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Nota do Editor: Esta é a primeira parte de uma nova série sobre o pastor-acadêmico. Os artigos serão publicados toda terça-feira, durante a abertura do encontro anual da Sociedade Teológica Evangélica (ETS), que acontece de 17 a 19 de novembro de 2015, em Atlanta.

João Calvino estava certo de que Deus o tinha chamado e lhe dado um dom para servir o movimento crescente de reforma, na França, através dos estudos bíblicos. Ele iria para Estrasburgo e levaria a vida tranquila de um acadêmico. Com a publicação da primeira edição de suas “Institutas”, Calvino havia, involuntariamente, inventado uma nova categoria de investigação: a teologia sistemática. A torre de marfim deu um sinal.

Mas a providência divina, através do entusiasmo de um pregador ruivo chamado Guilherme Farel, interceptou o candidato a academia em uma noite de verão, em 1536. Forçado pela Guerra de Habsburgo-Valois a fazer um caminho alternativo, de Basiléia a Estrasburgo, Calvino acabou passando uma noite em Genebra. Lá ele encontrou Farel, que pediu a Calvino para ficar e servir a causa da reforma como pastor. Calvino se via como acadêmico, não como pastor, então ele resistiu à proposta de Farel. Em desespero, Farel amaldiçoou seus estudos e, surpreendentemente, Calvino cedeu.

Calvino passou grande parte do restante de sua vida como pastor, escrevendo muitas das obras que forneceram pilares teológicos para a Reforma Protestante, e definiu um padrão para o desenvolvimento de estudos bíblicos e teológicos que perdura até hoje.

Mas Não Só Ele

Calvino não está só, na história da igreja, como um pastor que trabalhou também para produzir obras de longa duração para a instrução e edificação da Igreja de Cristo. Agostinho de Hipona (354–430) foi pregador da Palavra de Deus e erudito. Jonathan Edwards (1703–1758), indiscutivelmente a maior mente teológica dos Estados Unidos, foi pastor de longa data em Northampton, Massachusetts. Quando morreu, inesperadamente aos 54 anos de idade, Edwards havia acabado de ser eleito presidente do College of New Jersey (Faculdade de Nova Jersey – Princeton). Suas obras pastorais, filosóficas e teológicas são volumosas, resultado de um estudo rigoroso. Ademais, os antepassados ​​puritanos de Edwards, de acordo com a tradição reformada em geral, valorizavam um púlpito instruído.

Certamente o pastor-acadêmico ou o pastor-teólogo, por excelência, é encontrado no apóstolo Paulo. Ele estudou aos pés do rabino Gamaliel, foi convertido a Cristo e, então, plantou igrejas por toda a bacia do Mediterrâneo. Suas cartas estão entre os maiores tratados teológicos já escritos. A caneta de Paulo jorrava amor pastoral; ele tinha o coração de um pastor e a mente de um estudioso, ambos inspirados pelo Espírito de Deus.

Um Dilema Contemporâneo Também 

Hoje, a igreja é prolífica em ter pastores que produzem bons conteúdos, e em ter acadêmicos que são pastores qualificados ou líderes de igrejas locais, incluindo homens como os co-fundadores do TGC, Don Carson e Tim Keller; John Piper, RC Sproul, Ligon Duncan e Sinclair Ferguson, entre dezenas de outros. O prestimoso livro de Carson e Piper, de 2011 (editado por Owen Strachan e David Mathis), “O Pastor Como Mestre e o Mestre Como Pastor: Reflexões Sobre a Vida e Ministério” (Ed. Fiel), examina essa questão através dos ministérios de Piper e Carson. Recomenda-se a leitura a todos que estão em espírito de oração, pesando suas opções ministeriais.

Muitos dos que estão se instruindo para o ministério ainda enfrentam o mesmo dilema de Calvino: Será que Deus me chamou para ser pastor, professor, ou ambos? É possível fazer as duas coisas bem, ou será que isso me levará à mediocridade ministerial, consumindo minhas energias, e desonrando a Deus? Temos tido discussões frutíferas e contínuas sobre estas questões nos últimos tempos. Um dos artigos mais interessantes é de Michael Kruger, sobre a classificação das várias combinações do pastor-acadêmico. Outros, como Andrew Wilson e Mark Jones, tem oferecido valiosa oposição à conciliação dos dois.

Para mim, a questão está repleta de relevância pessoal e prática.

