Aos Desigrejados com Amor

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Eu tenho uma certa dor no coração quando ouço a respeito de pessoas que professam a fé em Cristo Jesus como salvador, entendem as escrituras como revelação divina e fundamento da fé e prática, que gostariam de viver para a glória de Deus, mas que ao mesmo tempo rejeitam a igreja local. Me dói o coração especialmente porque conheço várias pessoas assim e entendo um pouco do sentimento que tem. Para eles a religião institucionalizada é má, corrompida, abusa dos seus fiéis e acaba por perverter o verdadeiro evangelho de Jesus. Eles realmente acreditam que a vivacidade comunitária da fé precisa acontecer fora das instituições humanas de modo natural e orgânico.

E para ser bem honesto, essa visão da igreja que defendem está diretamente ligada com a experiência que tiveram com a igreja institucionalizada. São pessoas que sentiram na pele os abusos de líderes religiosos dominadores, que viveram com a constante hipocrisia de cristãos maledicentes, que viram os interesses financeiros do pastor corromper a exposição das escrituras. São pessoas que testemunharam a organização da igreja local sufocar o organismo da igreja de Cristo em função da predileção institucional de seus líderes. Meu coração dói por essas pessoas porque via de regra são pessoas que sofreram na mão de maus pastores e péssimas congregações. E em função de sua terrível experiência com esse tipo de instituição concluíram que todo tipo de organização humana é igualmente má, corrupta e desnecessária.

Sentimento Partilhado

A bem da verdade, eu entendo esse sentimento porque eu o conheci de perto. Embora tenha sido criado num lar cristão, a experiência da minha família com a igreja local nem sempre foi positiva. Anos antes de nascer, meus pais participavam de uma igreja de liderança forte e centralizadora. Eles aprenderam o evangelho nessa igreja, se apaixonaram pelas escrituras e a estudavam com afinco. Cresceram na fé, desenvolveram seus dons e viviam o que acreditam ser a verdadeira experiência da igreja local. Entretanto, diferenças de opinião entre pessoas da liderança com pessoas que gostariam de estar na liderança acabaram gerando uma facção no grupo. Meus pais saíram dessa comunidade seguindo aquele que entendiam ser o verdadeiro líder espiritual deles. Infelizmente, eles estavam enganados. Pouco tempo depois esse “pastor” abandonou a fé, a família e a comunidade para viver no mundo como alguém que pertencia ao mundo. E agora aquela comunidade, cheia de ovelhas que queriam de fato viver para o Senhor, se viram sem liderança, sem comunidade e sem condições de continuar. Não muito tempo depois disso, aquele grupo tornou-se um grande aglomerado de desigrejados, onde cada um tentava viver a vida cristã a seu modo.

Eu nasci nesse período. Meus pais seguiam sozinhos, sem conseguir voltar para a igreja de onde tinha saído, sem conseguir se juntar a outra comunidade. Eles buscavam viver o evangelho, buscavam verdadeiramente o Senhor e estavam prontos para serví-lo, mas em função das dores da experiência e dos medos da igreja institucional eles seguiam procurando orientação de Deus sem qualquer relação com qualquer igreja local. Pela graça de Deus, entretanto, meus pais resolveram ingressar no Seminário Bíblico Palavra da Vida onde tiveram sua fé reafirmada no evangelho e na igreja local. Puderam voltar e pedir perdão para a comunidade de onde tinha saído e finalmente entenderam que apesar de todos os seus problemas a igreja local era fundamentalmente importante para o desenvolvimento, promoção e comunhão da fé. Desde então, eles tem se dedicado no plantio, fortalecimento e crescimento de igrejas locais em diferentes localidades no Brasil.

Infelizmente, a maioria das pessoas que experimentaram as decepções da igreja institucional juntamente com meus pais não passaram pelo mesmo processo e continuaram a viver a experiência solitária do evangelho como desigrejados. Eu me lembro de visitar essas pessoas com meus pais e ver pessoas com genuíno interesse por Cristo, pelo ensino de Cristo, mas que tinham um certo desprezo pela igreja local.  Pessoas que queriam criar seus filhos no temor do Senhor, mas que eram incapazes de juntar-se à uma igreja e viver o aspecto comunitário da fé em uma igreja local. Para eles a igreja local havia sido corrompida por lideranças dominadoras, as denominações eram instituições humanas que dividiam a igreja invisível de Cristo, e que em última análise ela havia se tornado institucional, má, corrompida e finalmente desnecessária.

