Quem definiu o Cânon das Escrituras?

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Introdução

A doutrina das escrituras é fundamentalmente importante para o cristianismo, em especial para a tradição reformada. Uma vez que a reforma protestante estabeleceu que a escritura é o crivo da verdade e a autoridade sobre a igreja, a questão do cânon torna-se deveras importante. Essa questão, além de teologicamente importante, ela é historicamente interessante. Afinal, antes da Reforma Protestante, a escritura cristã de acordo com a tradição católica continha uma série de livros no Antigo Testamento que não eram aceitos pelos judeus como escritura, livros que são denominados apócrifos pelos protestantes.

Martinho Lutero, por exemplo, em sua tradução das escrituras para o Alemão não removeu esses livros em suas publicações, apenas os moveu para o apêndice da mesma, uma prática que ainda persiste em algumas tradições europeias.  Foram os ingleses reformados, entretanto, os primeiros a remover completamente tais livros de suas traduções: Em 1599 publicou-se uma edição da Bíblia de Genebra sem os tais livros apócrifos. Com a influência dos movimentos presbiterianos e puritanos nos séculos seguintes a Sociedade Bíblica da Inglaterra e a Sociedade Bíblica internacional passaram a publicar Bíblias com apenas 66 livros. Entretanto, ainda hoje sobrevive uma atitude dividida com relação a tais livros na Europa: Enquanto algumas tradições protestantes, bem como a tradição Anglicana, continuam a imprimir os livros apócrifos como um apêndice, a maior parte da tradição de fala inglesa publica a Bíblia sem os mesmos, como também acontece com a nossa tradição tupiniquim.

Por outro lado, a tradição católica ainda nos nossos dias mantém os livros chamados apócrifos entre os livros considerados canônicos. As tradições ortodoxas grega, siríaca e etíope também incluem nos seu cânon alguns livros considerados apócrifos pelos reformados e católicos. No que se refere ao chamado “Antigo Testamento”, por exemplo, os livros de 1 e 2 Esdras são entendidos como livros historicamente importantes para a tradição católica, apócrifos para os protestantes, são considerados canônicos em algumas partes da tradição da Igreja Ortodoxa da Etiópia. Enquanto Protestantes consideram como apócrifos os quatro livros dos Macabeus, a tradição católica recebe como canônico apenas os dois primeiros enquanto a tradição siríaca recebe os quatro. Enquanto a tradição Católica recebe o livro de Tobias entre os livros sagrados juntamente com a tradição etípope, a tradição siríaca o considera apenas como um livro importante, mas não necessariamente canônico; e assim por diante.[1]

No que se diz respeito ao chamado “Novo Testamento”, a tradição siríaca entende que os livros de 2 Pedro, 2 e 3 João e Apocalipse são textos importantes, mas não canônicos. O mesmo acontece com os livros considerados apócrifos pelos protestantes, como o livro Atos de Tecla e 3 Coríntios, que são recebidos pela tradição siríaca como livros importantes, mas não canônicos. Já a tradição etíope recebe como canônico os livros de Clemente, o Livro da Aliança, a Didascalia Etíope, além de considerar o Pastor de Hermas e a Ascenção de Isaías entre os livros importantes para a tradição. Todos esses são considerados apócrifos para tanto para a tradição Protestante como a Católica.

Em outras palavras, a questão do cânon é uma questão fundamentalmente importante para a doutrina reformada das escrituras. Afinal, quem é que define quais são os livros que pertencem ao cânon? Se é a igreja que define o cânon, então a autoridade do texto está sujeita a autoridade da igreja [Tradição Católica, Etíope, Síria]. Se é o cânon é quem define a igreja, então a igreja está sujeita à autoridade do texto [Tradição Protestante].[2]

1. A questão da Canonicidade

Antes de seguir com esse estudo, contudo, é importante definir alguns termos: (a) Cânon[3] descreve o conjunto de livros reconhecidos/definidos como autoritários, e nesse sentido, que funciona como a regra para a comunidade da fé. (b) Canônico é o livro que é reconhecido/definido como um livro autoritário pela comunidade da fé; (c) Canonicidade é a qualidade que um livro deve ter para ser considerado canônico e assim fazer parte do cânon. Em outras palavras, a definição do cânon se inicia na identificação da canonicidade de um determinado livro, e existem basicamente duas abordagens para se fazer essa definição: a abordagem da canonicidade comunitária e a abordagem da canonicidade intrínseca.

