×
Procurar

O que foi que aconteceu agora mesmo?

No sábado [27 de outubro de 2018], Robert Bowers entrou em uma sinagoga de Pittsburgh levando consigo quatro armas, matando onze pessoas e ferindo outras seis.

Uma queixa crime federal referiu que Bowers fez declarações “evidenciando um animus contra pessoas da fé judaica”. Bowers disse a um policial: “Eles cometeram genocídio com meu povo. Eu só quero matar judeus.” De acordo com a queixa, Bowers repetiu seus comentários antissemitas a respeito do genocídio, do seu desejo de matar o povo judeu e de que o povo judeu precisava morrer.

O que é o antissemitismo?

O antissemitismo é definido como hostilidade ou preconceito contra os judeus como um grupo religioso ou racial.

Deveria ser escrito anti-semitismo ou antissemitismo?

Ambas as formas são gramaticamente corretas [em Inglês], embora muitos grupos judeus prefiram a ortografia sem hífen. Em 2015, um grupo de acadêmicos divulgou uma declaração explicando porque o termo deveria ser escrito sem o hífen:

A ortografia com hífen permite a possibilidade de algo chamado “semitismo”, que não apenas legitima uma forma de classificação racial pseudo-científica que foi completamente desacreditada por ter associação com a ideologia nazista, mas também divide o termo, privando-o de seu significado de oposição e ódio para com os judeus. [N.T. – Este comentário é válido para a ortografia em Inglês. Em Português, conforme o Novo Acordo Ortográfico, somente quando as palavras seguintes começarem com “h” ou com “i”, o hífen deve ser utilizado].

O termo filológico “semítico” refere-se a uma família de línguas originárias do Oriente Médio, cujas línguas descendentes hoje são faladas por milhões de pessoas, principalmente na Ásia Ocidental e no Norte da África. Seguindo esta lógica semântica, a conjunção do prefixo “anti” com “semitismo” indica antissemitismo como se referindo a todas as pessoas que falam línguas semíticas ou a todas aquelas classificadas como “semitas”. O termo tem, no entanto, desde seu início, se referido apenas a preconceito contra os judeus.

De onde surgiu o termo antissemitismo?

O jornalista alemão Wilhelm Marr, fundador da Liga Antissemita, cunhou o termo “antissemitismo” em um panfleto de 1879, opondo-se à influência dos judeus na cultura alemã. Marr foi um instigador do sentimento antijudaico na Alemanha do século XIX que veio a se arrepender de seu animus. Perto do fim de sua vida, ele publicou outro panfleto, “Testament of an Antisemite” [Testamento de um Antissemita], no qual renuncia ao seu ódio pelo povo judeu, e expressa preocupação de que o antissemitismo na Alemanha estivesse se misturando com o misticismo e o nacionalismo.

O que constitui antissemitismo?

Embora não haja um padrão universalmente aceito para o que constitui preconceito ou comportamento antissemita, a definição de antissemitismo da Aliança Internacional de Recordação do Holocausto (IHRA), adotada por 31 países, define-a em termos de 11 áreas principais:

