O Que Estou Aprendendo Após Perder Minha Filha para as Drogas

Eu comecei a caminhar por uma estrada quebrada e esburacada no dia 28 de janeiro. Francamente, eu sabia que essa estrada estava no horizonte, mas nunca quis andar nela.

Minha jornada sombria começou com um telefonema. A voz estava calma, mas as palavras soaram como uma avalanche, deixando-me em estado de choque e afliçāo. Minha filha mais velha havia morrido. Sua luta de cinco anos contra o vício das drogas, que lhe havia roubado tanto, havia lhe tirado a vida.

A notícia me tirou o fôlego.

A dor inicial foi amplificada em meu coração ao repetir a notícia para a minha esposa, as minhas outras duas filhas, e vários outros membros da família e amigos. No meio da tarde naquele primeiro dia, minha esposa me encontrou andando em círculos na nossa cozinha. Ela me perguntou o que eu estava fazendo.

Eu não tinha a mínima ideia.

Aquelas primeiras horas de nevoeiro foram preenchidas com soluços e confusão que vieram em vagas. Aceitei a tarefa impensável de me encontrar com um agente funerário e organizar o funeral de minha filha, apenas algumas semanas antes do seu aniversário de 29 anos. Seria eu quem faria o sermão memorial, algo que eu tinha feito muitas vezes antes para outras pessoas.

Mas desta vez foi incrivelmente diferente. Pela graça de Deus, eu preguei, e o nosso Senhor, em sua misericórdia, começou uma obra em mim e ao meu redor que só ele pode explicar.

Embora a tristeza profunda tenha começado a se dissipar lentamente, a dor ainda parece recente.. Em retrospecto, vejo claramente que a graça de Deus tem sido o poder implacável que sustenta nossa família nas semanas desde aquele telefonema chocante.

Aqui estão algumas coisas das quais me dei conta, lições que estou aprendendo sobre mim mesmo e sobre a vida, a perda, o amor e o vício. Embora eu seja um pastor formado no seminário, muito disso não foi abordado nas salas de aula.

1. Estar presente é melhor do que palavras.

Tem sido interessante ouvir como as pessoas se expressam quando a morte chega. Faltam-lhes palavras. Alguns tentam forçar palavras, tentando fabricar algo que conserte a bagunça ou alivie a dor. Há uma abundância de platitudes religiosas. Reconheço que as palavras são bem intencionadas, mas elas raramente ajudam. Simplesmente estar presente ajuda. A força e o abraço de outro indivíduo, feito à imagem de Deus, refletindo Seu poder e amor.

Falar é bom, e tenho feito muito disso também. Mas o apoio mais forte veio da presença. Como pastor, já estive do outro lado da morte. No entanto, percebo mais do que nunca que estar disposto a simplesmente sentar com os outros em sua dor é suficiente. Deus pode usar esta presença de grande maneira.

2. O amor é ativo e diverso.

O que a nossa família recebeu de centenas de pessoas foi nada menos do que extraordinário. Perdi a conta do número de mensagens, ligações, e-mails, mensagens do Facebook e abraços — abraços apertados e maravilhosos, regados a lágrimas. Recebemos comida de lugares inesperados e cartões expressando uma bondade sincera. Recebemos flores e plantas lindas que continuam a nos relembrar desse derramamento de compaixão humana.

A cada momento, fomos cobertos por uma infinidade de orações, ajudando-nos em nosso sofrimento. Tudo isto é amor. Jesus explicou que o maior mandamento é amar a Deus completamente e amar os outros abnegadamente. Eu observei este amor em ação. Francamente, este amor centrado nos outros está faltando em muitas partes da experiência norte-americana, até mesmo nas igrejas. Se os cristãos esperam ver este mundo transformado, necessitam começar com um amor ativo, resoluto, às vezes arriscado, e uma vontade de entrar na dor e na desordem dos outros.

Este é o evangelho em ação e ele tem poder.

3. Deus opera na desordem.

Nossa família testemunhou a mão de Deus. Peças se encaixaram para que pudéssemos viajar sem obstáculos para estar com a família. Recursos vieram de uma variedade de pessoas para cobrir despesas inesperadas. Centenas compareceram ao culto memorial.