a. Canonicidade Comunitária

Nessa abordagem, como já sugere o nome, uma comunidade autoritativa define o escopo e a extensão do cânon. Nesse caso, o cânon é identificado na coleção de livros que tal comunidade entende como padrão.[4]Ou seja, uma comunidade autoritativa determina quais livros devem ser recebidos como livros autoritários. James Sanders, por exemplo, entende que o “cânon bíblico no que se refere a conteúdo e ordem depende da denominação ou comunidade em questão.[5] Desse modo, o cânon bíblico nada mais é do que uma lista de livros que recebem o status de autoritária e que funciona como o paradigma para definir como essa comunidade deve funcionar. As diferentes listas de livros recebidos como canônicos na introdução servem aqui como ilustração desse conceito.

b. Canonicidade Intrínseca

Por outro lado, a abordagem da canonicidade intrínseca entende que Deus é quem define o escopo e a extensão do cânon e a comunidade apenas o reconhece.[6] Em outras palavras, o cânon é uma coleção autoritativa de livros reconhecidos como canônicos porque Deus assim os definiu. Isso não significa que a o reconhecimento fora imediato, nem que não existiram problemas e dificuldades, nem que o processo histórico de reconhecimento dessa coleção de livros seja insignificante. Significa apenas que alguns livros têm sua canonicidade intrínseca devido a inspiração divina que os mesmos carregam. Ou seja, nessa abordagem existe uma relação muito estreita entre a inspiração e a canonicidade: “Por muitos séculos, a inspiração e a canonicidade estiverem intimamente ligadas no pensamento cristão: os livros que foram incluídos no cânon, acredita-se, porque eram inspirados; um livro é conhecido por ser inspirado porque está no cânon”.[7]

c. Canonicidade em questão

A bem da verdade, ambas as abordagens têm seus problemas. A abordagem comunitária é problemática por algumas razões: (a) do ponto de vista da história, a “comunidade” de Israel falhou em reconhecer profetas enviados por Deus, como por exemplo Elias, Jeremias, Isaías entre outros e se colocou em oposição a eles. Além disso, a “comunidade” de Israel rejeitou e se opôs ao próprio Messias. Em outras palavras, historicamente a voz do povo não tem sido a voz de Deus; (b) do ponto de vista do conceito, se uma determinada comunidade é o árbitro final da canonicidade, as vozes comissionadas por Deus opostas ao sistema de valores de uma determinada comunidade poderiam ser legitimamente abafadas em favor de pseudoprofetas favorecidos pela comunidade. Ou seja, se o sistema de valores da comunidade estiver desalinhado, a definição seguiria o mesmo problema; (c) do ponto de vista pragmático, talvez a mais importante questão seja: quem define a comunidade? Ou melhor, que comunidade deveria ser considerada? Por exemplo, na questão dos livros apócrifos e pseudoepigráficos do segundo-terceiro século da era cristã, para a comunidade responsável pela Biblioteca de Nag Hammadi, tais livros eram considerados autoritativos, ao passo que os mesmos foram rejeitados pela igreja primitiva. Já no caso da igreja primitiva, que comunidade deve ser considerar correta, a católica, a síria, a etíope? Em outras palavras, a abordagem comunitária poderia ser uma excelente forma de se descrever o fenômeno dos diferentes cânons existentes, mas dificilmente poderia servir como crivo para definir que cânon deveria ser considerado correto.

Por outro lado, a abordagem intrínseca também tem suas dificuldades: (a) a principal dificuldade é que a comunidade é sempre parte do processo: Se a canonicidade intrínseca precisa ser reconhecida, ela precisa ser reconhecida por alguém. E aqui também precisamos nos perguntar que comunidade deve ser reconhecida como responsável pelo processo de reconhecimento; (b) outra dificuldade é a relação de causalidade: é inspirado porque é canônico ou canônico porque é inspirado? Do ponto de vista da abordagem da canonicidade intrínseca, o ponto de partida deve ser a inspiração, como Cairns claramente defende: “Os escritos canônicos são aqueles que se enquadram na província da inspiração divina; escritos não-canônicos, quaisquer que sejam os outros méritos que possam ser reivindicados por eles, não têm lugar nas Escrituras porque eles não são inspirados por Deus.[8] Mas, ainda aqui permanece a pergunta: como os livros são reconhecidos como inspirados e por quem? Em outras palavras, embora a abordagem da canonicidade intrínseca defenda a prioridade divina na definição do cânon, a mesma ainda é dependente da comunidade. E é exatamente nessa relação entre a soberania divina e a participação humana que subsiste a questão do cânon.