  • Solicitar, ajudar ou justificar a morte ou o dano de judeus em nome de uma ideologia radical ou extremista da religião.
  • Fazer alegações falsas, desumanas, demonizadoras ou estereotipadas sobre os judeus como tais ou do poder dos judeus como coletivos – tal como, especialmente mas não exclusivamente, o mito sobre uma conspiração judaica mundial ou de judeus controlando a mídia, a economia, os governos ou outros instituições societárias.
  • Acusar os judeus como um povo de serem responsáveis por delitos reais ou imaginários cometidos por uma única pessoa ou grupo judeu, ou mesmo por atos cometidos por não-judeus.
  • Negar o fato, o escopo, os mecanismos (por exemplo, câmaras de gás) ou a intencionalidade do genocídio do povo judeu pelas mãos da Alemanha Nacional-Socialista e seus partidários e cúmplices durante a Segunda Guerra Mundial (o Holocausto).
  • Acusar os judeus como um povo, ou a Israel como estado, de inventar ou exagerar o Holocausto.
  • Acusar os cidadãos judeus de serem mais leais a Israel, ou às supostas prioridades dos judeus em todo o mundo, do que aos interesses de suas próprias nações.
  • Negar ao povo judeu o direito à autonomia, por exemplo, alegando que a existência de um Estado de Israel é uma empreitada racista.
  • Aplicar padrões duplos demandando um comportamento não esperado ou exigido de qualquer outra nação democrática.
  • Usar os símbolos e imagens associados ao antissemitismo clássico (por exemplo, alegações de judeus matando Jesus ou libelo de sangue) para caracterizar Israel ou israelenses.
  • Traçar comparações da política israelense contemporânea com a dos nazistas.
  • Atribuir aos judeus coletivamente responsabilidade por ações do estado de Israel.

Quão difundido é o problema do antissemitismo?

O antissemitismo está se tornando cada vez mais um problema na Europa. Um relatório da Comissão Européia contra o Racismo e a Intolerância revelou que os principais autores de incidentes antissemitas são “islamistas” e radicais jovens muçulmanos, incluindo crianças em idade escolar, bem como neonazistas e simpatizantes de grupos de extrema direita e extrema esquerda.

No entanto, atitudes antissemitas também são comuns em alguns países europeus. Por exemplo, uma pesquisa de 2017 feita pelo Pew Research Center sobre crença religiosa e pertencimento nacional na Europa Central e Oriental perguntou aos entrevistados na população em geral se eles estariam dispostos a aceitar judeus como membros de suas famílias e descobriu que 53% dos entrevistados na Grécia e na Romênia, 48% dos entrevistados na Lituânia, 37% na República Tcheca, 32% na Bulgária, 30% na Polônia e 26% na Hungria responderam negativamente.

Nos Estados Unidos, os judeus representam apenas 2% da população, mas segundo o FBI, sāo sujeitos anualmente ao maior número de crimes de ódio de qualquer grupo religioso. Por exemplo, das 1.340 vítimas de crimes de ódio antirreligioso, em 2012, 62,4% foram vítimas do viés antijudaico do delinquente.

O antissemitismo é um problema exclusivamente moderno?

Não. Embora o termo não tenha se originado até o século XIX, o animus contra os judeus transmitido pelo termo, remonta pelo menos ao período do século V aC quando Hamã procurou “destruir todos os judeus, povo de Mordecai, que havia em todo o reino de Assuero” [ie, o reino da Pérsia] (Et 3.6).

Outros pagãos ao longo dos tempos antigos perseguiram os judeus de maneira semelhante por serem exclusivamente monoteístas. Como observa a Enciclopédia Britânica, “os pagãos viam a recusa dos judeus, por princípio, de adorar os imperadores como deuses como um sinal de deslealdade”.

Após a destruição por Roma do Templo de Jerusalém e o exílio dos judeus da Palestina em 70 dC, alguns cristãos interpretaram o evento como punição pela culpabilidade judaica na morte de Jesus (usando Mateus 27.25 como justificativa). Isso levou a uma tipo virulento de antissemitismo cristão, que tem atormentado a igreja e também o povo judeu desde o primeiro século até hoje.

O que é antissemitismo cristão?

O antissemitismo cristão são atitudes antissemitas derivadas ou baseadas em razões teológicas. (Por uma questão de clareza, deve ser geralmente distinguido do antissemitismo similar de pessoas que possam ser chamadas de cristãs, mas que são antissemitas por motivos culturais, étnicos ou por nacionalismo).

O caminho para o Holocausto foi pavimentado por séculos de antissemitismo e atravessa uma grande parte da história do cristianismo. Foram os antissemitas cristãos, por exemplo, que originaram conceitos tão destrutivos quanto o libelo de sangue. Mesmo após o escândalo de Shoah (isto é, o Holocausto), a comunidade cristã demorou até o final do século XX para finalmente e intensamente repudiar o antissemitismo, arrependendo-se do desprezo pecaminoso, do preconceito e do ódio contra o povo judeu.

