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Nota do Editor: 

Este artigo faz parte de uma série de duas visões sobre diáconos. Para outra perspectiva, veja “Há Sustentaçāo Bíblica Para Mulheres Diaconisas? Sim.” Por Thomas Schreiner.

As Escrituras permitem que as mulheres tenham a posiçāo de diácono? Ao abordar esta questão importante, devemos ter algumas coisas em mente. Primeiro, pastores e teólogos reformados, totalmente comprometidos com a autoridade e a inerrância das Escrituras, discordam sobre o que a Bíblia ensina sobre as mulheres e o diaconato. Tal cenário exige particular humildade ao dialogar sobre esta questão. Segundo, todos os lados reconhecem que as mulheres de alguma forma serviram no diaconato em vários períodos da história da igreja. Portanto, os crentes que defendem mulheres no diaconato, não devem ser automaticamente acusados de tentar trazer o Cavalo de Tróia da modernidade para dentro da igreja.

Devemos ser claros sobre o que a questão é e o que não é. A questão não é se o Espírito capacita as mulheres para servirem na igreja. Ele manifestadamente capacita e este é um ponto que o Novo Testamento enfatiza como princípio (1Co 12.7; Ef 4.7) e como exemplo (Rm 16.1-5,6,12). A questão não é se as mulheres podem participar ativamente dos ministérios de serviço da igreja. O Novo Testamento destaca a hospitalidade das mulheres mencionadas em Lc 8.1–3, da mãe de João Marcos (At 12.12) e de Lídia (At 16.14-15), e também elogia o serviço de caridade de Dorcas. (At 9.36). A questão é se a Bíblia permite que as mulheres sirvam no ofício de diácono. A Bíblia reserva o ofício de diácono apenas para os homens.

O Argumento Apoiando “Apenas para Homens”

O diaconato é um dos ofícios comuns que o Novo Testamento prescreve para a igreja. O diaconato é um ofício de “serviço às necessidades físicas e espirituais do povo”, e o presbitério é um ofício de governo e ensino (O Livro da Ordem na Igreja Presbiteriana da América, 7-2).

Embora os diáconos não tenham a tarefa de governar a igreja, eles possuem e exercem autoridade para cumprir seu chamado de servir a igreja. Podemos ver este ponto, por exemplo, no que é provavelmente o estabelecimento do ofício de diácono na igreja, At 6.1-6. Os diáconos recebem dos apóstolos a obra de distribuição diária de alimentos para as viúvas da igreja (At 6.1). Os detalhes deste tipo de trabalho se encontram elaborados em 1Tm 5.1–16. Neste texto, as instruções de Paulo a respeito do ministério diaconal às viúvas presumem autoridade espiritual por parte dos diáconos. Estes diáconos, afinal, são encarregados de determinar quais viúvas poderiam se qualificar para receber a caridade da igreja. Como detentores de cargos na igreja, os diáconos possuem e exercem autoridade dada por Deus para servir às necessidades da congregação.

O Novo Testamento limita a posse de ofícios na igreja apenas aos homens. Paulo escreveu a Timóteo: “ E não permito que a mulher ensine, nem exerça autoridade de homem; esteja, porém, em silêncio ”(1Tm 2.12). Para ser claro, o contexto da declaração de Paulo é a igreja reunida no culto, e particularmente o trabalho da pregação (1Tm 2.8-15). A declaração de Paulo, no entanto, não se limita à pregação da Palavra no culto público. Paulo aqui proíbe as mulheres de exercerem autoridade na igreja. O fato de que a gestão apropriada do lar — o devido exercício da autoridade no lar — é uma qualificação para os homens que buscam o ofício de presbítero (1Tm 3.5) e também diácono (1Tm 3.12) indica que a proibição de Paulo em 1Tm 2.12 diz respeito aos ofícios da igreja em geral. À luz do fato de que os ofícios de presbítero e diácono envolvem a posse e o exercício da autoridade na igreja, Paulo proíbe as mulheres de ocuparem qualquer um destes cargos.

Dois Textos Cruciais

Compreensivelmente, dois textos sāo trazidos à tona relacionados a esta questão. Os proponentes do diaconato feminino apelam para um ou ambos como prova de que as mulheres serviam como diaconisas na era apostólica. Em uma análise mais detalhada, no entanto, nenhum destes textos fornece suporte claro e decisivo para esta visão.

Romanos 16.1-2

Aqui Paulo escreve à igreja em Roma, “Recomendo-vos a nossa irmã Febe, que está servindo à igreja de Cencreia, para que a recebais no Senhor como convém aos santos e a ajudeis em tudo que de vós vier a precisar; porque tem sido protetora de muitos e de mim inclusive.”