É por isso que conhecer o processo histórico que levou a igreja a reconhecer os livros que compõem as escrituras é fundamentalmente importante. Nesse processo, ficará evidente que existe uma clara interação entre o texto, a comunidade e a soberania divina.

2. A História do Cânon do Antigo Testamento

A opinião tradicional a respeito da formação do cânon do AT é que o mesmo aconteceu em três estágios:[9](a) primeiro aconteceu o reconhecimento da autoridade da Torah; (b) então o reconhecimento do encerramento da atividade profética em Israel; (c) e por fim, o consenso a respeito do conteúdo e da extensão do cânon do AT no primeiro século da era cristã. Essa seleção de textos reconhecidos como autoritativos se deu em parte em função da existência de outros documentos que faziam parte da reflexão teológica no período intertestamental,[10] especialmente em função do uso litúrgico dos mesmos nas sinagogas.

a. A Autoridade da Torah

O rabinismo primitivo entendia que a Tanach, que hoje nós chamamos de Antigo Testamento era dividido em três partes: Torah, Nebiim e Ketubim, ie. a Lei, os Profetas e os Escritos. Essa divisão atesta que em algum momento da história de Israel uma coleção de livros foi reconhecida, organizada e reconhecida como autoritativa para a comunidade [como veremos a frete]. O prólogo de Siraque, por exemplo, já manifesta essa percepção. [11]

Essa divisão tripartida é muito provavelmente reconhecida em tempos anteriores ao próprio rabinismo primitivo, tendo em vista que o Pentateuco (ie. Torah) era reconhecido como autoritativo muito antes do movimento rabínico existir. Exemplo disso encontra-as na descoberta do livro da Lei (cf. 2Reis 22), que demonstra que a comunidade de Israel já reconhecia a existente autoridade da Lei, bem como o recorrente uso da Torah feita pelos profetas parece sugerir. Aliás, esse uso da Torah pelos profetas demonstra que a mesma foi a primeira porção do AT a ser reconhecida como investida de autoridade (cf. Dt 4:2; 13:1).

Além disso, deve-se considerar que existe uma relação entre o conceito de cânon e de aliança.[12] Kline, por exemplo, sugere que a importância da forma escrita da lei, de sua leitura em assembleia pública, as estipulações para o depósito seguro da lei e para futuras leituras públicas, a evocação de uma resposta leal e as maldições que visam impedir violações dos textos normativos (cf. Ex 24; Dt 31) sugerem que existe uma relação entre YHWH e Seu povo que é descrita nos termos dos tratados de suserania do Oriente Médio Antigo.[13] Sendo assim, é possível afirmar que desde os mais antigos momentos da história de Israel existia um reconhecimento de autoridade atribuída aos livros da Lei que funcionava como um princípio canônico para a definição dos textos reconhecidos como autoritativos para a comunidade.

b. O Encerramento da Atividade Profética em Israel

A tradição judaica também entendia que a atividade profética teria cessado em Israel logo após Malaquias: “Quando Ageu, Zacarias e Malaquinas, o último profeta, morreram, o Espírito Santo saiu de Israel” (b.Sota. 48b); “Do tempo de Artaxerxes até os dias de hoje nossa história é retratada, mas ela não merece a mesma credibilidade como aqueles livros antigos, porque os profetas não tiveram verdadeiros sucessores” (Jos.Ag.Apion 1.8); “Agora os justos foram recolhidos e os profetas estão dormindo. Nós fomos abandonados em nossa terra e Sião foi tomada de nós” (2 Baruch 85:3; cf. 1 Mac. 4:46; 9:27; 14:41). Em outras palavras, a tradição judaica entendia que o encerramento da atividade profética em Israel implicaria no silêncio da manifestação autoritativa de Deus com o povo. Daí se convenciona sugerir que tal encerramento está diretamente ligado à produção de textos reconhecidos como autoritativos também havia se encerrado.