Eu testemunhei o amor que essas pessoas tinham por Cristo apesar das dores que carregavam contra a igreja local. Mas isso não foi tudo o que testemunhei. Infelizmente, eu também testemunhei muitos desses fracassarem na fé, vacilarem numa vida de pecado sem qualquer prestação de contas ou orientação de outras pessoas. Ouvi de alguns que perderam seus casamentos, de outros que viram seus filhos abandonarem a fé e se voltarem contra o Senhor. Conheço histórias de pessoas que por terem desprezado a igreja local acabaram ensinando seus filhos a desprezarem a igreja, os cristãos e o Senhor. Embora conheça algumas poucas histórias de pessoas que mantiveram sua caminhada com Cristo à parte da igreja, a grande maioria delas acabou por empurrar seus filhos para fora da comunidade da fé. Na infeliz tentativa de salvar seus filhos da igreja local, muitos deles acabaram permitindo que seus filhos se quer conhecessem o evangelho, o Senhor e a salvação.

É por isso que meu coração se dói quando ouço falar de um desigrejado. Por um lado entendo suas dores, seus medos e sua relutância de estar em uma igreja local. Por outro, eu temo pelo que pode vir a acontecer com aqueles que abandonam a igreja local, em especial com  o que pode vir a acontecer com seus filhos. Por isso, hoje eu escrevo o que escrevo com amor, na tentativa de quem sabe poder ajudar aqueles que lutam com a experiência da fé à parte da igreja local. Se eu pudesse ajudar um desigrejado a entender o valor da expressão local da comunidade da fé, eu tentaria demonstrar, com amor, que nas escrituras a igreja de Cristo é (1) uma comunidade de expressão local, (2) composta por pecadores redimidos, (3) chamados para estar juntos, (4) para adorar a Deus, (5) servir um ao outro, (6) debaixo da supervisão de líderes e (7) para alcançar o mundo. A igreja local, apesar de todos os seus problemas, é parte integral do plano de Deus para Seus filhos.

Igreja é uma Comunidade Local

Se eu pudesse ajudar a um desigrejado, eu tentaria mostrar que nas escrituras a igreja de Cristo é normalmente apresentada como uma comunidade local. Em Atos, por exemplo, igreja é normalmente descrita como uma congregação local, seja em Jerusalém (5.11; 8.1, 3; 11.22; 12.1, 5; 14.27; 15.4, 22; 18.22), Antioquia (11.26; 13.1; 15.3, 41), ou em locais onde Paulo realiza suas viagens missionárias, como por exemplo Derbe e Listra (16.5) ou Éfeso (20.17). É também comum em Atos o termo ekklesia descrever a assembléia cristã, com ênfase no ajuntamento de pessoas em um determinado local (5.11; 14.27; 15.3, 4, 22, 23). Eventualmente apenas Lucas usa o mesmo termo para descrever aspectos organizacionais da assembléia cristã (14.23; cf. 1 Tim 3.1-8), sua dimensão universal (9.31) ou para descrever teologicamente sua natureza (20.28). Ou seja, da perspectiva da igreja primitiva, o cristianismo sempre foi experimento em comunidades locais. É verdade que as escrituras falam de uma igreja universal, invisível (1 Co 1.2), mas a bem da verdade, a grande maioria das cartas do NT foram escritas para comunidade particulares em lugares específicos. O ato de congregar que o autor de Hebreus exorta os cristãos a realizar com frequência (Hb 10.24-25) é direcionado a uma congregação local. Nas escrituras não existe expressão individual de fé à parte da igreja local. A fé verdadeiramente cristã é sempre manifesta e experimentada em comunidade. Ovelhas solitárias são presas fáceis para os lobos da perversão da fé.

Nas escrituras não existe expressão individual de fé à parte da igreja local. A fé verdadeiramente cristã é sempre manifesta e experimentada em comunidade.