Jornada Pessoal

Em 1997, me rendi ao ministério de evangelização, com forte desejo de plantar uma igreja teologicamente sólida na minha cidade, e passar o resto da minha vida no pastoreio deste rebanho. Fiz o seminário, e logo descobri que amava ler, estudar, ensinar e escrever sobre teologia e história da igreja. Incentivado por mentores e líderes na igreja, fui atrás do doutorado, o que significou uma mudança de curso profunda para a minha família. Também tive oportunidade de lecionar e achei isso bastante prazeiroso. Ainda assim, havia em mim um desejo enorme de pregar a Palavra de Deus e de pastorear o Seu rebanho. Afinal, eu era um pastor ou um acadêmico? Passei anos lutando em oração com o Senhor sobre minha vocação e identidade ministerial. Muitos amigos do seminário estavam na mesma situação e se fazendo as mesmas perguntas.

Alguém sugeriu que isso poderia ser resolvido pelo meu nível de interesse. Mas fico comovido tanto no púlpito quanto no quarto de um doente, porque creio que o evangelho é o bálsamo incomparável do Senhor, que salva, santifica e cura. Também gosto daquilo que o historiador e ganhador de um Pulitzer, David McCullough chama de “fuçar na correspondência dos outros”: pesquisa histórica. Ensinar futuros pastores sobre gigantes da História da Igreja, como: Agostinho, Atanásio, Lutero, Calvino, Bunyan, Edwards, Ryle, Spurgeon, Lloyd-Jones, etc, me instiga. Escrever sobre o passado, mostrando como ele pode ajudar a igreja hoje, é emocionante. Meus interesses, no fim, não resolveram a questão.

Alguns insistem que isso se resume a personalidade. Eu sou uma pessoa bastante extrovertida. Fico à vontade em uma conversa animada. Será que isso significa que eu deveria pastorear? Não necessariamente. Muitos dos meus pastores-heróis são seriamente introvertidos. Além disso, meus professores mais qualificados tinham uma abordagem relacional com os alunos e também eram clérigos devotados. Muitos eram ou tinham sido pastores. A personalidade pode ser determinante para alguns, mas não o foi no meu caso. 

Dois fatores econômicos pesaram (e ainda pesam) fortemente em favor do pastorado: oferta e procura. Dezenas de igrejas na minha denominação precisavam de homens treinados para pregar a Palavra de Deus fielmente. Grandes áreas de deserto espiritual por todo o mundo precisavam de igrejas centradas em Cristo, impulsionadas pelo evangelho, incluindo minha cidade natal. Conheci inúmeros homens, com doutorado na mão, esperando em longas filas por poucas oportunidades de dar aulas. Eu sabia que as chances de dar aulas em tempo integral em um seminário ou em uma faculdade teológica eram escassas. Isto continua sendo um difícil dilema que muitos tem de enfrentar no estágio final da graduação, e promete crescer ainda mais, à medida em que a educação teológica segue, gradativamente, em direção à EAD.

Minha esposa e eu oramos por meses, juntamente com nossos amigos e líderes da igreja. Enviei vários currículos, tanto para igrejas, como para instituições acadêmicas. Entendi que a provisão divina resolveria isso, e em grande medida o fez. Esta é a resposta pessoal mais satisfatória para a questão, até agora. Durante vários anos servi como pastor em tempo integral, no Alabama. Continuei a ensinar como professor adjunto e permaneci semi-ativo no ETS. Um presbítero da igreja me provocava, com seu peculiar sotaque irlandês, dizendo que eu tinha nove dedos na igreja, e um preso no seminário. Domingo passado, comecei um novo ministério como pastor de uma igreja recém-plantada, em Louisville, que tenho o privilégio de co-liderar com três outros presbíteros. Sou um pastor com duas vocações, servindo como editor sênior do TGC e professor adjunto no Southern Seminary (Seminário do Sul dos EUA). Além disso, estou envolvido em um projeto acadêmico de longo prazo, ajudando uma equipe de historiadores (vários deles também são pastores) a editar publicações intrincadas das obras de Andrew Fuller, um pastor-teólogo exemplar, do século 18.

Será que respondi a pergunta? Talvez não. Até agora, isto tem sido simplesmente uma questão de procurar servir a igreja local com os dons que Deus me deu, através de portas abertas providencialmente. A igreja é meu primeiro amor, e todo o meu trabalho, seja pastoral, no TGC ou acadêmico, deve servir o povo de Deus. Esta é a resposta mais importante.

Alguns anos atrás, um sábio amigo, que é também pastor, e que está há mais de quatro décadas nas trincheiras da igreja, ajudou-me profundamente. Ele me fez uma simples, porém, contundente, pergunta: Se você pudesse fazer só uma dessas coisas, o que seria? Não demorei muito tempo a responder: Eu seria pastor de igreja. Talvez essa seja a resposta final.

