Marcos 11:27-33 – “e lhe perguntaram: — Com que autoridade você faz estas coisas? Ou quem lhe deu esta autoridade para fazer isto?” (Marcos 11:28)
Você gosta dos filmes da Marvel?
Não, não estou falando de mera ficção para nerd. Eu mesmo nem sou um deles. Mas, você precisa ter “olhos” para ver! Por trás de toda a ação e efeitos especiais, há reflexões profundas sobre o nosso próprio mundo. Um dos grandes dramas dessas histórias não está apenas nas batalhas contra vilões, mas no dilema sobre os próprios heróis. Eles aparecem para colocar ordem no caos e salvar a humanidade. Mas, à medida que sua força cresce, surge uma pergunta inevitável: quem lhes deu o direito de agir assim? Suas intenções são realmente puras? Quem garante que esses salvadores não se tornaram, na verdade, tiranos mascarados de justiça?
O filme Capitão América: Guerra Civil explora exatamente esse conflito. Quando os governos decidem que os Vingadores precisam ser controlados, o que está em jogo não é apenas segurança global, é uma discussão sobre autoridade. O enredo nos obriga a encarar uma questão contemporânea. Quem pode dizer o que é certo? Por trás da fantasia e do entretenimento há um eco do espírito do nosso tempo: toda forma de poder deve ser, no mínimo, suspeita. Nenhuma autoridade tem autorização para estar acima das outras. Vamos ser sinceros. Deixando de lado aquele papo conspiracionista, você não acha que a crítica, na verdade, é contra o cristianismo?
Você sabe que vivemos exatamente nesse tipo de mundo, não é? Vivemos numa era em que a palavra autoridade soa quase como uma ofensa. A cultura pós-moderna ensinou as pessoas a desconfiar de qualquer voz que venha de fora, seja a da tradição, da moral, da religião ou da própria realidade. Agora, cada um é senhor de si mesmo, criador da própria identidade e juiz das próprias ações. Dr. Timothy Keller esclarece ao dizer que “no âmago da liberdade está o direito do indivíduo de definir seu próprio conceito de existência, de significado, do universo e do mistério da vida humana. Acreditamos agora que não há nenhuma ordem cósmica externa à qual tenhamos de nos conformar e que a verdade pode ser construída de acordo com a vontade do indivíduo”1.
Ou seja, o slogan dessa campanha imperial do reino progressista é claro e sedutor: “Ninguém, além de você, tem o direito de comandar sua vida. Siga o seu coração.”
Mas esse desejo de autodefinição, que parece libertador, é apenas a repetição de uma velha história trágica, isto é, a de viver sem precisar se submeter a ninguém, nem mesmo ao Deus criador. Carl Trueman no seu magnífico tratado sobre o “self moderno” escancara essa perversão:
O que quero dizer é que todos vivemos em um mundo em que é cada vez mais fácil imaginar a realidade como sendo algo que podemos manipular de acordo com nossas próprias vontades e deseįos, e não há algo ao qual necessariamente precisamos nos conformar ou aceitar passivamente. E nesse contexto mais amplo torna intuitivo, por exemplo, aquelas afirmações filosóficas de Friedrich Nietzsche, nas quais os seres humanos são chamados a transcender a si mesmos, a transformar suas vidas em obras de arte, a ocupar o lugar de Deus como auto criadores e inventores, não descobridores, de significado2.
Eis a situação tragicômica (para citar C.S.Lewis) da raça humana. Uma vez que agora estamos convencidos de que somos autoridade para nós mesmos, também estamos dispostos a forçar e deturpar a própria realidade para que se amolde aos nossos desejos. É a rebeldia revestida de autenticidade. “Em resumo, toda a realidade depende do sujeito. O pós-modernismo estrutura a realidade nominando aspectos segundo o seu bel-prazer”3.
Fariseus e Progressistas São Iguais
Mas agora, minha tese é a seguinte: o “eu” pós-moderno é uma versão sofisticada do judaísmo do primeiro século4. Pare e pense! Temos a tendência de fazer uma separação histórica. Julgamos os fariseus como religiosos prepotentes e os progressistas céticos como não religiosos. Contudo, a rebeldia pós-moderna, assim como a dos fariseus, não é uma questão de religiosidade, mas de crenças equivocadas. É a fé cega em si mesmo. E é por isso que, no fundo, por incrível que pareça, os fariseus e os progressistas pós-modernos são a mesma coisa. Ambos resistem à autoridade de Jesus, porque o senhorio de Cristo exige que o coração humano abra mão da autonomia de sua vida.
