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Nunca sabemos realmente o quanto amamos algo até pensarmos do que estamos dispostos a abrir mão para obtê-lo. Este é um ponto bem básico e observamos de várias maneiras que é verdadeiro em nossas vidas. Quer o assunto seja a nossa saúde, nossas carreiras, ou qualquer outro objetivo, sempre sacrificamos uma coisa para obter outra.

Semana passada escrevi sobre conflitos e como o fato evitá-los pode nos levar a perder algumas bênçãos surpreendentes. Hoje quero destacar outro aspecto deste diálogo. Se evitamos a paz para ganhar conforto pessoal, então valorizamos o conforto mais do que a paz. Isto é egoísta, anti-evangelho e prejudicial à igreja. Portanto, é algo que devemos ter certeza de que não estamos fazendo.

É inevitável que cristãos tenham algum grau de conflito que requeira a busca desconfortável pela paz. Reflita sobra as dinâmicas que estão em jogo e creio que você concordará. Uma das principais qualificações para ser membro da igreja é admitir ser um pecador. Você não pode ser cristão se não acredita que tenha pecado contra Deus e necessita de perdão. A igreja é composta de pessoas que pecaram contra Deus e contra os outros. O que você acha que vai acontecer quando passamos tempo juntos? Muitas pessoas (mesmo pessoas pecaminosas) juntas num espaço relativamente pequeno inevitavelmente trará algum conflito. Agora o que faremos sobre isso? Temos uma escolha a fazer. Frequentemente, embora nem sempre, a escolha é entre a paz e o conforto pessoal. Neste post, argumento a favor de buscar a paz. Eis o motivo:

Valorizar o conforto mais do que a paz é egoísta.

Se existe um conflito, precisamos trabalhar para restaurar a paz. O que muitas vezes nos atrapalha não é a outra pessoa (embora isso aconteça), mas nós mesmos. Não queremos ter aquelas conversas adultas difíceis que exigem vulnerabilidade, intimidade e transparência. É desconfortável ter que dizer o que precisa ser dito. Mas espere um segundo: desde quando nós, como cristãos, fomos chamados a buscar o conforto pessoal? Na verdade, muitas vezes ser um cristão fiel não tem a ver com estar confortável, mas sim com ser fiel. E esta fidelidade muitas vezes se torna desconfortável. Lembre-se, o cristianismo não é fundamentalmente sobre confortarmos a nós mesmos, mas negarmos a nós mesmos (Lc 9:23)

Os cristãos devem sempre buscar a paz, especialmente na igreja. Consideremos apenas alguns versículos do Novo Testamento:

“Bem-aventurados os pacificadores, porque eles serão chamados filhos de Deus.” (Mateus 5:9)
“Mas o fruto do Espírito é: o amor, o gozo, a paz, a longanimidade, a benignidade, a bondade, a fidelidade.” (Gálatas 5:22)
“Se for possível, quanto depender de vós, tende paz com todos os homens.” (Romanos 12:18)
“E a paz de Cristo, para a qual também fostes chamados em um corpo, domine em vossos corações; e sede agradecidos.” (Colossenses 3:15)
“Quanto ao mais, irmãos, regozijai-vos, sede perfeitos, sede consolados, sede de um mesmo parecer, vivei em paz; e o Deus de amor e de paz será convosco.” (2 Coríntios 13:11)

Valorizar o conforto mais do que a paz é anti-evangelho.

Este ponto parece severo demais, não é? Admito que parece extremo. Mas, amigo, o evangelho é extremo! Quando pensamos em negarmos a nós mesmos (e a nosso conforto) por causa da paz, estamos simplesmente fazendo o que Cristo fez por nós. Foi ele quem tomou a iniciativa, deixou a beleza do céu, veio à Terra, se tornou um homem, serviu-nos na vida, e sofreu uma morte brutal carregada de ira. Tudo isso para trazer a paz. Cristo sentiu grande desconforto em sua busca pela paz. Quando pensamos sobre o quanto pode ser desconfortável ter conversas difíceis com outros crentes, estamos começando a entender um pouco da glória do evangelho. Vamos ser claros: se há um problema com outro cristão e não estamos dispostos a resolvê-lo, então provavelmente devemos parar de nos chamar de “centrados no evangelho”. Se estamos à procura de uma maneira de incluir o evangelho como um dos descritores de nossa vida, então teria que ser “silenciadores do evangelho”. Não podemos dizer que nosso foco é o evangelho de Jesus e depois não aplicá-lo ao povo de Jesus.

Valorizar o conforto em vez da paz é prejudicial para a igreja.

Este ponto flui naturalmente dos dois anteriores. Quando pensamos sobre a igreja, precisamos lembrar que somos um corpo. Se um membro está deslocado de outro membro, então não estamos funcionando com força total. É como ter um dedo ou ombro deslocado, o corpo não estará bem. Quando há um conflito evidente, os crentes não desfrutarão e partilharão da plenitude das bênçãos em Cristo. Em vez de refletir sobre o perdão dos pecados, alimenta-se a amargura. Em vez de contemplar em oração o triunfo do evangelho, tem-se fantasias pessoais de vencer discussões. Em vez de focarmos em servir uns aos outros, distanciamo-nos e nos evitamos uns aos outros. Em vez de harmonia há constrangimento. Isto é prejudicial para a igreja, e nos faz parecer com o mundo.

Sei que o conforto nos faz sentir bem, e buscar a paz muitas vezes nos parece difícil. Mas nestes momentos, quando estamos sendo governados por nossos sentimentos, lembremos do que a Palavra de Deus diz. Esta lacuna entre o que queremos e o que Deus quer é preenchida por meio da santificação. Que Deus preencha esta lacuna em nossas vidas, à medida que aprendemos a amar a paz, mesmo à custa do conforto pessoal.

Traduzido por Mariana Alves Passos.

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