Comunidade de Pecadores Redimidos

Eu também tentaria demonstrar que na história da igreja primitiva, a igreja local é sempre composta por pecadores redimidos. Por mais bonita que seja a história da igreja primitiva, a bem da verdade é que ela era bem parecida com as nossas comunidade: ela era um aglomerado de igrejas locais compostas por pecadores redimidos por Cristo. O evangelho pregado pelos apóstolos era recebido por pecadores como eu e você. Observe que quando Pedro prega pela primeira vez o evangelho no livro de Atos, ele defende que o Jesus histórico que viveu e se manifestou abertamente diante dos israelitas (2.22), que foi morto por eles, tendo sido executado pelos romanos (2.23), Deus o havia ressuscitado (2.24) cumprindo o que havia prometido nas escrituras (2.25-28; 29-31; cf. Sl 16.8-11). A esse Jesus, que Pedro entende ser um homem aprovador por Deus diante dos homens, Deus o fez Senhor e Cristo (2.36). Esse Jesus era o Messias prometido e aquele que invocasse o nome do Senhor seria salvo (2.21), tal como aconteceu com essas 3 mil pessoas em Jerusalém (2.41). O invocar o nome do Senhor Jesus (Jl 2.32+At 2.21; cf. Rm 10.10-13) é explicado por Pedro com um ato de arrependimento (At 2.38a; cf. 3.19; 17.30; 26.20), pelo batismo em nome de Jesus para perdão dos pecados (v.38b; cf. 8.12-13; 8.36, 38; 9.18; 10.47-48; et al) e pelo recebimento do Espírito Santo (v.38c; cf. 10.44-48; 11.15-18; et al). Como fica claro, o evangelho era o centro da pregação apostólica e a expectativa de conversão de pecadores a missão da igreja (At 1.8; cf. 9.35; 11.21; 26.18; 26.20). Ou seja, a igreja primitiva era formada por pecadores que ouviram a mensagem apostólica (2.22-36), se arrependeram dos seus pecados (2.38), receberam o evangelho (2.41a) e foram batizados (2.41b), tal como acontece nas nossas igrejas até os dias de hoje. A igreja primitiva era formada por pecadores redimidos!

A igreja primitiva era formada por pecadores que ouviram a mensagem apostólica (2.22-36), se arrependeram dos seus pecados (2.38), receberam o evangelho (2.41a) e foram batizados (2.41b), tal como acontece nas nossas igrejas até os dias de hoje. A igreja primitiva era formada por pecadores redimidos!

É por isso, que na igreja primitiva existia mentira (At 5.1-10), divisão (At 6.1;), descaso (At 8.2), preconceito (10.28), diferença de opinião (7.2-53; cf. At 2.46; 3.1; 5.12), falsos mestres querendo entrar (8.13-21), pessoas precisando ser disciplinadas (5.3-10), corrigidas (18.25-26) e tantos outros problemas que vemos nas epístolas neotestamentárias. Ou seja, a igreja primitiva também era cheia de gente problemática, tal como acontece nas nossas igrejas até os dias de hoje. Eram pecadores redimidos chamados para viver juntos! Aliás, é exatamente isso que lemos no livro de Atos: “Todos os que criam estavam juntos” (At 2.44). Dois conceitos são bem interessantes nesse verso. Primeiro, observe que aqui os cristãos são descritos como aqueles que creem. Essa é a primeira vez que Lucas usa esse verbo para descrever os membros da igreja, e com raras exceções (cf. 8.12, 13; 9.26) todas as outras vezes que o faz ele descreve os cristãos (cf. 4.4, 32; 5.14; 9.42; 10.43; 11.17; 15.5; 19.18; 21.20, 25; 22.19). Em segundo lugar, é muito interessante notar que esses que creram passaram a viver juntos. Apesar de a expressão da fé ser individual, os cristãos passam a pertencem à comunidade da fé. No Novo Testamento, a individualidade da fé é necessariamente seguida pela ingressão na comunidade dos salvos. Em outras palavras, de acordo com o testemunho da igreja primitiva o salvo não é uma ilha de santidade e solidão em um mundo de trevas, mas um membro da comunidade local no mundo. Pecadores redimidos são chamados para estar juntos e para viver juntos a fé cristã.

