×
Procurar

Há algum tempo o hino moderno “In Christ Alone” [Só em Jesus] ganhou as manchetes por fazer referência à ira de Deus e à teologia da expiação em sua letra. Uma comissão de música sacra, juntamente com a Igreja Presbiteriana (nos EUA), pretendia adicionar a música em seu novo hinário, “Glory to God” [Glória a Deus], lançado em 2013. Mas para isso, a comissão havia pedido permissão aos autores da canção, Stuart Townend e Keith Getty, para imprimir uma versão alterada da letra do hino, mudando “E lá na cruz o próprio Deus, a Sua ira satisfez” por “E lá na cruz o próprio Deus, o Seu amor manifestou”. Os compositores rejeitaram a alteração proposta e, como resultado, a comissão de música sacra vetou a impressão do hino.

“A música foi removida de nossa lista com profundo pesar, pois perde-se esse outro apelo, comovente e poderoso”, disse a presidente da comissão, Mary Louise Bringle ao The Christian Century. A “visão de que a cruz é principalmente sobre a necessidade de Deus amenizar Sua ira” teria um efeito negativo no hinário, que busca formar a fé das gerações vindouras, Bringle explicou.

Esta foi a segunda vez que uma editora tentou alterar a mesma letra. Em 2010, um hinário chamado Celebrating Grace [Celebrando a Graça], imprimiu “In Christ Alone” com a mesma alteração na letra, sobre a ira de Deus, sem o conhecimento dos compositores. Quando a comissão da igreja presbiteriana se deparou com esta versão, ela imaginou que a letra alterada era um texto autorizado, e então solicitou permissão para usá-la em seu hinário. A editora do hinário Celebrating Grace está agora trabalhando para resolver o problema, uma vez que o grupo sequer pediu nem recebeu permissão para alterar o texto.

Curiosamente, uma série de meios de comunicação publicou artigos sobre esta história, incluindo o USA Today, The Washington Post e The Economist, falando sobre o amplo alcance do hino.  De acordo com o grupo cristão de direitos autorais CCLI, “In Christ Alone” continua sendo uma das canções mais populares nas igrejas, e seus rankings indicam que este tem sido o hino mais cantado no Reino Unido durante os últimos anos, e já esteve entre os dez primeiros nos Estados Unidos, Canadá e Austrália por quase o mesmo tempo. A música não é apenas impressa em hinários e publicações de corais, mas também projetada em telas, cruzando fronteiras estilísticas e culturais, alcançando desde igrejas tradicionais até movimentos musicais contemporâneos. Ela foi usada, há algum tempo, na cerimônia religiosa de posse do arcebispo de Canterbury e também se tornou um hino para igrejas em situação de risco em todo o mundo. Artistas tão variados como Alison Krauss, MercyMe, Natalie Grant, Newsboys, OwlCity e, mais recentemente, Kristian Stanfill (Passion 2013) gravaram o hino. Timothy George, o decano da Beeson Divinity School, na Universidade de Samford, disse, há um tempo, que acredita que o hino está no caminho para se tornar o “Amazing Grace” [“Preciosa Graça”] desta geração.

No final de 2013, um amigo próximo no ministério acordou e descobriu que seu filho de 3 anos de idade havia morrido durante a noite, sem nenhuma causa aparente. Naquele doloroso funeral, cantamos “In Christ Alone” como uma expressão de nossa esperança em Jesus e em Seu retorno. Portanto, sou grato por esta oportunidade de me corresponder com o compositor Keith Getty, e saber o que ele acha da exclusão de “In Christ Alone” do hinário presbiteriano [americano], e por que ele continua comprometido com a letra original da música.

“In Christ Alone” tornou-se um hino influente em nossa geração. O que inspirou a canção?

Em 2000 sentei-me com Stuart Townend para um dos nossos primeiros encontros para compor. Havíamos sido apresentados recentemente e encorajados a colaborar como músicos. Stuart tem como seu ponto forte uma habilidade extraordinária com letras, enquanto que o meu, é compor melodias, embora cada um de nós desfrute da liberdade de participar do trabalho um do outro. Como artistas, trazemos como bagagem a convicção de que uma teologia rica é importante nas músicas que cantamos aos domingos, que o que nós cantamos toda semana, fundamentalmente, penetra em todas as partes da nossa fé e da nossa vida.

O que eu sabia era que queria contar a história do evangelho em uma só canção, então compartilhei com Stuart uma melodia especial em que estava trabalhando há algum tempo, associada a esta ideia. Através de nossas conversas, dei a sugestão do hino se chamar “In Christ Alone”. Stuart escreveu esta letra fantástica, que descreve a mensagem do evangelho. Foi a primeira música que escrevemos juntos!