Reforça essa ideia a repetida referência nos escritos intertestamentais à Lei, os Profetas e os outros escritos, a proposição da ordem dos livros proféticos de Josué a Neemias (cf. Sir. 46: 1-49: 13) e a referência aos “doze profetas” depois de Ezequiel (cf. Sir. 49:10). Essas referências ao conteúdo do que hoje chamamos Antigo Testamento parecem reforçar a ideia de que no início do segundo século aC já existia uma consciência canônica em processo de formação entre os judeus. Essa consciência canônica, embora historicamente desenvolvida, já havia dado significativos passos em direção à cristalização no período anterior ao primeiro século da era cristã.

c. Consenso Judaico

Pouco antes da queda de Jerusalém (70 dC), Jamnia havia se tornado o mais importante centro acadêmico do rabinismo fora de Jerusalém. De acordo com a tradição judaica isso aconteceu porque Yohan ben Zakkaiteria predito que Vespasiano se tornaria Imperador e lhe havia pedido que poupasse Jamnia e seus rabis (cf. Git. 66a). Com a queda de Jerusalém (70 dC), o grande sinédrio mudou-se para Jamnia e passou a ser presidido por Zakkai. E foi no conhecido concílio de Jamnia que o reconhecimento da autoridade canônica dos livros da Tanach foi finalmente estabelecido (cf. mYad 3.5).[14]

A divisão tradicional da Tanach pós-Jamnia ficou assim definida: Torah (Lei) continha os cinco primeiros livros do AT, atualmente conhecidos como Pentateuco; Neviim (profetas) continha oito livros divididos entre os profetas antigos (Josué, Juízes, Samuel e Reis) e profetas recentes (Isaías, Jeremias, Ezequiel e os Doze Profetas); Ketuvim (escritos) continha os outros onze livros (Salmos, Provérbios, Jó, Cantares, Rute, Lamentações, Eclesiastes, Ester, Daniel, Esdras, Neemias e Crônicas; cf. b.B.Bat. IV.6).

Embora a ordem dos livros pudesse ser diferente, essa divisão tripartida da Tanach já havia sido sugerida muito antes de Jamnia, como por exemplo em livros intertestamentais (cf. 2Mac 2:13-14; Prol.Siraque), na comunidade de Qumran (cf. 4QMMT), nos escritos de Filo (cf. De Vita Contemplativa 25), e Josefo (cf.Ag.Apion 1:37-43) e mais notoriamente nos ensinos de Jesus (cf. Lc 24:44). Ele, por exemplo, descreve o Pentateuco como palavra de Deus (Mc 7:10//Mt 15:4; cf. Ex 20:12; 21:17), usa a expressão “foi cumprido” em referência aos profetas (Mt 13:14-15; cf. Is 6:9-10) e chama os escritos de escritura (Mc 12:10-11//Mt 21:42//Lc 20:17; cf. Sl 118:22-23). Jesus também faz alusão a abrangência do cânon do AT ao sugerir que Abel teria sido o primeiro mártir e Zacarias o último (Mt 23:35/Lc 11:51),[15] e se refere como escritura ao livro de Moisés (Mc 12:26//Mt 22:32//Lc 20:37; cf. Ex 3:5), aos Profetas (Mc 7:6-7//Mt 15:8-9; cf. Isa 29:13; Mc 11:17//Mt 21:13//Lc 19:46; cf. Isa 56:7; Jer 7:11) e ao livro de Salmos (Mc 12:36//Mt 22:44//Lc 20:42-43; cf. Sal 110:1). Em outras palavras, embora o consenso judaico tenha sido finalizado em Jamnia, essa consciência de livros autoritativos já existia muito antes dela.

d. No AT: Canonicidade Comunitária ou Intrínseca?

