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Como (Não) Plantar uma Igreja

Não consigo imaginar como seria nossa igreja sem uma confissão de fé robusta e seu sistema doutrinário forjado historicamente.

Exceto pelo fato de que isto foi exatamente o que não tivemos nos primeiros dois anos da nossa igreja.

Eis o que eu quero dizer.

Resgatado

Há vinte anos, eu estava trabalhando num bar no centro de Londres e havia adquirido um péssimo vício em cocaína. Voltei para casa na África do Sul, esperando ficar quieto e me limpar.

Depois de ficar “chapado” uma noite, ouvi o testemunho de um pregador na TV da sala de estar. Sem mais nada para fazer, decidi assistir. Eu estava pronto para zombar do pregador tolo, mas a Palavra de Deus penetrou diretamente para dentro de mim. Profundamente convencido do meu pecado, tive certeza de que Jesus estava vivo. Daquele dia em diante, tudo mudou.

Eu estava trabalhando em uma boate na época e comecei a compartilhar o evangelho imediatamente. Não conseguia deixar de contar aos outros sobre a salvação misericordiosa de Deus em Cristo. Minha primeira convertida foi a bela garçonete com quem trabalhava, e mais tarde me casaria. (Parei de casar com convertidos depois.)

Como eu tinha uma história para contar, comecei a ser convidado para compartilhar meu testemunho em vários lugares. Eu parecia me dar bem falando em público e adorava incentivar as pessoas em suas caminhadas com o Senhor. Mas havia um lado negativo: eu parecia significativamente mais maduro e teologicamente preciso do que realmente era. Verdade seja dita, eu não devia estar em um palco, muito menos em um púlpito. Eu estava apenas começando a entender os princípios básicos da fé cristã.

Claro, você não sabe o que não sabe. E na minha perspectiva da época, todos aqueles compromissos para falar eram emocionantes. Além disso, a grande igreja carismática da qual fazíamos parte estava altamente energizada em seus esforços missionários. Muitas vezes me senti como se estivéssemos numa nave māe missionária com uma metralhadora.

O problema — embora na época eu nāo o soubesse — era que eles não viam necessidade de treinamento teológico para aqueles que enviavam. O foco estava colocado na personalidade no palco e aparente “superdotação”.

Enviado

Minha nova esposa e eu logo fomos convidados para fazer parte de uma equipe de plantação de igrejas indo para a Nova Zelândia. Ficamos super entusiasmados. Afinal de contas, o que poderia ser mais excitante do que partir para os “confins da terra” literalmente? Parte de uma equipe de nove pessoas, fizemos as malas para nos mudar para o outro lado do mundo e sermos pioneiros na plantação de igrejas para a nossa rede (na época, Church of the Nations [Igreja das Nações]).

Uma vez na Nova Zelândia, comecei oficialmente meu ministério como pastor associado de plantação de igrejas. Não demorou muito até que realizássemos nosso primeiro culto público, e a igreja ganhou força rapidamente.

Cerca de um ano depois, no entanto, as coisas começaram a ficar difíceis. Nós estávamos comprometidos em pregar a Bíblia, mas esta convicção estava se tornando um problema. O que mais tarde percebemos é que havíamos subestimado muito o que era necessário para aquela pesada tarefa. Sem falar da exatidão doutrinária exigida, havia, pelo menos, a necessidade de permanecer coerentes com nós mesmos de semana a semana.

Testado

Nossa falta de experiência começou a aparecer. Em resumo, não conhecíamos a Bíblia suficientemente bem. Sabíamos que estávamos frequentemente nos contradizendo e percebemos rapidamente que uma única semana não era tempo suficiente para entendermos a teologia ampla de um determinado texto.

Ficamos cientes de que as doutrinas da Bíblia estão todas conectadas. Elas se entrelaçam como numa tapeçaria gigante. Se começarmos a puxar um pedaço de linha, logo veremos sua conexão com a imagem mais ampla. Mas teremos também um lampejo de quão vasta e complexa é aquela imagem mais ampla.

Do ponto de vista prático, esta é uma das principais razões pelas quais futuros plantadores de igreja, deveriam fazer a base de estudos teológicos antes, seja via seminário ou por outros meios. Demora pelo menos alguns anos de estudo intensivo, até se chegar a qualquer nível de convicção estabelecido.

