Não é incomum que aqueles que desejam ver mudanças sociais ou mudanças dentro da igreja — pessoas apaixonadas por causas importantes a seus olhos — descartem instituições como inimigas de sua visão para a igreja ou sociedade.
Costuma-se supor que se você se importa profundamente com mudanças sociais, você é anti-instituições. Se você realmente se importa com a igreja, por exemplo, isto significa que você se preocupa com “comunidade” e pessoas, não com instituições. Se você quiser fazer uma diferença substancial em seu bairro, cidade ou país, a última coisa que você necessita é de uma instituição para atrapalhar, porque, presume-se, as instituições têm a ver com a manutenção do status quo.
Um exemplo clássico é o Movimento Occupy, que começou com uma agenda para “retirar o dinheiro da política”. Ele acabou se espalhando por 82 países e acabou sendo um movimento de protesto que tratou de tudo, desde males sociais até demandas por democracia em Hong Kong. Mas como o co-fundador Micah White reconhece, o movimento não alcançou seus objetivos, apesar de durar muito e receber cobertura nas primeiras páginas. Veja por exemplo, o movimento Occupy Central, em Hong Kong. Durou 10 meses e ainda não há resultados visíveis, apesar de todo esse tempo e esforço. Por quê? Como Susan Cole colocou na mesma entrevista, para realizar qualquer coisa você precisa de algum nível de organização. Ou, de modo mais simples, é necessário criar uma instituição.
É inevitável: se corretamente nos preocupamos com a igreja ou a sociedade e quisermos ter impacto, é necessário pensar em termos de instituições. Se ansiamos ver certos valores fundamentais impactarem circunstâncias da vida real, necessitamos saber tanto como funcionam as instituições quanto como podemos trabalhar com mais eficiência nelas. Podemos escolher entre lutar contra instituições e considerá-las como um problema inerente, a partir de uma noção sentimental daquilo que contribui para o florescimento humano, ou podemos aprender a viver com elas e dentro delas. Podemos desenvolver competência institucional — entender como instituições funcionam ao mesmo tempo em que aprendemos como trabalhar de forma mais eficaz para sua eficácia institucional.
Competência institucional significa, pelo menos, duas coisas: primeiro, que pensamos e agimos à luz do propósito de uma instituição (sua missão) e, segundo, que compreendemos e podemos trabalhar dentro de um modelo ou sistema de governança. Isso não pode ser enfatizado o suficiente: aqueles com inteligência institucional raciocinam sobre as organizações de uma maneira especial. Raciocinam em termos de missão. Sabem também como trabalhar em direção à missão ao lado de colegas e associados. E sabem como trabalhar efetivamente dentro de um sistema de governança — uma abordagem para tomar decisões e implementá-las e para alavancar o poder.
Há outros aspectos da competência institucional? Certamente. Mas estes dois são fundamentais.
A Missão: Clareza sobre o Propósito Institucional
Primeiro, competência institucional significa que aprendemos o que significa ser parte de algo maior que nós mesmos. Um problema com o movimento Occupy era que ele era sobre tudo — tentar protestar ou mudar ou influenciar qualquer coisa que fosse a preocupação de alguém. Cada um destes pontos pode ter sido uma preocupação legítima, mas o movimento não tinha foco. O segredo de uma instituição eficaz é a clareza em relação ao propósito: saber em que negócio estamos e estar determinados a fazê-lo com excelência e especificidade.
Mas a chave é que este propósito é maior do que qualquer um de nós; não se trata de fazer aquilo que desejamos individualmente. Instituições são centradas em objetivos compartilhados. Trata-se de uma visão ou missão compartilhada. Embora isto signifique que o propósito institucional pode não se alinhar perfeitamente com nossa própria visão, é necessário que haja sobreposição suficiente para que possamos participar dele. Por exemplo, nenhuma denominação religiosa é perfeita, mas ao invés de cada um de nós começar sua própria igreja, devemos abraçar uma tradição que reflita suficientemente nossos valores. Não faz sentido começarmos nosso próprio partido político só porque não podemos concordar com a totalidade da plataforma de algum grupo. Sair por conta própria significa que nada vai ser feito; a legislação que desejamos ver acontecer será apenas um sonho. O objetivo não é criar instituições à nossa própria imagem. Em vez disso, necessitamos encontrar a maior sobreposição possível e depois nos comprometemos com os objetivos do coletivo.