Tendo observado brevemente a história e o processo de reconhecimento da lista de livros autoritativos do Antigo Testamento pode-se sugerir que existe uma relação muito interessante entre o papel da comunidade e o papel dos textos em si. Como parece evidente, a comunidade rabínica estava preocupada em definir os livros autoritativos, mas parecia fazer isso a medida que reconhecia que os mesmos carregavam autoridade intrínseca. Por isso, é justo sugerir que não existem indicações que nos obriguem a concluir que o cânon do Antigo Testamento foi definido por uma comunidade específica, um conselho formal. Evidentemente, alguém teve que decidir em algum momento quais livros eram autoritativos e poderiam ser guardados no arquivo sagrado das Escrituras no templo, mas esse processo se deu mais no reconhecimento da autoridade intrínseca dos livros do que no depósito de autoridade a textos específicos.

3. A História do Cânon do Novo Testamento

No que se refere ao cânon do NT também pode-se sugerir um processo em três etapas: (a) na necessidade de se definir os livros usados na liturgia; (b) na resposta a ataques externos; (c) e por fim no início da organização do cristianismo como religião imperial.

a. Uso Litúrgico de Livros Apostólicos

O ponto de partida para o desenvolvimento de uma consciência canônica foi a necessidade litúrgica da igreja, fazendo com que os escritos apostólicos fossem adotados como lecionários nas reuniões comunitárias das igrejas gentílicas.[16] Ou seja, a igreja primitiva já tinha um conjunto de livros recebidos como autoritativos (não um cânon, nem um NT) desde o fim do primeiro século.[17] Evidência para isso encontra-se no próprio NT: Col 4:16 parece sugerir que as cartas de Paulo eram disseminadas em outras comunidade cristãs; 2Pe 3:16 fala sobre todos os escritos de Paulo, dando a entender que apesar de espalhados pelo mundo antigo, seus escritos já eram colecionados no período apostólico.[18] Além disso Apocalipse parece ter sido escrito para circular entre as sete igrejas da Ásia. [19] Ao que parece, os escritos apostólicos tinham certa circularidade ainda no período apostólico.

Os pais apostólicos (95-150 dC) embora não tenha discutido questões relacionadas a canonicidade, e raramente se referiam a que livros deveriam ser incluídos entre as escrituras, eles frequentemente manifestavam suas ideias de modo derivado dos escritos apostólicos. Isso sugere que os mesmos estavam lendo livros daquilo que hoje chamamos NT. Reforça essa ideia o fato de que existem inúmeras alusões aos textos apostólicos, embora poucas citações diretas dos mesmos. Ao que parece, os livros apostólicos foram reconhecidos como tendo autoridade intrínseca, sendo que as palavras de Jesus foram recebidas com autoridade suprema.

b. Resposta a Ataques Externos

O segundo importante fator na busca por um cânon do NT foi o surgimento de veemente oposição contra a igreja. A mais importante delas, foi o surgimento heresia gnóstica, que propagava seus evangelhos, atos e apocalipses com a pretensão de afirma-los como tendo sido escritos por apóstolos.[20] Esse movimento forçou a igreja a refletir sobre a natureza desses livros e de quais livros não deveriam ser usados nas igrejas. Outro fator que contribuiu para a direção de um cânon foi a influência de Marcião, que promulgou um cânon extremamente restrito, rejeitando todo o AT e aceitando apenas as cartas de Paulo[21] e uma versão retalhada do evangelho de Lucas.[22]

Entretanto, grande parte da discussão dos Pais da Igreja do segundo ao quarto século estão mais relacionadas aos livros que não deveriam ser incluídos do que aos livros que deveriam ser incluídos. Isso não significava, por outro lado, que o reconhecimento de uma lista de livros autoritativos estava pronta nesse período. Orígenes, por exemplo, aceitava os quatro evangelhos, as catorze cartas de Paulo, bem como Atos, 1 Pedro, 1 João, Judas e Apocalipse, mas tinha reservas com o texto de Tiago, 2 Pedro e 2 e 3 João. Para tornar as coisas ainda mais interessantes, ele aceitava como inspirado o livro do Pastor de Hermas. Além disso, a igreja ocidental tinha suas reservas com os livros de Hebreus, Tiago, 2 Pedro, 2 e 3 João, e Judas, ao passo que a igreja síria usava o Diassetaron no lugar dos quatro evangelhos, rejeitava Filemom, aceitava uma suposta terceira carta de Paulo aos Coríntios e omitia quatro das epístolas católicas (2 Pedro, 2 e 3 João e Judas) bem como Apocalipse.[23]

