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O Que Aprendi com a Leitura de “O Pastor Imperfeito” de Zack Eswine

Confesso que ter pegado este livro em minhas mãos há alguns anos foi uma experiência marcante e necessária para o meu coração. Desde a primeira leitura, fiz um compromisso comigo mesmo: relê-lo todos os anos. Ao longo dessas leituras, assim como muitos outros líderes exaustos pelas demandas do ministério moderno, percebi o Senhor revigorando minha fé e reorientando minha visão sobre o que significa, de fato, servir a Deus.

A obra de Zack Eswine não é apenas um manual de teologia pastoral, mas uma meditação honesta sobre a vida do “pastor comum” em sua jornada diária com Jesus. Por isso, frequentemente recomendo sua leitura em aconselhamentos e discipulados com futuros pastores. O livro nos convida a abandonar as expectativas irreais de um ministério “grande, rápido e famoso” para redescobrirmos a alegria em nossas limitações.

Separei quatro pontos que considero fundamentais para todos os pastores.

1. A libertação das falsas grandezas

Vivemos em uma cultura que idolatra o tamanho, a visibilidade e o impacto imediato. Essa mentalidade, quando absorvida pelo ministério, torna-se um fardo pesado e destrutivo. Eswine confronta esse espírito ao mostrar que o problema não é desejar grandeza, mas definir grandeza de forma equivocada.

Ele escreve:

“Em geral (e isso muitas vezes nos surpreende), a pressa não é amiga do desejo. […] A rapidez oferece promessas imediatas […], mas, na verdade, a pressa nunca entrega o que promete naquilo que é mais precioso para nós. […] Nosso desejo por grandeza no ministério não é o problema. O problema surge quando a pressa […] reformula nossa definição do que seja uma grande coisa. […] a obscuridade e a grandeza não são opostas.” (ESWINE, 2016, p. 32)

A partir dessa reflexão, fica evidente que o Reino de Deus opera em uma lógica diferente da nossa. Aquilo que consideramos pequeno e invisível pode, na verdade, ser profundamente significativo diante de Deus. Essa verdade é ilustrada por uma parábola marcante apresentada pelo autor:

“Dois homens saíram de casa para plantar uma igreja numa cidade necessitada… […] As orações de ambos foram respondidas. Por que então, um deles está triste? Por que então, somente um deles recebe nossos convites para falar nas conferências…?” (ESWINE, 2016, p. 35)

Aqui, Eswine expõe a tensão entre fidelidade e reconhecimento. Ambos os pastores foram usados por Deus, mas apenas um foi celebrado. Isso revela o quanto ainda medimos sucesso com critérios mundanos.

2. A recuperação da nossa humanidade

Outro ponto profundamente transformador é o chamado à recuperação da nossa humanidade. Muitos pastores vivem como se fossem onipresentes, oniscientes e indispensáveis uma tentativa sutil de assumir o lugar de Deus. Eswine confronta essa ilusão ao afirmar:

“Temos de clamar […] que o ministério pastoral é algo pertencente a criaturas. O pastor é um ser humano. […] a vida e o ministério cristão são um aprendizado com Jesus em direção à recuperação de nossa humanidade.” (ESWINE, 2016, p. 38)

Essa afirmação nos leva a reconhecer que o ministério não nos torna menos humanos, pelo contrário, nos convida a sermos plenamente humanos diante de Deus. Nesse sentido, uma das declarações mais libertadoras do livro é:

“Eu não sou o Cristo.” […] “não podemos glorificar plenamente a Deus sem que confessemos que não somos divinos.” (ESWINE, 2016, p. 38)

Essa confissão é, ao mesmo tempo, humilhante e libertadora. Ela nos livra da pressão de resolver tudo, saber tudo e estar em todos os lugares. Eswine também denuncia a forma sutil como negamos nossa humanidade até mesmo no púlpito:

“Nós também podemos tentar resistir à nossa humanidade […] ‘Deus, eu te agradeço porque não sou como outros homens’ (Lc 18.11)… […] por tempo demais, ignorei […] o fato de que sou humano.” (ESWINE, 2016, p. 46)

Essa reflexão nos lembra que a arrogância espiritual pode se esconder em discursos aparentemente piedosos. Reconhecer nossa limitação não é fraqueza.