Creio que a letra de “In Christ Alone” expressa, basicamente, verdades teológicas sobre a vida, a morte e o poder salvador de Cristo, através de Sua morte sacrificial na cruz. No entanto, a música é mais do que teologia didática. Ao distribuirmos o hino nas igrejas, testemunhamos o ardor e a emoção que ela evoca. Acho que isso é o que a torna tão memorável.

Após mais de uma década escrevendo hinos modernos juntos, Stuart e eu continuamos a receber comentários sobre o efeito de “In Christ Alone”. Estamos maravilhados e humilhados pela forma como este hino parece ter se conectado com tantas pessoas em sua jornada cristã. Ouvir como a música tem ajudado outros a se apegarem a Cristo, muitas vezes em tempos de grande crise e dor, é profundamente significativo e nos incentiva a continuar escrevendo. Os crentes tem fome de celebrar a verdade em forma de música, e Stuart e eu somos gratos por termos desempenhado um pequeno papel para ajudar a facilitar tais oportunidades para a igreja.

Dois grupos queriam mudar a letra do hino, a fim de contornar a ideia de que a ira de Deus foi satisfeita através da morte de Cristo na cruz. Por que foi importante esta letra não ser alterada?

Em primeiro lugar, é importante expressar como nos sentimos verdadeiramente honrados por esses grupos considerarem a adição de “In Christ Alone” em seus hinários. Apoiamos a abordagem deles de estudar as letras dos hinos, ao selecionarem as músicas que valem a pena serem cantadas e preservadas.

No entanto, acreditamos que alterar a letra iria remover uma parte essencial da história do Evangelho, conforme ele é contado em toda a Escritura. O fio condutor do que vemos revelado em todo o Antigo e Novo Testamentos é a necessidade do homem de ser reconciliado com Deus. O caminho viabilizado para esta reconciliação veio através do sacrifício predeterminado e perfeito de Cristo na cruz, satisfazendo a ira de Deus, de uma vez por todas. As duas comissões de música sacra queriam mudar a letra para que ela focasse em como a morte de Cristo na cruz exalta o amor de Deus. De fato, o amor de Deus foi exaltado no monte do Calvário. No entanto, a forma como isso ocorreu foi por meio de Cristo, fazendo o que não poderíamos fazer por nós mesmos – derramando Seu próprio sangue perfeito para expiar os nossos pecados.

A doutrina da propiciação era seu ponto central quando escreveu o hino?

Queríamos explorar o alcance da mensagem do evangelho em uma só canção. Quando as pessoas cantam “In Christ Alone” nas igrejas, nossa oração é para que compreendam os vários atributos de Deus. Seu poder soberano, Sua graça, Seu amor, Sua justiça e Sua ira estão todos interligados. Não devemos desistir de explorar Sua ira, porque através da compreensão da justa ira de Deus para com o pecado, entendemos Seu desejo de justiça e de paz. Como J.I. Packer explica tão claramente em “O Conhecimento de Deus”, Deus não será justo até que Ele inflija sobre todo pecado e delito a pena que merecem. Embora possamos achar isso duro, precisamos desesperadamente da ira de Deus (a reação santa e justa dEle para com o mal) para restaurar o mundo caído em que vivemos.

Entendo que algumas pessoas tenham problemas com a perspectiva teológica de que a ira de Deus foi satisfeita através da morte de Cristo na cruz. Parte deste debate está centrado em se a cruz tornou-se o objeto da ira de Deus. Quando expressado dessa forma, a ira de Deus pode soar dura e até confusa.

Contudo, acredito que essa visão decorre de uma compreensão inadequada de como a ira de Deus difere da nossa. Cada um de nós enfrenta a tentação de moldar Deus de acordo com a nossa própria imagem. E, para falar a verdade, uma imagem de Deus formada através de nossas experiências de mágoa, raiva, injustiça, ou ira será uma imagem triste e vingativa. Mas este não é o infinito e bondoso Deus a quem servimos. A ira de Deus não é como a nossa ira, e Seus caminhos não são como os nossos. Em toda a Escritura, a necessidade de se fazer expiação é comparada a um cálice de ira que o pecador deve beber. Como sabemos, Jesus bebeu este cálice por nós. A cruz foi a solução, proporcionando para cada um de nós uma maneira de sermos salvos. Pode não ser fácil de se compreender plenamente. Mas temos de agir com cuidado, ecoando o pensamento de Isaías 45:9: “Ai daquele que contende com o seu Criador! E não passa de um caco de barro entre outros cacos. Acaso, dirá o barro ao que lhe dá forma: Que fazes? Ou: A tua obra não tem alça.”

