Na Teologia Cristã, a Beleza Exige Ser Notada

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No ano passado escrevi uma texto intitulado “5 Reasons Christians Neglect Beauty in Theology” [5 Razões Pelas Quais os Cristãos Negligenciam a Beleza em Teologia]. Gostaria de propor um primeiro passo em relação a um estudo distintamente cristão da beleza.

A maior parte da reflexão e dos escritos sobre o tema de beleza está monopolizada por especialistas treinados em teologia e filosofia, no campo especializado da estética. Mesmo entre estes filósofos, sugere-se frequentemente que a beleza seja uma categoria a qual devamos descartar por completo.

Contudo, a beleza exige ser notada.

Como seguidores de Cristo, somos chamados a oferecer uma visão distintamente cristã daquilo que é belo. Embora seja um assunto frequentemente negligenciado, tanto o mundo quanto a Palavra, apresentam a beleza como uma dádiva de Deus para nosso deleite.

Deus Revelado Através da Beleza

Para os cristãos, o estudo da beleza deve começar com a doutrina da revelação. Afinal, o cristianismo sustenta que a revelação depende de Deus, que delineia e determina aquilo que pode ser conhecido. Tal como observou Carl F.H. Henry, “Deus determina não apenas o ‘se’ e o ‘porquê’ da revelação divina, mas também o quando, o onde, o que, o como e quem.”

A doutrina da revelação pressupõe a existência de um Deus que se revela ativamente – incluindo sua beleza. O fato de que Deus criou os céus e a terra e a colocou sob a responsabilidade da humanidade, traz duas implicações para o estudo da beleza.

Primeiro, Deus é a fonte da beleza. Em segundo lugar, a preocupação da humanidade com a beleza e a experiência estética é ordenada por Deus. Deus oferece à humanidade uma comunhão e uma experiência privilegiada sobre todos os outros seres criados. Não se encontra um Golden Retriever refletindo sobre a majestade de um por do sol sobre o mar ou intencionalmente curtindo as composições magistrais de Mozart. A capacidade de desfrutar e experimentar a beleza é um privilégio que Deus ofereceu apenas aos seres humanos.

Não se encontra um Golden Retriever refletindo sobre a majestade de um por do sol sobre o mar ou intencionalmente curtindo as composições magistrais de Mozart. A capacidade de desfrutar e experimentar a beleza é um privilégio que Deus ofereceu apenas aos seres humanos.

A Beleza e a Revelação Geral

Historicamente, os cristãos têm afirmado que Deus revela a verdade estética e a beleza através da revelação geral, incluindo através da natureza, da cultura, da razão humana e das boas obras. A maioria dos teólogos cristãos defende que o conhecimento de Deus por meio da revelação geral é possível, ainda que limitado em alcance, coerência e profundidade. Os efeitos do pecado sempre subvertem a revelação geral.

Embora a revelação geral não seja a autoridade suprema, ela tem seu devido lugar dentro da teologia.

O relato da criação em Gênesis atesta o prazer de Deus com sua criação declarando sete vezes que “isso era muito bom”, denotando que o que foi criado é deleitável e agradável. No contexto da criação original, esta declaração sugere a natureza estética do julgamento de Deus sobre as coisas que Ele fez. Da mesma forma, escritores bíblicos freqüentemente descrevem elementos da criação – terras, árvores, pedras e assim por diante – como belos e agradáveis.

O que a beleza do mundo natural realmente comunica à humanidade?

A Beleza e a Revelação Especial

A intenção da revelação geral e a realidade da repressão pecaminosa expõem a necessidade de uma revelação especial: a Palavra revelada de Deus. A Bíblia é necessária para definir e explicar a revelação geral à luz de suas limitações e sua distorção pela humanidade caída.

A Bíblia é necessária para definir e explicar a revelação geral à luz de suas limitações e sua distorção pela humanidade caída.

Fornecendo clareza à maneira pela qual Deus se torna conhecido, o salmista escreve no Salmo 19.1-4:

Os céus proclamam a glória de Deus,
e o firmamento anuncia as obras das suas mãos.
Um dia discursa a outro dia,
e uma noite revela conhecimento a outra noite.
Não há linguagem, nem há palavras,
e deles não se ouve nenhum som;
no entanto, por toda a terra se faz ouvir a sua voz,
e as suas palavras, até aos confins do mundo.

De maneira semelhante, o discurso de Paulo aos gentios em Listra (At 14.15-17) e em Atenas (At 17.22-32) indica que Deus se torna conhecido por meio da ordem da criação. Inclusive, Paulo escreveu em outro lugar:

Porquanto o que de Deus se pode conhecer é manifesto entre eles, porque Deus lhes manifestou. Porque os atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder, como também a sua própria divindade, claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram criadas. (Rm 1.19-20).

O mundo e tudo nele é obra de arte de Deus. Assim como um poema contém o desígnio manifesto e a intenção de seu autor, Deus se manifestou através do poderoso poema do universo. Desde o céu do Salmo 19 aos lírios do campo em Mateus 6, a glória de Deus é refletida na beleza multiforme de sua criação.

Assim como um poema contém o desígnio manifesto e a intenção de seu autor, Deus se manifestou através do poderoso poema do universo.

A Beleza e a Bíblia

O livro que revela o Deus belo para a humanidade é em si uma obra literária significativa de grande beleza. As Escrituras afirmam a importância da estética não apenas através de suas formulações semânticas, mas também em suas formas literárias.

Do início ao fim, a Bíblia contém belas convenções literárias, mesmo na historiografia factual fastidiosa. Estruturas literárias tais como paralelismos, expressões meticulosamente elaboradas nas narrativas e poesias artisticamente sofisticadas, proclamam o papel significativo da beleza na revelação de Deus. Como observou Leland Ryken, se a beleza e a estética não tivessem importância no texto bíblico, “não haveria uma boa razão para os poetas bíblicos colocarem suas falas em versos complexos, para que contadores de histórias bíblicas compusessem histórias magistralmente compactas e cuidadosamente elaboradas.

A Beleza Convoca

Em um mundo sem beleza, Balthasar declara: “O que resta é… um mero pedaço de existência.” Deus não precisava ter criado tantas coisas em nosso mundo para serem belas, mas criou.

Se a beleza exige ser notada, devemos prestar atençāo. Se há algo intrínseco na humanidade que é atraído pela beleza, devemos deixar que isto nos atraia. Tanto o mundo quanto a Palavra nos conclamam a contemplar o soberano Deus Criador.

Como vemos na Palavra, toda a beleza deste mundo aponta para a beleza deslumbrante do próprio Deus. A beleza é uma poderosa placa de sinalizaçāo que conclama a todos: “olhem e vejam. O Deus único e verdadeiro é bom.”

 

 

Traduzido por Juliana Reimer

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