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Evitar Pessoas Difíceis não é amar como Cristo

“A vida é curta demais para passar tempo com pessoas que sugam nossa felicidade”, diz a garota, fotografada em preto e branco, olhando para o horizonte. Compartilhado milhares de vezes nas mídias sociais, o meme é feito para nos empoderar: Você merece se sentir bem o tempo todo, portanto faça isto acontecer.

Qualquer pessoa com um amigo, vizinho ou colega de trabalho difícil já enfrentou essa tentação de cortar relações. Há ainda um prêmio tentador que, se o fizermos, seremos chamados de “corajosos” por excluir pessoas difíceis.

Mas quando as pessoas que afetam nossa felicidade são simplesmente estranhas ou irritantes, esse meme popular espirala em pecado e tolice. Se as pessoas que devemos descartar de nossas vidas são apenas aquelas que nos desapontaram, bem, nós também não falhamos com frequência? Se um amigo está genuinamente tentando apontar nosso pecado, mas isso nos deixa desconfortáveis ou envergonhados, é este o tipo de relacionamento que não merecemos?

Para os cristãos, a questão é especialmente complicada. O corpo de Cristo na terra é feito de corpos humanos. É inevitável que encontremos pessoas que consideremos chatas, deprimentes, estranhas, grudentas, ou até mesmo evidentemente maldosas, em nossos pequenos grupos ou bancos de igreja. Então, qual é a nossa prescrição? Nós tomamos o caminho do meme? A Bíblia, como sempre, oferece um caminho melhor.

Prescrição 1: Amai-vos Uns aos Outros

Quando se trata de irmãos na fé, a instrução de Deus tende à tolerância e a ausência de fuga. “[Suportai] uns aos outros em amor”, Paulo descreveu aos efésios (4.2). Ele envia uma mensagem semelhante aos filipenses: “Cada um cuide, não somente dos seus interesses, mas também dos interesses dos outros. (2.4) NVI

Paulo também escreveu aos coríntios sobre o amor. Lá ele descreveu o amor de uma forma que frustra o egocêntrico: “O amor suporta todas as coisas” (13.7). O amor suporta um amigo cronicamente desmotivado, uma mãe com um inventário perpétuo de enfermidades, uma colega de trabalho pessimista. É paciente com o agressor reincidente, com o deprimido e com o preguiçoso.

O verdadeiro amor escandaliza o meme.

Também nos custa algo. Ao longo de Isaías, Deus impele seu povo a se renunciar em favor dos outros: “se abrires a tua alma ao faminto e fartares a alma aflita, então, a tua luz nascerá nas trevas, e a tua escuridão será como o meio-dia.” (Is 58.10).

Esgotem-se, Deus diz. Não excluam aqueles que te cansam.

Prescrição 2: Perdoem Uns aos Outros

Nós pecamos, e o pecado tem sérias consequências. “Os cristãos nunca podem pecar custando-lhes pouco”, escreveu Charles Spurgeon. Nossos corações e nossos relacionamentos pagam o alto preço de cada palavra indelicada e ação impensada. Felizmente, nosso Deus infinitamente sábio nos diz o que fazer. Ele nos ordena repetidamente a perdoar, pressupondo uma premissa óbvia: Não deveríamos nos afastar automaticamente de alguém que nos machuca.

O mandamento de Jesus de perdoar é de cair o queixo. Em Mateus 18, Pedro pergunta ao Senhor quantas vezes ele deve perdoar alguém que pecou contra ele. A resposta de Jesus é radical, não deixando espaço para guardarmos rancor: Você deve perdoar seu irmão muitas, muitas vezes mais do que pensa (18.22).

Embora para os injustiçados, isto seja difícil de ser ouvido, é motivo de grande celebração para o malfeitor: Deus nos perdoa muitas, muitas vezes mais do que merecemos. Devemos fazer o mesmo uns pelos outros.

Também em Mateus 18, Jesus oferece um plano para os crentes que caem em conflito. Começa com o confronto (desconfortável), evolui para o envolvimento de outros (especialmente desconfortável) e culmina no envolvimento de toda a igreja (quase insuportável).

Esta prescrição estressante é a prova de que ao abandono casual de um relacionamento difícil sem primeiro trabalhar pela paz simplesmente não é uma opção para os crentes.

Prescrição 3: Acolham Uns aos Outros

A filosofia cultural de evitar pessoas difíceis tem uma visão de mundo subjacente que deveria alarmar qualquer cristão. Esses memes sugerem que deveríamos filtrar o nosso círculo de relacionamentos até que os únicos que restem sejam aqueles que nos fazem felizes o tempo todo. Isso não apenas é irreal, como também é antibíblico.

Porque antes de podermos amar ou perdoar os outros, primeiro temos de recebê-los em nossos círculos — sabendo muito bem que eles nos decepcionarão em algum momento e nós a eles.

Deus não nos ordena a considerar todos como amigos íntimos ou a dar sem critério a todas as pessoas que conhecemos uma influência igual sobre nossas vidas. Mas ele ordena que nós nos relacionemos com todos em amor:

Porque, se amardes os que vos amam, que recompensa tendes? … E, se saudardes somente os vossos irmãos, que fazeis de mais? (Mt 5.46-47)

Em outras palavras: Fique longe de mim, meme.

Perguntas a Serem Consideradas

Há circunstâncias claras que exigem distância ou mesmo o rompimento permanente de um relacionamento: casos de abuso, por exemplo. As passagens das Escrituras que examinamos aqui não são exaustivas — há também muitos mandamentos que nos ordenam evitar o “caminho dos perversos” para não seguirmos seus passos.

Então, qual deles seguir? É tentador apelar a Provérbios quando preferimos nos liberar e a Coríntios quando gostaríamos de ficar, mas não é tão simples assim. Decidir por “cortar alguém” é pesado. Exige auto-reflexão antes de apertar o interruptor.

Devemos nos perguntar:

  1. Estou consciente de mim mesmo, o suficiente, para tomar essa decisão? Eu poderia ser responsável por alguma dificuldade que estou percebendo neste relacionamento?
  2. Essa pessoa me incita a pecar de uma forma que eu não posso lidar de forma saudável enquanto permaneço próximo a ela?
  3. Existe uma maneira de manter esse relacionamento a fim de ministrar a essa pessoa e, ao mesmo tempo, desvincular um pouco da minha intimidade?
  4. Estou considerando esse relacionamento como algo que deveria me abençoar em vez de perguntar como posso antes ser uma bênção?

Nosso Deus trino é um Deus de relacionamento. Comunhão com os outros — embora esteja se tornando uma arte perdida — é uma pedra angular da vida cristã e deveria ser tratada com muito esmero. Cuidado com os memes que te motivam a fazer o contrário.

 

Traduzido por Vittor Rocha

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