3. O trabalho com as almas é vagaroso

Um dos temas centrais do livro é a lentidão do trabalho pastoral. Em uma cultura de resultados imediatos, essa verdade é especialmente desafiadora. Eswine, dialogando com Eugene Peterson, afirma:

“O pecado que mais atinge os pastores […] é a impaciência. […] essa obra de trabalhar com as almas é um trabalho vagaroso, que anda bem devagar…” (ESWINE, 2016, cap. 8)

Essa afirmação redefine completamente nossas expectativas ministeriais. O cuidado de almas não pode ser acelerado sem ser prejudicado. O próprio autor reforça essa ideia ao dizer:

“A pressa nunca entrega o que promete naquilo que é mais precioso para nós.”

Assim, aprendemos que a pressa não apenas atrapalha o ministério, ela o distorce. Essa mesma lógica aparece quando o autor reflete sobre as tentações de Jesus:

“Pensar em um ministério que lance raízes […] que exija tempo para o amadurecimento, pode ser inconcebível para alguns de nós.”

Ou seja, muitas vezes rejeitamos o próprio caminho de Deus porque ele é lento demais para nossos padrões. Essa verdade é sintetizada de forma simples e profunda:

“Isso vai levar algum tempo. […] A paciência requer paciência. Ir longe leva mais tempo do que a velocidade.” (ESWINE, 2016, cap. 11)

Diante disso, o pastor é chamado a reorganizar sua prática ministerial. Não se trata apenas de entender a lentidão, mas de vivê-la. O trabalho de cuidar de almas é naturalmente vagaroso e não produz resultados imediatos, exigindo que o pastor resista à tentação do imediatismo e da eficiência mercadológica. Eswine dá algumas formas práticas de aplicar esse conceito:

a. Reorientar a ambição para as “coisas pequenas”

O ministério deve ser focado em pequenas coisas, feitas devagar e por longo tempo. Em vez de buscar momentos “épicos” ou multidões, o pastor deve valorizar as tarefas não notadas, como escutar alguém enquanto tomam sopa ou cuidar de uma família desconhecida pelo mundo. A verdadeira grandeza no Reino de Deus não é oposta à obscuridade.

b. Praticar a quietude e a escuta

A aplicação da vagarosidade passa por “estudar a quietude” e tornar-se um pregador que escuta. Isso significa: Não interromper a Deus: Cultivar o silêncio para ouvir a voz do Pai antes de falar aos outros. Pausas entre compromissos: Em vez de correr de uma reunião para outra, reservar momentos para orar e contemplar como Deus já está agindo naquela pessoa ou situação antes mesmo da conversa começar. Escutar antes de prescrever: Agir como um “pobre homem sábio”, ouvindo silêncios e sentenças sem a pressa de consertar tudo imediatamente.

c. Aceitar os limites humanos e geográficos

Vagarosidade implica reconhecer que somos “meros humanos” e “pessoas locais”, incapazes de estar em todo lugar para todos. Aplicar isso envolve: Aprender o “nome das árvores”: Dedicar-se ao conhecimento local e às histórias específicas do lugar onde Deus o plantou, em vez de desejar estar em outro lugar supostamente mais estratégico. Retornar consistentemente: Entender que o pastor é aquele que permanece e volta dia após dia ao mesmo povo, suportando a monotonia sagrada do cotidiano.