Por isso não é surpreendente que em diferentes lugares, diferentes listas de livros autoritativos estivessem sendo produzidas. Eusébio de Cesaréia, por exemplo, sugere três categorias para a avaliação de textos autoritativos: (a) os livros reconhecidos; (b) os disputados e (c) a fabricação dos hereges (Hist.Ecc. 3.25.1-7). Com essa divisão, Eusébio oferece a mais antiga lista de livros autoritativos.[24]

Em outras palavras, embora a igreja primitiva não fosse uma comunidade organizada que pudesse servir como crivo para realizar essa definição da lista de livros autoritativos, diferentes pessoas de diferentes lugares, por diferentes razões, pareciam estar labutando para reconhecer os livros que poderiam compor a lista de livros do que hoje chamamos NT. Vale ressaltar, que a dificuldade em aceitar determinados livros, não significava que a igreja os rejeitava, apenas que tinha reservas quanto ao seu uso.

c. Bispo Atanásio de Alexandria

Em sua trigésima nona epístola em 367 dC, o Bispo Atanásio de Alexandria teria incluído uma lista de livros do AT e NT que seriam recebidos como autoritativos pela igreja. Em sua lista, Atanásio excluiu os chamados livros apócrifos do AT e afirma os 27 livros do NT como o conhecemos nos nossos dias. Diante da diversidade de opiniões sobre o “cânon” das escrituras, essa lista de Atanásio dificilmente seria considerada como uma confirmação de uma opinião já estabelecida na igreja. Ao contrário, ela era uma nova lista de livros recebidos como canônicos, que foi recebida pelos sínodos de Roma (382 dC), Hippo Regius (393 dC) e Cartago (397 dC).

d. No NT: Canonicidade Comunitária ou Intrínseca?

O processo de identificação do cânon do NT é cercado por uma série de fatores históricos que poderiam nos ajuda a entender a razão do tempo que se levou para “fechar” a lista de livros autoritativos. Entre todos esses fatores e problemas, a comunidade teve que labutar para definir uma lista de livros que deveriam ser recebidos como autoritativos. Em outras palavras, do ponto de vista histórico, a decisão a respeito de uma lista de livros autoritativos para o NT aconteceu como resultado de diferentes fatores em diferentes lugares devido ao “calibre auto-autenticado” dos livros canônicos.[25] Em outras palavras, a comunidade cristã funcionou como crivo para definir os livros que deveriam ser usados nas igrejas ao reconhecer a intrínseca autoridade que os mesmos atestavam. Ou como Meye corretamente afirmou: “A obtenção do status canônico consiste no reconhecimento (de valor interno e origem apostólica) e na afirmação (pela Igreja agindo oficialmente) de que apenas certos documentos em uso pela Igreja.”[26]

Conclusão

A bem da verdade é que o cânon não é uma definição teológica, é uma definição que tem implicações teológicas. A história demonstra que o processo de reconhecimento dos livros recebidos como canônicos não foi monolítica, e isso sugere que seria improvável que uma comunidade tivesse autonomia para definir quais livros seriam que deveriam ser recebidos e quais deveriam ser excluídos. Ao que parece, a análise histórica nos ajuda a compreender que o processo de definição do cânon aconteceu em um ambiente de confluência entre o papel da comunidade e do valor intrínseco dos livros selecionados, ao passo que atribuir exclusividade a um em detrimento do outro seria um grande equívoco.

[1] Para uma lista comparativa com os diferentes cânons das tradições, ver: Setterholm, Vincent. “Canon of the Bible, Traditions of the.” Edited by John D. Barry, David Bomar, Derek R. Brown, Rachel Klippenstein, Douglas Mangum, Carrie Sinclair Wolcott, Lazarus Wentz, Elliot Ritzema, and Wendy Widder. The Lexham Bible Dictionary. Bellingham, WA: Lexham Press, 2016.

[2] Vale mencionar que a definição do cânon em última análise é fundamentalmente importante para a teologia da igreja: Um conjunto diferente de livros proporcionaria um conteúdo diferente para a reflexão teológica. Ou seja, um cânon maior (ou menor) afetaria diretamente a teologia da igreja.