O salvo não é uma ilha de santidade e solidão em um mundo de trevas, mas um membro da comunidade local  no mundo

Chamados Para Estar Juntos

Além disso, eu diria que a expressão da fé cristã é necessariamente comunitária, afinal, o termo mais comum no Novo Testamento para se referir a igreja é o termo grego ekklesia. Diferente do que se pensa, ekklesia não descreve aqueles que foram “chamados para fora” (do grego ek [para fora] + kaléö [chamar]), mas descreve um agrupamento de pessoas. No Antigo Testamento Grego, a Septuaginta (LXX), esse termo é usado em tradução ao termo qahal que normalmente descreve a assembléia de Deus, a comunidade de Israel (Dt 31.30, Js 8.35, Jz 20.2, 1 Re 8.22, 1 Cr 13.2; cf. Dt 18.16; 1 Sm 17.47). Embora o termo hebraico qahal tenha sido usado para descrever uma assembléia judicial (Dt 9.10; 23.3-8; Jz 21.5; Mq 2.5), ou um ajuntamento político (Ed 10.8;, 12; Ne 8.2, 17), o termo era também usado para descrever uma reunião de fiéis com objetivos de adoração (Cr 6.3; 30.2, 4, 13, 17; Sl 21.22; Jl 2.16). No Novo Testamento o termo ekklesia é usado de modo muito similar a esse, por isso diversas vezes no NT nós encontramos a expressão comunidade (assembléia, igreja) de Deus (1 Co 1.2; 10.32; 11.22; 15.9; 2 Co 1.1; Gl 1.13; pl. 1 Co 11.16, 22; 1Ts 2.14; 2Ts 1.4). Nesse sentido, seria mais apropriado entender o termo ekklesia como aqueles que foram chamados para estar juntos. Em outras palavras, aqueles que foram redimidos por Cristo, foram salvos da condenação do pecado para viverem a graça de Deus de modo comunitário. É por isso que vemos em Atos Deus adicionando pessoas à comunidade local da fé em diferentes lugares do mundo antigo (At 2.47; 5.14; 11.24). Quando Deus salva um pecador Ele o adiciona à igreja local, para que em comunidade esse cristão possa viver o evangelho de modo comunitário com seus irmãos de fé.

Quando Deus salva um pecador Ele o adiciona à igreja local, para que em comunidade esse cristão possa viver o evangelho de modo comunitário com seus irmãos de fé

Para Prestar Culto Juntos

Esse ajuntamento de pessoas que foram chamadas para estar juntas, também é convidada por Cristo para viver em adoração a Deus de modo comunitário. E é por isso que dizemos que a igreja é uma comunidade doxológica, isto é, é orientada primeiramente para a glória e adoração a Deus. Da mesma forma que tudo o que foi criado, seja no céu (Sl 108.5; 72.19) ou na terra (Sl 19.1) existe para glorificar a Deus, a igreja existe nesse mundo para glorificar a Deus (Ef 3.21). Metaforicamente, a igreja é descrita como o santo templo (Ef 2.21), o santuário de Deus (1 Co 3.16; 2 Co 6.16), o lugar da habitação de Deus (Ef 2.22) onde Sua presença gloriosa é verdadeiramente manifesta (1 Co 14.25). Em outras palavras, a comunidade cristã, como templo de Deus, experimenta a manifestação da presença de Deus quando a comunidade se reúne em nome de Cristo, e baseados no perdão obtido por Seu sacrifício se juntam  para glorificar a Deus prestando-Lhe um culto comunitário. A adoração comunitária é a expressão presente que melhor representa a expectativa da eternidade, onde pessoas de todos os povos, línguas, raças e nações se juntarão para adorar o Cordeiro (Ap 4.11; 5.9-12; 7.9). É no culto público da comunidade da fé que vemos essa adoração acontecer!

A adoração comunitária é a expressão presente que melhor representa a expectativa da eternidade, onde pessoas de todos os povos, línguas, raças e nações se juntarão para adorar o Cordeiro

Para Servir Uns Aos Outros

Se pudesse ajudar um desigrejado a considerar o valor da igreja local, eu diria que o mais recorrente elemento da igreja apresentada nas escrituras é o conceito da mutualidade conhecido na recorrente expressão “uns aos outros.” O encorajamento e edificação mútua dos cristãos é uma constante no NT. era a prática da igreja primitiva (At 4.36; 11.22-23; 13.43; 14.21-22), era parte do ministério de Paulo e Barnabé (At 15.32; 16.40; 18.27-28; 20.1-2), era recorrente nas cartas de Paulo (Rm 1.11-12; 2 Co 7.4, 13; Ef 6.21-22; Fp 1.14; Cl 4.8; 1 Ts 2.11-12; 3.2, 7; Fm 7; Tt 2.15) e em outros escritos apostólicos (Hb 3.13; 13.19-22; 1 Pe 2.11; 5.12; Jd 3). Fortalecer a fé uns dos outros era uma prática da igreja primitiva e marcava um dos importantes elementos da experiência comunitária da comunidade da fé. Aliás, a igreja primitiva era exortada a se encorajar mutuamente! (Hb 10.25; 1 Ts 5.11).