d. Adotar ritmos de descanso e maratona

O ministério deve ter o ritmo de uma maratona, onde andar devagar é a estratégia para não ter de parar por esgotamento. As quatro porções do dia: Dividir o dia em manhã, meio-dia, início da noite e vigílias, fazendo pausas ao final de cada porção para agradecer, lamentar e lançar ansiedades sobre Deus antes de seguir para a próxima etapa. Descanso estratégico: Implementar ritmos semanais e até meses de descanso para a liderança e voluntários, combatendo a cultura da pressa que destrói raízes ministeriais.

e. Liderança e processos lentos

Na gestão da igreja, a vagarosidade se aplica ao: Treinamento de líderes: Adotar processos longos (como o de um ano descrito na fonte) para treinamento de novos presbíteros, priorizando a formação de caráter e relacionamentos sobre a mera transferência de informação teológica. Tomada de decisões: Resistir à pressão por alívio imediato, perguntando se o tempo é o certo e se a forma de agir reflete a mansidão de Jesus, mesmo que isso atrase o cronograma.

4. A ambição pela quietude e contemplação

Eswine nos desafia a ter uma nova ambição: a de viver tranquilamente e estudar a quietude. Muitas vezes, em nossa pressa ministerial, acabamos interrompendo a Deus enquanto Ele fala, pois confiamos demais em nossas próprias palavras e estratégias. Aprendi a importância de ser um “pregador que escuta”, alguém que gasta tempo em solitude e contemplação para que possa, então, sustentar com uma palavra aquele que está cansado. O silêncio não é perda de tempo, mas o meio pelo qual discernimos a presença de Deus nas montanhas sem nome do nosso cotidiano.

Por fim, Eswine propõe uma nova ambição: a quietude. Em vez de buscar visibilidade, o pastor deve aprender a escutar. Ele escreve:

“Falamos apenas como quem escuta a voz de outro. […] Os pastores sábios são pregadores que escutam.” (ESWINE, 2016, cap. 10)

Essa afirmação redefine o próprio ato de pregar. Antes de falar, o pastor precisa ouvir a Deus e às pessoas. Essa ideia é reforçada pela tradição cristã:

“Temos de estudar para sermos quietos…” (Matthew Henry, citado em ESWINE, 2016, cap.9)

E também por Calvino:

“Não ouvimos Deus […] por nossa pressa, o interrompemos…” (CALVINO, citado em ESWINE, 2016, cap. 10)

Essas citações mostram que o problema não é apenas excesso de fala, mas ausência de escuta. Além disso, Eswine nos ensina que a contemplação acontece nas coisas simples:

“Se quiser aprender quietude, você terá de estar atento às graças implícitas […] bem à nossa frente.” (ESWINE, 2016, cap. 10)

Assim, o pastor aprende a discernir Deus no ordinário nas rotinas, nas pessoas comuns e nos momentos silenciosos.

Conclusão

Louvo a Deus por este livro, que serviu como um bálsamo curador para a minha alma cansada. Ele me lembrou que o Pastor Perfeito é Jesus e que Ele nos convida, pastores imperfeitos, a participar da obra do Seu Reino a partir de nossas fraquezas. Saio desta leitura com o desejo de aprender o nome das árvores do meu lugar e de encontrar alegria na extraordinária vida comum que Deus me deu.

A obra ensina que o sucesso e a alegria genuína de um pastor dependem de aceitar que a vocação em Jesus traz limites e nos obriga a andar mais devagar, desfazendo orientações de vida mal direcionadas. O aprendizado central é a libertadora confissão de que “eu não sou o Cristo”. Ao reconhecer essa humanidade e pequenez, o líder abandona a ilusão de autossuficiência e passa a depender da graça, permitindo que o poder de Deus se evidencie através de suas fraquezas.

Por fim, o livro nos convida a abandonar a idolatria pelo tamanho e pelo estrelato para descobrir a verdadeira grandeza na fidelidade cotidiana. Servir a Deus com um coração inteiramente voltado para Ele, livre das pressões por resultados imediatos, é o caminho para desfrutar de uma alegria profunda e restauradora no ministério.

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