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Jesus Reina: Um Relato sobre a Retomada dos Cultos Presenciais em Tempos de Pandemia

Não acredito em coincidências. Minhas convicções teológicas quanto à soberania divina não me permitem concluir que as coisas acontecem por acaso. Pois bem: justamente na semana em que igrejas em todo o mundo relembraram a ascensão de Jesus Cristo, e portanto, seu reinado soberano sobre toda a criação, as autoridades municipais permitiram, após dois meses, a realização de cultos presenciais nas igrejas de Porto Alegre, desde que respeitados rigorosos protocolos para impedir a propagação do vírus durante as solenidades.

Vivemos um momento de confusão e perplexidade. Pandemia global, restrições ao trabalho, à vida social, ao ajuntamento para o culto, uma profusão de decretos confusos, arbitrários e de legalidade e constitucionalidade duvidosos expedidos por diversas autoridades, mas não importa: em meio a tudo isso, Jesus Cristo é e continua a ser o Rei soberano sobre todas as coisas. E pela sua soberana misericórdia e graça, Ele, Ele, mais do que as autoridades políticas, permitiu que as igrejas de nossa cidade voltassem a se reunir justamente quando muitos cristãos relembram, na semana da ascensão, que Ele foi assentado à direita de Deus Pai, acima de todo principado, potestade, poder e domínio, quer estes o reconheçam, quer não. Tendo em mente esse contexto, mesmo que tecnicamente não sejamos uma igreja litúrgica, planejamos todo o culto da congregação à luz da exaltação de Jesus como Rei e Sacerdote eterno. O culto de retomada foi o culto da ascensão de Jesus Cristo. A oração de abertura, a confissão de pecados, os cânticos que exaltavam o senhorio de Jesus Cristo sobre todas as coisas, a leitura responsiva, com toda a igreja, do significativo salmo 93, a pregação da palavra enfatizando a narrativa da ascensão e seu significado teológico, a celebração da ceia com a perspectiva de que nosso Senhor é também aquele que intercede por nós, a leitura da confissão de fé, enfim, todos os atos foram praticados à luz do fato histórico decisivo da ascensão de Jesus Cristo aos céus, o que, dado o momento que estamos vivenciando, tornou a reunião de adoração um momento histórico e inesquecível na vida da congregação e dos que se fizeram presentes.

Antes de detalhar nossa experiência, vale lembrar que nem todas as igrejas da cidade reabriram nesse domingo. Algumas lideranças decidiram que ainda não era o momento para tanto, dadas as particularidades vivenciadas por suas comunidades: dificuldades em seguir as exigências do decreto municipal, pastores obreiros e grande parte dos membros fazendo parte do grupo de risco, restrições quanto ao número de participantes, etc. Decisões compreensíveis, tomadas por aqueles que conhecem a realidade concreta das suas igrejas. Em nossa compreensão, nossa comunidade, uma pequena congregação da Assembleia de Deus de Porto Alegre, estava tanto necessitada dos cultos como preparada para, com todos os cuidados necessários, promover uma retomada parcial de suas reuniões de adoração coletiva. As “lives” transmitidas todas as semanas ao longo desses dois meses sem cultos, supriram algumas necessidades da nossa comunidade ao longo desse tempo, mas não podem se equiparar ao ajuntamento presencial da igreja para a adoração, pois não suprem todas as suas necessidades espirituais, ao não permitir a profundidade da experiência da adoração coletiva que acontece quando o povo de Deus se reúne fisicamente.

No nosso caso, é bem verdade que nem todos os membros puderam ou se sentiram seguros em participar. Cerca de metade da congregação se fez presente, enquanto outros ficaram em casa por diversos motivos: resguardo enquanto grupo de risco, receio de causar a contaminação de outros irmãos em virtude da sua necessária exposição diária no ambiente de trabalho e até mesmo inconformidade com as regras de distanciamento impostas (máximo de 30 pessoas presentes, distância de dois metros entre cada uma, uso obrigatório de máscaras, disponibilização de álcool gel, evitar aglomerações, abraços, beijos, cumprimento com as mãos), que pareciam mitigar o aspecto da comunhão entre irmãos. Para estes, mantivemos a transmissão online do culto, e assim faremos até que a epidemia por Covid-19 deixe de ser um risco acima do normal para a humanidade.

Voltando ao relato do nosso culto de retomada, para nossa surpresa, recebemos também dois visitantes não cristãos, trazidos por um membro que não esqueceu que, mesmo em tempos difíceis, a igreja segue em missão. Essa, porém, foi apenas uma das alegrias que os irmãos que compareceram puderam vivenciar na fria e úmida noite do dia 24 de maio de 2020. Mais do que nada, eles tiveram uma emocionante e inesquecível experiência de participar da retomada, após longo tempo de “exílio”, da adoração coletiva solene em tempos extremos. Ao longo do culto, proclamamos que Jesus é o Senhor e relembramos os atos salvadores do Deus Trino em favor do seu povo. Na ceia, finalmente celebrada desde o último culto presencial, realizado dia 15/03, pudemos “provar e ver que o Senhor é bom”. Mesmo que distanciados, com o uso de máscaras, sentados afastados uns dos outros e evitando cumprimentos, abraços, beijos, a comunhão real, presencial, cuja ausência foi tão sentida e lamentada nesses últimos meses, pode ser experimentada e valorizada como nunca antes. Em muitos rostos, as lágrimas e expressões de alegria eram visíveis.