Por missão, me refiro a mais do que apenas a declaração de missão. O que tenho em mente são a identidade e os propósitos institucionais. Em que ramo de negócio estamos e quais constituintes servimos? Quais são os valores e compromissos fundamentais que moldam aquilo que estamos tentando fazer juntos? Quando dizemos “não” à oportunidade X ou Y é porque conhecemos bem nossa missão e sabemos aquilo que não é nossa missão. Uma liderança eficaz está sempre falando sobre missão, porque refletir sobre a missão transmite energia e inspira pessoas, e que também estimula nossa capacidade de concentração.
Além disso, organizações eficazes eventualmente dão uma parada — talvez a cada oito ou dez anos — para analisar se há necessidade para ajustar a missão a novas realidades sociais, culturais e econômicas. Não quer dizer que a missão seja fluida; significa que o nosso mundo em mudança pode requerer que ajustemos o foco de nossas esforços. É necessário realinhar nosso foco de missão para que o impulso organizacional original realmente seja alcançado.
Portanto, estando cientes da missão, fazemos o nosso trabalho com a missão em mente. Se lecionamos em uma faculdade, não meramente ensinamos uma disciplina; ensinamos de acordo com a missão. Se frequentamos uma igreja, não se trata apenas de nossas necessidades espirituais e sociais pessoais; trata-se de uma visão compartilhada, e investimos nossos talentos com este propósito congregacional específico em mente. Quer façamos parte de uma empresa ou de uma organização sem fins lucrativos, o princípio é o mesmo: estamos envolvidos e comprometidos com uma missão institucional compartilhada.
E quando se trata de finanças, o enfoque na missão é sempre o ponto principal. Organizações alinham seus recursos financeiros para alavancar a missão. Se tivermos que tomar decisões difíceis no orçamento, tudo deve centrar-se na missão — manter uma organização enxuta e focada para que a missão seja alcançada.
Determinando Sua Missão
Cada faculdade ou universidade é diferente; não há uma missão genérica. Desta maneira, a universidade onde trabalho faz a seguinte pergunta: “Qual é a nossa história, nossa localização social e cultural, e nosso nicho chave dentro do ensino superior em nossa parte do mundo?”
Uma congregação considerará sua localização na cidade, mas também sua herança denominacional e se questionará: “Dada nossa história e nossas convicções teológicas, juntamente com o local onde estamos — e então também, se temos variedade de etnias ou nāo, pessoas mais idosas ou mais jovens — o que é que somos chamados a ser e a fazer?”
Uma organização sem fins lucrativos investirá algum tempo para avaliar o panorama onde atua e se perguntará como estão sendo chamados, como organização, para alcançar algum resultado específico — uma agenda específica será resultante da missão.
Para cada caso, a missão é algo que pode ser avaliado: como parte de nosso planejamento e revisão institucional, poderemos identificar indicadores de eficácia como organização.
Uma Governança Que Gera Resultados Coerentes Com a Missão
A competência institucional requer que primeiro pensemos em termos de missão. Mas, em segundo lugar, também necessitamos considerar a questão da governança. A governança se refere a como a autoridade é exercida e como o poder é alavancado para o cumprimento da missão. Trata-se de uma liderança, em todos os níveis, que faz o que uma liderança tem que fazer: inspirar e agir e decidir e cumprir a missão. Grant Munroe, em uma resenha do livro de Micah White, “The End of Protest” [O Fim do Protesto], fala de seu próprio envolvimento e desilusão com o Movimento Occupy e aborda diretamente o que ele chama de “a alergia à liderança”. Este é precisamente o problema: Ser anti-instituição significa muitas vezes ser contra ter alguém no comando, na pressuposição de que “liderança” ou “administração” é inerentemente problemática.
Costuma-se supor que organizações planas são mais consensuais em seus processos, mais democráticas e, portanto, mais humanas e voltadas para a comunidade. Mas, para ser franco: sem liderança, a missão não acontece. Sem liderança, pode haver muita conversa e talvez até mesmo muito protesto, mas não haverá mudança substancial e significativa. Sem uma liderança que saiba liderar e tenha poder para liderar, um movimento de protesto é apenas muito barulho.
E, no entanto, a liderança deve estar localizada dentro de uma estrutura de governança que faça sentido. Isto significa duas coisas: primeiro, a liderança tem o poder de liderar — de alavancar o poder com autoridade para cumprir a missão, e, segundo, a liderança é responsável e transparente no exercício do poder. Estes dois vêm sempre juntos.
Considere os dois lados daquilo que foi proposto aqui. Por um lado, a liderança necessita liderar de verdade. Instituições eficazes capacitam seus líderes a agir — fazer o que necessita ser feito para que a missão aconteça.