Alguns que ficaram depois do memorial provavelmente não compareceriam a um culto normal da igreja, principalmente porque são pessoas do tipo que a igreja tantas vezes marginaliza. Eles nem sempre se sentem bem-vindos e amados. Por causa daquele evento trágico, muitas almas obviamente feridas e danificadas ouviram a mensagem cheia de esperança sobre o perdão e a graça encontrados em Jesus Cristo.

Falei com uma jovem que estava visivelmente debilitada e choramos juntas enquanto ela lutava para entender a perda. Era uma situaçāo pessoalmente alarmante para ela. Fiquei sabendo que uma outra pessoa, que usava drogas diariamente, disse a um amigo: “Quero ajuda; não quero morrer.” O prédio da igreja ficou cheio, com um grupo diversificado de pessoas que não vemos frequentemente em nossos cultos.

Outras dezenas assistiram ao culto em vídeo. No vale da sombra da morte, Deus permitiu que eu me levantasse e pregasse, de uma base de força e amor, compartilhando o meu coração e também o evangelho. Somente a eternidade revelará o efeito destes eventos. Ficou claro para mim que Deus estava guiando cada momento.

4. O vício está ao nosso redor.

Observei o lado feio do vício em drogas e do álcool. Muitos de nós já observaram. É triste e muitas vezes dolorosamente óbvio. O tópico é normalmente apenas sussurrado no espaço sagrado de nossas igrejas.

Não podemos mais nos calar sobre estas coisas.

A cura e a transformação ocorrerão quando as trouxermos para a luz e para a influência do evangelho. É com compaixão e não condenação que os cristãos devem estar dispostos a abraçar aqueles que lutam contra o vício.

Muitas vezes, temo que sejamos como o irmão mais velho da parábola de Jesus do filho pródigo, desdenhando da vida arruinada que foi calorosamente recebida por seu pai. Viciados não necessitam de recriminações; eles necessitam de Jesus — como eu também necessito. É hora de reconhecermos que o vício está por toda parte e até dentro de cada um de nós. O vício é o desejo do coração de se apegar repetidamente, depender, fugir e encontrar satisfação em algo que não seja Deus. Infelizmente, muitos dos nossos vícios não são vistos como hediondos. Alguns até são celebrados.

O vício pode assumir a forma de perfeccionismo, agradar às pessoas, pacificação, competência, controle, realização — a lista é longa. Quando abraçamos tais coisas como uma forma de satisfação, afirmação e alegria final, elas são exatamente como as drogas. Somos pessoas danificadas, cada um de nós. Alguns cristãos estão completamente alheios; outros estão cientes, mas lutam para manter essas coisas no escuro. A vergonha de se identificar como alguém com problemas é muito grande. Mas à luz da graça de Deus, dentro de uma comunidade segura e amorosa, encontraremos a liberdade de todos os nossos vícios. Nossas igrejas devem ser lugares seguros para os que estão claramente destruídos, bem como para aqueles que lutam para cobrir suas feridas, cicatrizes e problemas.

5. A dor é estranha e imprevisível.

Compreendo que a dor é um processo que leva tempo. Não superarei esta tragédia em poucas semanas. Às vezes, quero que tudo esteja pronto, limpo e arrumado. Mas não é assim que funciona com a dor. Mesmo que todos nós saibamos sobre ela, a morte nos sobressalta quando bate à nossa porta. Não há uma maneira correta de dirigir nessa estrada. Minha experiência é singular.

Mas não estou sozinho.

Há grande conforto e força em ter outros me apoiando nesta jornada, amando-me e orando por mim. Não sei exatamente onde essa estrada levará, mas estou certo de que Deus não desperdiça nada. Ele está comigo. Ele é por mim. E ele está usando essa experiência excruciante para me moldar.

Se dependesse de mim, eu escolheria uma estrada diferente. Mas não depende de mim, porque eu não sou Deus. Não estou no controle. Portanto, confiarei nele para guiar os meus passos à medida em que ele continua a me ensinar, orando para que ele use este evento devastador para encorajar e despertar os outros.

 

Traduzido por Mariana Ciocca Alves Passos.

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