Cinco Lições Para Iluminar o Caminho  

Deus não desperdiça nossos esforços. Ele tem me ensinado algumas lições valiosas e humilhantes, através da batalha. Aqui estão cinco delas que me ajudaram a ver as semelhanças entre os escritórios de um pastor e de um acadêmico; o que deve ser imprescindível em cada um; e por que não é nenhuma surpresa que alguns sejam atraídos para ambos.

1. Acadêmicos, assim como pastores, servem a igreja local.

A educação cristã deve servir a igreja local. Sou muito grato ao presidente-fundador do Southern Seminary (Seminário do Sul dos EUA), James Petigru Boyce, e à sua dissertação de 1856, “Três Mudanças nas Instituições Teológicas.” Os três pontos de Boyce argumentam enfaticamente que um instituto cristão existe, fundamentalmente, para treinar líderes para servir na igreja local. 

2. Tanto pastores quanto acadêmicos são chamados e equipados por Deus para Sua glória.

Tanto o coração quanto a mente devem estar calibrados para glorificar a Deus, e não o ego. Nem o ministério na igreja nem os estudos existem como um fim em si mesmos.

3. Pastores e acadêmicos estão vinculados à Palavra de Deus.

O método de estudo crítico se espalhou da Alemanha para o mundo, no final do século 19, e colocou o acadêmico como árbitro sobre a Palavra de Deus. Em contrapartida, o cristianismo histórico ortodoxo tem insistido que todos (estudiosos, pastores, membros da igreja) estão debaixo da Palavra. É ela quem nos julga, e não vice-versa. O erudito e o pastor não são chamados a proclamar novidades práticas ou teológicas, mas a Palavra de Deus pura e simples. Esta é a prioridade absoluta. A teologia é extremamente importante, igualmente para o acadêmico e para o pastor.

4. Pastores devem se esforçar para serem teólogos públicos.

Sou grato pelo sensato livro de Strachan e Kevin Vanhoozer, “O Pastor como Teólogo Público: Recuperando Uma Visão Perdida” (Vida Nova, 2016), que examina esta afirmação totalmente. Eles alegam que o pastorado é corretamente visto como um ofício teológico, providenciado por Deus, para ajudar Seu povo a pensar biblicamente sobre todos os aspectos da vida. As “55 Teses Resumidas Sobre o Pastor Como Teólogo Público”, de Vanhoozer, fornecem uma exposição brilhante deste ponto. Outra contribuição é o novo livro de Gerald Hiestand e Todd Wilson, “The Pastor Theologian: Resurrecting an Ancient Vision” (Zondervan, 2015), [O Pastor Teólogo: Ressuscitando uma Visão Antiga, sem edição em português]. Da mesma forma, o Centro Para Pastores Teólogos (CPT – Conferência anual americana) é dedicado a colocar esta visão perdida no seu lugar certo, dentro das igrejas evangélicas.

5. Acadêmicos devem se esforçar para serem membros de igreja comprometidos.

Acadêmicos piedosos são um presente para pastores e para a igreja. Tenho notado que quanto mais o acadêmico é incorporado na vida de sua igreja local, mais eficazmente ele serve o corpo de Cristo, de maneira prática. Professores que tratam alunos como ovelhas de Cristo, e teologia como uma questão de adoração, são um poderoso instrumento nas mãos do Redentor. Meu orientador de doutorado e pai na fé, o historiador batista Tom Nettles, é um profundo exemplo de membro comprometido. Se você saiu de suas aulas com o coração frio para a igreja de Cristo, você simplesmente não o estava ouvindo. 

Resposta final?

Não existe uma resposta única e correta a essas perguntas. Pode haver momentos na vida de um pastor que Deus irá chamá-lo do ofício pastoral para a academia, ou vice-versa, e depois de volta novamente. Parece difícil imaginar um homem fazendo as duas coisas ao mesmo tempo, no mais alto nível de competência que cada ofício exige; talvez não seja impossível, mas é extremamente difícil. Para mim isto é muito claro. De toda forma, estou razoavelmente certo, neste momento, de que é melhor exercer uma função primeiramente e, no máximo, explorar a outra à medida em que as oportunidades surjam.

Esta série vai procurar tratar algumas questões que levantei aqui e muitas outras, incluindo o papel dos seminários para ajudar os alunos; quando é sábio ou não buscar o doutorado para o ministério; e a possibilidade ou impossibilidade de servir em ambas as funções. Quem sabe Deus terá o prazer de usar esta série, como o chamado de Farel a Calvino, para te ajudar a chegar a uma resposta definitiva para esta questão?

 

Traduzido por Suzana L. Braga

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