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O Silêncio que Ecoa Além da Fronteira

A frase “Pregue o evangelho em todo o tempo; se necessário, use palavras” é frequentemente citada com boas intenções. Ela ressalta a importância de uma vida coerente com a fé cristã. No entanto, como bem aponta o pastor Timothy Keller em seu livro Igreja Centrada, “essa frase é útil, mas enganosa”.

A partir da minha experiência vivendo no mundo muçulmano, treinando missionários para esse contexto e caminhando ao lado de muitos obreiros, afirmo com convicção: essa frase é muito perigosa.

Viver em um país de maioria muçulmana já é, por si só, um enorme desafio. Mais complexo ainda é anunciar o evangelho em um ambiente hostil, na maioria das vezes marcado por perseguição e severas restrições legais impostas por governos islâmicos.

Permita-me ser direto: viver com base nessa declaração, em minha opinião, torna-se, em muitos contextos, mais perigoso do que a própria perseguição. Explico: a perseguição vem de fora e, em si, não destrói a fé. Essa ideia, porém, corrói a missão por dentro, silenciando aqueles que foram enviados exatamente para anunciar a mensagem mais preciosa. Eis três motivos claros e diretos pelos quais essa frase é perigosa:

Primeiro: ela transforma o silêncio em virtude.

Em contextos de países fechados, especialmente no mundo muçulmano, essa frase oferece uma justificativa confortável e aparentemente piedosa para não anunciar Cristo. A prudência, necessária, passa a ser usada como desculpa. A sabedoria se converte em omissão. O medo se veste de espiritualidade. No entanto, o evangelho nunca avançou por meio do silêncio, mas sempre pela proclamação.

Segundo: ela substitui proclamação por comportamento.

Viver corretamente é essencial, mas isso, por si só, não comunica a salvação a ninguém. Conheci e convivi com centenas de muçulmanos que levavam uma vida moral exemplar. As pessoas não chegam à fé apenas observando bom comportamento e boas obras. A fé vem pelo ouvir (Romanos 10.17). Sem palavras, não há mensagem; sem mensagem, não há conversão.

Terceiro: ela redefine missão fora da Grande Comissão.

Jesus não nos enviou apenas para viver piedosamente e praticar boas obras entre os povos, mas para fazer discípulos (Mateus 28.18–20). Quando o trabalho social e o bom testemunho passam a ser o fim em si mesmos, e não um meio para algo maior, a missão perde sua essência e seu valor. Sem proclamação, não há evangelho. Sem evangelho, não há missão.

Amigos missionários, se a essência do evangelho fosse apenas um modelo ético a ser copiado, então uma vida exemplar bastaria. Mas o evangelho não começa com nossas ações; ele começa com a ação graciosa de Deus em Cristo. Missões é anunciar o que Deus realizou para nossa salvação e como devemos responder pela fé, não por desempenho. E essa fé não nasce da observação, mas do anúncio. Onde não há proclamação, não pode haver fé.

Viver uma vida piedosa é, sem dúvida, algo valioso. Amigos, imploro a vocês: preguem o evangelho, a tempo e fora de tempo.

Não foi para isso que você foi enviado por sua igreja?
Não foi por isso que você gastou anos aprendendo o idioma local?
Não é este o teu precioso chamado?

Reduzir a missão apenas à boa conduta e ao trabalho social pode até parecer uma “boa” forma de justificar a presença diante do governo ou das igrejas. Contudo, isso representa um desvio do chamado e, sobretudo, da Grande Comissão (Mateus 28.18–20). O mundo muçulmano não precisa apenas ver cristãos exemplares nem apenas se beneficiar de nossa caridade; ele precisa ouvir o evangelho e a mensagem gloriosa de Cristo.

Minha palavra final é de profundo respeito, gratidão e admiração aos missionários. Sei do custo, das renúncias, do peso emocional e das pressões diárias que muitos deles enfrentam no mundo muçulmano. Este texto não nasce de crítica leviana, mas de amor pela missão e zelo pelo evangelho. Oro para que o Senhor fortaleça vocês, lhes conceda sabedoria, coragem e discernimento, e que nunca falte ousadia para anunciar Cristo com graça, verdade e fidelidade. Vocês não estão esquecidos. Seu trabalho no Senhor não é em vão.

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