A pregação regular para as mesmas pessoas a cada semana, é uma das principais maneiras pelas quais a plantação de igrejas testa a garra teológica. Não me entenda mal, não há um monte de pessoas sentadas com planilhas homiléticas prontas para dar notas sobre suas teorias. Mas semanalmente estará pregando a verdadeiros pecadores com lutas reais.

Portanto, a teologia que se prega está sendo constantemente testada na fornalha da vida real. Se houver claras inconsistências entre uma semana e outra, as pessoas notam. E se não conseguirmos explicar aquilo, as pessoas podem ficar feridas. Sei bem disso. Foi o que aconteceu com a nossa plantaçāo de igreja.

Nossa teologia estava sendo testada de todas estas maneiras, e nós estávamos sendo reprovados. Ficou dolorosamente claro que não tínhamos alocado tempo suficiente, antes do plantio, para a tarefa de estudar. Começamos a nos desmanchar. Pessoas foram embora. Nossa unidade de liderança rachou. Nosso pastor principal passou as rédeas para mim e voltou para casa na África do Sul. Ele estava compreensivelmente esgotado, necessitando desesperadamente de algum espaço para recuperar-se da experiência difícil.

Reconstruída

À medida que mais pessoas foram embora, tornamo-nos um pequeno núcleo que decidiu resistir. Saímos da rede de plantação de igrejas que nos enviara para a Nova Zelândia, nos juntamos aos Batistas Reformados e depois nos juntamos à Atos 29.

Ir em frente com o pouco que nos havia restado foi provavelmente o momento mais difícil da minha vida. Sem o apoio do único presbítero que restou, eu não teria sido capaz de fazer isto. Com foco singular, dedicamos toda a nossa atenção ao estudo, batalhando para descobrir o que realmente críamos.

Uma das coisas que mais nos ajudou neste processo foi chegar a uma maior consciência da história e das confissões de fé forjadas nos últimos 2.000 anos. Como G. I. Williamson disse:

“A Bíblia contém uma grande riqueza de informações. Não é fácil dominar tudo aquilo — na verdade, ninguém jamais conseguiu dominá-la completamente. Seria, portanto, tolice tentarmos fazê-lo sozinhos, começando do zero. Estaríamos ignorando todo o estudo da Palavra de Deus que outras pessoas fizeram através dos séculos. É exatamente por isso que temos os credos. Eles são produto de muitos séculos de estudo bíblico por uma grande companhia de crentes. São uma espécie de ‘mapa’ espiritual do ensino da Bíblia, já elaborado e provado por outros antes de nós.”

Ao estudar teologia, não esqueça as confissões, especialmente as confissões reformadas mais desenvolvidas. Estude-as. Conecte-se a elas. Use-as.

Para chegar até este ponto, lemos vorazmente. Choramos muito ao ler cada volume teológico. O processo foi desafiador, mas nós lentamente reconsolidamos e edificamos outra vez. Tijolo a tijolo, vivenciamos o sorriso consciente de Deus.

Quando Jesus comissionou o plantio de igrejas (Mt 28.18), ele ordenou que ensinássemos “todas as coisas” que ele havia ordenado. Isto inclui o Antigo Testamento, que aponta para Cristo e foi cumprido pelo próprio Cristo. É claro que também inclui o Novo Testamento, pois este interpreta, expande e explica o ministério de Jesus.

Esta, então, é a comissão do plantador de igrejas. O plantio de igrejas envolve ir e fazer discípulos. Mas a única maneira de fazer isto é primeiro investir o tempo necessário para ficar bem preparado. Antes de ensinar os outros, necessitamos ser ensinados.

Pela pura graça de Deus, fizemos a transição. Quatorze anos depois, ainda estamos aqui. A Igreja da Comunidade Gracenet está plantada e, apesar de pequena, somos uma testemunha saudável e vibrante do evangelho em Wellington, Nova Zelândia.

Louvamos a Deus por nos ancorar na sã doutrina bíblica. Sem ela, duvido que estivéssemos aqui para contar a história.

Traduzido por Felipe Barnabé

 

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