Os Perigos Espirituais da Desconexāo com a Criação

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“Mas pergunta agora às alimárias, e cada uma delas to ensinará; e às aves dos céus, e elas to farão saber. Ou fala com a terra, e ela te instruirá; até os peixes do mar to contarão. Qual entre todos estes não sabe que a mão do SENHOR fez isto? Na sua mão está a alma de todo ser vivente e o espírito de todo o gênero humano”.  Jó 12.7-10

Eu passei minha carreira trabalhando em áreas onde o desenvolvimento e conservação em parques, áreas de recreação e preservação ambiental, se cruzam. Nos últimos 30 anos, tenho observado uma desconexão profunda e crescente entre as pessoas e a natureza. Esta desconexão está se acelerando à medida que a revolução digital faz com que mais pessoas passem menos tempo ao ar livre na natureza, particularmente em contextos desenvolvidos e urbanos. Creio que esta desconexão pode afetar negativamente a nossa saúde espiritual individual e coletiva.

Evidências crescentes mostram que a perda de conexão regular com a natureza (com a criação) afeta negativamente a psiquê humana e nossa capacidade de atuar em sociedades funcionais. Quando os seres humanos estão envolvidos com a natureza, nossos cérebros funcionam de maneira diferente. Pessoas que não passam um tempo regular e habitual na natureza criada se comportam de maneiras fundamentalmente diferentes. A Última Criança da Natureza (Editora Aquariana) de Richard Louv e The Nature Fix [A Natureza Cura] (Editora Bertrand) de Florence William são apenas dois exemplos de livros recentes que enfatizam a ciência por trás destas realidades.

Me parece que os cristãos têm se mantido em silêncio diante dessa crescente desconexão. Tenho ouvido pouca reflexão sobre como é a vida espiritual sem conexões regulares com a natureza criada. Se a citação, freqüentemente atribuída a Martinho Lutero, estiver correta — “Deus está presente completa e pessoalmente no deserto, no jardim, no campo” — o que ocorre quando o homem abandona estas paisagens? Os cristãos não devem menosprezar o papel vital que a natureza criada desempenha na obra de Deus em nossas almas. A eliminação do contato humano próximo e regular com a natureza criada tem sido característica da punição por eras. Agora, estamos fazendo isso voluntariamente.

Os cristãos deveriam investir tempo considerando seriamente as implicações, tanto individuais quanto coletivas.

O que Perdemos

A natureza criada é um reflexo em eterna mudança e eternamente constante de um Deus vivo e criativo que a utiliza para seus propósitos. Isto é magnífico em grande escala. Tal como Tomás de Aquino escreveu, “todos os esforços do homem não podem esgotar a essência de uma única mosca”.

No entanto, em nossas sociedades pós-industriais, os seres humanos estão cada vez mais distantes da maravilha e do poder comunicativo da natureza criada. O clima é controlado por um termostato. Nossas janelas raramente ficam abertas. Não precisamos prestar atenção ao tempo, às estações do ano e a outros ciclos da natureza criada, a menos que queiramos. Nossa comida nos é entregue sem que sujemos nossas unhas de terra, vinda de lugares que não sabemos onde, em épocas de colheita que não sabemos quando. Nós mal notamos quando as árvores brotam ou quando os riachos transbordam.

O que perdemos na vida cristã sem uma imersão intencional e uma conexão significativa com a natureza criada?

Perdemos uma dimensão da grandeza e da glória de Deus. Perdemos a percepção do sublime que vivenciamos à beira do Grand Canyon, ou encarando nossa mortalidade em um bote de rafting, ou nos expondo intencionalmente à brutalidade de uma tempestade de inverno. Perdemos o sentimento de admiração quando não plantamos flores, não colhemos alimentos na horta ou não observamos um pássaro construir um ninho. Perdemos oportunidades de gratidão e adoração quando não paramos para fazer uma pausa diante da simplicidade de uma árvore, prestando a atenção na sua casca, folhas, formato — e percebendo que este pequeno pedaço da natureza criada está perfeitamente alcançando o propósito que Deus estabeleceu para isto. João Calvino disse: “Não há uma folha de grama, não há cor no mundo, que não tenha a intenção de nos alegrar”. Mas quando estamos longe da grama e das cores do mundo, perdemos a oportunidade de nos regozijar.