[3] Canon é um termo derivado do grego kanön (gr. κανῶν) que usualmente referia-se a uma haste reta (cf. Hom.Il.12.407), e que metaforicamente era usado para descrever uma “régua” ou “padrão” (cf. Eur.Hec.602), como vemos em Gal 6:16: “Paz e misericórdia estejam sobre todos os que andam conforme esta regra [padrão]”.

[4] Considere, Albert C. Sundberg, The Old Testament of the Early Church (New York: Kraus, 1969); Lee McDonald, The Formation of the Christian Biblical Canon, 15; Andrew E. Steinmann, The Oracles of God (Saint Louis: Concordia, 1999), 17; Gerald Sheppard, “Canon,” in The Encyclopedia of Religion [ed. Mircea Eliade; New York: Macmillan, 1987], 65).

[5] James Sanders, Canon and Community: A Guide to Canonical Criticism (Eugene: Wipf & Stock Pub), 15

[6] Brevard S. Childs, Biblical Theology in Crisis (Philadelphia: Westminster, 1970), 105; Anthony C. Thiselton, “Canon, Community, and Theological Construction,” in Canon and Biblical Interpretation (ed. Craig G. Bartholomew et al.; Grand Rapids: Zondervan, 2006), 13; F. F. Bruce, The Books and the Parchments (Glagow: Harper Collins, 1991), 86–104; F. F. Bruce, The Canon of Scripture (Downers Grove: IVP, 1988); Fisher, The Canon of the New Testament, 77.

[7] F. F. Bruce, The Canon of Scripture (Downers Grove, IL: Inter-Varsity Press, 1988), 263.

[8] Alan Cairns, Dictionary of Theological Terms (Belfast; Greenville, SC: Ambassador Emerald International, 2002), 76.

[9] H.E. Ryle, The Canon of the Old Testament (2nd ed., London, 1892/1909); R.H. Pfeiffer, ‘Canon of the OT’, Interpreter’s Dictionary of the Bible, Vol. 1, 1962, pp. 498–520; R.K. Harrison, ‘Canon of the OT’, The International Standard Bible Encyclopedia, Vol. 1, 1979, pp. 591–601.

[10] Esses documentos, embora denominados Apócrifos pelos Protestantes, podem ser classificados do seguinte modo: (a) Livros chamados Apócrifos são classificados em duas categorias: (i) Livros Deuterocaninicos Católicos: Tobias, Judite, 1 e 2 Macabeus, Sabedoria, Eclesiastico e Baruque; além desses livros, versões diferentes de livros da Tanach são adotados pelo cânon Católico. Ester, por exemplo, tem seis adições textuais ao texto hebraico; Daniel também tem adições de três textos judaicos, Susana, A Oração de Azarias, o Canto dos três Jovens, e Bel  o Dragão; (ii) Livros da LXX que não fazem parte do texto Hebraico: 3-4 Macabeus, 1Esdras, Salmos de Salomão e Odes; (b) Livros chamados Pseudoepigráficos são classificados em seis categorias: (i) História reescrita a partir da interpretação da Lei: O Livro de Jubileu; (ii) Lendas Sagradas: A Carta de Aristéia, O livro de Adão e Eva e o Martírio de Isaías; (iii) Apocalipses: 1 Enoque, o Testamento dos 12 Patriarcas, Os Oráculos de Sbiline, A Assunção de Moisés, 2 Enoque (O Segredo de Enoque), 2 Baruque (Apocalipse Siríaco de Baruque), 3 Baruque (Apocalipse Grego de Baruque), 4 Esdras; (iv) Salmos: Os Salmos de Salomão; (v) Literatura Ética ou Sapiencial: 4 Macabeus, Pirke Abot e a História de Ahikar; (vi) História: Os Fragmentos de Zadoke. Para uma introdução a esses documentos, ver: James C. VanderKam, An Introduction to Early Judaism. (Grand Rapids, MI; Cambridge, U.K.: William B. Eerdmans Publishing Company, 2001), pp. 53-173; Para uma abordagem mais abrangente, considerar: Larry R. Helyer, Exploring Jewish Literature of the Second Temple Period: a Guide for New Testament Students (Downers, Grove, Ill.: InterVarsity Press, 2002.

