenhum de nós. Se você cai na tentação de confiar em seus dons, treinamento ou posição, posso encoraja-lo a se arrepender e rogar a Deus por uma nova dependência do Espírito?

Ministrar ao lado de irmãos e irmãs com deficiências mentais e de desenvolvimento me ajudou a ver o que era verdade o tempo todo — o Espírito Santo é o único que pode curar os enfermos, restaurar os quebrantados de coração e encorajar os santos que sofrem. Jamais esqueça que o Espírito é o único que necessita estar presente, para que um ministério poderoso aconteça. E não se surpreenda quando ele usar os santos menos espetaculares da maneira mais espetacular.

Quando a única coisa que se espera é que seu plantio de igrejas sobreviva, é fácil procurar apenas pessoas certinhas, aquelas que estão bem, aquelas que serão um óbvio “valor agregado” ao seu plantio. Cuidado ao pensar desta maneira. Cuidado com o cálculo mundano.

Em meio a todos os seus trabalhos visionários e dias atarefados, não negligencie as “Annas”. Elas estão por aí, e são absolutamente necessárias.

 

Traduzido por Joāo Pedro Cavani

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