Perdemos também o sentido do que são proporção e orientação saudáveis. A exposição à natureza criada revela que somos pequenos e que Deus é grande. Ela nos torna humildes e nos lembra de quem somos em relação a um Deus santo. Tecnologias como Smartfones distorceram nosso senso de proporção, colocando-nos firmemente no centro de um universo totalmente dentro de nosso alcance digital. Elas nos situam como consumidores que não precisam se incomodar em sair de casa porque o mundo é supostamente infinitamente acessível, dentro do dispositivo em nosso bolso. Nossos ambientes digitais nos separam não apenas uns dos outros, mas também da bela criação de Deus.

O Que Podemos Fazer

Portanto cristãos, o que devemos fazer? Aqui estão quatro maneiras simples de nos reconectarmos com a criação de Deus em um mundo que está se distanciando cada vez mais dela.

1. Arranje tempo para sair de casa.

Sente-se debaixo de uma árvore, caminhe ao lado de um riacho, rio, lago ou mar ou simplesmente sente-se no seu quintal. Passe períodos constantes de tranquilidade e contemplação, em oração e meditação bíblica — momentos em que a criação confronta sua mortalidade e coloca você no seu lugar em relação a um Deus onipotente.

2. Saia de casa, qualquer que seja o tempo e em horas variadas do dia.

Deus criou as estações do ano e o tempo por um motivo. Existem aspectos de sua bondade a serem vivenciados em todas as condições. Estas experiências geralmente estimulam nossas almas. Fique molhado. Sinta o frio. Sinta o calor. Não fique alheio ao drama do ar e do vento, das nuvens e da precipitação.

3. Cuide da paisagem e do terreno de sua igreja, especialmente em um ambiente urbano.

Dada a frequência das vezes em que os “jardins” são citados nas Escrituras, pense nas árvores, plantas e no paisagismo de sua igreja como um jardim. Eles estão prosperando? Eles apontam para a beleza de Deus? Eles honram sua criação? Eles comunicam aos descrentes algo sobre sua bondade e provisão? Escolha suas plantas, então cuide delas com atenção e intencionalmente.

4. Desfrute de parques locais, florestas nacionais, áreas ermas ou outras reservas públicas.

Embora muitos norte-americanos tenham contribuído para criar este notável sistema, a tradição cristã tornou-os possíveis. A proteção da natureza como um bem comum — e não apenas algo para a nobreza ou os mais ricos — é um testemunho norte-americano subestimado e único, da comunidade cristã reformada. “Inherit the Holy Mountain: Religion and the Rise of American Environmentalism” [Herde o Santo Monte: A Religião e a Ascensão do Ambientalismo Americano], de Mark Stoll oferece uma boa resenha de nossa herança compartilhada.

A natureza criada não é um fim em si mesma, algo a ser adorada no lugar do Criador, porém algo que nos aponta — se estivermos dispostos a prestar atenção — a um Deus bom, gracioso, poderoso, excelso e amoroso. Um mundo que desconsidera ou se distancia da criação é um mundo que naturalmente se irá desconsiderar e se distanciar de Deus.

Deus não nos remove da criação; ele intencionalmente nos mantém nela. Nós estamos nos removendo dela. Portanto, reconhecendo os perigos espirituais que advêm da ambivalência em relação à criação, os cristãos deveriam encabeçar o exemplo de uma apreciação saudável e uma conexão com o belo mundo ao seu redor — um mundo que é, como disse Gerard Manley Hopkins, “saturado da grandeza de Deus.”

 

 

Traduzido por Vittor Rocha

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