Reflita por um momento no que estava acontecendo no relato de Marcos 11:27-33. Jesus havia acabado de purificar o templo, desafiando as estruturas religiosas de Israel e expondo um sistema perverso que afastava pessoas de Deus. Tudo isso era urgente e necessário, mas extremamente perigoso no primeiro século. Conversas e ações sobre um novo rei trazendo um novo reino eram altamente perigosas naqueles dias. E Jesus não deixou barato. Ele parecia um herói ousado, um libertador que colocava ordem no caos espiritual. Mas os principais sacerdotes, escribas e anciãos o abordam com uma pergunta carregada de desconfiança: “Com que autoridade você faz estas coisas?” (v.28). Em outras palavras: “Quem te deu legitimidade para mexer em tudo isso? Quem te autorizou a falar e agir desse įeito? Quem é você para nos questionar? Quem você pensa que é?”. Você consegue perceber? São as mesmas vozes rebeldes, ardendo de raiva toda vez que Jesus levanta sua voz para questionar a autonomia humana. Essa é a tensão que atravessa os séculos. Quem Jesus pensava realmente ser? O que você acha que os progressistas dos nossos dias fariam ao ver Jesus confrontando suas crenças mais fundamentais? Quando Jesus entrava em cena, Ele nunca pedia licença. Ele reivindicava o direito de governar. Ele vivia, falava e agia como quem estava tomando o controle agora. E, assim como os líderes judeus, também nós somos colocados diante da pressão se vamos nos submeter à sua autoridade graciosa ou questioná-la, mantendo o controle em nossas próprias mãos?
A inquietação que os fariseus – e nós mesmos sentimos – não era apenas uma questão formal sobre credenciais. Era o incômodo profundo de quem vê seus alicerces sendo abalados. Jesus não apenas discordava das práticas dos principais sacerdotes. Ele expunha a raiz de sua falsa segurança, desmontando a religião de aparências na qual eles haviam depositado sua identidade. Jesus não apenas abalou a forma como eles enxergavam a religião. Cristo desmascarou quem eles eram. Esse embate é curioso e atual por dois motivos.
Primeiro, muita gente hoje ainda considera a fé cristã algo retrógrada, opressora e espiritualmente vazia. No entanto, ninguém foi tão radical e contundente quanto Jesus em denunciar e destruir a hipocrisia de uma espiritualidade sem vida. Ele não atacou os pecadores arrependidos, mas os “justos” autossuficientes, aqueles que usavam a religião para inflar o próprio ego. Um dos fatos mais curiosos dos evangelhos é que “foram aqueles com a melhor teologia, não a pior, que rejeitaram o Filho de Deus”5. Ainda hoje, somente aqueles que estão viciados em si mesmos, escravos do seu próprio ego é que se sentem ameaçados por Jesus. Fariseus e progressistas igualmente se sentem incomodados com a autoridade de Cristo, porque o que Ele faz é desmascarar suas hipocrisias e revelar suas perversas soberbas de suas vidas.
Segundo, tanto os fariseus antigos quanto pessoas pós-modernas reagem de modo semelhante quando suas certezas são questionadas por Cristo. Elas se tornam hostis ao evangelho, pois não suportam que sua autonomia seja confrontada. A arrogância do coração humano — seja ela religiosa ou secular — resiste ao chamado de render-se à verdadeira autoridade. O que o evangelho consegue provar é que o problema fundamental do ser humano não tem a ver com uma mente mal esclarecida, mas com um coração rebelde que insiste em resistir a autoridade de Deus.
Jesus e os Progressistas Pós-modernos
A pergunta de Jesus sobre o batismo de João revela essa hipocrisia latente: “Eu vou fazer uma pergunta a vocês. Respondam e eu lhes direi com que autoridade faço estas coisas. O batismo de João era do céu ou dos homens?” (v.29-30). É óbvio que Jesus não queria apenas uma resposta intelectual, mas desmascarar que o problema deles não era falta de informação, mas falta de integridade. Sabiam que, se admitissem que João vinha de Deus, teriam de se arrepender e crer em Jesus. Se dissessem que era dos homens, perderiam a aprovação popular. Presos ao próprio orgulho, optam por não responder. Assim, Jesus mostra que um coração dominado pela arrogância da autonomia não está comprometido com a verdade, não está disposto a confessar o óbvio, mas apenas com o que alimenta seus interesses, status e vaidade. Você consegue perceber a atualidade desse acontecimento?
Se Jesus fizesse perguntas à nossa geração pós-moderna, certamente seriam diferentes nas palavras, mas idênticas na intenção, a de expor o coração viciado e escravo de si mesmo que rejeita Sua autoridade divina.
Talvez Ele dissesse:
“Se você define o que é verdade: você se tornou Deus?”
“Se seguir o seu coração é tão libertador, por que vocês são a geração mais depressiva da história?”
“Por que você exige justiça, mas rejeita um padrão absoluto de justiça?”
“Você realmente é livre ou apenas aprendeu a obedecer a outro senhor com um nome mais bonito?”
“Por que você diz não precisar de ninguém, mas é devastado quando não é aceito por todos?”