Os membros presentes relataram após o culto a emoção de estarem juntos cantando em alta voz, após mais de 70 dias afastados: Poder estar reunido fisicamente é glorioso. As restrições, distanciamento, uso de máscaras é tão pequeno e insignificante perto da grandiosidade que é a união do corpo de Cristo! Alegria e gratidão são palavras que definem meu sentimento. Sem dúvida ouvir a igreja cantar junto foi algo que me marcou no culto hoje. Da mesma forma: Estar presencialmente é insubstituível. Poder ver nossos irmãos, ouvir a igreja alegre cantando, ouvir a Palavra em comunidade. Devemos valorizar esse momento que podemos estar juntos. O ineditismo da situação que vivenciamos foi relacionada com o privilégio do momento vivido “Nos meus 21 anos de cristão nunca havia passado situação semelhante, tanto tempo sem culto… esta retomada foi algo maravilhoso e extraordinário… sentir que a vida comum e ordinária da igreja é encharcada pela presença do Espírito na comunhão, oração, louvor e pregação!!! Deus está no meio de nós… A importância e alegria da adoração coletiva, de certa maneira, foi vivenciada como nunca antes. O “exílio” parece ter aberto os olhos de muitos membros da congregação para o privilégio e importância da adoração coletiva: Foi uma experiência marcante no meu coração! Cultuar o Senhor, com os irmãos, parecia que meu coração pulava de alegria. Ver nossa igreja reunida mesmo com restrições, é maravilhoso!

Muitos irmãos também ressaltaram o quanto as transmissões ao vivo pela internet, ainda que proveitosas, não ofereciam tudo o que uma reunião presencial de adoração pode oferecer em termos de comunhão e edificação. Nesse aspecto, desconfio, que a ausência de alguns irmãos pode ser explicada também pelo desânimo e acomodação causados pelo distanciamento social e ausência das reuniões e visitações nesses tempos de pandemia, o que reforçou nossa decisão de que a retomada dos cultos era urgente e deveria ser levada a efeito tão logo fosse possível. Em outras palavras, enquanto para alguns o distanciamento fez crescer o amor e a valorização pelos momentos de adoração coletiva, em outros o distanciamento teve o efeito contrário, o que já era de se esperar. A não realização de cultos presenciais é muito ruim para a vida da igreja, ainda que possa ser necessária por certo tempo. Por isso, na perspectiva do corpo de obreiros da congregação, a legítima preocupação com a saúde física não pode desconsiderar as demais dimensões da vida humana, como o aspecto psicológico e social, mas especialmente a vitalidade espiritual do corpo de Cristo.

Um último e em outras circunstâncias insignificante acontecimento emocionou os presentes. Tradicionalmente, ao final dos cultos dominicais, é feita uma oração por todos os aniversariantes. Ontem, uma humilde irmã que não tem internet em casa e não pôde acompanhar nenhuma transmissão de nossas lives nesse tempo (por isso, entre outros motivos, o “culto online” e assemelhados não é a solução definitiva para os problemas causados pelo distanciamento social, pois essas pessoas, que não são poucas, não podem ser esquecidas) se manifestou por ocasião da oração final, lembrando que esteve de aniversário no final de março (uma semana após a suspensão dos cultos presenciais) e queria que a igreja orasse por ela, como sempre se fez. Ela aguardou por dois meses a retomada dos cultos pela congregação para que pudessem orar coletivamente pela sua vida. Tal fato inusitado nos mostrou o quanto a ausência do culto presencial foi sentida pelos irmãos mais humildes, e o quanto eles valorizam a oração comunitária praticada quando a igreja se reúne. Foi com muita satisfação que vimos a alegria dela ao orarmos e agradecermos a Deus, todos juntos, pela vida dela, mesmo que com dois meses de atraso.

Na nossa perspectiva, portanto, nosso rei soberano, ao nos permitir a voltar a congregar presencialmente, estava providenciando nosso “retorno do exílio”. Os cultos ainda não voltaram a ser como antes, ainda há muitas restrições e cuidados necessários. Muitos irmãos ainda não puderam retornar. Mas sabemos que nosso Senhor ressurreto está movendo todas as coisas e cremos que em breve poderemos cultuá-lo todos juntos, superando esse tempo no exílio/deserto, para desfrutarmos novamente a plenitude da adoração presencial com toda a igreja, com toda a liberdade. Enquanto esse dia não chega, continuaremos a adorar comunitariamente, confiantes na soberania do nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, aquele diante de cujo nome se dobrará “todo joelho nos céus, na terra e debaixo da terra, e toda língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor, para a glória de Deus Pai.” (Fp. 2.10)

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