Decisões que são essenciais para a missão da instituição são tomadas, e as decisões são implementadas. Coisas são feitas. O modelo de governança não pode ser tão plano — isto é, que cada um tenha um voto igual sobre as principais decisões a serem tomadas — aponto de nada ser feito. Igrejas necessitam de liderança e não há liderança por consenso. É necessário que alguém tenha a autoridade para fazer o que necessita ser feito. Liderança significa fazer aquilo que necessita ser feito para que a missão aconteça.
Mas, por outro lado, a liderança deve ser responsável e agir de forma transparente. A verdadeira liderança não se trata de uma autocracia ou de poder irrestrito; é necessário ser uma liderança responsável a outros. Líderes são eficazes somente quando operam dentro de um sistema apropriado de governança que inclui a responsabilidade intencional. Sim, a liderança implica o exercício do poder, mas deve haver transparência, e é por isso que organizações tarimbadas têm uma política de conflito de interesses claramente definida.
Onde Devo Liderar?
Como membros de organizações, necessitamos nos perguntar: Em quais situações estou sendo chamado para exercer liderança? Dentro de uma igreja, pode ser liderar a equipe de recepção ou o grupo que planeja a liturgia da manhã. Dentro de uma faculdade ou universidade, talvez seja para ser o presidente de um comitê ou para coordenar um programa. A questão é que pode-se exercer liderança em múltiplas situações numa instituição, e a organização só funciona se as pessoas se disponibilizam e lideram quando têm a oportunidade e a responsabilidade de liderar.
Isto significa também que devemos incentivar outros a liderarem e que cada um de nós saiba agir como um seguidor. Cremos que é preciso liderança; portanto, apoiamos a liderança necessária para que a missão desta organização aconteça. Isso não significa conformidade; não significa que não podemos questionar decisões. Mas significa que, se formos uma voz minoritária, apresentaremos nossas preocupações dentro de um compromisso compartilhado com a missão e em apoio à liderança. Cuidado com aqueles que só acreditam em liderança se eles forem o líder.
Líderes necessitam também se perguntar: a quem respondo pela qualidade e caráter de minha liderança? E rapidamente precisamos realçar que os líderes não são responsáveis a todo mundo. A liderança principal é frequentemente responsável a um conselho de administração. Um vice-presidente é responsável ao presidente. Um membro do corpo docente é responsável ao reitor. O presidente dos EUA é responsável ao Congresso. O chefe do grupo de recepção da igreja necessita deixar claro a quem o grupo deve responsabilidade; ninguém é um lobo solitário —nem mesmo sendo voluntário. E é necessário que a responsabilidade seja aberta, generosa e de bom grado. Responsabilidade relutante ou prestação de contas da boca para fora não é genuína ou, claro, eficaz.
Instituições que entendem o papel da governança na missão têm uma liderança capacitada e responsável a outros. O segredo de uma organização eficaz é ter uma liderança que possa realmente liderar e também ser responsável a outros no exercício de sua liderança.
Eu sirvo a uma organização onde o conselho me dá a autoridade para liderar: agir, montar um orçamento e tomar decisões sobre pessoal consideradas essenciais para a missão da universidade. Mas sou também intencionalmente responsável a outros. Minha chefia é o conselho diretor, mas também as igrejas que investem em minha universidade. Apresento relatórios ao corpo docente e, tanto quanto possível, sou transparente sobre minhas decisões. Nem todo mundo ficará feliz com a minha liderança; tudo bem, e em muitos aspectos, é de se esperar. Haverá vozes minoritárias; e tais vozes necessitam ser ouvidas, desde que não sejam tóxicas, e desde que reconheçam que, no final das contas, eu sou responsável ao conselho diretor.
Há muito mais que pode ser dito sobre instituições, é claro. Mas, muitas vezes, volta-se a isso: organizações eficazes tem clareza sobre sua missão e têm um modelo de governança que aproveita o poder para que a missão possa acontecer. Aqueles que sabem investir em instituições pensam e agem em termos da missão compartilhada e aprendem a funcionar dentro da linha de comando da comunidade. Os líderes recebem poder para liderar, e estes mesmos líderes são responsáveis por suas decisões e transparentes no exercício do poder.
Nada dito aqui se destina a sentimentalizar ou idealizar as organizações. Instituições podem ser lugares difíceis. Em algum momento, todos as veremos como lugares dolorosos onde decisões que nos parecem equivocadas ou que nos afetam negativamente, são tomadas. Mas o caminho a seguir não é descartar ou demonizar as instituições. Em vez disso, cada um de nós deve fazer tudo o que pudermos dentro de nossas esferas de influência, por maior ou menor que sejam, para ajudar a tornar a organização eficaz — com clareza de missão e um sistema de governança que funcione para essa instituição em particular.
Traduzido por Abner Arrais.