“Se você acredita que cada um tem sua verdade, por que cancela quem pensa diferente?”
“Se tudo é construção social, quem garante que a sua forma de pensar não é a atual construção social que amanhã será retrógrada?”
Sem dúvidas, essas perguntas seriam tão desconcertantes quanto aquelas feitas aos fariseus. Elas revelariam que a crise da nossa geração não é intelectual, mas espiritual. Nosso problema não é falta de argumentos, mas falta de arrependimento. Assim como os líderes religiosos do primeiro século, a mentalidade pós-moderna também evita responder, não porque não saiba, mas porque não quer reconhecer o óbvio. No fundo, a recusa em admitir a autoridade de Jesus é a mesma tentativa antiga de manter o trono ocupado pelo “eu”.
Tudo isso é um grande alerta para nós. Quando o evangelho expõe nossas motivações mais profundas, podemos reagir com a mesma defesa que os líderes judeus demonstraram, ou podemos abandonar nossas justificativas frágeis e nos render à autoridade graciosa de Cristo. Submeter-se a Ele é trocar a prisão do ego por uma liberdade marcada pela verdade e pelo amor daquele que veio não para oprimir, mas para salvar.
O Evangelho na Pós-modernidade
A cena revela que a autoridade de Jesus não deixa espaço para neutralidade. Ele não é apenas mais um mestre inspirador, um espiritualista humanista, nem mesmo mais um moralista tentando organizar a sociedade. Ele é o Rei enviado por Deus, o Filho amado (Mc 1:11), que exerce domínio sobre enfermidades (Mc 2:11), sobre o mar (Mc 4:39), sobre espíritos malignos (Mc 5:13) e até sobre o perdão de pecados (Mc 2:10). Jesus é aquele que veio reconciliar com Deus todas as coisas no céu e na terra (Cl 1:20). Por isso, o evangelho — a boa notícia — é muito mais do que um convite a uma nova moralidade. É a proclamação pública e cósmica de que Deus, em Cristo, está restaurando o seu governo legítimo sobre o mundo. O evangelho é a boa notícia de que Deus, por meio da vida, morte e ressurreição de Jesus Cristo, reconciliou consigo pecadores e inaugurou um novo reino, onde Ele reina pela graça sobre aqueles que se rendem ao seu senhorio. Essa é a razão pela qual não há meio-termo diante de Jesus. O evangelho não nos permite admirá-lo à distância, como se fosse apenas um sábio ou exemplo de virtude. Ele exige uma rendição. Ou nos rendemos ao seu governo gracioso, ou já somos rebeldes resistindo manter o controle das nossas vidas. Ou nos conformamos com a realidade da nova criação que Cristo e seu reino está instaurando ou continuaremos pervertendo a ordem de Deus acumulando ira para o dia da ira (Rm 2.5).
O que os fariseus não entenderam, e que os progressistas pós-modernos também têm dificuldade de enxergar, é que ninguém vive fora de umaautoridade. A promessa de autonomia é uma ilusão diabólica (Gn 3.5). Sempre estaremos servindo a alguém ou a algo, nossas paixões, nossos ideais, nossa reputação ou nossos próprios desejos. Mas qualquer autoridade que não seja a de Cristo acaba se tornando tirânica, porque escraviza o coração e destrói a alma. Somente Jesus é o Rei que usa o poder para dar vida, não para abusá-la. Ele veio para que tenhamos vida e a tenhamos em abundância (Jo 10:10). A cruz é o trono paradoxal de Cristo. Ali o Rei assume a coroa de espinhos para libertar súditos rebeldes. Ele é o Senhor que não impõe sua vontade pela força, mas conquista corações pelo sacrifício.
Então, da próxima vez que você observar a arrogância de um progressista pós-moderno que se diz autônomo e da sua presunção de zombar da Palavra de Deus e tentar calar a voz de Cristo não se surpreenda. Os progressistas possuem uma mentalidade fundamentalmente retrógrada. É a velha fantasia infantil de querer ser dono de si. Por isso, quando você ver um progressista lembre-se dos fariseus. Eles não são tão diferentes.
1 KELLER, Timothy. Pregação, comunicando a fé na era do ceticismo, p. 154-155
2 TRUEMAN, Carl. Ascensão e o triunfo do self moderno, p. 42
3 CARSON, D.A. Verdade, como comunicar o evangelho a um mundo pós-moderno, p. 22
4 Estou consciente de que da perspectiva teológica e filosófica o movimento farisaica é completamente diferente do movimento atual denominado “progressismo”. Além do fato de que seria um grande anacronismo fazer essa associação. Contudo, fiz essa declaração para fins retóricos com o intuito de dizer que o problema fundamental não está na estrutura dos movimentos, mas na condição humana que é rebelde contra Deus e sua autoridade.
5 ORTLUND, Dane. Surpreendido por Jesus, p. 91