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Dons Espirituais São para o Serviço, Não para Realização Pessoal

Eu adorava assistir ao Chicago Bulls nos anos 90 porque Michael Jordan era o melhor jogador do mundo. Mesmo quando Michael Jordan se aposentou do basquete para jogar beisebol profissional, o Chicago Bulls ainda era um dos melhores times da NBA. Por quê? Por causa da superestrela Scottie Pippen. Pippen era um defensor feroz e conseguia jogar em todas as posições da quadra. Uma jogada da carreira de Pippen ainda é lembrada com desonra.

O Bulls estava empatado com os New York Knicks no Jogo 3 das Finais da Conferência Leste. Faltavam 1,8 segundos para o fim. Sem Jordan, todos esperavam que Pippen desse o último arremesso. Mas o treinador principal Phil Jackson não chamou Pippen. Em vez disso, ele planejou uma jogada para o novato Toni Kukoc. Pippen expressou sua frustração durante o tempo técnico. Afinal, ele era o líder da equipe, um dos melhores jogadores de toda a liga. Pippen sentiu-se desrespeitado e escolheu permanecer no banco na última jogada. Quando sua equipe mais precisou dele, Pippen deixou que seu ego falasse mais alto. Ele esqueceu que seus talentos dados por Deus serviam a um propósito final: ajudar seu time a vencer o jogo, mesmo que isso significasse repor a bola em vez de dar o último arremesso (Spoiler: com Pippen no banco, Kukoc acertou o arremesso da vitória no estouro do cronômetro).

Os fãs de basquete sabem que a carreira de Pippen não foi definida por aquele único momento. Devemos ser lentos em julgar. Na verdade, deveríamos ver algo de nós mesmos em seu momento de fraqueza. Provavelmente nunca nos foi negada a oportunidade de fazer um arremesso decisivo em um jogo de playoff da NBA, mas podemos ter sido a criança que resmungou por não ter o tempo de jogo que achava que merecia. Talvez tenhamos ficado com pena de nós mesmos quando não recebemos uma promoção. Talvez tenhamos ficado ofendidos quando os pastores nos disseram que não estávamos prontos para pregar. Ou talvez tenhamos ficado com raiva quando nosso cônjuge parece não apreciar o trabalho que fazemos em casa. Quando não somos reconhecidos como achamos que deveríamos, frequentemente encaramos isso como uma ofensa pessoal. Sentimo-nos desrespeitados, não apreciados e desvalorizados se nossos dons e talentos não recebem a plataforma de expressão que achamos que merecem.

Dons Espirituais e a Necessidade Equivocada de Autoexpressão

Eu me pergunto com que frequência os cristãos pensam que seu dom espiritual precisa de uma plataforma de expressão na igreja local. É claro que nenhum cristão jamais admitiria isso, mas com que frequência usamos dons espirituais para justificar o egoísmo e o individualismo? É a postura que diz: “Eu tenho o dom do ensino, então preciso pregar”. Ou: “Eu tenho o dom de evangelismo, então preciso liderar um trabalho evangelístico”. Ou: “Eu tenho o dom de discipular mulheres, então preciso iniciar um ministério de mulheres”. Ou: “Tenho facilidade com crianças, então preciso liderar o ministério infantil”.

Não me entenda mal, as igrejas se beneficiarão ao permitir que pessoas talentosas liderem ministérios oficiais. O problema não são as plataformas ou os ministérios públicos. O problema é quando começamos a nos considerar melhores do que realmente somos (Rm 12.3). Podemos pensar em nossos dons espirituais como veículos para realização pessoal e exaltação própria. Preocupamo-nos mais em alcançar nosso potencial do que em edificar o corpo. Se nos é negada a oportunidade de expressar nossos dons, sentimo-nos desrespeitados, não apreciados e talvez ofendidos. Pior ainda, a ofensa que sentimos torna-se uma desculpa para a desobediência.

Seus Dons Não São Sobre Você

O Novo Testamento corrige nossos mal-entendidos e nossa propensão a nos voltarmos para dentro de nós mesmos. Pedro instruiu seus leitores em 1 Pedro 4:10: “Servi uns aos outros, cada um conforme o dom que recebeu, como bons despenseiros da multiforme graça de Deus”. O apóstolo Paulo escreveu que Deus dá a cada um de nós uma “manifestação do Espírito para o benefício de todos” (1 Co 12.7). Paulo lembrou aos Efésios que líderes capacitados devem trabalhar “com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo” (Ef 4.11–12). Cada membro equipado e dotado faz a sua parte para edificar o corpo em amor (Ef 4.13–16).

Simplificando, os dons espirituais são dados aos cristãos para que os cristãos possam servir à igreja. Os dons espirituais não servem para proporcionar um senso de valor próprio ou realização. Eles não são inerentes à nossa identidade, de modo que sejamos de alguma forma incompletos se não pudermos exercer nossos dons.

E se a sua igreja não precisar que você expresse seu dom espiritual da maneira que você quer? Você ainda pode orar, pode compartilhar o evangelho, pode demonstrar hospitalidade, pode ajudar nos bastidores, pode mostrar misericórdia, pode encorajar os outros. Talvez você precise pensar menos de forma programática sobre seus dons espirituais e mais de forma relacional.

Em outras palavras, encontre pessoas para servir, não plataformas para se destacar. Talvez você tenha o dom de ensinar, mas sua igreja já tem presbíteros e outros professores suficientes. Tudo bem. Você pode levar um novo crente para tomar um café e discipulá-lo? Pode ler um livro edificante com um irmão da igreja? Pode ensinar no ministério infantil? Talvez você tenha o dom de misericórdia? Pode encontrar um irmão que precise de encorajamento? Seus dons espirituais não são sobre você. Dons espirituais são presentes. Eles nos são dados por Deus para que possamos participar da edificação do corpo. Até mesmo a execução do nosso dom vem da força que Deus supre, para que Deus receba toda a glória (1 Pe 4.11).

Pense com Equilíbrio

A realidade é que provavelmente não possuímos o equivalente espiritual do talento de basquete de Scottie Pippen, mas temos uma propensão a nos superestimar. Precisamos pensar com “sobriedade” sobre nossos dons e não nos considerar melhores do que realmente somos (Rm 12:3). Em minha experiência, as pessoas que acham que merecem dar o arremesso da vitória costumam ser as que precisam repor a bola em jogo. Muitas vezes nos falta autoconhecimento. Quantos jovens aspirantes a pastores entraram no ministério pensando que seriam o próximo John Piper, R.C. Sproul ou Tim Keller, apenas para se sentirem decepcionados e desiludidos? Eu nunca pregarei como George Whitfield, Martyn Lloyd-Jones ou John Piper, e tudo bem. O Deus soberano que os capacitou para cumprir seu chamado é o mesmo Deus que me deu o que eu preciso para cumprir o meu. Deus sabe melhor como cuidar de sua igreja.

Meu nível de talento não é o que me define. Seus dons espirituais não são o que definem você. “O que é que você tem que não tenha recebido? E, se o recebeu, por que se gloria, como se não o tivesse recebido?” (1 Co 4.7). Quando percebemos que os dons espirituais são para o bem de todos, ficaremos menos preocupados conosco e começaremos a servir as pessoas com a força que Deus supre. Teremos prazer em repor a bola em jogo ou, no nosso caso, servir nossas igrejas de qualquer maneira necessária. O objetivo é que todos ao nosso redor sejam edificados em amor. Podemos até descobrir que esse tipo de esquecimento de si mesmo, esse tipo de abnegação, é onde a verdadeira realização e alegria são encontradas.

Traduzido por Claudio Lopes Chagas.

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