Além disso, os cristãos são também exortados a viver o amor mútuo: da mesma forma que Deus nos amou (Jo 3.16; 1 Co 8.11-13; 1 Jo 3.16; 4.11), nós devemos amar uns aos outros (Gl 5.14; Mt 22.39; Jo 15.12; Rm 13.10; 1 Ts 4.9; Hb 13.1; Tg 2.8; 1 Pe 1.22. 2.17; 1 Jo 3.23; 4.21; 2 Jo 5). O amor fraterno é uma das marcas da igreja primitiva, que era convidada a cuidar dos doentes (Mt 25.36; Gl 4.14), auxiliando com necessidades financeiras (Mt 25.35; 1 Jo 3.17), servindo uns aos outros (1 Ts 2.8; Gl 5.13; Fp 2.30; 4.10; 1 Ts 1.3) e manter a unidade e comunhão da comunidade por meio da prática do amor mútuo (1Pe 4.8; Ef 4.2). Na igreja primitiva o amor mútuo era expresso nas comunidades locais como uma demonstração da manutenção do ensino de Cristo (Jo 14.32; 1 Ts 4.9).

Vale mencionar, que a igreja primitiva era exortada orar uns pelos outros: do mesmo modo que Cristo (Rm 8.34; Hb 7.25; 1 Jo 2.1) e o Espírito Santo (Rm 8.26-27) intercedem por nós, os salvos devem orar uns pelos outros (Ef 6.18; 1 Ts 5.25; Fm 22; Hb 13.18-29; Tg 5.14; 1 Jo 5.16). A igreja primitiva era também exortada a servir uns aos outros em amor (Gl 5.13) honrar uns aos outros (Rm 12.10c), aceitar uns aos outros (Rm 15.7), admoestar uns aos outros (Rm 15.14), carregar as cargas uns dos outros (Gl 6.2), suportar uns aos outros (Ef 4.2), submeter uns aos outros (Ef 5.21) e sermos dedicados uns aos outros (Rm 12.10a). Isso tudo era possível porque os cristãos são membros uns dos outros (Rm 12.5; 12.4; 1 Co 10.17; 12.12-14, 20, 27, 28; Ef 1.23; 4.25; 5.23, 30; Cl 1.24; 2.19). A mutualidade do cristianismo é experimentada verdadeiramente na expressão local da comunidade da fé, afinal a mutualidade esperada da comunidade cristã pressupõe uma comunidade em comunhão. Não existe mutualidade na solidão do cristianismo desassociado da expressão local da comunidade da fé.

A mutualidade do cristianismo é experimentada verdadeiramente na expressão local da comunidade da fé

Debaixo de Liderança

Um detalhe que os desigrejados normalmente se esquecem é que desde sua origem a igreja é dirigida por líderes que precisam ser obedecidos e respeitados (Hb 13.17). Para alguns desigrejados, o único pastor da igreja é Cristo (1 Pe 5.4) e baseado nisso se entendem livres de todo e qualquer líder comunitário pois respondem apenas a Jesus Cristo. Infelizmente, essa leitura que fazem da igreja está equivocada. Em primeiro lugar, eles se esquecem que foi Cristo quem estabeleceu o princípio da liderança na comunidade da fé quando estabeleceu os apóstolos como líderes da igreja primitiva (Mc 3.13-19; Mt 10.1-4; Lc 6.12-16; Jo 6.70; Mt 19.28; Mc 11.11; Lc 8.1; At 6.2; 1 Co 15.5; Ap 21.14). Em segundo lugar, se esquecem que os apóstolos seguiram o padrão estabelecido por Cristo quando constituíram líderes (At 6.1-7) nas igrejas que plantavam (At 14.23; Tt 1.5). Em terceiro lugar, se esquecem que os apóstolos deixaram orientações sobre o trabalho e a função desses líderes comunitários. eles tem que ter caráter acima de reprovação (1 Tm 3.1-13; Tt 1.6-9) para funcionarem como líderes (1 Tm 5.17), mestres (1 Tm 5.17) e protetores da comunidade contra os ataques dos falsos mestres (At 20.28-31; Tt 1.9); para exercerem sua liderança em amor (1 Pe 5.1-3) e para serem modelo para suas comunidades (1 Tm 4.12). Por fim se esquecem que líderes comunitários marcados por essas qualidades devem ser respeitados e obedecidos (Hb 13.7, 17; 1 Ts 5.12). É verdade que o Supremo Pastor da Igreja é Jesus Cristo (1 Pe 5.4), e que todos um dia prestaremos contas a Ele, mas na experiência da vida cristã nesse mundo, nós seremos liderados por homens separados por Deus, como os apóstolos bem nos instruíram.

