A Linguagem de Deus, de Francis Collins

O livro “A linguagem de Deus”, do geneticista Francis Collins, cristão e diretor geral do Projeto Genoma Humano, gerou muita polêmica quando foi publicado, em 2006. Foi lançado no Brasil com o subtítulo “um cientista apresenta evidências de que Ele existe”, descrição um tanto enganosa, como mostrarei daqui a pouco. Mas eu não tinha lido o livro até esta semana. Por vários motivos, ele nunca conseguiu chegar ao topo das minhas prioridades. Isso mudou recentemente, quando participações mais curtas do autor começaram a se acumular, especialmente graças à editora Ultimato: um capítulo de Collins apareceu em “O teste da fé” e ele foi um dos entrevistados no documentário homônimo, além de contribuir para o livro “Verdadeiros cientistas, fé verdadeira” com outro capítulo — que, como vim a descobrir, é um resumo de “A linguagem de Deus”. Achei sua contribuição ruim em todos os casos. Talvez, pensei, tenha sido por causa dos meios, que exigem uma concisão excessiva; pode ser que, tendo um livro inteiro para se explicar, o autor se saia melhor. Decidi, enfim, priorizar a leitura desse clássico.

Seu objetivo central é defender a conciliação entre a fé cristã e a ciência, buscando convencer tanto os cientificistas antirreligiosos quanto os cristãos com quaisquer reservas em relação à ciência (método ou instituição, pouco importa) de que essa via é não só possível, mas também intelectualmente superior às alternativas. Grande parte de seu esforço se concentra na questão da evolução, com críticas ao evolucionismo materialista, ao criacionismo e ao design inteligente. Collins não tem muitos problemas com a expressão “evolução teísta”, mas, em respeito às sensibilidades alheias, propõe em seu lugar um termo mais pomposo, BioLogos.

O problema não era o excesso de concisão. A argumentação é quase sempre fraca, pouco importando o que esteja sob defesa ou ataque. Assim como a maioria dos cientistas, Collins não é um pensador muito bom. Seja abordando questões filosóficas, teológicas, históricas ou éticas, seu conhecimento é superficial, seu discernimento é baixo, seu raciocínio é pouco rigoroso e as melhores objeções são geralmente ignoradas. Mas Collins é um grande cientista, e por isso eu esperava que sua argumentação em questões mais técnicas fosse melhor, que ele fosse capaz de produzir argumentos interessantes contra as interpretações materialistas da evolução, os criacionismos e o design inteligente. Essa foi, para mim, a maior decepção do livro.

Collins não pode criticar cientificamente o materialismo, pois está comprometido com a ilusão secularista da neutralidade religiosa da ciência, a qual garante ao ateu o direito a priori de jamais ser incomodado por fatos científicos. Collins cumpre esse papel de modo exemplar, enfatizando repetidamente que a superioridade da abordagem “teísta” se baseia apenas no argumento moral (uma versão empobrecida do argumento de C. S. Lewis).

Já os criacionistas e defensores do DI são abundantemente criticados em bases científicas (embora não só). Aqui Collins não acrescenta absolutamente nada aos argumentos já existentes, nem mesmo no plano retórico, e não há em suas palavras um único detalhe que não tenha sido abundantemente discutido mesmo nas obras mais populares de seus antagonistas. Na verdade, Collins nem sempre descreve bem o argumento do adversário; nos momentos cruciais, ele é uma fábrica de espantalhos.

Isso não impede que o livro tenha algum valor para pessoas com conhecimento científico extremamente baixo ou que sejam iniciantes completos em matéria de reflexão sobre a relação entre ciência e fé. Eu mesmo já o indiquei para duas pessoas, e acho que pode lhes ser útil de algum modo. Os trechos não argumentativos também são interessantes. Gostei de saber mais sobre a vida do autor, sua conversão (como não gostar dessa parte?), o progresso de sua carreira e sua experiência como diretor do PGH. Pessoalidade em ciência é sempre uma coisa boa.

Mas minha conclusão mais importante é que a única justificativa para o estardalhaço que a publicação dessa obra produziu é a eminência de seu autor, o que é uma tremenda ironia para os ideólogos que defendem que não há lugar para a autoridade em ciência. “A linguagem de Deus” é uma carteirada de 279 páginas

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