Stuart Townend e eu acreditamos que a doutrina da propiciação desempenha um papel vital na forma como entendemos a obra salvadora de Cristo, como está nas Escrituras. Consequentemente, a linguagem utilizada em todo o hino (In Christ Alone) é uma expressão natural da nossa visão teológica sobre este assunto.

Por que as igrejas precisam cantar músicas com uma visão sólida da expiação?

Meu amigo e pastor Alistair Begg frequentemente descreve nossa cultura como uma em que as pessoas levam uma vida de desespero silencioso. Concordo com ele. Nosso mundo precisa urgentemente da esperança de saber que a obra expiatória de Cristo é profunda e ampla o suficiente, para cobrir os pecados mais graves e o desespero mais profundo.

Durante a Segunda Guerra Mundial, a família Ten Boom, da Holanda, abrigava judeus em sua casa até que a Gestapo prendeu o pai idoso e suas duas filhas crescidas, Corrie e Betsie. Meses mais tarde, depois que seu pai morreu, as irmãs tiveram de enfrentar uma crueldade inimaginável em um campo de concentração. No entanto, em face da extrema escuridão, Betsie, em seus últimos dias, sentiu-se compelida a continuar a compartilhar o amor de Cristo com os outros. Ela declarou a Corrie que “temos que contar aos outros o que aprendemos aqui. Temos que dizer a eles que, por mais profundo que seja o sofrimento, o Senhor pode ir além. Eles vão nos ouvir, Corrie, porque nós estivemos neste lugar.”

Estas palavras, como contadas no livro de Corrie, “O Refúgio Secreto”, são realmente comoventes e inspiradoras. Mas como podemos saber que elas são absolutamente verdadeiras? Em parte, por causa da expiação. Porque Cristo levou por nós o peso do pecado do mundo, sentindo profundamente o sofrimento da separação de Deus, muito mais do que jamais irei compreender.

Por esta razão, devemos cantar com todo o coração sobre conceitos como o sacrifício substitutivo, bem como os vários outros atributos de Deus que, infelizmente, são ignorados em algumas igrejas hoje. As músicas que cantamos tem uma forma poderosa de moldar nossa alma, e de impregnar nosso ser. É por isso que meu avô continuou a lembrar e a cantar hinos até morrer, aos 90 anos. É também por isso que a missionária americana Gracia Burnham cantava suavemente os hinos que ela havia memorizado em seus anos de juventude, quando foi mantida refém, no sul das Filipinas, por mais de um ano por militantes islâmicos. Ela não tinha acesso a uma Bíblia ou a um hinário. As palavras foram escritas em seu coração.

A verdade cantada permanece conosco. É por isso que ainda cantamos as letras poderosas de hinos escritos séculos atrás. Especulações e questionamentos sobre teologia vêm e vão, mas a verdade permanece. Considere estas palavras de Horatio G. Spafford, escritas em 1873: Meu pecado, oh, a felicidade deste glorioso pensamento!/ Meu pecado, não em parte, mas ele todo, / é pregado na cruz, e eu não o carrego mais, / Louvai o Senhor, louvai o Senhor, ó minh'alma!

Olhando para o futuro, qual sua esperança em relação às canções escritas para a igreja hoje?

Vivemos um momento emocionante na história, para os crentes e para a igreja. Hoje existem mais cristãos no mundo do que em qualquer outro momento. Há mais traduções da Bíblia do que nunca antes. No entanto, parece que a média dos evangélicos sabe menos sobre a Bíblia hoje do que em qualquer outro período. Creio que compositores têm o dever de garantir que a Palavra de Cristo habite ricamente nos corações da nossa geração. E parte de como esta geração vai entender sua fé é através das palavras que cantam.

Precisamos de canções emocionantes, apaixonadas, com belas letras, ricas em teologia e com melodias contagiantes, que revigorem nossas congregações. Cada linha que escrevemos e cada melodia que compomos precisam retratar um quadro mais pleno de Cristo para as pessoas ao nosso redor. Não precisamos evitar as partes difíceis e misteriosas da Escritura. Compositores precisam demonstrar uma compreensão do contexto bíblico como um todo. Não devemos ter medo de escrever sobre coisas difíceis. Cantar músicas mais profundas nos permitirá experimentar o alívio de poder desviar nossos olhos de nós mesmos e mirar a vastidão inimaginável do nosso Deus. Oro desta forma por mim mesmo e pelos outros que fazem música para a igreja hoje.

 

Nota do editor: Agradecemos a Corrie Cutrer por sua ajuda no desenvolvimento desta entrevista. Nas versões em português, a canção “In Christ Alone” recebe diferentes traduções para estes versos. A versão que mais se aproxima da original, citada acima, pode ser encontrada na internet com o título “Em Cristo Só”.

 

Traduzido por Marq.

CARREGAR MAIS
Loading