A palavra que Paulo usa no versículo 1 para descrever Febe (diakonos, NVI, “serva”) é a mesma palavra que ele usa em outros lugares para denotar o oficial da igreja (“diácono”). Por esta razão, alguns argumentam que Febe deveria ser considerada como uma diaconisa da igreja em Cencreia.

Não há dúvida de que Febe era uma crente que se destacava por seu serviço à igreja e particularmente a Paulo. A questão é se o contexto exige que a palavra traduzida por “serva” seja traduzida com mais precisão por “diaconisa”. Os autores do Novo Testamento, afinal de contas, usam esta palavra tanto para oficiais quanto para não oficiais da igreja, e Paulo até a usa para o magistrado civil (Rm 13.4). É duvidoso que a palavra aqui tenha o sentido mais preciso de “diaconisa”. O contexto de Romanos 16 requer apenas que Paulo esteja recomendando Febe como uma serva dedicada do povo de Deus. Não requer que ela fosse uma diaconisa da igreja.

1 Timóteo 3.11

Uma segunda passagem para a qual alguns apelam em apoio ao diaconato feminino é 1 Timóteo 3.11: “Da mesma sorte, quanto a mulheres, é necessário que sejam elas respeitáveis, não maldizentes, temperantes e fiéis em tudo.” ARA (NVI; “Ou as esposas dos diáconos; ou ainda As diaconisas”, referência da NVI ).

A palavra grega (gynaikas) usada por Paulo no início deste versículo pode ser traduzida como “esposas” ou “mulheres”. O pronome possessivo (“dos” na referência da NVI ) não tem palavra correspondente no texto grego. Paulo poderia estar se referindo às esposas dos diáconos ou a um grupo completamente separado de mulheres. É concebível que as mulheres desse grupo pudessem ocupar a diaconia, pudessem ter o ofício de “diaconisa” ao lado do ofício de diácono, ou poderiam ser um grupo escolhido de assistentes para os diáconos.

Vale ressaltar que Paulo se abstém de designar um título para estas mulheres, como ele anteriormente o fez para os presbíteros e diáconos (1Tm 3.1,8). Não há qualificação matrimonial atribuída a elas, como há para os presbíteros e diáconos (1Tm 3.2,12). Nāo há provisão para testa-las, tal como existe para os presbíteros e diáconos (1Tm 5.22;3.10). Paulo imediatamente retoma sua discussão sobre o diaconato em 1Tm 3.12-13. Tudo isso aponta para longe de um entendimento de que 1 Timóteo 3.11 esteja se referindo a mulheres que ocupam o ofício de diaconisa ou um ofício paralelo.

Paulo, ao contrário, pode estar descrevendo as qualidades que devem caracterizar as esposas dos candidatos a diáconos. À luz das sensibilidades que cercam o trabalho dos diáconos, e à luz do fato de que as esposas podem ser chamadas para ajudar seus maridos -— particularmente para atender às necessidades das mulheres da igreja — pode-se ver por que Paulo desejava que a igreja estivesse satisfeita com o caráter de um candidato e de sua esposa quando avaliassem a adequação dele para o diaconato.

Use os Dons de Ambos

Portanto, o Novo Testamento, restringe o ofício de diácono somente aos homens. Deixar as coisas aqui, entretanto, estaria fora de sintonia com o caráter do ministério diaconal no Novo Testamento. Como vimos, o Novo Testamento rotineiramente nomeia as mulheres crentes, louvando-as por seu serviço altruísta a Cristo e sua igreja. A expectativa de Paulo em 1Tm 3.11 é que as mulheres tenham uma parte no ministério de serviço da igreja para os necessitados.

Esta realidade impõe uma carga especial aos diáconos. Como At 6 e 1Tm 5 nos mostram, os diáconos são chamados a “desenvolver a graça da liberalidade nos membros da igreja, desenvolver métodos eficazes de coletar os dons do povo e distribuir estes dons entre os beneficiários para os quais foram contribuídos ” (O Livro da Ordem da Igreja, 9-2).

Para fazer isso de maneira eficaz, os diáconos da igreja devem identificar, encorajar e promover o exercício dos dons de homens e mulheres. Tal como Paulo, devem reconhecer que aspectos do ministério diaconal da igreja exigem a contribuição dos dons, sabedoria e trabalho de mulheres que creem. E, tal como Lucas e Paulo faziam rotineiramente, os diáconos devem reconhecer e honrar tanto os homens quanto as mulheres que, desinteressadamente e frutiferamente, ministram às necessidades dos santos. Almejar por algo menor seria anti-bíblico.

 

Traduzido por Mauro Abner

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