O Que a ‘Crise da Juventude’ Revela Sobre Jovens Adultos em Sua Igreja

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A crise da juventude, sigla em inglês QLC (Quarter-Life Crisis). Se você ainda não tinha se deparado com esta expressão cada vez mais popular, está na hora.

É um fenômeno que pode acontecer em qualquer momento entre seus 20 e início dos 30 anos — a percepção de atingir a idade em que pensava que compreenderia tudo na vida, mas descobrir que não o faz. A QLC vem à tona perto de aniversários e do dia do Ano Novo, e se manifesta sempre que vê nas mídias sociais que alguém com quem você estudou ficou noivo, recebeu uma promoção ou simplesmente teve a audácia de parecer feliz em uma foto. É a desconfortável percepção que surge quando se faz um balanço de tudo ao seu redor — as pessoas, os lugares, as rotinas implacáveis de trabalho e tarefas domésticas — e se pergunta: Isto é só?

O site de conexões profissionais LinkedIn apontou que 75 por cento dos jovens entre 25 e 33 anos relatam já ter vivido uma crise da juventude.

Eu sou um deles.

Além do Estereótipo

Quando apresentei pela primeira vez a ideia de um livro cristão sobre a crise da juventude, ela foi recebida com certa confusão. Eu estava em uma sala cheia de pessoas mais velhas com problemas maiores. Comparada a eles, do que eu poderia reclamar?

O fenômeno QLC parece alimentar um estereótipo cultural mais amplo sobre uma geração do milênio infeliz, que se queixa de tudo e se recusa a amadurecer. É um estereótipo comum na cultura cristã também.

Você pode estar lendo isso como uma pessoa mais velha perplexa que acha que membros da geração do milênio que tem uma suposta “crise” estão exagerando. E podemos estar mesmo. Mas não descarte o fenômeno de cara. No mínimo, isto revelará algumas coisas úteis sobre o que aqueles com vinte e poucos anos em sua igreja estão sentindo, quais desafios de discipulado estão enfrentando e como a igreja pode ajudar.

Sentem-se Sem Fundamento

Por uma série de razões econômicas e sociais, a taxa dos que possuem casa própria dentre os dessa geração está em uma baixa histórica. A combinação de aluguel e mobilidade crescente leva muitos jovens na casa dos 20 anos a se sentirem desancorados. Nos cinco anos após minha formatura, morei em cinco casas diferentes com uma rotatividade de colegas de quarto. Isso não é tão incomum. Mas mesmo que esses jovens anseiem pela permanência de um lar, muitos de nós têm um medo igual de se estabelecerem.

Membros da geração do milênio em sua igreja necessitam de ajuda para enxergar que o lar é onde o povo de Deus está — o lar da fé — e esta é uma comunidade com a qual vale a pena se comprometer. Necessitam de ajuda para ver que seguir a Jesus é seguir aquele que “não tinha onde reclinar a cabeça” (Mt 8.20) — e que seu sentimento de não ter um fundamento é uma oportunidade para colocar seu coração no céu, não em ter uma casa. Necessitam que as conversas que acontecem durante o café depois o culto não sejam dominadas por assuntos como comprar, decorar e reformar a casa (um tema recorrente pelo menos em minha igreja) — mas sobre as coisas que realmente importam.

Sentem-se Paralisados

“O que eu devo fazer da minha vida?”

É difícil encontrar um jovem que não tenha encarado esta pergunta com um certo grau de terror. Qual emprego, com quem namorar, onde morar — essa é a paralisia de se tornar adulto. Podemos nos sentir incapazes de tomar decisões, porque há muitos caminhos para escolher, e nem sequer temos certeza de onde queremos chegar. Temos dificuldade para descobrir isso porque não sabemos se nos satisfará. Por isso, mantemos nossas opções em aberto — mesmo que elas nos sobrecarreguem — para não perdê-las ou não errarmos. Ao fazer isso, não vamos a lugar algum.

Mas todos nós queremos que a vida vá em alguma direção. E necessitamos que a igreja nos relembre de que nossa existência não segue sem um objetivo — temos um destino final. Onde estaremos daqui a 50 anos é incerto. Onde estaremos daqui a 500 anos não. Somos parte de uma história que está chegando a um clímax em que Jesus será glorificado para sempre. Jovens precisam de santos mais velhos e mais sábios que estejam prontos para ouvir e dispostos a nos ajudar a enfrentar as decisões da vida com essa perspectiva de eternidade.

Sentem-se Solitários

À medida que avançamos pelos nossos 20 e poucos anos, nossos relacionamentos estão em constante mudança. As pessoas se mudam para outros lugares ou partem para outras coisas — novo emprego, nova namorada ou novo hobby mudam a dinâmica em cada relacionamento. Por fim, a maioria de nós chega a um ponto em que olhamos em volta e perguntamos: “Espera. . . para onde foram todos os meus amigos?” Em um estudo recente, mais pessoas na casa dos 20 anos relataram sentirem-se sozinhas “frequentemente” ou “muito frequentemente” do que pessoas acima dos 75 anos.

Necessitamos que nos recordem de que Deus é quem nos sonda e nos conhece (Sl 139.1). Quando lemos Sua Palavra, ouvimos um Pai amoroso que está falando conosco. Não como um político faz na tela da TV, mas como um amigo frente a frente. Necessitamos de uma igreja local, formada por pessoas de todas as idades e fases da vida, que nos abrace como família e nos encoraje a sermos conhecidos pelos outros, na medida em que somos honestos sobre nós mesmos.

Cristo na Totalidade da Vida

Eu poderia continuar. Poderia escrever sobre como o povo de Deus pode nos ajudar a combater o descontentamento, sobre o significado que se encontra no morrer para si ao servir o corpo de Cristo, sobre como a família da igreja ajuda quando parece que todos os nossos amigos estão se casando e nosso tempo está acabando.

Mas uma coisa é certa, eu não poderia ter superado minha crise da juventude sem minha família da igreja, e os membros da geração do milênio em sua igreja não podem superar sua própria crise da juventude sem a igreja. A crise da juventude deles precisa de uma visão de Cristo na vida como um todo. Juntos, podemos fixar nossos olhos nele — aquele que dá propósito, paz e alegria em qualquer momento.

 

Traduzido por Vittor Rocha

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