[11] Os primeiros versos de Siraque lêem: “Muitos grandes ensinamentos nos foram dados por meio da Lei e dos Profetas e dos outros que os seguiram, e por isso devemos louvar a Israel por instrução e sabedoria. Agora, aqueles que lêem as escrituras não devem apenas entendê-los, mas também devem, como amantes do aprendizado, ser capazes de, através da palavra falada e escrita, ajudar os de fora. Então meu avô Jesus, que havia se dedicado especialmente à leitura da Lei e dos Profetas e dos outros livros de nossos ancestrais, e que havia adquirido considerável proficiência neles, também foi ele próprio levado a escrever algo referente à instrução e à sabedoria, de modo que familiarizando-se também com o seu livro, aqueles que amam a aprendizagem podem progredir ainda mais em viver de acordo com a lei.”

[12] P.C. Craigie, The Book of Deuteronomy (NICOT, Grand Rapids, 1979), p. 33; R.E. Clements, God’s Chosen People. A Theological Interpretation of the Book of Deuteronomy (London, 1968), pp. 89–105.

[13] Meredith G. Kline, The Structure of Biblical Authority, (Grand Rapids, Mich.: Eerdmans, 1972), 27-110.

[14] R.T. Beckwith, The Old Testament Canon of the New Testament Church and its Background in Early Judaism (Grand Rapids, 1985), pp. 3, 276; Hübner, ‘Vetus Testamentum’, p. 149; D.E. Aune, ‘On the Origins of the “Council of Yavneh” Myth’, Journal of Biblical Literature 110 (1991), pp. 491–93.

[15] I.H. Marshall, The Gospel of Luke (Exeter, 1978), p. 905; R. T. France, The Gospel of Matthew, (Grand Rapids, MI: Wm. B. Eerdmans Publication Co., 2007), 880

[16] Theodor Zahn, Introduction to the New Testament, trans. Melancthon Williams Jacobus, vol. 1 (Edinburgh; London; New York: T&T Clark; Simpkin, Marshall, Hamilton, Kent and Co. Limited; Charles Scribner’s Sons, 1909), 124.

[17] Segudo ele, as cartas de Paulo já estavam organizadas e juntas em Roma ou Corinto por volta de 80-110 dC e que os evangelhos haviam sido organizados por João em Éfeso antes mesmo de sua morte.

[18] David Arthur deSilva, An Introduction to the New Testament: Contexts, Methods and Ministry Formation (Downers Grove, IL: InterVarsity Press, 2004), 32.

[19] John McRay, “Bible, Canon of The,” Evangelical Dictionary of Biblical Theology, Baker Reference Library (Grand Rapids: Baker Book House, 1996), 59.

[20] Sobre os escritos gnósticos, considerer: R. van den Broek, ‘The Present State of Gnostic Studies’, Vigiliae Christianae 37 (1983), pp. 41–71; B. Layton, The Gnostic Scriptures (Garden City, NY, 1987). C.M. Tuckett, Nag Hammadi and the Gospel Tradition(Edinburgh, 1986); sobre sua relação com o canon, considerer: Adolf von Harnack, History of Dogma (London, 1890, reprint New York, 1961), pp. 38–60.

[21] Theodore Zahn, “New Testament Canon”, The New Schaff-Herzog Encyclopedia of Religious Knowledge: Embracing Biblical, Historical, Doctrinal, and Practical Theology and Biblical, Theological, and Ecclesiastical Biography from the Earliest Times to the Present Day (New York; London: Funk & Wagnalls, 1908–1914), 395.

[22] Williams, ‘Reconsidering Marcion’s Gospel’, Journal of Biblical Literature 108 (1989), pp. 477–496.

[23] Bruce, The Canon of Scripture, 158-229; Metzger, Canon, 113–247.

[24] Harry Y. Gamble, “Canonical Formation of the New Testament,” Dictionary of New Testament Background: A Compendium of Contemporary Biblical Scholarship (Downers Grove, IL: InterVarsity Press, 2000), 189.

[25] Bruce Metzger, The Canon, 286.

[26] R. P. Meye, “Canon of the NT,” ed. Geoffrey W. Bromiley, The International Standard Bible Encyclopedia, Revised (Wm. B. Eerdmans, 1979–1988), 602–603.

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