É verdade que o Supremo Pastor da Igreja é Jesus Cristo (1 Pe 5.4), e que todos um dia prestaremos contas a Ele, mas na experiência da vida cristã nesse mundo, nós seremos liderados por homens separados por Deus, como os apóstolos bem nos instruíram.

Para Alcançar o Mundo

Por fim, eu diria a um desigrejado que se ele de fato acredita nas escrituras, de fato se entende um seguidor de Cristo que realmente quer fazer a vontade de Deus nessa vida, que ele foi chamado para fazer discípulos de todas as nações (Mt 28.19-20). E aqui vemos o mais significativo problema dos desigrejados: eles ignoram a missionalidade da fé cristã. Vivendo isolados da comunidade local, eles não reproduzem discípulos como o Senhor nos ensina a fazer. Para eles, a fé cristã é reduzida apenas uma coleção de ensinos apostólicos, ou afirmações teológicas que devem ser saboreadas à distância da igreja local. São membros que não querem pertencer ao corpo, seguidores que não querem fazer discípulos discípulos, são ouvintes mas não praticantes do evangelho. Não à toa vivem uma fé estéril e sem frutos que acaba por empurrar seus filhos para longe de Cristo Jesus.

Por isso, eu ajudaria um desigrejado a lembrar que os cristãos verdadeiros seguidores de Cristo foram comissionados por Ele  (Jo 15.16; Mt 9.37-38; Lc 10.1-3; Jo 4.36), com autoridade dada por Ele (Lc 9.1; Mt 10.1; 28.18; Mc 6.7; 16.17-18; Lc 10.17-19) para dar continuidade à Sua missão (Jo 20.21; 17.18), por meio da capacitação do Espírito Santo (At 1.8; Lc 24.49; Jo 20.22; Hb 2.4) para fazer discípulos (Mt 28.19-20; At 2.47; 14.15; 16.14-15; 18.8; Rm 10.14-14), proclamar o evangelho (At 20.24; 8.40; Rm 1.9; 15.20; 2Tm 1.11), testemunhar a Jesus Cristo (5.30-32; Lc 24.48; Jo 15.16-27; At 4.20), defender a fé (Fp 1.27), para honrar a Deus (Ef 3.10-11; Jo 15.8; 1 Pe 2.12) e alcançar o mundo (Lc 24.47; Mt 24.14; Mc 13.10; Mt 28.19-20).

Os cristãos foram comissionados por Cristo, com autoridade dada por Ele, para dar continuidade à Sua missão e por meio da capacitação do Espírito Santo, fazer discípulos, proclamar o evangelho, testemunhar a Jesus Cristo,  defender a fé, honrar a Deus e alcançar o mundo

Aos Desigrejados

Eu sei que muitos desigrejados estão vivendo fora de igrejas locais especialmente porque nelas já sofreram o suficiente. Eu sei que vários deles carregam feridas profundas causadas por maus pastores e péssimas congregações. Mas, se eu pudesse deixar uma última sugestão a um desigrejado, eu diria: Não desista da igreja local porque a igreja local que você conheceu era terrível. Não desista da igreja local porque você sofreu nas mãos de um mau pastor e de uma péssima comunidade. Procure uma comunidade local que viva a simplicidade do evangelho, cuja liderança é marcada pelos valores bíblicos. Eu sei que não é fácil encontrar pastores e comunidades assim, mas acredite, eles existem. Deus não abandonou Sua igreja! A bem da verdade, existem pastores que se importam como vocês, que estão prontos a demonstrar amor verdadeiramente cristão e a caminhar com vocês lado a lado. Não desistam da igreja local, pois é nela que a verdadeira vivacidade da fé acontece. #tmj

 

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