Esta é a única resposta apropriada, já que em seu cerne o antissemitismo cristão é inerentemente anticristão. Como escreveu Russell Moore,

“Como cristãos, devemos ter uma mensagem clara de rejeição a todo tipo de fanatismo e ódio, mas devemos observar especialmente o que o antissemitismo significa para as pessoas que são seguidoras de Jesus Cristo. Devemos dizer claramente a qualquer um que reivindique o nome de “cristão” a seguinte verdade: se você odeia os judeus, odeia a Jesus.

O antissemitismo é, por definição, um repúdio ao cristianismo e ao judaísmo. Isso deveria ser óbvio, mas a história mundial, até mesmo a história da igreja, nos mostra que este não é o caso. Os cristãos rejeitam o antissemitismo porque amamos a Jesus”.

Martinho Lutero era antissemita?

Sim. E como escreveu Bernard N. Howard, o antissemitismo de Lutero deveria ser reconhecido sem qualificação.

O grande reformador escreveu pelo menos dois tratados – Os Judeus e Suas Mentiras e Sobre o Nome Inefável – que são antissemitas. Seu animus aberto em relação aos judeus no final de sua vida fez de Lutero um dos mais notórios divulgadores do antissemitismo cristão.

“Lutero é para mim herói e anti-herói; libertador e opressor ”, diz Howard, pastor anglicano e judeu crente em Jesus. “Espiritualmente falando, ele foi meu professor, mas em relação à minha família ele atuou como perseguidor”.

O que é o “libelo de sangue”?

Como explica a Liga Antidifamação (ADL), “libelo de sangue” refere-se a uma alegação de séculos de que os judeus matam cristãos – especialmente crianças cristãs – para usar seu sangue para fins rituais, como um ingrediente na panificação da Matzah pascal (pão sem fermento).

No século XII, um mito começou a circular de que, a cada ano, líderes judeus de todo o mundo se reuniam para escolher um país e uma cidade da qual um cristão seria preso e assassinado. Esse mito persistiu e se expandiu por toda a Idade Média na Europa. Como afirma a ADL:

Quando uma criança cristã desaparecia, não era incomum que os judeus locais fossem culpados. Mesmo quando não havia evidência de que algum judeu tivesse alguma coisa a ver com a criança desaparecida, os judeus eram torturados até que confessassem crimes hediondos. Alguns cristãos criam que os quatro cálices de vinho que os judeus bebem nas celebrações do Seder da Páscoa eram na verdade sangue, ou que os judeus misturavam sangue nos “hamantaschen”, pastéis doces consumidos no feriado judaico de Purim. Outros afirmavam que os judeus usavam sangue cristão como remédio ou até como afrodisíaco. Estudiosos documentaram cerca de 100 libelos de sangue que ocorreram do décimo segundo ao décimo sexto século. Muitos deles resultaram em massacres de judeus.

O que os cristãos podem fazer em relação ao antissemitismo?

Embora não possamos impedir diretamente a violência e o assédio, os cristãos podem, como comunidade de crentes, acalmar algumas das preocupações dos judeus americanos ao mostrar que somos solidários com eles.

Podemos dizer, tal como a Convenção Batista do Sul o fez em 2003, que “denunciamos todas as formas de antissemitismo como contrárias aos ensinamentos do nosso Messias e um ataque à revelação das Sagradas Escrituras” e que “afirmamos aos judeus ao redor o mundo que estamos com eles contra qualquer assédio que viole nossos compromissos históricos com a liberdade religiosa e a dignidade humana ”. Podemos comunicar a eles de que nós norte-americanos que adoramos o rei dos judeus não toleraremos mais o antissemitismo em nosso país.

 

 

Traduzido por Giovanna Braz dos S. Garotti

CARREGAR MAIS
Loading